Segunda-feira, Janeiro 2

Insistir: começar o ano com Даниил Хармс

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Mas Harms iniste em ser poeta, em ler versos da sua poesia e em 1930 o Smena volta à carga: chama-lhe «inimigo da classe operária», chama à sua poesia «um acto de protesto contra a ditadura do proletariado». Como se não bastasse, a OBERIOU (Associação para uma Arte Real), que tem Daniil Harms como animador e funciona à margem da literatura «oficial», recebe um golpe de misericórdia: desfere-o a Polícia Secreta, que lhe bate à porta, que faz cara de poucos amigos e prende todos os seus membros.
Começa por haver um curto exílio intimidatório em Kursk. Harms sofre-o mas parece não ter emenda: de novo em Leninegrado desata a escrever prosa, textos curtos que invadem o quotidiano soviético transtornando-o até ao mais cruel dos absurdos. Antes de Ionesco, antes de Brecht, antes do Sr. Plume de Michaux, a personalidade de Harms soa — vertida em palavras — como novidade absoluta. Harms escolhe reconhecíveis situações do quotidiano, perturba-as com uma inesperada razão louca e deixa-as profundamente feridas, sem nenhuma saída, retidas numa armadilha que põe à mostra os lados mais secretos da consciência humana. No vocabulário da língua russa entra o adjectivo harmsiano, para designar situações de aparente não senso. O Poder olha com desconforto para este retrato do homem soviético espalhado em «papéis» que circulam discretamente de mão em mão, provocando entusiasmos e algum escândalo.
Houve logo quem dissesse que se tratava de uma situação «evidentemente fatal». E foi fatal em 23 de Agosto de 1941, o dia da detenção de Harms, o dia em que o internaram num hospital psiquiátrico. Harms morreu no ano seguinte.

excerto de Explicação que abre o livro "Crónicas da Razão Louca" de Daniil Harms, editado pela Hiena em Julho de 1994