Sábado, Dezembro 31
Sexta-feira, Dezembro 30
"Boris, porém, (...) desviou habilmente a conversa. Pediu que Rostov lhe contasse como e onde fora ferido. Contar a história, para Rostov, era agradável, pelo que se lançou no relato, animando-se cada vez mais à medida que falava. Narrou a sua batalha de Shoengraben daquela maneira típica dos participantes nas batalhas, ou seja, tal como gostariam que tivesse sido, ou tal como ouviram contar os outros, ou tal como era mais bonito de contar, mas nada da forma como as coisas se passaram na realidade. (...) Quando começou a falar, tinha a sincera intenção de relatar as coisas tal como tinham acontecido na verdade, mas, imperceptível, involuntária e inevitavelmente passou a fantasiar. Se ele tivesse dito a verdade aos ouvintes, pessoas que, como ele próprio, já tinham ouvido muitíssimos relatos de ataques, tendo formado uma noção do que era um ataque e esperando portanto por um relato idêntico, não acreditariam nele. (...) Aliás, também não podia dizer simplesmente que iam todos a trote, que ele caiu do cavalo, que fez uma luxação da mão e que fugiu a sete pés de um francês até à floresta. Além disso, para contar tudo tal e qual, teria de fazer um grande esforço mental. Contar a verdade é muito difícil, e os jovens poucas vezes são capazes de o fazer. O que os outros esperavam era o relato de como lhe fervia o sangue, de como investiu, desenfreado, contra o carré inimigo, de como rompeu por ele adentro, espadeirando à direita e à esquerda, de como o seu sabre provou a carne do inimigo, de como saiu extenuado, e coisas quejandas. Então, contou-lhes tudo isso."
Lev Tolstói, "Guerra e Paz", Vol I.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.
Lev Tolstói, "Guerra e Paz", Vol I.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.
Quinta-feira, Dezembro 29
E il paradiso?
«E o Paraíso? Existe um Paraíso?».
«Creio que sim, minha senhora, mas os vinhos doces
já ninguém os quer».
Eugenio Montale, "Poesia", tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, Junho 2004
«Creio que sim, minha senhora, mas os vinhos doces
já ninguém os quer».
Eugenio Montale, "Poesia", tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, Junho 2004
— Pour Bresson, ce n'est pas un péché de regarder une fille. Il a l'accord de Dieu, tu vois?
o que é que o sapateado tem a ver com Robert Bresson? Até tem, mas é num compasso mais obscuro. Não vou falar disso, nem sequer d' A Janela indiscreta", que revi por estes dias, porque o caminho entre Bresson e Hitchcook já está ocupado. O que interessa, o que verdadeiramente interessa, é que 2006 continuará a ser o ano de Robert Bresson.
Quarta-feira, Dezembro 28
Nenhum filósofo, incluindo Heidegger, foi capaz de falar sobre o Tempo com tanta propriedade como os velhotes nos autocarros.
Títulos dos livros de Efraim Medina Reyes
"Érase una vez el amor pero tuve que matarlo", "Técnicas de masturbación entre Batman y Robin" e "Sexualidad de la Pantera Rosa".
Não faço listas mas
o melhor concerto do ano foram dois!
Laurie Anderson: E eu estava a meio de uma longa conversa com uma amiga, que me dizia: “Quem te ensinou o que é a beleza?” E eu não soube responder. O que é a beleza, afinal? É uma coisa enorme, para além da razão? Ou é profunda e complicada? A resposta continuava a escapar-me, tornando-se cada vez mais remota. Como qualquer coisa off-off-off Broadway. Ou um tipo de sexo tão x-rated que é x-x-x-x-x-x-rated. Aquilo a que o Tom Waits chama “pessoas tão incrivelmente nuas que nem sequer têm pele.”
Laurie Anderson: E eu estava a meio de uma longa conversa com uma amiga, que me dizia: “Quem te ensinou o que é a beleza?” E eu não soube responder. O que é a beleza, afinal? É uma coisa enorme, para além da razão? Ou é profunda e complicada? A resposta continuava a escapar-me, tornando-se cada vez mais remota. Como qualquer coisa off-off-off Broadway. Ou um tipo de sexo tão x-rated que é x-x-x-x-x-x-rated. Aquilo a que o Tom Waits chama “pessoas tão incrivelmente nuas que nem sequer têm pele.”
