Terça-feira, Janeiro 31
A chinesa e o chinês
Por trás de uma janela com grades, uma mulher condenada a morrer à fome por infidelidade conjugal.A Chinesa: Passam todos com indiferença. Será que já morri? Dê-me qualquer coisa de comer.
O Chinês: Teria muito prazer.
A Chinesa: Então porque não dá?
O Chinês: Por causa da desonra, da vergonha.
A Chinesa: Não fica bem mostrar piedade?
O Chinês: Para matar a fome? Humm. Mas, no fim de contas, a fome foi-lhe imposta pela lei.
A Chinesa: E não se atreve a ignorar a lei por amor ao próximo?
O Chinês: Era capaz de arriscar mas ao mesmo tempo sinto-me inclinado a dizer sim à lei e não ao risco. Sinto um desejo de me compadecer com a sua situação.
A Chinesa: De que me serve a sua comiseração? Ajude-me!
O Chinês: Ajudá-la é um crime, bem sabe, e eu não quero cometer um crime.
A Chinesa: E não acha uma imoralidade ver-me morrer?
O Chinês: Apesar de me custar vê-la sofrer, penso que o melhor é não falar nisso. Naturalmente na sua posição vê as coisas de outra maneira. Só lhe resta conformar-se com o seu destino, por outras palavras, resignar-se com a condenação à morte; eu confio num sentido de justiça que não me permite perdoar actos injustos.
A Chinesa: Tenho fome.
O Chinês: Acredito em si. Parece esfomeada. Mete-me pena vê-la assim, acredite. Mas porque é que foi infiel ao seu marido?
A Chinesa: Ele não me amava. Conheci outra pessoa...
O Chinês: Isso é simples demais. Compreendo-a. Ninguém deveria dizer "Eu compreendo-o". Sempre que possível, deviamos permanecer incompreensíveis. Não ser compreendido protege-nos.
A Chinesa: Tem razão.
O Chinês: Agora tem que ter paciência. Este mau bocado há-de passar.
A Chinesa: A sua boa vontade não me serve de nada. Vá falar com os juizes. Conte-lhes o que viu.
O Chinês: Eles vão dizer que a sua profissão é julgar sem piedade. São escolhidos para acreditarem na eficácia das suas sentenças.
A Chinesa: Que dia tão bonito. Devo entregar-me à morte porque me entreguei à vida?
O Chinês: Não se preocupe com isso.
A Chinesa: Vou tentar.
O Chinês: A sua resignação agrada-me. É tranquilizadora. Agora estou mais calmo. Parece que está a conformar-se com a sua situação. É absolutamente necessário que acredite em si própria. Tem fome, não é?
A Chinesa: Sim.
O Chinês: E não tem qualquer hipótese de se livrar da fome. A fome vai acompanhá-la o resto da vida. Por isso deve dizer sim à fome, sem hesitações e de boa vontade. Não tem escolha.
A Chinesa: Assim farei.
O Chinês: E vai ser capaz porque a isso é obrigada. Quando temos de fazer uma coisa, somos capazes de a fazer.
A Chinesa: É verdade.
O Chinês: Não pensava que fosse tão inteligente. Estou admirado.
A Chinesa: Já que fica contente por eu ser boa aluna, dê-me o seu apoio, ajude-me.
O Chinês: Nesse caso...
O Chinesa: Então? Vá lá, diga!
A Chinês: É difícil de dizer.
A Chinesa: Está a perder a presença de espírito.
O Chinês: Se lhe desse algo para comer, estaria a desviá-la do caminho que ainda agora tomou.
A Chinesa: Que caminho é esse?
O Chinês: O caminho da obediência até ao fim
A Chinesa: [enlouquece e assim se salva]
O Chinês: [decide afastar-se da janela]
A Chinesa: [pensa que a fome a acaricia enquanto diz] Sim, sim.
Claro que isto não conta a história toda. Quis tornar a cena mais cruel, mais implacável. Deixo a compaixão para outra altura. Mais ou menos oito dias depois ela morreu. Ao amante faltou coragem para a visitar. O marido traído viveu até aos oitenta anos. A maior parte das pessoas é terrivelmente boa. Tirei uma lição de todos estes exemplos e também me fiz bom. Vou para a cama cedo e cedo me levanto. Estou, creio, a caminho de me tornar útil à sociedade. Não me acham capaz de tal? Possuo as mais respeitáveis convicções.
Robert Walser (1925), traduzido (às três pancadas e sem autorização) do inglês (Susan Bernofsky) e cheio de vontade de se associar — ainda que com dois dias de atraso, mas o que são dois dias para um morto? — às comemorações do novo ano chinês.
Segunda-feira, Janeiro 30
Oração do dia
Senhor, quando me fizeres beber do Letes, peço-te que seja de soja, pois sou intolerante à lactose.
A culpa é da culpa
A propósito da grave polémica sobre o "amiguimismo", "sectarismo" e outros "ismos" que "corrompem" a nossa crítica literária, gostaria apenas de lembrar que provavelmente tudo não passa de uma tempestade num copo de água. Calma, meus amigos. Há espaço para todos no inferno. Ninguém ficará de fora. Nós incluídos.
As minhas colecções (1): Colecciono fábulas
Xeque-mate
Fui ver dois filmes no fim-de-semana: Caché de Michael Haneke no sábado e Reis e Raínha de Arnaud Desplechin no domingo. Os filmes não têm nada em comum. No entanto há em ambos uma cena semelhante, uma coreografia da morte, alguém que se suicida em frente a outra pessoa e diz (pelo menos foi o que eu ouvi): vê o meu gesto, observa bem, eu sou o rei e o rei vai morrer.
E um dicionário para os joanetes
Dicionário do Diabo de Ambrose Pierce, finalmente em português. Edição muito prática (não cabe no bolso das calças mas cabe no bolso do casaco) e bonita, da Tinta da China. Decorei a primeira entrada para a letra "Q":
Qualificação [n ] ser primo do alfaiate do Presidente.
Qualificação [n ] ser primo do alfaiate do Presidente.
Domingo, Janeiro 29
a hora do lobo
Na madrugada de sábado sonhei que tinha perdido a memória. Um buraco de algumas horas transformou-se, quando me apercebi disso, num esquecimento terrível e irreversível. Apesar de ser um sonho, lembro-me perfeitamente que o que senti estava para além do medo, era muito pior, era um pavor paralisante e gelado, como se tivesse acabado de dar de caras com aquela criatura enorme e branca que aparece nas aventuras de Arhur Gordon Pym. Depois acordei e atribui as culpas a Sebald.
Sábado, Janeiro 28
Sexta-feira, Janeiro 27
o meu lado realista
Aqueço a chávena para o café, mas o que eu queria era ter tantas mãos como Cocteau, um casaco ao reverso que me assentasse bem, menos frio e uma chave no bolso.
História sobre isto e aquilo
Era uma vez um gato que ardia de curiosidade por tudo e por nada. Um dia o gato a arder de curiosidade entrou em combustão e morreu. E este é o triste fim da história do gato que ardia de curiosidade por tudo e por nada.
O pacote vermelho

