Esse é o momento terrível
Há dias hesitei em escrever que o Pároco de Ambricourt tinha sido abandonado por Deus. O plano do filme de Bresson mostrava-me isso — ou pelo menos assim me parecia — mas achei a minha ideia demasiado imprudente. Porém, quanto mais avanço no romance mais me dou conta que é de abandono que se trata. Do mais pungente abandono. Na página cento e quarenta, Bernanos escreve, ou melhor, escreve o Pároco no seu diário: "Enfim, Deus tinha-se afastado de mim, pelo menos disso estou seguro" — e essa frase exprime, creio, o mesmo que o plano de Bresson.
Descobri também na "Ideia de Política" de Giorgio Agamben (em "Ideia da Prosa", tradução de João Barrento, Cotovia, 1999), estas linhas:
«... Este abandono, este esquecimento divino, é, para lá de todo o castigo, a mais refinada das vinganças, aquela que o crente teme por ser a única irreparável, e face à qual o seu pensamento recua, aterrado: de facto, como será possível pensar aquilo de que a própria omnisciência divina já não sabe nada, aquilo que foi apagado para todo o sempre da memória de Deus? Daquele que é vítima deste abandono diz George Bernanos que ele está, "nem absolvido nem condenado, note-se, mas perdido".
Descobri também na "Ideia de Política" de Giorgio Agamben (em "Ideia da Prosa", tradução de João Barrento, Cotovia, 1999), estas linhas:
«... Este abandono, este esquecimento divino, é, para lá de todo o castigo, a mais refinada das vinganças, aquela que o crente teme por ser a única irreparável, e face à qual o seu pensamento recua, aterrado: de facto, como será possível pensar aquilo de que a própria omnisciência divina já não sabe nada, aquilo que foi apagado para todo o sempre da memória de Deus? Daquele que é vítima deste abandono diz George Bernanos que ele está, "nem absolvido nem condenado, note-se, mas perdido".


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