Quarta-feira, Abril 12

UMAS PALAVRAS PARA PETER PAN

«Já não posso ir contigo, Peter. Já não sei voar, e ...
Wendy levantou-se e acendeu a luz: ele
lançou um grito de dor...
»
James Matthew Barrie, Peter Pan


Mas conheceremos outras primaveras, outros nomes cruzarão o céu — Jane, Margaret —. O desvio na rota, a visita à Ilha-Que-Não-Existe, está previsto no itinerário. Outros nomes cruzarão o céu, até serem chamados, um após outro, pela voz da senhora Darling (o barco pirata naufraga, Campanilla cai ao chão sem um grito, os Meninos Perdidos voltam o rosto às suas esposas ou metem as suas pastas de pele debaixo do braço, Billy o Tatuado sauda com cortesia, o senhor Darling convida-os a todos para o chá das cinco). As peles de animais, o pó mágico que necessitava da cumplicidade de um pensamento, é posto por trás do quadro negro, num quarto que lhes é destinado no nº 14 de uma rua de Londres, num quarto cuja luz agora ninguém acende. O senhor tem razão, senhor Darling, Peter Pan não existe, mas sim Wendy, Jane, Margaret e os Meninos Perdidos. Não há nada por trás do espelho, tranquilize-se senhor Darling, estava tudo previsto, chegarão todos pontualmente às cinco, ninguém faltará à mesa. Campanilla precisa de Wendy, as sereias de Jane, os Piratas de Margaret. Peter Pan não existe. «Peter Pan, não sabias? o meu nome é Wendy Darling». O rio deixou há muito tempo a verde planície mas segue o seu curso. Conhecer o Sul, as Ilhas, ajudar-nos-à, servirá para alguma coisa ao fim e ao cabo, durante o resto da semana. Wendy, Wendy Darling. Agora deixe de retorcer o bigode senhor Darling, Peter Pan não é mais do que um nome, um nome mais para pronunciar sozinho, em voz baixa, no quarto às escuras. Agora deixe de retorcer o bigode, tudo se resumirá a umas lágrimas, a um soluço apagado pela noite: está tudo em ordem, tranquilize-se, senhor Darling.

Leopoldo María Panero