O meu sangue vermelho fez-se tinta e haveria a todo o custo que impedir esta aversão. Fiquei envenenado até aos ossos. Eu costumava cantar no escuro e o que me faz agora tanto medo é a canção. Melhor ainda: sou leproso. As manchas de bolor que imitam um perfil, conhecem? Não sei que sedução desta minha lepra engana o mundo e permite que ele me beije. Paciência, os resultados não me dizem respeito. Nunca exibi nada senão chagas e há quem fale de fantasia graciosa: minha culpa. É de loucura qualquer exibição inútil.
Tenho a desordem empilhada até ao céu. Os que eu amava uniam-se por elásticos ao céu. Bastava eu virar a cara... e já não estavam.
De manhã começo a inclinar-me, a inclinar-me, e deixo-me cair. Caio de fadiga, dor e sono. Sou inculto, sou nulo. Não conheço os números, nenhuma data, o nome de nenhum rio, nenhuma língua viva ou morta. Em história e geografia apanho zero. Sem alguns milagres eu teria sido expulso. Para mais roubei os papéis a um certo J.C. nascido em M. L. no dia ..., morto aos 18 anos depois de uma brilhante carreira poética.
Este cabelo e este sistema nervoso mal planificados não me pertencem. Enojam-me. Tiro-lhes a noite em sonhos.
A minha mãe, essa apenas viu fogo. Amo-a e sou retribuído. Não me andem a dizer-lhe que a engano. Em troca dou-lhe a ilusão de ainda ter um filho.
Larguei o pacote, podem prender-me e linchar-me. Compreenda-o quem puder, mas sou uma mentira que só fala verdade.
Jean Cocteau, tradução de Aníbal Fernandes, "explicação dos prodígios", & etc, Dezembro de 1982
Quinta-feira, Janeiro 26
o feiticeiro de oz
Há um velho que vive no pequeno jardim junto à escadaria da Igreja do Bonfim. Já não me lembro quando foi a primeira vez que reparei nele, talvez há duas ou três semanas. Ele não me sai da cabeça; não sinto pena dele, não sei explicar o que sinto, é como se ele estivesse num trono e não na rua, mas num trono de papelão. Hoje, à hora do almoço, estava sentado com as pernas estendidas e as mãos pousadas nos joelhos, parecia satisfeito. O sol, quando está a pique e morno deve saber-lhe bem. Tinha um gorro de lã escura na cabeça e as pernas cobertas por mantas. À sua volta, plásticos transparentes, sacos com coisas dentro e um guarda-chuva aberto. Os guarda-chuvas são muito importantes.
Les Baricades Mistérieuses
É o título de uma peça para cravo de François Couperin. Os especialistas continuam sem saber o verdadeiro significado deste título. Eu sei.
Cocteau, Satie & Les Six *
Já basta de nuvens, ondas, repuxos e perfumes nocturnos; o que nós precisamos é de uma música terrena, música do dia-a-dia... música onde se possa viver, como se fosse uma casa.
Jean Cocteau, "O Galo e o Arlequim"
Jean Cocteau, "O Galo e o Arlequim"
Jean Cocteau chegou ao cinema
por um amigo que era o Visconde de Noailles, Charles de Noailles, que queria que Jean Cocteau fizesse um filme de animação... como Jean desenhava... para mostar nos salões... era um homem muito rico.
Mas Jean recuou quando percebeu o enorme trabalho envolvido. Seria necessário uma equipa para completar os desenhos, pois cada movimento implica muitos desenhos. Então Cocteau disse a Charles de Noailles: "Ouve, eu faço um filme com personagens que se pareçam com os meus desenhos". E fez "O Sangue de um Poeta". Jean Marais
Mas Jean recuou quando percebeu o enorme trabalho envolvido. Seria necessário uma equipa para completar os desenhos, pois cada movimento implica muitos desenhos. Então Cocteau disse a Charles de Noailles: "Ouve, eu faço um filme com personagens que se pareçam com os meus desenhos". E fez "O Sangue de um Poeta". Jean Marais
O meu método de desenho
parece-se muito com a improvisação jazzística. Improviso com as linhas e com as cores como, por exemplo, Charlie Parker improvisou com o seu saxofone. Jean Cocteau
Le Petit Soldat, de Jean-Luc Godard

— Que livro é esse?
— Tomás, o impostor.
— Ah sim, de Jean Cocteau...
— Ouve, o final é formidável:
Guillaume volait, bondissait, dévalait comme un lièvre. N'entendant pas de fusillade, il s'arrêta, se retourna hors d'haleine. Alors il sentit un atroce coup de bâton sur la poitrine, il tomba, il devenait sourd, aveugle. "Une balle, se dit-il, je suis perdu si je ne fais pas semblant d'être mort". Mais, en lui, la fiction et la réalité ne formait qu'un. Guillaume Thomas était mort."
É belo!
um poeta é precisamente o contrário de um fantasista
Detesto a frivolidade, acho que é um crime contra o espírito. E detesto a fantasia. Tomam-me sempre por um fantasista. Até há dois anos Rimbaud era descrito no Larrouse como um fantasista, agora já não é e fui eu que herdei a palavra. As pessoas pensam que um poeta é um fantasista mas um poeta é precisamente o contrário de um fantasista. Jean Cocteau
Quarta-feira, Janeiro 25
Festa, festa
A Folle Journée 2006 começa hoje em Nantes e prolonga-se até domingo. A festa deste ano intitula-se "A Harmonia das Nações" e é dedicada ao barroco europeu. Os representantes portugueses são Carlos Seixas e Francisco António de Almeida. A Antena 2, como já vem sendo hábito, transmite em directo, a partir de amanhã, diversos concertos com reportagens e comentários dos seus "enviados especiais". Se isto não é serviço público, então o que será?
Sinais
Ontem à noite, antes de dormir, o meu filho de quatro anos confessou-me que me acha "tão lindo" como o seu robô de lego preferido. Mais um sinal de que o meu método pedagógico começa a dar bons resultados.
Durante um certo tempo, vamos numa direcção com as pessoas, depois retomamos o nosso ânimo e viramo-lhes costas... Thomas Bernhard, traduzido aqui ao lado.
os três primeiros parágrafos de LENZ *
A 20 de Janeiro, Lenz partiu para as montanhas. Cumes e planaltos nevados, encostas de pedra cinzenta descendo sobre os vales, espaços verdes, rochas e abetos.Fazia um frio húmido; a água jorrava das penedias, caindo sobre os atalhos. Os ramos dos abetos pendiam, pesados, no ar chuvoso. No céu passavam nuvens cinzentas, mas tudo era tão opaco! – e depois o nevoeiro erguia-se aos borbotões, arrastava-se, pesado, húmido, através das moitas, tão lentamente, tão pesadamente!
Prosseguiu o seu caminho, indiferente; pouco lhe importava o ter de subir e descer. Não sentia cansaço algum; mas, por instantes, era-lhe desagradável não poder andar sobre a cabeça.
...
tradução de Ernesto Sampaio
Terça-feira, Janeiro 24
Lektion 19
Eu gosto de cartas de amor. Não as acho ridículas nem nada. Bom, talvez um pouco, mas isso é compensado pelo desvario que expõem. Claro que há cartas e cartas. A minha favorita é a que Georg Büchner escreveu à sua noiva Minna no dia 13 de Janeiro de 1837. Tem 169 anos e no entanto parece escrita há dois minutos, parece um géiser. O seu carácter é um bocado líquido e um bocado científico, por assim dizer; nada em fenol e move-se entre rabos de peixe e dedos de rã, como convém aos assuntos amorosos. Por mais que se esforce Abelardo não chega aos calcanhares de Büchner. As cartas políticas e Lenz ficam para amanhã ou depois.
* Traduzida por Ernesto Sampaio ("Lenz", Hiena, colecção cão vagabundo #12 )
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An die Braut*
[Zürich] 13. Januar 1837
Mein lieb Kind! […] Ich zähle die Wochen bis zu Ostern an den Fingern. Es wird immer öder. So im Anfange ging's: neue Umgebungen, Menschen, Verhältnisse, Beschäftigungen – aber jetzt, da ich an Alles gwöhnt bin, Alles mit Regelmäßigkeit vor sich geht, man vergißt sich nicht mehr. Das Beste ist, meine Phantasie ist tätig, und die mechanische Beschäftigung des Präparierens läßt ihr Raum. Ich sehe dich immer so halb durch zwischen Fischschwänzen, Froschzehen u.s.w. Ist das nicht rührender, als die Geschichte von Abälard, wie sich ihm Heloise immer zwischen die Lippen und das Gebet drängt? O, ich werde jeden Tag poetischer, alle meine Gedanken schwimmen in Spiritus. Gott sei Dank, ich träume wieder viel Nachts, mein Schlaf ist nicht mehr so schwer. […]
* Traduzida por Ernesto Sampaio ("Lenz", Hiena, colecção cão vagabundo #12 )
— Do you like Glarner Birnbrot so much, too?
In a diary entry from 1968, Max Frisch wrote: "Someone tells a true story of a meeting between Robert Walser and Lenin in the Spiegelgasse in Zurich, 1917. Walser asked Lenin only a single question: Do you like Glarner Birnbrot so much, too? In my dream, I do not question the authenticity of the anecdote, and I wake defending Robert Walser — I am still defending Robert Walser as I shave."
from Susan Bernofsky' s preface in "Masquerade and other stories"
from Susan Bernofsky' s preface in "Masquerade and other stories"
nobody taught me HAPPINESS
"O blogue é tristonho", disseram-me já mais de uma vez. Até em casa. É verdade. Tambem é verdade que o nome não promete felicidade mas apesar disso acho que podemos fazer um esforço, tipo: um post dia-sim-dia-não a irradiar felicidade por todas as palavras e pontos de exclamação! Ou pelo menos uma vez por semana. Fazer um exercício muscular, um sorriso, vá lá. Dizer cheese. Esquecer os modelos, o Bresson e essas coisas aborrecidas. Calçar os sapatinhos vermelhos de Dorothy. Pôr a Barbie a cantar. E o Ken. Que achas Manuel Warrior? Está melhor assim?


