Sábado, Janeiro 7

o sangue

... Como em tempos escreveu Cristovam Paiva talvez não haja mais horizontes para estas imagens do que as nossas pálpebras. "Glicínia iluminada pela noite / E metade da minha solidão". Só as pessoas muito antigas e a obras muito novas podem evocar assim o sangue fresco e fundo. E cortar a negro os corpos que habitam. do texto de João Bénard da Costa incluído na folha de sala

[quando me levantei para sair já não consegui contar, dez, doze ou ou quinze pessoas?]

Sexta-feira, Janeiro 6

Une vague nouvelle



Notre seule erreur fut alors de croire que c'était un début, que Stroheim n'avait pas été assassiné, que Vigo n'avait pas été couvert de boue, que Les Quatre cents Coups continuaient alors qu'ils faiblissaient JLG

Enganei-me,

o filme de Murnau continua em cartaz. Na segunda-feira à noite a sala (apenas setenta lugares) estava quase cheia. Contaram-me que, um dia destes, um jornalista do Público (talvez Oscar Faria? não é de cá, pois não?) admirou-se muito por estar tão pouca gente no Auditório de Serralves para assistir a uma montagem de excertos de Histoire(s) du Cinema de Jean-Luc Godard. Perguntava ele onde estão os cinéfilos, os estudantes e se era esta cidade que há uns anos atrás queria ter uma cinemateca. Nem vou responder. Na última página do Público-Local de hoje, António Guimarães, que é — entre outras coisas — o actual proprietário do Passos Manuel (o único cinema na baixa do Porto e uma sala muito apetecível), lamenta a falta de interesse dos estudantes "da maior universidade do país" e a escassez de "hábitos cosmopolitas no Porto". Sobram as pantufas e os multiplexes. Fica registado

Entretanto fiz uma pesquisa nos arquivos do blogue e as únicas referências que encontrei a Erich von Stroheim são indirectas, é uma vergonha. É certo que dele só vi o Foolish Wifes, já nem sei quando, mas isso não é razão. Stroheim vai andar por aqui, a bem ou a mal.

um comentário

Acho este post de Eduardo Pitta bastante injusto. Passo a explicar porquê. Primeiro: o ciclo anunciado não pretende ilustrar a história do cinema, é um ciclo modesto (aliás como os outros que surgem regularmente em Serralves com este mesmo carácter paralelo) feito apenas para complementar a exposição "Fora!" que é dedicada a Rui Chafes e a Pedro Costa. É por isso natural que os filmes de Pedro Costa e o documentário de João Trabulo sobre Rui Chafes sejam projectados, faz todo o sentido. Assim como faz sentido a escolha minuciosa daqueles cinco cineastas. São realizadores que estão profundamente relacionados com o trabalho de Rui Chafes e de Pedro Costa. O que eu receava é que não fosse possível conseguir cópias dos filmes desejados. Por último, gostava ainda de lembrar que um ciclo como o que Eduardo Pitta sugere seria impossível de programar em Serralves porque é muito difícil conseguir cópias dos realizadores referidos. Repito: é mesmo muito difícil que a Cinemateca Portuguesa empreste as cópias que tem nos seus arquivos. A Cinemateca Portuguesa não é uma distribuidora, existe para guardar os filmes e guarda-os a sete chaves, setenta chaves. O resto do país sabe disso.

Qual é o som de uma mão a aplaudir?

...
— «Nada na voz da cigarra anuncia que em breve morrerá» — disse Teddy subitamente. — «Não passa ninguém por esta estrada, neste entardecer de Outono.»
— Que é isso? — perguntou Nicholson, sorrindo. — Podia repetir?
— São dois poemas japoneses. Não há aqui nada dessas tretas emocionais — disse Teddy.
...
J. D. Salinger, "Teddy", tradução de José Lima, Difel, Junho de 2005


(Corre-se sempre o risco de se ser demasiadamente indesejável para o Ocidente. Há uma frase nos Diários de Kafka — na realidade uma de muitas frases suas — que se poderia facilmente introduzir no Novo Ano Chinês: «A rapariga que só porque ia de braço dado com o novo namorado olhava tranquilamente à sua volta») Quanto ao meu irmão Seymour — ah, bem, o meu irmão Seymour. Para este oriental céltico-semita preciso de um parágrafo colossalmente novo.
J. D. Salinger, "Seymour (uma introdução)", tradução de Salvato Telles de Menezes, Quetzal, 1983


Abelardo Morell, "Dictionary", 1994.

