Portas de Benfica Bairro das Fontaínhas

O primeiro destino foi o Bairro das Fontaínhas, ou aquilo que dele resta, junto às portas de Benfica. Nesse terreno, agora um baldio, situava-se uma espécie de casbah "meio árabe, meio africana", uma fortaleza cheia de vida, de música, de tráficos vários. Ali, naquele espaço — Pedro Costa abre os braços para explicar a reduzida dimensão que tinham as ruas —, viviam, julga-se 12 mil pessoas que agora estão divididas por vários apartamentos ainda mais distantes, desfazendo-se assim os laços comunitários criados há décadas.
O cineasta e os restantes elementos que o acompanham sentem-se à vontade neste território policiado, no qual ainda subsistem resquícios do bairro. "Aqui ficava a casa de Vanda", recorda Pedro Costa, apontando para um monte de alcatrão e já depois de ter cumprimentado alguns dos que ainda ali habitam, nos velhos imóveis antes ocupados por operários da Bombardier, unidade fabril situada nas proximidades. os homens reúnem-se à porta do "Puto Feio, Ferro Velho", onde se ouve, no telejornal, os golos de Ronaldinho, do Barcelona, e de Van Niestelroy, do Real Madrid. Comentam-se as jogadas, aproveita-se a ocasião para colocar o cartaz do filme no interior e convidam-se os presentes para a estreia do filme, na Amadora.
Nas Fontaínhas, conta o cineasta, "não existia fronteira entre o público e o privado, entre o segredo e a praça, entre o que se sabe e o que não se sabe". Agora, depois das demolições, tudo parece entregue a um destino desconhecido — uma nova urbanização? À volta desta sucata, prédios e mais prédios contaminam a paisagem.
Na sua casa, a Alfaiataria Africana, que forneceu os figurinos para o filme, o sr. João cose com a sua velha máquina, entre fatos, linhas coloridas e um poster de Bob Marley. Pedro Costa pergunta-lhe se ele já se casou. Ainda não. Lá fora, sentada ao sol, Lume, a mais bonita do bairro, brincava com uma criança. Só faltava o encontro com "Teacher", o "professor", figura respeitada pelo trabalho que desenvolve com os mais jovens, para, a seguir, se tomar a direcção dos "territórios libertados". Ao largo, passaram-se o 6 de Maio e o Estrela D'África.
"Durante o 'Quarto de Vanda' (2000), o bairro estava a começar a ser demolido; aliás, filmámos a primeiríssima demolição. Eles começaram a ser realojados por volta de 2001, altura que coincidiu com o trabalho em que não estava diariamente, intensamente, no bairro: foi o período da montagem, da pós-produção, dos trabalhos no laboratório. E aí afastei-me, só lá podia ir de vez em quando. Tinha mais contactos com a Vanda e sabia que ela ia ser uma das últimas a ser realojada, ela continuava nas Fontaínhas e, de cada vez que lá ia, via menos casas, ou mais ruínas. Até que, numa visita, cheguei a ajudá-la a mudar móveis. isto passou-se entre 2001 e 2003. A seguir à pós-produção de "No quarto de Vanda", comecei a visitar as casas novas; havia muitas pessoas que conhecia, apesar de, no novo bairro, o Casal da Boba, não estarem só pessoas das Fontaínhas. São pessoas de outros bairros de lata que pertenciam a outros planos de realojamento. Os amigos e as pessoas que conhecia nas Fontaínhas comecei a visitá-los nas novas casas brancas e, à perplexidade deles, juntou-se a minha perante aquele 'décor' meio fantasma, sem vida, sem cafés, sem comércio — não é que haja agora, porque não há. Foi assim que o filme arrancou, com os olhos pregados em paredes brancas, que não pertencem àquelas pessoas, pois não foram elas que as construíram."
texto de Óscar Faria e fotografia de Enric Vives-Rubio, Y de 24 de Novembro de 2006, página 18


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