a evidência
Afinal nós procuramos nos outros o mesmo que Bresson procurava nos seus modelos: os tais gestos sonâmbulos e verdadeiros antes do pensamento e das palavras.
modelos
Bresson era muito meticuloso na sua escolha. Não os deixava ver o material já filmado para os impedir de corrigirem erros, ou melhor, aquilo que eles pensavam que eram erros. Nem os escolhia para um segundo filme. Procurava pessoas puras de toda a teatralidade, de toda a representação. Pessoas livres para os gestos sonâmbulos e verdadeiros, antes do pensamento. Levava isto tão a peito que também procurou Balthazar longe dos circos. O burro mais inocente, como o querido Príncipe Michkin.
"Reza a tradição bíblica que a ausência de trabalho - a ociosidade - era a condição da felicidade do primeiro homem antes da sua queda. O amor à ociosidade permaneceu também no homem caído, mas a maldição continua a pesar sobre o homem, e não só porque temos de ganhar o nosso pão com o suor do rosto, mas também porque, pelas nossas características morais, não podemos ser ociosos e calmos. Uma voz secreta diz-nos que devemos sentir culpa da nossa ociosidade. Se o homem pudesse achar um estado em que, sendo ocioso, se sentisse útil e ciente do dever cumprido, acharia uma das facetas da felicidade primitiva. Pois bem, existe toda uma casta que goza dessa ociosidade obrigatória e sem pecado - a casta dos militares. É nesta ociosidade obrigatória e sem pecado que consiste, e sempre consistirá, a principal atracção do serviço militar."
Guerra e Paz, Vol. II.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.
Guerra e Paz, Vol. II.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.
Segunda-feira, Janeiro 23
o doutor freud torceu um pé
— Não queres mais nada?
— Não. Só se forem uns pastéis de Belém.
— Vamos nisso. Ó senhor Silva! Agora, queremos uns pastelinhos de Belém.
De manhã, quando entrei no quiosque, nem reparei nas primeiras páginas; o que me prendeu logo os olhos foi O Pai Tirano (António Lopes da Silva, 1941). O filme chegou às bancas precisamente hoje.
— Não. Só se forem uns pastéis de Belém.
— Vamos nisso. Ó senhor Silva! Agora, queremos uns pastelinhos de Belém.
De manhã, quando entrei no quiosque, nem reparei nas primeiras páginas; o que me prendeu logo os olhos foi O Pai Tirano (António Lopes da Silva, 1941). O filme chegou às bancas precisamente hoje.
Num país onde, em plena noite da eleição presidencial, nenhum dos candidatos aproveita as transmissões televisivas para referir a saída da "aguasfurtadas", eu não quero viver.
Só ainda não sei para onde diabo hei-de ir.
Só ainda não sei para onde diabo hei-de ir.
olha, um futuro radioso!
Passei o fim-de-semana quase todo fora de casa e a correr. Perguntaram-me várias vezes se já vi o filme de Woody Allen. Emprestaram-me o livro de Sebald. Mostraram-me as vantagens das lareiras e das salamandras. Disseram-me que quando chegar aos cinquenta vou começar a engordar. Nunca consegui ver o futuro, muito menos risonho. Nem apertar bem o cordão dos sapatos.
classificados
A sala de cinema da Casa das Artes está fechada desde Dezembro de 2004. Talvez o tecto ainda esteja a ser reparado. Talvez os ofícios e as cartas formatadas se sucedam sem resolução. Se o Ministério da Cultura fizer um preço simpático alugo-a e vou para lá viver. Substituo as cadeiras e trato do jardim.
Os olhos não querem estar sempre fechados
No sábado fui à Biblioteca buscar o catálogo dedicado a Straub & Huillet. Não estava lá. Percorri os livros da secção de cinema um a um, não posso ter falhado. Alguém está a lê-lo neste momento. Subi as escadas e requisitei o doido Hölderlin. Mit gelben Birnen hänget / Und voll mit wilden Rosen...
Domingo, Janeiro 22
Balanço da noite eleitoral
Como previsto, Cavaco deu exactamente dez passos e entrou no palco. Mais do que ninguém, ele sabia que naquele momento o país estava suspenso, mais ou menos a cem metros acima do solo (muitos começavam já a comer nuvens para passar o tempo), à espera do que ele iria fazer. À frente do palco, alguns espectadores lutavam entre si por um pouco de céu limpo. Cavaco abriu a boca e cantou uma bela ária, de compositor vagamente anónimo, apesar do forte ataque de soluços. Ao fim de exactamente 5 minutos, o seu agente fez-lhe sinal. Cavaco interrompeu a actuação, agradeceu e retirou-se. Os apoiantes gritaram "bravo", os jornalistas relataram, os comentadores comentaram. Depois, cada qual regressou à sua cama. Cavaco também.
A meio da noite, Cavaco tossiu e acordou os vizinhos. Os vizinhos chamaram a polícia.
A meio da noite, Cavaco tossiu e acordou os vizinhos. Os vizinhos chamaram a polícia.
It must have slipped my mind whilst I was waiting for the butterfly man
W. G. Sebals, Die Augewanderten
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para a segunda gaveta da minha colecção de frases enigmáticas
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para a segunda gaveta da minha colecção de frases enigmáticas
Sábado, Janeiro 21
Sexta-feira, Janeiro 20
Doukipudonktan* (este post não é político)


Domingo à noite ninguém me apanha nos canais portugueses. Reservei uma primeira plateia para Zazie dans le metro, o filme de Louis Malle sobre a sobrinha traquinas de Queneau (TV5, por volta das 21h00). Consta que Charles Chaplin se partiu a rir ao ver a fita; ora bem, espero que me aconteça o mesmo.
*Transcrição fonética de “D'où est-ce qu'ils puent donc tant?”
Programa de lavagem recomendado
Há uns anos, passava na televisão um anúncio publicitário a um detergente para máquinas de lavar roupa, no qual um técnico qualificado explicava a uma cliente a origem de uma avaria numa máquina: "a senhora tem calcário na serpentina."
Pois bem, agora que penso seriamente nisso não posso deixar de concluir que esta é a verdadeira origem de muitos dos nossos problemas, digamos, estruturais: calcário na serpentina.
Infelizmente, os nossos economistas não se interessam pela anatomia interna das máquinas de lavar a roupa. E os candidatos presidenciáveis, por mera táctica política, evitam este assunto nos seus "contactos com as populações".
Esta omissão é tanto mais grave quanto é certo que a resolução dos nossos principais problemas está à distância de uma visita ao supermercado mais próximo. De facto, actualmente já existem no mercado diversos produtos 2 em 1, de qualidade garantida pelas principais marcas de máquinas, que asseguram uma lavagem eficaz e uma protecção completa contra o calcário.
Pois bem, agora que penso seriamente nisso não posso deixar de concluir que esta é a verdadeira origem de muitos dos nossos problemas, digamos, estruturais: calcário na serpentina.
Infelizmente, os nossos economistas não se interessam pela anatomia interna das máquinas de lavar a roupa. E os candidatos presidenciáveis, por mera táctica política, evitam este assunto nos seus "contactos com as populações".
Esta omissão é tanto mais grave quanto é certo que a resolução dos nossos principais problemas está à distância de uma visita ao supermercado mais próximo. De facto, actualmente já existem no mercado diversos produtos 2 em 1, de qualidade garantida pelas principais marcas de máquinas, que asseguram uma lavagem eficaz e uma protecção completa contra o calcário.
ROSA VERMELHA
Rosa vermelha
Rosa vermelha
Rosa vermelha
Ele levou-me ao jardim da rosa vermelha
E atou uma rosa vermelha às minhas madeixas trémulas na escuridão
E por fim
Adormeceu comigo sobre a pétala duma rosa vermelha
Ó pombos sem destino
Árvores inexperientes ingénuas, ó janelas cegas,
Debaixo do meu coração e no fundo das minhas costas, agora
Cresce uma rosa vermelha
Vermelha
Como uma bandeira
Na ascensão
Ah, estou grávida, grávida, grávida
Poema de Forugh Farrokhzad, traduzido por Mohsen Rostami, e incluído na "aguasfurtadas" nº 8.
Rosa vermelha
Rosa vermelha
Ele levou-me ao jardim da rosa vermelha
E atou uma rosa vermelha às minhas madeixas trémulas na escuridão
E por fim
Adormeceu comigo sobre a pétala duma rosa vermelha
Ó pombos sem destino
Árvores inexperientes ingénuas, ó janelas cegas,
Debaixo do meu coração e no fundo das minhas costas, agora
Cresce uma rosa vermelha
Vermelha
Como uma bandeira
Na ascensão
Ah, estou grávida, grávida, grávida
Poema de Forugh Farrokhzad, traduzido por Mohsen Rostami, e incluído na "aguasfurtadas" nº 8.
and finally (or: directly to my iPod): Landscape, by Harold Pinter [Daphne Caroll: Beth | Peter Dix: Duff | Director: William Styles] direitos (e muitos agradecimentos) UBUWEB