Corps

Une des premières approches de Bresson consiste à révéler l’âme de ses personnages par le visage, les mains, la peau. Bresson, ancien peintre, rejoint ainsi tout un pan de la peinture du XVIème. Ernst Gombrich dans son Histoire de l’art, parle ainsi de Holbein : «En vieillissant, à mesure que son art se perfectionne, il renonce à de tels artifices (caractérisation du modèle par son entourage, par des détails, des accessoires). Il préfère s’effacer pour que rien ne vienne distraire l’attention du modèle lui même (…) Ces portraits de Holbein n’ont rien de dramatique, et ne tendent pas à l’éclat. Mais plus nous les regardons, plus nous avons l’impression de pénétrer le caractère et la personnalité du modèle.» Une immense attention est portée aux corps. Le corps est une sorte de miracle auquel l’âme est accrochée. Jeanne ne craint pas la mort mais refuse les flammes : «Je veux bien mourir. Mais je ne veux pas qu’on me brûle, je ne veux pas qu’on me mette en cendres.» Injonction à laquelle répond cette sentence de Warwick au bourreau : «Je ne veux plus voir un seul cheveu. Plus rien.» Bresson rappelle à ce propos une phrase de Léonard de Vinci dans ses cahiers, où il dit «qu’avant de mourir, l’âme pleure parce qu’elle va se séparer de cette merveille qu’est notre corps.» Il y a une véritable fascination de Robert Bresson pour la jeunesse qui rejoint cette fascination pour le corps. Ses modèles sont d’une grande sensualité. Déjà dès Les Dames du bois de Boulogne, Cocteau remarque «un film d’intimité tragique, un film de visages.» La Jeanne de Bresson diffère complètement de celle de Dreyer (les deux films sont basés sur les minutes du procès) par le regard. Quand la Jeanne de Dreyer lève constamment les yeux au ciel, témoignant par là d’une élévation spirituelle, d’une illumination, la Jeanne de Bresson a le regard baissé vers le sol, reliée en cela au monde, concrète et vivante. Les gestes de Michel dans Pickpocket, leur répétition inlassable, mécanique qui marque une aliénation, un emprisonnement, valent mille discours intérieurs. Ces corps, ces gestes, ce sont les modèles de Bresson qui les incarnent.
retirado de dvd classik
Depois de uma Ostra com Henri Michaux não me resta outra alternativa: procurar o homem austero e infinito.
RUMO AO HOMEM
Um sábio ser, um dia, veio e instruiu-nos a nós, os ignorantes.
Ensinou-nos a falar. Antes só sabíamos cantar.
Foi uma tentação. Com certeza devíamos aceitar. Agora todos sabemos falar, após alguns anos de infância e balbucios. Mas agora já não somos como dantes. Já não é aquele encanto.
Faziam-se coisas. Havia empresas, reuniões, obras, preparações rumo ao futuro. Tínhamos árvores. De quase tudo se ocupava ele. Outrora governava-nos. Não precisávamos de querer, de decidir. Ainda podíamos folgar. Desapareceu, sem conseguirmos perceber.
Agora tudo nos incumbe a nós, e ele deixa andar, já não se interessa.
É como se não desse por nada.
Não foi a primeira vez que ele se desligou.
A seu ver, é certo não sermos aceitáveis, nem sequer muito interessantes. Os nossos pais-predecessores sabiam interessá-lo. Eles sim, sabiam o que se impunha para não ficarem sozinhos, fazendo-o voltar. Nós porém não sabemos, não demos com o meio necessário.
Dantes uma música unia-nos. Uma música que nos fora dada para isso, para a ele voltarmos, para voltarmos ao ser tão importante que podia governar-nos a terra que era nossa. Uma certa música. Essa música, que nos fora legada para ser o elo, voltava a pô-lo em contacto com a gente. Mas foi perdida.
Alguns de nós deixam a tribo para ir viver com os animais selvagens. Nós deixamo-los ir.
Os animais selvagens não os aceitam. Não se deixam enganar por inclinações tumultuosas, por meras intenções.
Deste lado o fosso é grande e largo, um fosso que actualmente não pode ser coberto.
Porque nós não somos animais. Embora de certo modo ainda não sejamos homens perfeitamente. Havemos de sê-lo. Convém não desesperar. Já o fomos. Fomo-lo em tempos recuados. Ao mesmo tempo que esses que hoje em dia nos bosques e na savana inteiramente voltaram a ser animais, mas respeitamo-los. Vedamo-nos vigiar as suas vidas ou indagar seja o que for sobre essas vidas, o que desta ou daquela maneira talvez os humilhasse.
