Domingo, Abril 2

pequeno apontamento sobre a morte de Mouchette

Espérez plus d'espérance / Trois jours leur dit Colomb / En montrant le ciel immense...

Afinal andei por aí a pensar na morte de Mouchette — queria descobrir quando é que nos apercebemos da sua inevitabilidade — e dei-me conta que, quanto mais refletia nisto, mais recuava no filme. A morte não começa na queda repetida de Mouchette, isso é evidente, nem tão pouco no estertor das lebres que a antecede, nem sequer quando a velha lhe pergunta se já pensou na morte, nem no corpo inerte da mãe, nem na submissão apaixonada a Arsène, nem mesmo na genial cena da caça que abre a história. A morte de Mouchette está inscrita naquele primeiro plano do filme, que surge ainda antes do genérico como um prólogo. A mãe de Mouchette (e é a única vez que não a vemos deitada) está sentada, envolvida num xaile negro, tem um rasto de lágrimas no rosto mas não chora, diz apenas: "O que é que vai ser deles sem mim. É como se tivesse uma pedra no meu peito". Depois levanta-se e sai.

No entanto, creio que Mouchette só descobre a sua própria morte mais tarde. Depois da noite passada com Arsène, a noite do seu furacão, Mouchette chega a casa quase de madrugada, a mãe pede-lhe para dar o leite ao bebé. Não há fósforos para acender o lume e Mouchette tenta aquecer o biberão no seu corpo. O bebé chora, então ela senta-se com ele ao colo e dá-lhe o biberão. As lágrimas correm pelo seu rosto mas não se ouve nem um soluço, o seu corpo está sereno, não estremece. E aí, sem se saber muito bem como — é este um dos benditos mistérios de Bresson — a rapariga transforma-se, ou então somos nós que nos transformamos e vemos pela primeira vez como ela é bela e trágica*.