Mihai Mangiulea | Shadow Line
"Elizabeth,
está um dia tão bonito. Vamos dar um passeio. Talvez a gente encontre alguns cogumelos. E se assim for, podemos apanhá-los e comê-los."
Betsy Zogbaum perguntou a Marian Powys Grey se ela sabia distinguir cogumelos comestíveis e venenosos.
"Acho que sim. Mas, minha querida, pensa como a vida seria aborrecida sem um pouco de incerteza.
John Cage
Sogno
Vallone il 17 agosto 1917
Ho sognato
stanotte
una
piana
striata
d'una
freschezza
In veli
varianti
d'azzur'orro
alga
Guiseppe Ungaretti
Ho sognato
stanotte
una
piana
striata
d'una
freschezza
In veli
varianti
d'azzur'orro
alga
Guiseppe Ungaretti
"No gabinete novo, limpo, bem alumiado, bem decorado com bustozinhos e, nas paredes, quadros pequenos, com móveis novos, estavam sentados Berg e sua esposa. Berg, com a farda nova bem abotoada, sentado ao lado da mulher, explicava-lhe que era sempre possível, e preferível, termos como conhecimentos pessoas que nos sejam superiores, porque só assim haverá satisfação no plano dos conhecimentos.
- Aprendemos alguma coisa, podemos pedir alguma coisa. Por exemplo, repara como tenho vivido desde as primeiras promoções (Berg não calculava a sua vida em anos, mas em promoções concedidas pelos superiores). Os meus colegas ainda não são nada, mas eu posso ocupar uma vaga de comandante de regimento, tenho a felicidade de ser marido da senhora (levantou-se e foi beijar a mão de Vera, não sem endireitar pelo caminho o canto dobrado do tapete). Mas como adquiri tudo isso? Sobretudo, sabendo escolher os meus conhecimentos. Evidentemente, é necessário ser-se virtuoso e pontual..."
Guerra e Paz, Vol. II.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.
- Aprendemos alguma coisa, podemos pedir alguma coisa. Por exemplo, repara como tenho vivido desde as primeiras promoções (Berg não calculava a sua vida em anos, mas em promoções concedidas pelos superiores). Os meus colegas ainda não são nada, mas eu posso ocupar uma vaga de comandante de regimento, tenho a felicidade de ser marido da senhora (levantou-se e foi beijar a mão de Vera, não sem endireitar pelo caminho o canto dobrado do tapete). Mas como adquiri tudo isso? Sobretudo, sabendo escolher os meus conhecimentos. Evidentemente, é necessário ser-se virtuoso e pontual..."
Guerra e Paz, Vol. II.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.
Quinta-feira, Janeiro 19
No bosque dos cem acres
Contar metade da história e esconder com cuidado a outra metade. Eis o grande contributo da Literatura para a evolução da Humanidade.
para a Suzy, com amor
Aquilo que, parecendo garatujas, foi comparado a rastos de insectos, a inconsistentes vestígios de patas de aves na areia, continua a conter, inalterada, sempre legível, compreensível, eficaz, a língua chinesa, a mais velha língua viva do mundo.

...
A essa luz qualquer página escrita, qualquer superfície coberta de caracteres, torna-se fervilhante e transbordante... cheia de coisas, de vidas, de tudo o que há no mundo... no mundo da China
cheias de luas, cheia de corações, cheia de portas
cheia de homens que se inclinam
que se retiram, que se querem mal, que fazem a paz
cheia de obstáculos
cheia de mãos direitas, de mãos esquerdas
de mãos que se apertam, que se respondem, que se ligam para sempre
cheia de mãos frente a frente,
de mãos na defensiva, de mãos ocupadas
cheia de manhãs
cheia de portas
cheia de água caindo gota a gota das nuvens
cheia de barcas que atravessam de uma margem à outra
cheia de aterros
cheia de forjas
e d'arcos e de fugitivos
e cheia de calamidades
e cheia de ladrões levando debaixo do braço os objectos roubados
e cheia de cobiças
e cheia de nuvens
e cheia também de palavras sinceras
e cheia de reuniões
e cheia de crianças que nascem penteadas
e cheias de buracos na terra
e de umbigos no corpo
e cheia de crâneos
e cheia de fossas
e cheia de aves migratórias,
e cheia de recém-nascidos — quantos recém-nascidos! —
e cheia de metais nas profundezas do solo
e cheia de terras virgens
e de vapores que sobem dos prados e dos pântanos
e cheia de dragões
cheia de demónios que vagueiam pelos campos
e cheia de tudo o que existe no universo
tal qual ou disposto de outra maneira
escolhido de propósito pelo inventor de sinais para estar junto
cenas para fazer pensar
cenas de toda a espécie
cenas para oferecer um sentido, para oferecer vários,
para propô-los ao espírito
para deixá-los emanar
grupos para resultar em ideias
ou para se resolver em poesia.
...
Henri Michaux, Ideogramas na China, tradução de Ernesto Sampaio, Livros Cotovia
Aquilo que, parecendo garatujas, foi comparado a rastos de insectos, a inconsistentes vestígios de patas de aves na areia, continua a conter, inalterada, sempre legível, compreensível, eficaz, a língua chinesa, a mais velha língua viva do mundo.

...
A essa luz qualquer página escrita, qualquer superfície coberta de caracteres, torna-se fervilhante e transbordante... cheia de coisas, de vidas, de tudo o que há no mundo... no mundo da China
cheias de luas, cheia de corações, cheia de portas
cheia de homens que se inclinam
que se retiram, que se querem mal, que fazem a paz
cheia de obstáculos
cheia de mãos direitas, de mãos esquerdas
de mãos que se apertam, que se respondem, que se ligam para sempre
cheia de mãos frente a frente,
de mãos na defensiva, de mãos ocupadas
cheia de manhãs
cheia de portas
cheia de água caindo gota a gota das nuvens
cheia de barcas que atravessam de uma margem à outra
cheia de aterros
cheia de forjas
e d'arcos e de fugitivos
e cheia de calamidades
e cheia de ladrões levando debaixo do braço os objectos roubados
e cheia de cobiças
e cheia de nuvens
e cheia também de palavras sinceras
e cheia de reuniões
e cheia de crianças que nascem penteadas
e cheias de buracos na terra
e de umbigos no corpo
e cheia de crâneos
e cheia de fossas
e cheia de aves migratórias,
e cheia de recém-nascidos — quantos recém-nascidos! —
e cheia de metais nas profundezas do solo
e cheia de terras virgens
e de vapores que sobem dos prados e dos pântanos
e cheia de dragões
cheia de demónios que vagueiam pelos campos
e cheia de tudo o que existe no universo
tal qual ou disposto de outra maneira
escolhido de propósito pelo inventor de sinais para estar junto
cenas para fazer pensar
cenas de toda a espécie
cenas para oferecer um sentido, para oferecer vários,
para propô-los ao espírito
para deixá-los emanar
grupos para resultar em ideias
ou para se resolver em poesia.
...
Henri Michaux, Ideogramas na China, tradução de Ernesto Sampaio, Livros Cotovia
Quarta-feira, Janeiro 18
Chegou a "aguasfurtadas"