Quinta-feira, Janeiro 5

"Disse Chao-kong: A fala do povo
é como as colinas e as correntes
Daí vem nossa abundância.
Para ser Senhor dos quatro mares da China
um homem deve deixar os homens fazerem versos
deve deixar o povo desempenhar comédias
e os historiadores registarem os factos
deve deixar os pobres falarem mal dos impostos."

Pound, Canto LIII.

Life is a gift horse in my opinion

...

Diary for October 27, 1952
Property of Theodore McArdle
412 A Deck

Appropriate and pleasant reward if finder promptly returns to Theodore McArdle.

See if you can find daddy's army dog tags and wear them whenever possible. It won't kill you and he will like it.

Answer Professor Mandell's letter when you get a chance and the patience. Ask him not to send me any more poetry books. I already have enough for 1 year anyway. I am quite sick of it anyway. A man walks along the beach and unfortunately gets hit in the head by a cocoanut. His head unfortunately cracks open in two halves. Then his wife comes along the beach singing a song and sees the 2 halves and recognizes them and picks them up. She gets very sad of course and cries heart breakingly. That is exactly where I am tired of poetry. Supposing the lady just picks up the 2 halves and shouts into them very angrily "Stop that!" Do not mention this when you answer his letter, however. It is quite controversial and Mrs. Mandell is a poet besides.

Get Sven's address in Elizabeth, New Jersey. It would be interesting to meet his wife, also his dog Lindy. However, I would not like to own a dog myself.

Write condolence letter to Dr. Wokawara about his nephritis. Get his new address from mother.

Try the sports deck for meditation tomorrow morning before breakfast but do not lose consciousness. Also do not lose consciousness in the dining room if that waiter drops that big spoon again. Daddy was quite furious.

Words and expressions to look up in library tomorrow when you return the books:
Nephritis
myriad
gift horse
cunning
triumvirate

Be nicer to librarian. Discuss some general things with him when he gets kittenish.
...

J. D. Salinger, Teddy

Hmmm

Quarta-feira, Janeiro 4

a dama e o valete de copas

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Há dois planos em A Janela Indiscreta que gosto de baralhar e tornar a dar, são um campo e contracampo desencontrados (Quand je vois un plan, je pense à un autre plan) mas, num certo sentido, feitos um para o outro. Bom, isto é uma maneira de dizer, se surgissem juntos perdia-se a razão de ser do filme, perdia-se o tal caminho tortuoso que as personagens são obrigadas a seguir (os filmes só existem porque eles estão separados; como na vida, é a imperfeição que interessa). Voltando às cartas: o primeiro plano aparece logo no início quando Lisa Fremont entra no apartamento de Jeff. Traz um vestido vaporoso aliás, toda ela é vapor e languidez. Ele está sentado a dormir junto à janela que dá para as traseiras, a perna engessada. Ela avança para o beijar, o seu rosto belo enche o écran e nós ficamos sem fôlego. A este plano podemos com toda a justiça chamar o campo (Quand je vois le champ du plan, je vois aussi son hors-champ). Jeff acorda mas não reage como seria de esperar, parece até um bocado constangido, na verdade nós já sabemos que o fotógrafo tem medo de se casar com esta rapariga tão sofisticada. Por isso o contracampo só surge lá para o fim do filme quando Lisa decide brincar aos detectives. Só então — enfim, depois de alguma correria e dois ou três vestidos — surge o tal grande plano de Jeff, rendido, completamente enebriado, finalmente apaixonado pela doce Lisa, quase, quase como naquele hotel foleiro e esverdeado de Vertigo. Lisa viu isso — de certeza — e prepara-se para o golpe final: vai vasculhar a casa do presumível assassino à procura de provas. Capricha, sabe que Jeff a observa através da máquina fotográfica e move-se como se estivesse na selva. Sobe as escadas exteriores, trepa pela varanda, é apanhada pelo vendedor mal encarado, escapa por um triz mas com a prova (a aliança de casamento da vítima, reparem bem no plano em que ela a mostra, é esse simples gesto que, provando o crime, prende irremediavelmente Jeff a Lisa) no dedo anelar e, depois de uma breve passagem pela Polícia, regressa a casa triunfante. O resto já é irrelevante.