Porque, apesar de termos ficado, quanto a nós, mais de meios-homens sobretudo no aspecto, e por isso à frente dessas vidas, é de recear e é possível que só depois delas de novo nos tornemos homens completos e verídicos. Não se pode saber. Não se pode ter a certeza. Gabar-se a gente disso não cairia bem.
Por enquanto, a quatro patas ou de outro jeito, na floresta, em tocas, elas aguardam o seu longínquo futuro de homens, com grande dignidade, com uma dignidade exemplar.
Henri Michaux, textos extraídos de Chemins cherchés Chemins perdus Transgressions, Gallimard, Paris, 1981, tradução de Júlio Henriques, um de dois poemas publicados na revista Utopia
RUMO AO HOMEM
Um sábio ser, um dia, veio e instruiu-nos a nós, os ignorantes.
Ensinou-nos a falar. Antes só sabíamos cantar.
Foi uma tentação. Com certeza devíamos aceitar. Agora todos sabemos falar, após alguns anos de infância e balbucios. Mas agora já não somos como dantes. Já não é aquele encanto.
Faziam-se coisas. Havia empresas, reuniões, obras, preparações rumo ao futuro. Tínhamos árvores. De quase tudo se ocupava ele. Outrora governava-nos. Não precisávamos de querer, de decidir. Ainda podíamos folgar. Desapareceu, sem conseguirmos perceber.
Agora tudo nos incumbe a nós, e ele deixa andar, já não se interessa.
É como se não desse por nada.
Não foi a primeira vez que ele se desligou.
A seu ver, é certo não sermos aceitáveis, nem sequer muito interessantes. Os nossos pais-predecessores sabiam interessá-lo. Eles sim, sabiam o que se impunha para não ficarem sozinhos, fazendo-o voltar. Nós porém não sabemos, não demos com o meio necessário.
Dantes uma música unia-nos. Uma música que nos fora dada para isso, para a ele voltarmos, para voltarmos ao ser tão importante que podia governar-nos a terra que era nossa. Uma certa música. Essa música, que nos fora legada para ser o elo, voltava a pô-lo em contacto com a gente. Mas foi perdida.
Alguns de nós deixam a tribo para ir viver com os animais selvagens. Nós deixamo-los ir.
Os animais selvagens não os aceitam. Não se deixam enganar por inclinações tumultuosas, por meras intenções.
Deste lado o fosso é grande e largo, um fosso que actualmente não pode ser coberto.
Porque nós não somos animais. Embora de certo modo ainda não sejamos homens perfeitamente. Havemos de sê-lo. Convém não desesperar. Já o fomos. Fomo-lo em tempos recuados. Ao mesmo tempo que esses que hoje em dia nos bosques e na savana inteiramente voltaram a ser animais, mas respeitamo-los. Vedamo-nos vigiar as suas vidas ou indagar seja o que for sobre essas vidas, o que desta ou daquela maneira talvez os humilhasse.
Porque, apesar de termos ficado, quanto a nós, mais de meios-homens sobretudo no aspecto, e por isso à frente dessas vidas, é de recear e é possível que só depois delas de novo nos tornemos homens completos e verídicos. Não se pode saber. Não se pode ter a certeza. Gabar-se a gente disso não cairia bem.
Por enquanto, a quatro patas ou de outro jeito, na floresta, em tocas, elas aguardam o seu longínquo futuro de homens, com grande dignidade, com uma dignidade exemplar.
Henri Michaux, textos extraídos de Chemins cherchés Chemins perdus Transgressions, Gallimard, Paris, 1981, tradução de Júlio Henriques, um de dois poemas publicados na revista Utopia
Has anyone ever tried putting on a costume to be a real Superhero?
"Are there people out there that actually wear spandex outfits and actually go around trying to fight crime?
Sadly, the answer is yes."
Sadly, the answer is yes."
Terça-feira, Dezembro 27
No Dias Felizes publicamos muita poesia porque estamos firmemente empenhados em contribuir para a riqueza da nação, gerando capital social.