PREPARANDO A CASA
Meu amigo visita sua cova
como quem vai
à casa de campo
plantar rosas.
Há algum tempo
comprou sua casa de terra.
Plantou árvores ao redor
e de vez em quando vai lá
como se vivo
pudesse ali fazer
o que só morto fará.
De vez em quando vai ver
como sua morte floresce.
Olha, pensa, ajeita uma coisa e outra,
depois volta à agitação da vida:
ama, come, faz projectos,
pois já botou sua morte
no lugar que ela merece.
Affonso Romano de Sant'Anna.
Poema incluído no número 8 da revista "aguasfurtadas", acabada de sair para as livrarias.
Pedidos directos para jup@jup.pt ou "aguasfurtadas", Rua Miguel Bombarda, 187, 4050-381 Porto.
let's mushroom once more

— e que tal juntar aos cogumelos Portobello (depois de grelhados num fio de azeite) um pouco de queijo Rabaçal?
After an hour or so in the woods looking for mushrooms, Dad said, "Well, we can always go and buy some real ones." John Cage
Terça-feira, Janeiro 17
Je t'adore (página 156)
Apesar da morrinha e do frio fui a casa à hora do almoço, pressentia qualquer coisa. E lá estavam, trinta e duas gramas de Robert Walser na minha caixa de correio: Masquerade and Other Stories, traduzidas por Susan Bernofsky (às vezes com a ajuda de Tom Whalen ). O livro custou 2.99 euros, menos que os portes, menos que na livraria; folheei-o e fiquei meio zonza. Há uma parte de mim que balouça num trapézio (página 171), outra calça umas botas (página 122), a terceira já está na rua (página 159).
Mais uma para a lista: É de Solaris, Solaris nem é o meu filme preferido de Tarkovski mas esta cena é tão bela. É quase no início do filme, creio. No jardim há uma mesa com chávenas de chá em cima e, se não engano, algumas maçãs, acho que há qualquer coisa vermelha, serão maçãs? entretanto começa a chover, a chuva cai nas chávenas de chá, mistura-se com o chá e tudo transborda.
Volume II, 3ª Parte, Capítulo 3, página 185
É já o princípio de Junho. O príncipe Andrei regressa a casa depois de pernoitar na herdade do conde Rostov. Neste preciso momento, a charrete do príncipe atravessa um bosque de Bétulas que, sob a influência da estação, "pululam de rebentos ternos, verdes, fofos". Tolstói descreve então o estado de espírito de Andrei sem escrever uma única linha sobre o estado de espírito de Andrei: "O lado esquerdo da floresta estava escuro, ensombrado; o lado direito, lustroso, molhado, brilhava ao sol, ondulando de leve ao vento."
Guerra e Paz, Vol. II.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.
Guerra e Paz, Vol. II.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.
"I believe that today more than ever a book should be sought after even if it has only one great page in it," wrote Henry Miller in his 1934 novel Tropic of Cancer. "We must search for fragments, splinters, toenails, anything that has ore in it, anything that is capable of resuscitating the body and soul." For Miller, the early-twentieth century writer known for his unprecedented sexual candor, writing explicitly about sex was less about a desire to shock than it was about a need to present complete stories. More than seven decades later, eyebrow-raising depictions of sex in fiction are hardly unusual. However, honest literary sex scenes capable of "resuscitating the body and soul" are surprisingly rare.
With that in mind, every month Nerve will present you with five nominees for our monthly Henry Miller Award. These scenes will be excerpted from new fiction that we feel should be sought out on the merit of these passages alone.
With that in mind, every month Nerve will present you with five nominees for our monthly Henry Miller Award. These scenes will be excerpted from new fiction that we feel should be sought out on the merit of these passages alone.
Segunda-feira, Janeiro 16
Oh, a poesia! Essa gaja
Como é sabido, há mais poetas que leitores de poesia.
Ora, de acordo com a "lei da oferta e da procura", estabelecida pelos economistas clássicos, o valor das coisas varia na razão directa da procura e inversa da oferta. Ou seja, no caso da poesia, e uma vez que a oferta é infinitamente superior à procura, o valor de mercado da dita é menos que residual.
Se juntarmos a esta lei clássica da economia política o sábio provérbio popular "Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão", facilmente se compreende como diabo a alguns ainda lhes foge o teclado para estas "polémicas".
Enfim, para mudarmos o disco, ouçamos Ezra Pound, o execrável poeta fascista e tudo:
"devo escavar com meus dedos
já que ninguém vai emprestar-me ou vender uma picareta."
(Canto LXIII)
Embora, também neste capítulo, Pound não seja o melhor exemplo a seguir.
Ora, de acordo com a "lei da oferta e da procura", estabelecida pelos economistas clássicos, o valor das coisas varia na razão directa da procura e inversa da oferta. Ou seja, no caso da poesia, e uma vez que a oferta é infinitamente superior à procura, o valor de mercado da dita é menos que residual.
Se juntarmos a esta lei clássica da economia política o sábio provérbio popular "Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão", facilmente se compreende como diabo a alguns ainda lhes foge o teclado para estas "polémicas".
Enfim, para mudarmos o disco, ouçamos Ezra Pound, o execrável poeta fascista e tudo:
"devo escavar com meus dedos
já que ninguém vai emprestar-me ou vender uma picareta."
(Canto LXIII)
Embora, também neste capítulo, Pound não seja o melhor exemplo a seguir.
Para ler: Ainda não começámos a pensar + A vida escrita
Quando a terra voltar a brilhar verde para ti
Ontem, para meu espanto (e alegria, vá lá), o filme austero (no limite de tudo, como diz Maria João Madeira) de Jean-Marie Straub e Daniéle Huillet tinha bastante público. A sala não estava cheia nem chegava a meio mas, digamos que estavam lá as pessoas suficientes, digamos ainda que isto poderia ser o princípio de qualquer coisa.
Domingo, Janeiro 15
Lektion 18
Ouço Antígona, a rapariga certa e corajosa, e percebo que é este alemão que quero aprender. Antígona de Sófocles, traduzida por Hölderlin, adaptada por Bertold Brecht, e filmada por Jean-Marie Straub e Danièlle Huilet no teatro antigo de Ségeste. É precisamente esta língua, com o passo leve / Da bem decidida
o vento nos ramos das árvores
... Depois do confronto com o tirano que a Antígona custará a própria vida, a acção acontece ao longo do filme num "outro lugar", não estando os episódios da tragédia presentes senão através do discurso. No limite da tragédia. No limite do teatro. No limite do cinema. Como a imagem, o som é, neste filme, cristalino. E retemos sobretudo a luminosidade da paisagem (duas vezes a sombra de uma nuvem cobre passageiramente o rosto de Antígona), a poeira do chão, as ruínas do teatro e os ruídos da mesma paisagem, sobretudo o do vento nos ramos das árvores.
o final do texto de Maria João Madeira, retirado da folha se sala
o final do texto de Maria João Madeira, retirado da folha se sala
ANTÍGONA
A memória da humanidade para os sofrimentos passados é surpreendentemente curta. A sua imaginação para os possíveis sofrimentos futuros é ainda menor.
É esta insensibilidade que temos que combater.
Pois a humanidade é ameaçada por guerras que não têm em conta as esperiências anteriores. E essas guerras terão lugar se àqueles que as preparam não lhes forem cortadas as mãos.
Bertold Brecht, 1952, citado no final de Antigone ou Die Antigone des Sophokles nach der Hölderlinschen Übertragung für die Bühne bearbeiteit von Brecht 1948
É esta insensibilidade que temos que combater.
Pois a humanidade é ameaçada por guerras que não têm em conta as esperiências anteriores. E essas guerras terão lugar se àqueles que as preparam não lhes forem cortadas as mãos.
Bertold Brecht, 1952, citado no final de Antigone ou Die Antigone des Sophokles nach der Hölderlinschen Übertragung für die Bühne bearbeiteit von Brecht 1948
Sábado, Janeiro 14
Greed
é um dos filmes mais insólitos, ousados, geniais que jamais o cinema criou. (...) Uma tal segurança e mestria ao mostrar visualmente o que há de mais baixo e vil, feio e corrompido no homem inspira-nos ao mesmo tempo a repugnância e a admiração. Luis Buñuel, in Positif n.º 118
Erich von Stroheim

