Terça-feira, Janeiro 31

A chinesa e o chinês

Por trás de uma janela com grades, uma mulher condenada a morrer à fome por infidelidade conjugal.

A Chinesa: Passam todos com indiferença. Será que já morri? Dê-me qualquer coisa de comer.
O Chinês: Teria muito prazer.
A Chinesa: Então porque não dá?
O Chinês: Por causa da desonra, da vergonha.
A Chinesa: Não fica bem mostrar piedade?
O Chinês: Para matar a fome? Humm. Mas, no fim de contas, a fome foi-lhe imposta pela lei.
A Chinesa: E não se atreve a ignorar a lei por amor ao próximo?
O Chinês: Era capaz de arriscar mas ao mesmo tempo sinto-me inclinado a dizer sim à lei e não ao risco. Sinto um desejo de me compadecer com a sua situação.
A Chinesa: De que me serve a sua comiseração? Ajude-me!
O Chinês: Ajudá-la é um crime, bem sabe, e eu não quero cometer um crime.
A Chinesa: E não acha uma imoralidade ver-me morrer?
O Chinês: Apesar de me custar vê-la sofrer, penso que o melhor é não falar nisso. Naturalmente na sua posição vê as coisas de outra maneira. Só lhe resta conformar-se com o seu destino, por outras palavras, resignar-se com a condenação à morte; eu confio num sentido de justiça que não me permite perdoar actos injustos.
A Chinesa: Tenho fome.
O Chinês: Acredito em si. Parece esfomeada. Mete-me pena vê-la assim, acredite. Mas porque é que foi infiel ao seu marido?
A Chinesa: Ele não me amava. Conheci outra pessoa...
O Chinês: Isso é simples demais. Compreendo-a. Ninguém deveria dizer "Eu compreendo-o". Sempre que possível, deviamos permanecer incompreensíveis. Não ser compreendido protege-nos.
A Chinesa: Tem razão.
O Chinês: Agora tem que ter paciência. Este mau bocado há-de passar.
A Chinesa: A sua boa vontade não me serve de nada. Vá falar com os juizes. Conte-lhes o que viu.
O Chinês: Eles vão dizer que a sua profissão é julgar sem piedade. São escolhidos para acreditarem na eficácia das suas sentenças.
A Chinesa: Que dia tão bonito. Devo entregar-me à morte porque me entreguei à vida?
O Chinês: Não se preocupe com isso.
A Chinesa: Vou tentar.
O Chinês: A sua resignação agrada-me. É tranquilizadora. Agora estou mais calmo. Parece que está a conformar-se com a sua situação. É absolutamente necessário que acredite em si própria. Tem fome, não é?
A Chinesa: Sim.
O Chinês: E não tem qualquer hipótese de se livrar da fome. A fome vai acompanhá-la o resto da vida. Por isso deve dizer sim à fome, sem hesitações e de boa vontade. Não tem escolha.
A Chinesa: Assim farei.
O Chinês: E vai ser capaz porque a isso é obrigada. Quando temos de fazer uma coisa, somos capazes de a fazer.
A Chinesa: É verdade.
O Chinês: Não pensava que fosse tão inteligente. Estou admirado.
A Chinesa: Já que fica contente por eu ser boa aluna, dê-me o seu apoio, ajude-me.
O Chinês: Nesse caso...
O Chinesa: Então? Vá lá, diga!
A Chinês: É difícil de dizer.
A Chinesa: Está a perder a presença de espírito.
O Chinês: Se lhe desse algo para comer, estaria a desviá-la do caminho que ainda agora tomou.
A Chinesa: Que caminho é esse?
O Chinês: O caminho da obediência até ao fim
A Chinesa: [enlouquece e assim se salva]
O Chinês: [decide afastar-se da janela]
A Chinesa: [pensa que a fome a acaricia enquanto diz] Sim, sim.

Claro que isto não conta a história toda. Quis tornar a cena mais cruel, mais implacável. Deixo a compaixão para outra altura. Mais ou menos oito dias depois ela morreu. Ao amante faltou coragem para a visitar. O marido traído viveu até aos oitenta anos. A maior parte das pessoas é terrivelmente boa. Tirei uma lição de todos estes exemplos e também me fiz bom. Vou para a cama cedo e cedo me levanto. Estou, creio, a caminho de me tornar útil à sociedade. Não me acham capaz de tal? Possuo as mais respeitáveis convicções.


Robert Walser (1925), traduzido (às três pancadas e sem autorização) do inglês (Susan Bernofsky) e cheio de vontade de se associar — ainda que com dois dias de atraso, mas o que são dois dias para um morto? — às comemorações do novo ano chinês.