O curso geral dos acontecimentos
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Shame Dean
Nunca
amor
me
abraçaste
com
tanta
força
como
agora
que
estamos
a
cair
da
moto
Lorenzo Helguero
(Peru, 1969)
SHAME DEAN//Nunca/amor/me/has/abrazado/tan/fuerte/como/ahora/que/nos/estamos/cayendo/de/la/moto
amor
me
abraçaste
com
tanta
força
como
agora
que
estamos
a
cair
da
moto
Lorenzo Helguero
(Peru, 1969)
SHAME DEAN//Nunca/amor/me/has/abrazado/tan/fuerte/como/ahora/que/nos/estamos/cayendo/de/la/moto
da devoção

Robert Bresson fala pouco*, devagar. Escolhe as palavras como se fossem frutos maduros. Está sentado, muito direito, parece um cientista ou um poeta; um dos mais raros e mais belos poetas. Tudo o que diz surge como uma evidência, como se não pudesse ser de outra forma. Responde às perguntas do jornalista, explica lentamente o que é o cinematógrafo, porque é que utiliza modelos e não actores (e não é ele pintor?), porque é que a verdadeira arte deve surgir da justaposição (e é isso mesmo que ele quer dizer: uma posição justa, a única) das imagens e não do interior, do excesso de cada um delas. Nada a mais, apenas o necessário. Uma imagem que se relaciona com outra, o som, o silêncio, os gestos. Não a naturalidade mas a natureza. Há uma certa luz no seu rosto. Eu acredito em Bresson.
___________
* no programa de televisão Pour le Plaisir de 11 de Maio de 1966 dedicado a Au Hasard Balthazar, que acompanha a edição em DVD da Criterion
Vejo um pássaro imóvel na goteira,
pode parecer um pombo mas é mais esguio
e tem um vago tufo na cabeça ou talvez seja o vento,
quem poderá sabê-lo, as janelas estão fechadas.
Se também tu o vês, quando te acordam
os motores dos barcos, isto é tudo quanto
nos é dado saber sobre a felicidade.
Tem um preço demasiado alto, não é para nós e quem a tem
não sabe o que fazer com ela.
Eugenio Montale, "Poesia", tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, Junho 2004
pode parecer um pombo mas é mais esguio
e tem um vago tufo na cabeça ou talvez seja o vento,
quem poderá sabê-lo, as janelas estão fechadas.
Se também tu o vês, quando te acordam
os motores dos barcos, isto é tudo quanto
nos é dado saber sobre a felicidade.
Tem um preço demasiado alto, não é para nós e quem a tem
não sabe o que fazer com ela.
Eugenio Montale, "Poesia", tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, Junho 2004
Comboios no céu
Uma nuvem após outra, após outra, após outra, após outra, após outra. Correndo para a próxima estação.
não mostrar nada
Jornalista: Há algo de bastante perturbador, obscuro e ambíguo na relação de Marie com Balthazar...
Robert Bresson: É amor com um objecto não muito claro. Os adolescentes podem apaixonar-se por algo muito vago, muito indefinido. O amor precisa de ter um objecto. O objecto de amor dela não é o burro. Penso que o burro é apenas um intermediário.
Anne Wiazemsky: Eu acho que é uma manifestação de ternura... talvez mesmo de amor, talvez. No fim de contas, é comum enfeitar os animais que estimamos com flores.
Jornalista: Mas não de noite...
Anne Wiazemsky: Porque não, se estivermos acordados?
Robert Bresson: A grande dificuldade é que toda a arte é abstracta e sugestiva ao mesmo tempo. Não é preciso mostrar tudo. Quando mostramos tudo, deixa de ser arte. A grande dificuldade no cinematógrafo é precisamente não mostrar. O ideal seria não mostrar nada mas isso é impossível.
pequeno excerto do programa de televisão Pour le Plaisir de 11 de Maio de 1966 dedicado a Au Hasard Balthazar
Robert Bresson: É amor com um objecto não muito claro. Os adolescentes podem apaixonar-se por algo muito vago, muito indefinido. O amor precisa de ter um objecto. O objecto de amor dela não é o burro. Penso que o burro é apenas um intermediário.
Anne Wiazemsky: Eu acho que é uma manifestação de ternura... talvez mesmo de amor, talvez. No fim de contas, é comum enfeitar os animais que estimamos com flores.
Jornalista: Mas não de noite...
Anne Wiazemsky: Porque não, se estivermos acordados?