Erich von Stroheim nasceu em Viena em 1885. Em 1906 partiu para os Estados Unidos. Teve vários empregos (desde embalador a operário dos caminhos de ferro, passando por vendedor de jornais, guia de turistas, nadador-salvador ou artista de variedades) até chegar aos estúdios. Quando conheceu Griffith percebeu que queria fazer cinema, mas de outra forma:
Diplomei-me na escola cinematográfica de D. W. Griffith, mas a minha intenção era tornar-me o melhor mestre em realismo cinematográfico. Em cidades verdadeiras e não em fragmentos de cidades desenhadas por Cedric Gibbons ou Richard Days; ao longo de verdadeiras avenidas bordadas de árvores autênticas, com «eléctricos», autocarros e automóveis reais; ao longo de ruelas verdadeiras, sujas e mal cheirosas; no autêntico lodo, como em palácios e castelos autênticos, eu iria filmar as cenas das minhas fitas e povoá-las de homens, mulheres e crianças reais, como se encontram todos os dias na vida real; ia vesti-los como se vestem na verdade, com bom ou com mau gosto, limpos ou sujos, impecáveis ou todos rotos; recusaria qualquer concessão às convenções do palco ou do écran; ia filmar histórias verosímeis como a vida, mesmo se tivesse de conceber o seu realismo até ao nono grau. O meu propósito era mostar homens e mulheres (nenhum deles sendo perfeito), com as suas qualidades e os seus defeitos, as suas aspirações nobres e idealistas, o seu carácter ciumento, viciosos e baixo, a sua rapacidade.
Realizou apenas nove filmes, entre 1919 e 1932. Os seus filmes não agradavam aos produtores porque eram demasiado verdadeiros e brutais. Pagou cara a ousadia: primeiro deram cabo das suas películas com remontagens e cortes bárbaros (Em toda a minha vida só fiz realmente um filme, mas nunca ninguém o viu. Os pobres restos despedaçados e mutilados foram exibidos sob o nome de «Greed») e depois afastaram-no de vez. Tinha 47 anos. A partir daí continuou ligado ao cinema apenas como argumentista e actor. Representava essencialmente papéis de militar alemão. Em 1937 encontra-se com Jean Renoir para fazerem juntos "A Grande Ilusão". A imagem de von Rauffenstein agarra-se-lhe à pele, assim como, doze anos mais tarde, o papel de mordono de Norma em Sunset Boulevard de Billy Wilder.
Em 54, quando regressava de uma homenagem prestada pela Cinemateca do Museu de Arte Moderna de São Paulo passou, despercebido, por Lisboa.
Mais ou menos por essa altura parece que tencionava escrever um argumento a partir de "O Primo Basílio". Morreu em França em 1957. Para além dos filmes deixou artigos sobre cinema, peças, argumentos e um grande romance com nome extravagante: Paprika.
Isto foi o que consegui apurar no livro "Erich von Stroheim - Génio insubmisso de Hollywood" de Henrique Alves Costa, editado pela Afrontamento em 1981.
Desde então pouco há para registar: seu papel é reconhecido mas não o suficiente; há quem lhe deva muito (ao ver Greed lembramo-nos de Buñuel); João de Deus tem um poster de Stroheim no seu quarto modesto e lá para o fim das "Recordações da Casa Amarela" veste-lhe o traje, o monóculo e os modos aristocráticos. E é tudo.
Sexta-feira, Janeiro 13
– Qui nous manoeuvre en douce? *




























O Dias Felizes é o patrocinador oficioso da 9ª edição da "International Conference of the Short Story in English"
"A 9ª edição da International Conference of the Short Story in English vai decorrer, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entre os dias 21 e 25 de Junho de 2006. Trata-se de um evento que tem por objectivo pôr em contacto escritores, críticos e apreciadores de conto. Este encontro apresenta a característica de associar os escritores de língua inglesa aos do país onde se realiza, promovendo, ainda, o diálogo entre autores em início de carreira e outros já consagrados. Assim sendo, contaremos, em Portugal, com a presença de Amy Tan, Bharati Mukherjee, James Alan MacPherson, Minoli Salgado, Cynthia Ozick e muitos outros, bem como de Alexandre Andrade, Catarina Fonseca, Gonçalo M. Tavares, Hélia Correia, Jacinto Lucas Pires, João Aguiar, João de Mancelos, Jorge Vaz de Carvalho, Luísa Costa Gomes, Onésimo Teotónio de Almeida, Rui Zink, Teolinda Gersão e Urbano Tavares Rodrigues, e de críticos como Charles May, George Monteiro, Susan Lohaffer ou Rolf Lunden.
Haverá sessões de leitura por todos os escritores e cinco workshops de escrita criativa sob orientação de Amiri Baraka, Francine Prose, John Edgar Wildeman, Katherine Vaz e Rui Zink.
Lista completa de autores e mais informações no sítio da organização, onde se podem fazer as inscrições e propor comunicações, debates ou painéis sobre o tema (data limite das propostas até final de Janeiro)."
Haverá sessões de leitura por todos os escritores e cinco workshops de escrita criativa sob orientação de Amiri Baraka, Francine Prose, John Edgar Wildeman, Katherine Vaz e Rui Zink.
Lista completa de autores e mais informações no sítio da organização, onde se podem fazer as inscrições e propor comunicações, debates ou painéis sobre o tema (data limite das propostas até final de Janeiro)."
Exercícios em volta de "Referência"
Pois muito bem. Considero este breve poema do Tom Raworth uma pequena maravilha. Enfim, manias. Ora, como não sei traduzir poemas, consultei leitores com nome no mercado e tradutores de renome.
Este é o poema original:
REFERENCE
this is the poem from which i quote
"this is the poem from which i quote".
Eis algumas sugestões de tradução.
Do Manuel Resende:
REFERÊNCIA
eis o poema donde cito
«eis o poema donde cito».
Ou ainda
REFERÊNCIA
eis [este é, é este] o poema de onde cito
«eis [este é, é este] o poema de onde cito»
Da Margarida Vale de Gato:
REFERÊNCIA
este é o poema de que eu cito
"este é o poema de que eu cito".
Do Rui Lage:
REFERÊNCIA
este é o poema de que cito
"este é o poema de que cito".
Do nosso leitor "of":
REFERÊNCIA
é deste poema que cito
"é deste poema que cito".
E da "lebre do arrozal":
REFERÊNCIA
eis o poema que cito
"eis o poema que cito".
E esta é a minha sugestão:
REFERÊNCIA
eis o poema em que eu cito
"eis o poema em que eu cito".
Este é o poema original:
REFERENCE
this is the poem from which i quote
"this is the poem from which i quote".
Eis algumas sugestões de tradução.
Do Manuel Resende:
REFERÊNCIA
eis o poema donde cito
«eis o poema donde cito».
Ou ainda
REFERÊNCIA
eis [este é, é este] o poema de onde cito
«eis [este é, é este] o poema de onde cito»
Da Margarida Vale de Gato:
REFERÊNCIA
este é o poema de que eu cito
"este é o poema de que eu cito".
Do Rui Lage:
REFERÊNCIA
este é o poema de que cito
"este é o poema de que cito".
Do nosso leitor "of":
REFERÊNCIA
é deste poema que cito
"é deste poema que cito".
E da "lebre do arrozal":
REFERÊNCIA
eis o poema que cito
"eis o poema que cito".
E esta é a minha sugestão:
REFERÊNCIA
eis o poema em que eu cito
"eis o poema em que eu cito".
Onna ga Kaidan o Agaru Toki
À noite tenho que subir as escadas e é isso que detesto. Mas uma vez lá em cima, aguento qualquer coisa.
Onna quer dizer mulher em japonês. Naruse filma as mulheres de forma deslumbrante. Vou recordar Keiko entre belos quimonos (e é verdade, as riscas ficam-lhe bem) e monólogos comoventes e tristes. Ou os seus passinhos miúdos. Não estava muita gente no filme de Mikio Naruse. Mas isso já não me interessa, parei a contagem descrescente. Quando chegar o fim, continuo sozinha, com eles.
Onna quer dizer mulher em japonês. Naruse filma as mulheres de forma deslumbrante. Vou recordar Keiko entre belos quimonos (e é verdade, as riscas ficam-lhe bem) e monólogos comoventes e tristes. Ou os seus passinhos miúdos. Não estava muita gente no filme de Mikio Naruse. Mas isso já não me interessa, parei a contagem descrescente. Quando chegar o fim, continuo sozinha, com eles.
Quinta-feira, Janeiro 12
“Durante o fim”, de João Trabulo