Advirto que tudo isto só faz sentido (se é que faz, no fundo é apenas um jogo de cartas) se partirmos do princípio que A Janela Indiscreta é um filme sobre os perigos do casamento e não sobre um assassínio vulgar.

O gato Silvestre e o canário Tweety

Apesar de tudo, uma das razões porque gosto tanto d'As Ostras de Pedro Coelho não é literária. É que para mim pizzicato é o gato Silvestre a correr nas pontinhas dos pés atrás de Tweety.

Os autocarros negativos

Num dos livro de Boris Vian, já não me lembro se é n' A Espuma dos Dias ou n' Outono em Pequim, há uns autocarros peculiares. Também já esqueci a particularidade desses veículos mas a verdade é que fui atingida por um.

A lama já chega ao pescoço

A Batalha de Austerlitz tem lugar no final do primeiro volume da nova edição de "Guerra e Paz". As tropas russas e austríacas são completamente rechaçadas. Mais de 15.000 soldados mortos entre os aliados. Os franceses, comandados directamente por Napoleão, sofrem um número incomparavelmente menor de baixas. O general Kutúzov, afinal o único que antevira o desastre de Austerlitz e que por isso se opusera à realização da batalha naquelas condições específicas, torna-se o bode expiatório da derrota. Em Moscovo chamam-lhe "cortesão fútil e velho sátiro". O imperador Alexandre, o primeiro responsável pelo rotundo desastre de Austerlitz, é recebido na Rússia com toda a simpatia.
E o segundo volume ainda mal começou.


Abelardo Morell, "Book Stacks in a Very Large Space #1", 2001.

"Os livros confundem-se com prédios. Em ambos vivem pessoas."
(Zoosatelite, na caixa de comentários)

Ilustrazione

Faço um poema e nasce uma cidade
invento o conteúdo geográfico das coisas.
Escrevo um nome e nasce Dublin
porque Dublin escrevi.
Se onde ponho um traço nasce uma via de ferro
então é um comboio em direcção a Roma.
Faço uma cidade e vejo-me um neón
ponho um anúncio e nasce uma cigaretta.
O italiano compõe o soar da palavra
eu dou uma entoação ao segredo do fim
Se há um horizonte para divulgar o Sol
há uma expectação para divulgar o coração
Se há um moinho para os lados de Perpignan
há Daudet a repousar o Sol numa cadeira
Se há Avignon, uma festa, a França, a Península Itálica,
Burgos e todas as catedrais espanholas
há uma cidade cheia de Sol a compor a direcção
Se o mar fica no fim
Lisboa fica ao pé de Lisboa fica súbito
como se o Tejo fosse um braço decepado
e um cacilheiro total o pano de uma bandeira
Pensa-se no rumor tribal que inunda todas as ruas
faz-se um boulevard duma avenida nossa
põe-se Lautéamont a inventar um prédio.
Há a loucura a inundar a parede
o relógio que
se primeiro bateu na cabeça de Poe
bate depois no sangue feito do conto
divulgado no livro
Lê-se o fígado do poeta no álcool derramado
sobre o desmaio de Ligeia
se esta tem as mãos ebúrneas nasce âmbar
nas mãos brancas duma conceição tripartida.
Ah, se onde ponho a imaginação nasce um lírio
derramem-me a história duma amante sobre a cabeça
pois sou o amante duma perversão absoluta.
Não rasgues o sentido do ombro aí onde tens o tatu do destino
e aí onde só a virgindade do teu androceu malino
pode factar a dimensão do totem a inundar de carácter
todo o céu africano.
Ah, nasça-me um árabe de luz com seu corpo moreno
contradizendo a logia
nasça-lhe uma idade de rosto sua idade gidiana
para compor a tenda com precaução indefinida.
Reveja-se o jeep inglês de Lawrence
que inundava o deserto duma celtidade absoluta,
o zénite solar sobre o bico da tenda.
Só a imagem dum rio pode dar ao poema
toda esta noção geográfica que o poema não tem.
Bramaputtra
se nasceres no papel vou dizer à ondina do gnomo
que a floresta não constrói.
Ponho uma fonte a cantar na cabeça do gnomo
e o gnomo surge e nasce
como o ícone divulgado.
É rica a mitologia germana
para dar um sentido ao godo que de chifres na cabeça
usa um segredo quotidiano pendular
que é o pulso esquerdo da fêmea.
Põe-se-lhe a data
e o poema nasce
rubicundo
como a ponta de um lápis
que escrevesse no registo
o nome macho dum bebé.
I achieve
I finalize
eu acabo
eu finalizo.
É o poema terminado.