Robert Bresson: A grande dificuldade é que toda a arte é abstracta e sugestiva ao mesmo tempo. Não é preciso mostrar tudo. Quando mostramos tudo, deixa de ser arte. A grande dificuldade no cinematógrafo é precisamente não mostrar. O ideal seria não mostrar nada mas isso é impossível.
pequeno excerto do programa de televisão Pour le Plaisir de 11 de Maio de 1966 dedicado a Au Hasard Balthazar
Robert Bresson: Acredito na musa do cinema. Degas dizia: "As musas não falam entre si, elas dançam juntas".
no programa de televisão Pour le Plaisir de 11 de Maio de 1966 dedicado a Au Hasard Balthazar
no programa de televisão Pour le Plaisir de 11 de Maio de 1966 dedicado a Au Hasard Balthazar
Segunda-feira, Dezembro 26
HOMENAJE A RAFAEL SANZIO
Señor
Ten Merced
De mi hijo
Porque él es epiléptico
Y sufre horrendamente
Porque muchas veces
Cae al agua
Y otras
Sobre el fuego
Y yo lo llevé
A tus discípulos
Mas ellos nada pueden
Este fue el último cuadro
De Rafael Sanzio
Antes de su muerte
El viernes santo de 1520
A la edad de 37
Luis Hernández
(Perú, 1941-1977)
Ten Merced
De mi hijo
Porque él es epiléptico
Y sufre horrendamente
Porque muchas veces
Cae al agua
Y otras
Sobre el fuego
Y yo lo llevé
A tus discípulos
Mas ellos nada pueden
Este fue el último cuadro
De Rafael Sanzio
Antes de su muerte
El viernes santo de 1520
A la edad de 37
Luis Hernández
(Perú, 1941-1977)
Na ponta da língua
"Eckermann possuia um carácter tranquilo e era bondoso. Vivia com simplicidade dada a sua pobreza crónica. Amante da ornitologia, tinha a sua modesta casa cheia de gaiolas com pássaros e alguns andavam soltos pelas divisões. Uma manhã, quando ia para calçar as botas, descobriu que uma delas albergava um ninho com ovos. Como não tinha outro par, optou por ficar em casa durante mais de uma semana até que os pássaros rompessem a casca."
O suplemento Babelia desta semana, inclui, como já é habitual, vários textos de leitura obrigatória. Esta breve passagem, que decidi traduzir para português, foi retirada do artigo de Luis Claros dedicado a Johann Peter Eckermann.
O suplemento Babelia desta semana, inclui, como já é habitual, vários textos de leitura obrigatória. Esta breve passagem, que decidi traduzir para português, foi retirada do artigo de Luis Claros dedicado a Johann Peter Eckermann.
Adolf Wöflli
À Waldau, peut-être a-t-il croisé le peintre Wölffli qui devait mourir l'année suivante. À l'inverse de Walser, c'est à l'asile que cet anonyme, devenu aujourd'hui célèbre, a realisé la plus grande partie de son oeuvre, plus de mille dessins ainsi que des poèmes.
Le Vagabond Immobile, Robert Walser" de Marie-Louise Audibert, Gallimard
Le Vagabond Immobile, Robert Walser" de Marie-Louise Audibert, Gallimard
Le vagabond immobile
Ofereceram-me um livro sobre Walser, uma espécie de biografia. Li-o no fim-de-semana. Se pudesse, desfazia a história toda e eliminava para sempre Waldau e Herisau.
"Quanto mais avançava para as posições mais próximas do inimigo, tanto mais alinhadas e animadas se lhe apresentavam as tropas. (...) Chegado à linha da frente, o príncipe Andrei pôs-se a andar ao longo dela. As linhas, a nossa [russa] e a francesa (...) estavam tão perto uma da outra que os soldados podiam ver as caras dos inimigos e falar com eles. Além dos soldados que aqui tinham tomado posição, havia muitos curiosos de um lado e do outro que, galhofando, observavam os estranhos e desconhecidos adversários. (...) O oficial russo [Dólokhov] falava fogosamente com um granadeiro francês. (...) Falavam, evidentemente, da campanha. O francês tentava provar, confundindo os austríacos com os russos, que os russos se tinham entregado e entrado em fuga a partir já de Ulm; Dólokhov replicava que os russos não se entregavam, mas que iam bater os franceses.
- Mandaram-nos para aqui para corrermos convosco, e é isso que vamos fazer - dizia Dólokhov.
- Tendes é de ter cautela em não caírdes nossos prisioneiros, juntamente com os vossos cossacos - disse o granadeiro.
Os espectadores franceses riram-se. (...)