Esperei muito tempo por este filme. Perdi-o em Santa Maria da Feira, perdi-o depois (por distracção nas datas) em Serralves. “Durante o fim” não estreou nas salas de cinema e, se não me engano nas contas, esta foi a sua quarta projecção nacional (para onze ou doze pessoas, registe-se). Sabia que era um filme obrigatório. Obrigatório para mim, quero eu dizer. Gostava de escrever um longo elogio, mas não sou capaz, ainda estou demasiado comovida. É uma história de amor. Um dia destes tenho que voltar a Coimbra. Aproxima-te. Ouve-me
Quem és tu?
Pensei que o assunto estava resolvido mas não: volta e meia confundem-me com a ilustre Cristina Fernandes que escreve no Público. Meus caros, não sou, estou a milhas. Não escrevo em jornais (nem em lado nenhum) e não percebo nada de música clássica. Ando por aqui e é tudo. Já retirei o apelido do cabeçalho do blogue, creio que não posso fazer mais nada. Lamento os equívocos e as desilusões.
Textos de auto-ajuda
Na actual imprensa portuguesa há dois colunistas de leitura obrigatória: Álvaro Domingues e Eduardo Prado Coelho, ambos no Público. O primeiro porque usa de forma magistral o tom humorístico para dizer coisas muitas sérias. O segundo porque quer dizer coisas muito sérias e o resultado é absolutamente humorístico.
Quarta-feira, Janeiro 11
Um poema de Tom Raworth
REFERÊNCIA
eis o poema em que eu cito
"eis o poema em que eu cito".
Tom Raworth
REFERENCE
this is the poem from which i quote
"this is the poem from which i quote".
Eu sei que esta "tradução" é demasiado livre. Mas não gosto da versão literal "este é o poema do qual cito". Agradeço sugestões para melhorar esta porcaria de tradução.
eis o poema em que eu cito
"eis o poema em que eu cito".
Tom Raworth
REFERENCE
this is the poem from which i quote
"this is the poem from which i quote".
Eu sei que esta "tradução" é demasiado livre. Mas não gosto da versão literal "este é o poema do qual cito". Agradeço sugestões para melhorar esta porcaria de tradução.
isto é uma OSTRA!
A Tradutora, de Pedro Coelho [Locução de Edite Sombreireiro e Paulo Rato. Gravado nos Estúdios da Antena 2 em 2005. Captação, mistura e masterização de Pedro Coelho. Incluída no último número da revista "aguasfurtadas"]
A Tradutora, de Pedro Coelho [Locução de Edite Sombreireiro e Paulo Rato. Gravado nos Estúdios da Antena 2 em 2005. Captação, mistura e masterização de Pedro Coelho. Incluída no último número da revista "aguasfurtadas"]
Alegria de Náufragos
Verso, 14 de Fevereiro de 1917
E de súbito retoma
a viagem
como
depois do naufrágio
um sobrevivente
lobo do mar
Guiseppe Ungaretti, "Vida de um Homem", tradução de Luís Pignatelli, Hiena, Janeiro 1987
E de súbito retoma
a viagem
como
depois do naufrágio
um sobrevivente
lobo do mar
Guiseppe Ungaretti, "Vida de um Homem", tradução de Luís Pignatelli, Hiena, Janeiro 1987
táctica

Blumen, die nach der Blüte verfallen I
...estabelecer uma estratégia da lentidão contra uma estratégia da aceleração, uma estratégia do peso contra uma estratégia da leveza.
...É curioso, porque o mundo que me interessa não tem a ver com o clima português – e quando digo clima não estou só a falar do clima, falo de temperatura, de vibração. Paradoxalmente, só consigo trabalhar no meu atelier, que acontece ser ao pé do Guincho, com uma luz especial que não é escandinava nem alemã, é uma luz ao pé do Guincho. É o meu atelier. Tem as janelas cheias de limalha de ferrugem, o chão coberto de cimento todo partido, restos de lixo... Estive dois anos na Alemanha e não fiz uma única escultura – a minha escultura foi uma tradução de Novalis. Isto quer dizer que se calhar é mais produtivo as pessoas estarem num sítio a sonhar outro do que se estiverem no sítio com o qual sonham. Trabalhar é só sonhar. Aliás, como diz o Art Reiner, trabalho na arte não é trabalho, é outra coisa. De facto, um artista não trabalha, o artista vai construindo um sonho que abre portas a sair para outros sonhos, eventualmente sonhos para outras pessoas.
Rui Chafes
Terça-feira, Janeiro 10
(dedicar-me aos) objectos insignificantes
(Sicilia!, na cozinha da mãe) Há qualquer coisa na forma como os objectos se distribuem em cima da mesa ou então é apenas a sua extrema simplicidade (uma garrafa, um copo, um prato, pão,...) que lembra as naturezas mortas de Giorgio Morandi.
quando as árvores da floresta começam a andar
Jean-Marie Straub: ... Digamos que uma humanidade que só se safa através da violência... é o que eu penso... é coisa muito grave.
É muito grave e, um dia, vai ter de surgir outra coisa.
Seja como for, vai ser preciso tratar das feridas...
Aqui pelo contrário, o que surge lentamente e vai subindo, subindo, não tem nada a ver com um bálsamo.
É o contrário.
São as árvores da floresta que começam a andar.
Danièle Huillet: Apertou o cinto?
Jean-Marie Straub: Siga!
Obrigado, amigo
Às vezes confundimos a mesquinhez
do mundo
com ofensas ao mundo.
Ah! Se houvesse
facas e tesouras,
escopros, chuços e arcabuzes,
morteiros, foices e martelos,
canhões, canhões, dinamite.
o último diálogo de "Onde Jaz o teu Sorriso?"(inclui em itálico uma fala do amolador de "Sicilia!"), Assírio & Alvim
É muito grave e, um dia, vai ter de surgir outra coisa.
Seja como for, vai ser preciso tratar das feridas...
Aqui pelo contrário, o que surge lentamente e vai subindo, subindo, não tem nada a ver com um bálsamo.
É o contrário.
São as árvores da floresta que começam a andar.
Danièle Huillet: Apertou o cinto?
Jean-Marie Straub: Siga!
Obrigado, amigo
Às vezes confundimos a mesquinhez
do mundo
com ofensas ao mundo.
Ah! Se houvesse
facas e tesouras,
escopros, chuços e arcabuzes,
morteiros, foices e martelos,
canhões, canhões, dinamite.
o último diálogo de "Onde Jaz o teu Sorriso?"(inclui em itálico uma fala do amolador de "Sicilia!"), Assírio & Alvim
Wo liegt euer Lächeln begraben?
...
O cinema dos Straub — hoje — como o cinema de Pedro Costa, é um cinema de resistência, à margem de qualquer discurso dominante.
Onde está a modernidade? No fundo daquela sala de montagem, onde Jean-Marie Straub e Danièle Huillet lutam, fotograma a fotograma, para chegar à forma que exprima com fidelidade a ideia deles, dedicando horas de tempo a segundos de filme? Ou no que se passa lá fora, nos outros estúdios de cinema, nas produções que são vistas por milhões e que dão milhões a ganhar? A resposta de Pedro Costa — como a dos Straub — é inequívoca. Mesmo que sejam os últimos, serão fiéis até ao fim. Mas é sobre isso — sendo isso o cinema — que Onde Jaz o teu Sorriso? é. Como o era, há setenta e alguns anos, a ópera de Schönberg. O oculto — o sorriso oculto — é o sorriso desse cinema jacente e ressurrecto. Neste filme e enquanto se fizerem filmes como este.
"De Sorrisos Ocultos", texto de João Bénard da Costa que acompanha os diálogos de "Onde Jaz o teu Sorriso?", editados pela Assírio & Alvim
Saída de Emergência



