gestos suspensos
A Cotovia que me desculpe a leviandade mas vejo-me obrigada a copiar mais três parágrafos (que se seguem ao primeiro, publicado uns posts mais abaixo) de "O Dia do Juízo Final". Prometo só assaltar de novo as "Profanações" (profanar significava, por oposição, restituir as coisas ao livre uso pelos homens) de Giorgio Agamben, na segunda tiragem.
Que isto é verdade desde o início da história da fotografia é demonstrado com absoluta clareza por este exemplo. Conhecem certamente o célebre daguerreótipo do Boulevard du temple que é considerado a primeira fotografia onde aparece uma figura humana. A chapa de prata representa o boulevard du Temple fotografado por Daguerre da janela do seu estúdio, numa hora de ponta. O boulevard devia estar apinhado de gente e de viaturas e, todavia, dado que os aparelhos da época exigiam um tempo de exposição demasiado longo, de toda aquela massa em movimento não se vê absolutamente nada. Nada, para além de uma pequena figura negra no rodapé, em baixo, à esquerda da fotografia. Trata-se de um homem que estava a engraxar os sapatos e que, por isso, permaneceu imóvel durante bastante tempo, com a perna ligeiramente soerguida para apoiar o pé no banquinho do engraxador.
Não conseguiria fantasiar uma imagem mais adequada do Juízo Universal. A multidão dos humanos — a humanidade inteira, aliás — está presente mas não se vê, porque o juízo tem a ver com uma única pessoa, uma única vida: aquela exctamente, e não outra. E de que modo foi aquela vida apanhada, captada, imortalizada pelo anjo do Último Dia — que é também o anjo da fotografia? No gesto mais banal e mais vulgar, no gesto de engraxar os sapatos. No instante supremo, o homem, qualquer homem, fica registado para sempre, no seu gesto mais íntimo e quotidiano. E, todavia, graças à objectiva fotográfica, aquele gesto fica doravante carregado com o peso de toda uma vida, aquela posição irrelevante, talvez desajeitada, resume e contrai em si o sentido de toda uma existência.
Eu creio que existe uma relação secreta entre gesto e fotografia. O poder que o gesto tem de retomar e convocar ordens inteiras de potências angélicas constitui-se na objectiva fotográfica e tem na fotografia o seu locus, o seu momento tópico. Benjamin escreveu uma vez, a propósito de Julien Green, que este representa os seus personagens num gesto carregado de destino, que os congela na irrevogabilidade de um além infernal. Creio que o inferno que aqui está em causa é um inferno pagão e não cristão. No Hades, as sombras dos mortos repetem até ao infinito o mesmo gesto: Ixíon faz girar a sua roda, as Danaides tentam inutilmente transportar água num cântaro furado. Mas não se trata de uma punição, as sombras pagãs não são deuses condenados. A eterna repetição é, aqui, o código de uma apokatastasis, da infinita recapitulação de uma existência.
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