António Gancho, "O ar da manhã", Assírio & Alvim

O Charlot sou eu. Eu também gosto. Eu também sou. Eu sou Tu.

Visita a António Gancho, na Casa do Telhal | 2ª semana | (vídeo) | Narração de Lúcia Sigalho:

Porque o Alexandre já conhecia o trabalho dele e porque, na véspera de vir para o Porto, encontro o Daniel Oliveira — conta que o pai, o Herberto Helder, guardava os poemas ao Gancho no início de ele estar internado, nos anos sessenta. O Herberto Helder empresta-nos O Ar da Manhã, é um livro lindo de um grande poeta português. Marcamos a entrevista para uma quarta-feira, depois de pedir as autorizações todas à casa do Telhal. Vamos do Porto para Lisboa e de Lisboa, já com o Daniel, seguimos para perto de Mem Martins. È tudo aparentemente muito diferente do Conde de Ferreira, a construção é muito mais recente e há flores nos jardins que estão tratados. À porta mandam-nos seguir para a enfermaria de São João de Deus, um doente leva-nos ao bar e apresenta-nos ao António Gancho. A produtora da Companhia disse-me que ele tinha ficado muito contente com a ideia da entrevista mas nessa tarde já não se lembrava que nós lá íamos. Sentamo-nos numa mesa cá for a, à sombra, virados para uma estrada por onde passam camiões vários. Estamos a começar a conversar, O António quer saber pelo daniel notícias do Herberto Helder, quando ouvimos gritos furiosos a avançarem na nossa direcção: era o director da Casa do Telhal, visvelmente alterado. Não tínhamos ido primeiro ter com ele, apresentar uma declaração da Sensurround, carimbada pela Companhia, em que nos comprometíamos a só filmar a entrevista e mais nada. O António Gancho fica enervadíssimo, ficamos todos. Desfaz-se o equívoco, pedimos desculpa, acalmamos todos, o director volta para trás pelo mesmo caminho. O António Gancho deve também assinar uma declaração. Não gosta. Estamos um bocado ansiosos e a conversa na primeira hora é feita à beira do colapso. Mas do que ele gosta é de perguntar ao Daniel pelo Herberto, e quando eu leio em voz alta a “Ilustrazione”, finalmente descontrai. ”Ela percebe os meus poemas”. É um bicho, um artista dos pés à cabeça. Estuda-nos as reacções, atira-nos frases como armas de arremesso. Tem os olhos muito azuis, uma maneira de rir como um gaiato e observa. Fala de muita gente que morreu. A Luísa Neto Jorge. O poema Constelação Vega é dedicado ao irmão dela. Passaram três horas, ele já bebeu um café e uma garrafa de àágua de litro e meio. Fala muito dos remédios, dos remédios. E dos electrochoques que levou. Os outros doentes interrompem, querem cigarros — os do António Gancho são Coronas, fuma um maço inteiro e abre o segundo, e vêm da Rua das Portas de Santo Antão — querem falar. Nós não somos da televisão. Ele conhecia o Camané e o Miguel Portas. Está ali desde 63. Vive ali. Sempre internado. Tinha 26 anos. Recebe uma pensão de 90 contos do Ministério da Cultura, tem medo de perder a pensão.Tem um walkman ligado no bolso do casaco e mostra-me três canetas. Convidamo-lo a vir ao Porto. Quando saímos, ele fica na lavandaria para pagar a conta da lavandaria (!), mas afinal vem apanhar-nos ao portão e fica a conversar a conversar. Gosto de filmes, do Charlot. O Charlot sou eu. Eu também gosto. Eu também sou. Eu sou Tu.

