Exercícios em volta de "Referência"
Pois muito bem. Considero este breve poema do Tom Raworth uma pequena maravilha. Enfim, manias. Ora, como não sei traduzir poemas, consultei leitores com nome no mercado e tradutores de renome.
Este é o poema original:
REFERENCE
this is the poem from which i quote
"this is the poem from which i quote".
Eis algumas sugestões de tradução.
Do Manuel Resende:
REFERÊNCIA
eis o poema donde cito
«eis o poema donde cito».
Ou ainda
REFERÊNCIA
eis [este é, é este] o poema de onde cito
«eis [este é, é este] o poema de onde cito»
Da Margarida Vale de Gato:
REFERÊNCIA
este é o poema de que eu cito
"este é o poema de que eu cito".
Do Rui Lage:
REFERÊNCIA
este é o poema de que cito
"este é o poema de que cito".
Do nosso leitor "of":
REFERÊNCIA
é deste poema que cito
"é deste poema que cito".
E da "lebre do arrozal":
REFERÊNCIA
eis o poema que cito
"eis o poema que cito".
E esta é a minha sugestão:
REFERÊNCIA
eis o poema em que eu cito
"eis o poema em que eu cito".
Este é o poema original:
REFERENCE
this is the poem from which i quote
"this is the poem from which i quote".
Eis algumas sugestões de tradução.
Do Manuel Resende:
REFERÊNCIA
eis o poema donde cito
«eis o poema donde cito».
Ou ainda
REFERÊNCIA
eis [este é, é este] o poema de onde cito
«eis [este é, é este] o poema de onde cito»
Da Margarida Vale de Gato:
REFERÊNCIA
este é o poema de que eu cito
"este é o poema de que eu cito".
Do Rui Lage:
REFERÊNCIA
este é o poema de que cito
"este é o poema de que cito".
Do nosso leitor "of":
REFERÊNCIA
é deste poema que cito
"é deste poema que cito".
E da "lebre do arrozal":
REFERÊNCIA
eis o poema que cito
"eis o poema que cito".
E esta é a minha sugestão:
REFERÊNCIA
eis o poema em que eu cito
"eis o poema em que eu cito".


16 Comments:
Reparo que todos os respondentes, menos o Rui Amaral e eu, eliminaram o "eu" do texto de partida, o que me parece um interessante ponto de discussão. De facto, a sintaxe inglesa da frase em causa não permite a eliminação do sujeito, ao passo que a portuguesa permite, uma vez que este é subsumido pela terminação verbal. Sucede que o Sr. Tom optou por violar a norma do inglês, ao colocar o seu sujeito em minúscula, veiculando assim a subordinação do "eu" à autoridade da referência. No entanto, esta opção, porque consiste num desvio, chama, ambiguamente, a atenção sobre esse "eu" apoucado. Pode lá transmitir-se esta nuance num poema que, de tão curto, não permite o recurso às famosas "estratégias de compensação"? Será, portanto, mais um exemplo de intraduzibilidade?
Bom dia para a gerência.
A melhor versão parece-me ser a de RMA. Eu faria apenas uma ligeira alteração, tentando aproximar a tradução da métrica do original:
é este o poema em que eu cito
"é este o poema em que eu cito"
Concordo que o "i" não seja suprimido em português, a minúscula evidencia a sua importância. Talvez para sublinhar a auto-citação e o carácter fechado, em espiral, do poema. Um poema do "eu" que apenas se consegue repetir a si próprio.
As melhores versões, para mim, são as do leitor "of" e do Rui Amaral, questões ontológicas (e sintácticas) à parte. Mas a versão ideal, de acordo com o meu gosto, seria a do Rui A., sem o pronome pessoal:
REFERÊNCIA
eis o poema em que cito
"eis o poema em que cito"
REFERÊNCIA
é por causa deste poema que eu pago as quotas
Versão do senhor Google:
REFERÊNCIA
isto é o poema de que eu cito
"este sou o poema de que eu cito".
Creio que esta tradução do Google tem também muito que se lhe diga.
Continuo também a achar que a melhor tradução é a do RMA que não sabe traduzir poemas, assim como Monsieur Jordan não sabia fazer prosa e os filhos de José Cabrera desconheciam os negócios do pai.
Quanto ao I minúsculo apenas assinalo à MVG que o autor não usa nem maiúsculas nem pontos. O "i" é apenas resultado desta regra mais geral, que, aliás, não é assim tão invulgar em poesia de língua inglesa. Não? Nada de muito novo nisto. A elisão de maiúsculas e pontuações em português basta para restituir o coiso, acho eu...
Elisão? EU disse elisão?
O kyrie eleyson!
...mmManel, não estou convencida. Concordo, é uma violação relativamente comum, só que não me parece que a explicação seja sempre a de o resto tb vir em minúsculas. E não queria chatear... mas o Tom tem lá um ponto final no fim da citação.
Como já disse ao Rui,e independentemente da legibilidade da sua tradução, creio que esta subverte o sentido do poema: o poema torna-se primário em relação à referência, ou fonte secundária, e penso que o jogo do Tom está precisamente em fazer o contrário. Acho eu.
Pruanto. Acontece o seguinte: o caso do "i" continua a parecer-me relativamente secundário, devido à major infringement da ortografia que consiste em pôr tudo em minúsculas.
Quanto ao sentido do poema eis o poema do qual eu cito eis o poema do qual eu cito, sinceramente, não me parece que valha muito esforço. Trata-se do consabido p(r)o(bl)ema da auto-referência, já tratado muito mais ironicamente desde o tempo do paradoxo do cretense:
«Estou a mentir», subentendendo-se esta frase é falsa. Modernamente, mais complicado temos o famoso:
«esta frase é indemonstrável». O poema do Tom diz-nos apenas:
«estou a falar verdade», ou «isto é mesmo isto». Só que agora o «isto» é um «poema» e fica:
«este é o poema que é este poema». Vem o "eu" e diz «este é meu poema que é o meu poema», ou
«este é o poema que eu fiz: este é o poema que eu fiz».
ou
«este é o poema que eu fiz:
este é o poema que eu fiz»
«este é o poema, e (eu) cito:
este é o poema, e (eu) cito»
«este é o poema que eu cito:
este é o poema que eu cito»
Continuo a achar muito melhor outra versão, mais escapatória:
este é o poema que eu não cito:
este é o poema que eu não cito.
Assim, sim, vogamos no mundo do indizível.
Por falar nisso, ainda não te retribuí os desejos de bom ano porque não consigo traficar a foto da Alice.
manel
Não tarda estamos a fazer epigramas sobre a careca do rei da França e o rato que roeu a rolha do Russell.
Mas prefiro o ângulo da Arendt apaixonada num poema que eu cá sei :)
"de que cito" - a dureza da oclusiva :(
"donde cito" - flui.
Claro que o Tom Raworth não inventou nada. Mas quem me dera ter sido eu a escrever isto.
Então escreve isto:
Estou a escrever um poema
e
não consigo.
Para a MVGato:
só uma coisa. é certíssimo que apontou uma falha na tradução do RMA (a questão da referência e tal: o poema aponta para *outro* poema e não é ele o ponto de partida).
é certo que não liguei a isso.
tem razão,
mas,
por
outro lado,
este é o poema de que eu cito
«este é o poema de que eu cito»
não faz tão sentido como isso. porque se eu cito desse poema segundo e o poema é esse, então o poema é toda a citação e a citação todo o poema. um tão catafórico este é demasiado. Bastaria dizer:
este é o poema que eu cito
«este é o poema que eu cito»
só que tinha aparentemente menos piada,
enfim,
se
estão tempos para piadas.
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