Conheço mal a maioria dos autores do seu catálogo. E há apenas dois ou três livros que verdadeiramente me interessam. Mas quero aqui destacar o excelente trabalho gráfico desenvolvido pela editora Saída de Emergência. As capas, o tratamento gráfico das páginas e o cuidado com o próprio papel utilizado em alguns dos seus livros são uma pedrada no charco do pobre mercado editorial português. Finalmente, alguns editores portugueses começam a olhar para o grafismo dos livros como uma parte fundamental do negócio. Aprovo e aplaudo a mãos ambas.
Segunda-feira, Janeiro 9
– Pede-me coisas
A frase passa d' O Sangue (1989) para Ossos (1997). Como se o amor fosse uma espécie de salvação. Mas não há salvação, diz o filme.
E na 8ª lua de departamento de obras públicas e trabalhos obrigatórios
presenteou GIN TSONG com um volume sobre o plantio das amoras
de Miao Haokien onde explica detalhadamente o
crescimento dos bichos-de-seda
e o desfazer dos casulos
e o Imperador mandou gravar isso com todos os diagramas
e distribuiu através de toda a China
nem houve outro imperador mais preocupado em achar homens de mérito
fazendo o que KUBLAI intencionara -
do que o Aïulipata chamado GIN TSONG
Pound, Canto LVI.
presenteou GIN TSONG com um volume sobre o plantio das amoras
de Miao Haokien onde explica detalhadamente o
crescimento dos bichos-de-seda
e o desfazer dos casulos
e o Imperador mandou gravar isso com todos os diagramas
e distribuiu através de toda a China
nem houve outro imperador mais preocupado em achar homens de mérito
fazendo o que KUBLAI intencionara -
do que o Aïulipata chamado GIN TSONG
Pound, Canto LVI.
Leaves of Grass
"A publicação de 'Folhas de relva' valeu a Walt Whitman a perda do emprego, um posto burocrático no Ministério do Interior. Horrorizado com seus versos, seu chefe achou que Whitman não se condizia com a imagem do bom burocrata de Estado. E, na verdade, não deixava de estar certo."
José Castello no Prosa & Verso desta semana, a propósito da nova edição, no Brasil, de "Leaves of Grass", de Whitman.
José Castello no Prosa & Verso desta semana, a propósito da nova edição, no Brasil, de "Leaves of Grass", de Whitman.
errance: Pour suivre Robert Walser, il faut de bonnes chaussures. Il marche lentement, régulièrement. Il ne s'agit pas d'arriver mais de marcher, et le temps se dilate dans une vague ivresse. «Marcher était pour lui comme un plaisir musical.» Il marche longtemps, par les montagnes, par les villes. Il aime la simplicité des auberges de campagne où il boit une bière ou un Zweier (deux décis de vin), accompagné de nourritures solides. Il marche, comme sous hypnose, pour que la vie entre en lui. «Tout en marchant, il me semblait que le monde entier bougeait avec moi. Tout semblait marcher avec le marcheur, les prés, les champs, les forêts, les montagnes et finalement la route elle même.»
Le Vagabond Immobile, Robert Walser" de Marie-Louise Audibert, Gallimard
Le Vagabond Immobile, Robert Walser" de Marie-Louise Audibert, Gallimard
Domingo, Janeiro 8
Salles de cinéma
Il est des salles de cinéma de banlieue vides comme des hangars, et belles comme un embarcadère du rêve. Ce sont celles que je préfère. Les grands établissements du boulevard, avec leurs fauteuils de velours rouge, et leur architecture d'opéra-comique, où les dorures s'écroulent sur le fromage à la crème des cariatides, sont laids et antipathiques. Les plus beaux films y perdent en sauvagerie, et pourtant l'obscurité dissimule ces horreurs théâtrales. À quoi sert d'ailleurs le luxe de ces salles, qui ne valent que par leurs ténèbres.
Tandis que les salles pauvres, celles dont la peinture s'écaille un peu, qui dissimulent leur lèpre sous les belles affiches de films, possèdent une véritable atmosphère d'émotion et d'aventures.
Je me souviens de cette salle de Levallois, aujourd'hui disparue, où je vis projeter Le Club des valets de coeur et Fantômas. Elle était si grande et si vide que les cris des assistants y résonnaient comme dans une vallée. Tout au fond, un orchestre s'évertuait à des bruits discordants, comme un orchestre de paquebot en train de sombrer, et dont les musiciens, par une tradition qui ne s'est jamais éteinte depuis le drame du Titanic, continuent à jouer la valse commencée.
Tout y était sous-marin, vague, irréel.
Une autre du boulevard Saint-Denis, l'une des plus anciennes, ressemble à une chambre d'hôtel, dans un pays où l'on ne passe qu'une nuit, une de ces chambres d'hôtel, qu'on ne voit qu'à la lueur pale d'une lampe électrique trop faible ou, au matin, dans l'aube froide qui se glisse par les fentes des rideaux, parmi les échos des trams qui passent en hurlant, et le bruit des sabots d'un paysan sur le pavé sonore.
Je connais encore une vieille salle de Montmartre que fréquentait déjà Guillaume Apollinaire. Elle est meublée comme une serre. De grandes poutres de fer quadrillent son plafond, et de minces colonnes de fonte soutiennent son balcon.
Les fauteuils d'osier crient lorsqu'on s'assoit, et deux porte mystérieuses encadrent l'écran.
C'est là que j'aime voir les films, là qu'ils apparaissent dans leur splendeur merveilleuse, tandis que les salles luxueuses sont de grands salons ennuyeux où les films n'apparaissent qu'en attraction pauvre et déplacée.
Robert Desnos, "Les Rayons et les ombres", Le Soir, 15.06.1928
Tandis que les salles pauvres, celles dont la peinture s'écaille un peu, qui dissimulent leur lèpre sous les belles affiches de films, possèdent une véritable atmosphère d'émotion et d'aventures.
Je me souviens de cette salle de Levallois, aujourd'hui disparue, où je vis projeter Le Club des valets de coeur et Fantômas. Elle était si grande et si vide que les cris des assistants y résonnaient comme dans une vallée. Tout au fond, un orchestre s'évertuait à des bruits discordants, comme un orchestre de paquebot en train de sombrer, et dont les musiciens, par une tradition qui ne s'est jamais éteinte depuis le drame du Titanic, continuent à jouer la valse commencée.
Tout y était sous-marin, vague, irréel.
Une autre du boulevard Saint-Denis, l'une des plus anciennes, ressemble à une chambre d'hôtel, dans un pays où l'on ne passe qu'une nuit, une de ces chambres d'hôtel, qu'on ne voit qu'à la lueur pale d'une lampe électrique trop faible ou, au matin, dans l'aube froide qui se glisse par les fentes des rideaux, parmi les échos des trams qui passent en hurlant, et le bruit des sabots d'un paysan sur le pavé sonore.
Je connais encore une vieille salle de Montmartre que fréquentait déjà Guillaume Apollinaire. Elle est meublée comme une serre. De grandes poutres de fer quadrillent son plafond, et de minces colonnes de fonte soutiennent son balcon.
Les fauteuils d'osier crient lorsqu'on s'assoit, et deux porte mystérieuses encadrent l'écran.
C'est là que j'aime voir les films, là qu'ils apparaissent dans leur splendeur merveilleuse, tandis que les salles luxueuses sont de grands salons ennuyeux où les films n'apparaissent qu'en attraction pauvre et déplacée.
Robert Desnos, "Les Rayons et les ombres", Le Soir, 15.06.1928
ossos

...; e finalmente, o som, um fantástico trabalho de som, verdadeiramente uma mise-en-scène à parte, que tanto cola à imagem como a abandona, que tanto a acaricia como a envolve para a engolir — o som, em Ossos, é a morte a trabalhar nos interstícios. do texto de Luís Miguel Oliveira incluído na folha de sala
[cerca de dez pessoas no Auditório de Serralves, menos do que as que estavam no café mesmo ao lado]
Sábado, Janeiro 7
o sangue
... Como em tempos escreveu Cristovam Paiva talvez não haja mais horizontes para estas imagens do que as nossas pálpebras. "Glicínia iluminada pela noite / E metade da minha solidão". Só as pessoas muito antigas e a obras muito novas podem evocar assim o sangue fresco e fundo. E cortar a negro os corpos que habitam. do texto de João Bénard da Costa incluído na folha de sala
[quando me levantei para sair já não consegui contar, dez, doze ou ou quinze pessoas?]
[quando me levantei para sair já não consegui contar, dez, doze ou ou quinze pessoas?]
Sexta-feira, Janeiro 6
Une vague nouvelle












Notre seule erreur fut alors de croire que c'était un début, que Stroheim n'avait pas été assassiné, que Vigo n'avait pas été couvert de boue, que Les Quatre cents Coups continuaient alors qu'ils faiblissaient JLG