[o texto foi retirado dos arquivos da Sensurround e agora vou ali fumar um cigarro com o António Gancho]

Terça-feira, Janeiro 3


Do you want love or lust © Claude Closky

Mar de Janeiro

Este post

mete água

por todos os lados.

(o meu sorriso ou) Uma escolha de Pedro Costa e Rui Chafes*

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07.01 (Sáb) 17h00 O Sangue PEDRO COSTA | 21h30 Casa de Lava PEDRO COSTA

08.01 (Dom) 17h00 Ossos PEDRO COSTA | 21h30 No quarto da Vanda PEDRO COSTA

10.01 (Ter) 21h30 Onde jaz o teu sorriso PEDRO COSTA

11.01 (Qua) 21h30 Durante o fim JOÃO TRABULO

12.01 (Qui) 21h30 Quando uma mulher sobe as escadas MIKIO NARUSE

13.01 (Sex) 21h30 Le Diable Probablement ROBERT BRESSON

14.01 (Sáb) 17h00 Greed ERICH VON STROHEIM

15.01 (Dom) 17h00 Antígona JEAN-MARIE STRAUB

________
* no Auditório de Serralves
KENT: Uma vez, pego no primeiro livro da estante. As "Viagens". Daquele gajo. O Garrett. E vou à casa de banho. Estou ali a bater uma sem pressa nenhuma e SBUM a porta abre-se.
KRIS: A tua mãe.
KENT: A minha mãe. Acagaço-me e venho-me todo para cima do livro. A minha mãe grita. Aproxima-se de mim e tira-me o livro das mãos. Fica calada, olha para ele, fica calada e depois sai.
KRIS: E depois.
KENT: Vai ter com o meu pai e diz-lhe: Eu sabia que ele era mais meu filho que teu. Olha para isto: é um intelectual.

Letizia Russo, "Fim de Linha".

Segunda-feira, Janeiro 2

- De quem é a terra?
- Dos mortos, senhor.
- Então, os mortos que a trabalhem.
- Os mortos recusam-se a trabalhar, senhor. Estão cansados.
- E quem pode substituir os mortos?
- Os vivos, senhor.
- Então, os vivos que a trabalhem.
- Os vivos estão cansados, senhor.

Três pequenos avisos e uma campainha

As Ostras mudaram de horário. Agora vão para o ar pouco antes das 15h00 (hora local) na antena 2.

Parece que o filme de Murnau esgotou sessões no Nimas em Lisboa. Pois bem, por cá vai fazer uma carreira curta: dez sessões? Nem mais uma? Ninguém se queixa? Não.

No rodapé de um telejornal do fim-de-semana corria a notícia de um ciclo de cinema em Serralves para acompanhar a exposição "FORA!" de Rui Chafes e Pedro Costa. Ainda não sei quais os filmes a projectar mas se não houver, pelo menos, um filme de Robert Bresson e outro da dupla Straub & Huillèt, fico muito chateada.

Está na hora de tocar a esta campainha:
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A Lei de Lynch

Petrov monta no cavalo e faz à multidão um discurso em que prediz o que irá passar-se, caso construam um arranha-céus americano no sítio onde fica o jardim público. A multidão ouve e parece que aprova. Petrov anota qualquer coisa no seu caderno. Da multidão sai um homem de mediana estatura e pergunta a Petrov o que é que ele assentou o caderno. Petrov responde que se trata de uma coisa que só a ele diz respeito. O homem de mediana estatura insiste. O tom sobe e rebenta uma discussão. A multidão toma o partido do homem de mediana estatura. Para salvar a vida, Petrov fere o cavalo com as esporas, chega a uma esquina e desaparece. A multidão amotina-se e, à falta de outra vítima, agarra o homem de mediana estatura e arranca-lhe a cabeça. A cabeça arrancada rola na calçada e fica presa numa boca de esgoto. Saciadas as paixões, a multidão dispersa.

