Sábado, Dezembro 2

o gosto amargo do saké

Por questões metereológicas e sentimentais, guardei a minha segunda caixa de Ozu para Dezembro. As sessões começaram ontem ao fim da tarde com "Primavera tardia", vários copos de chá e alguns cigarros. Já conhecia o filme mas desta vez reparei noutras coisas. Por exemplo: duas das cenas de que gosto mais não têm diálogos e terminam com o mesmo gesto, o mesmo raccord e um travo amargo que se redime (redime?) no último plano.
Mais ou menos a meio do filme, Noriko (a sorridente Setsuko Hara) vai com o pai (Chishu Ryu) ao teatro kabuki. Ozu mostra-nos o palco, o público e, um pouco mais aproximados, Noriko e o pai. Ouvimos apenas os instrumentos e as vozes dos actores (quase sons abstractos), nenhuma palavra. De repente Noriko vê o pai a cumprimentar a mulher com quem pensa que ele se irá casar de novo, abandonando-a (quer dizer: obrigando-a, contra sua vontade, a casar e a continuar o ritmo inevitável da vida). Então Noriko é tomada por uma profunda e impressionante tristeza e baixa a cabeça. Continuamos a ouvir o som da peça, a imagem passa para uma árvore, as folhas agitam-se com o vento.
No fim do filme, depois da festa do casamento de Noriko (magnífica elipse), depois de uma confissão e alguns copos de saké num bar, o pai regressa a casa, trôpego e cansado, senta-se na sala pega numa maçã e numa faca e começa a descascar a maçã, distraído (esses maravilhosos gestos sonâmbulos). Ouve-se uma música que parece saída de um western triste e o som da lâmina a cortar a casca. Vemos as mãos de Chishu Ryu, a casca cai ao chão e ele pára, baixa os braços e baixa a cabeça imitando o anterior movimento da filha, também ele derrotado e só. Continuamos a ouvir a mesma música mas o plano seguinte mostra-nos ondas a rebentar numa praia. Se quisermos continuar, sim, continuamos, este plano transformar-se-à, uns anos mais tarde, nesse outro, seguramente um dos mais belos de toda a história do cinema: Chishu Ryu, viúvo e solitário, observando pela janela os barcos que navegam no rio — a vida continua à nossa revelia, a vida existe sem nós (LMO). É isto o gosto amargo do saké, creio.