"Crónicas da Razão Louca" de Daniil Harms, traduzido por Sérgio Moita, editado pela Hiena em Julho de 1994

Insistir: começar o ano com Даниил Хармс

...
Mas Harms iniste em ser poeta, em ler versos da sua poesia e em 1930 o Smena volta à carga: chama-lhe «inimigo da classe operária», chama à sua poesia «um acto de protesto contra a ditadura do proletariado». Como se não bastasse, a OBERIOU (Associação para uma Arte Real), que tem Daniil Harms como animador e funciona à margem da literatura «oficial», recebe um golpe de misericórdia: desfere-o a Polícia Secreta, que lhe bate à porta, que faz cara de poucos amigos e prende todos os seus membros.
Começa por haver um curto exílio intimidatório em Kursk. Harms sofre-o mas parece não ter emenda: de novo em Leninegrado desata a escrever prosa, textos curtos que invadem o quotidiano soviético transtornando-o até ao mais cruel dos absurdos. Antes de Ionesco, antes de Brecht, antes do Sr. Plume de Michaux, a personalidade de Harms soa — vertida em palavras — como novidade absoluta. Harms escolhe reconhecíveis situações do quotidiano, perturba-as com uma inesperada razão louca e deixa-as profundamente feridas, sem nenhuma saída, retidas numa armadilha que põe à mostra os lados mais secretos da consciência humana. No vocabulário da língua russa entra o adjectivo harmsiano, para designar situações de aparente não senso. O Poder olha com desconforto para este retrato do homem soviético espalhado em «papéis» que circulam discretamente de mão em mão, provocando entusiasmos e algum escândalo.
Houve logo quem dissesse que se tratava de uma situação «evidentemente fatal». E foi fatal em 23 de Agosto de 1941, o dia da detenção de Harms, o dia em que o internaram num hospital psiquiátrico. Harms morreu no ano seguinte.

excerto de Explicação que abre o livro "Crónicas da Razão Louca" de Daniil Harms, editado pela Hiena em Julho de 1994

UTOPIA é uma livraria

Já não espero muito das livrarias; um ou outro livro novo que circulam pelos escaparates antes da devolução, antes dos armazéns onde acabam por envelhecer, esquecidos. O tempo não está para negócios suicidas, compreendo muito bem. Não obstante. Na sexta-feira não trabalhei, levantei-me tarde, almocei com a minha mãe e depois fui dar uma volta pela cidade, um café demorado, livrarias, dois alfarrabistas, não procurava nada e nada encontrei. Já era noite quando regressei pela Mártires da Liberdade; na Praça da Républica segui pela Regeneração e dei com a Utopia aberta. A Utopia não é bem uma livraria, quer dizer, vende livros (novos e usados), ou pelo menos tenta fazê-lo, mas não tem um aspecto moderno. Uma montra pequena junto à porta, lá dentro cheira um bocado a mofo e as prateleiras são foleiras. Conheço a livraria desde os dezasseis, dezassete anos mas agora é raro lá ir, fica longe do meu circuito diário, o horário não ajuda e, verdade seja dita, pensei que já tinha fechado de vez (por incompatibilidade com a cidade). Entrei e por pouco não me punha aos saltos. Livros considerados esgotados, livros que procuro há tanto tempo, estavam lá, frente aos meus olhos, já nas minhas mãos. Escolhi apenas quatro: a segunda edição de Lenz de Georg Büchner (para substituir as fotocópias, pela tradução de Ernesto Sampaio e pela capa, tão bonita); Vida de um Homem de Giuseppe Ungaretti (porque sim e porque é bilingue); Crónica da Razão Louca, de Daniil Harms (conheci-o através das "Ostras" de Pedro Coelho, segui-lhe o rasto numa Periférica mas ignorava por completo este livro do catálogo maravilhoso da Hiena); e Uma Antologia de Philip Larkin (tradução de Maria Teresa Guerreiro para a Fora do Texto) que existe na biblioteca mas eu preciso dele é em casa.
Os outros ficaram lá, por enquanto.

LIVRARIA UTOPIA | RUA DA REGENERAÇÃO, 22 | 222 083 526

Cabeça nas nuvens

Ainda a propósito de nuvens. Uma maneira simples de observar nuvens invisíveis é ouvir Andreas Scholl a cantar. Por exemplo, a ária "Ombra mai fù", de Händel.

Domingo, Janeiro 1

Um plano para 2006?

Encher as paredes do meu quarto com posters de Robert Walser.


A fotografia é de Francisco Carvalho, e a ideia de Eduardo César