- Bonaparte... - ia lançar-se Dólokhov, mas o francês interrompeu-o:
- Não há cá Bonaparte. Há o imperador! Sacré nom... - gritou o francês com zanga.
- Pr'o diabo o vosso imperador!
E Dólokhov praguejou grosseiramente, como um soldado e, pondo a espingarda ao ombro, afastou-se.
- Isso é que é falar francês - disseram os soldados [russos] da linha. - Agora tu, Sídorov!
Sídorov piscou um olho e, dirigindo-se aos franceses, começou a metralhar palavras incompreensíveis.
- Cari, malá, tafá, safi, muter, cascá - arremedava ele, dando umas entoações muito expressivas à sua lengalenga.
- Ho, ho, ho! Há, há, há! Hu, hu! - explodiram as gargalhadas entre os soldados, umas gargalhadas tão saudáveis e alegres que contagiaram involuntariamente os franceses da linha oposta; depois disto, parecia que só restava descarregar as espingardas, fazer explodir os projécteis e ir toda a gente para casa.
Mas as espingardas continuaram carregadas, as seteiras das casas e fortificações continuavam a ser olhos ameaçadores, e os canhões, retirados dos seus jogos dianteiros, continuavam apontados."
Lev Tolstói, "Guerra e Paz", Vol I.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.
- Mandaram-nos para aqui para corrermos convosco, e é isso que vamos fazer - dizia Dólokhov.
- Tendes é de ter cautela em não caírdes nossos prisioneiros, juntamente com os vossos cossacos - disse o granadeiro.
Os espectadores franceses riram-se. (...)
- Bonaparte... - ia lançar-se Dólokhov, mas o francês interrompeu-o:
- Não há cá Bonaparte. Há o imperador! Sacré nom... - gritou o francês com zanga.
- Pr'o diabo o vosso imperador!
E Dólokhov praguejou grosseiramente, como um soldado e, pondo a espingarda ao ombro, afastou-se.
- Isso é que é falar francês - disseram os soldados [russos] da linha. - Agora tu, Sídorov!
Sídorov piscou um olho e, dirigindo-se aos franceses, começou a metralhar palavras incompreensíveis.
- Cari, malá, tafá, safi, muter, cascá - arremedava ele, dando umas entoações muito expressivas à sua lengalenga.
- Ho, ho, ho! Há, há, há! Hu, hu! - explodiram as gargalhadas entre os soldados, umas gargalhadas tão saudáveis e alegres que contagiaram involuntariamente os franceses da linha oposta; depois disto, parecia que só restava descarregar as espingardas, fazer explodir os projécteis e ir toda a gente para casa.
Mas as espingardas continuaram carregadas, as seteiras das casas e fortificações continuavam a ser olhos ameaçadores, e os canhões, retirados dos seus jogos dianteiros, continuavam apontados."
Lev Tolstói, "Guerra e Paz", Vol I.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.
Los magos perdidos
"Alrededor de las cuadras y los corrales, se habían refugiado muchos forasteros pobres, numerosas familias sin hogar. Nunca olvidaré la estrella brillando tan cercana sobre los míseros cobijos improvisados. Nunca olvidaré el asombro de los harapientos ante los jaeces lujosos de los camellos y las ropas doradas de la comitiva. Nunca olvidaré las idas y venidas de los Reyes desorientados, incapaces de encontrar al Niño entre tantos recién nacidos que lloraban bajo la helada."
José María Merino
José María Merino
Domingo, Dezembro 25
Der Schnee
La ville entière est cette nuit
une splendeur blanche de conte.
Doucement je suis sorti
dans la neige, la neige appliquée
pour à l’air libre
lancer des youpis à tue-tête.
Après tout j’invente ainsi des notes;
pour ces hommes distingués dont je veux être
il ne convient pas de crier sa joie de vivre.
De cela se préoccupent les rustres
qui ne se plient pas aux douces prières.
Ainsi j’allais donc vraiment très
doucement à travers l’éclat absent de la lune,
car il neigeait. La neige n’est pas dure,
bien plutôt tendre, humide et molle;
Les flocons qui tombent
sont caressants plus que secs.
C’est comme s’ils embrassaient
quelqu’un et comme s’ils le savaient,
comme si la première et douce neige savait
qu’elle ne fait pas mal aux petites joues
qu’elle effleure de son écume.
Si je ne me trompe,
mon étrange manière casanière m’a permit
d’attraper un beau tableau d’hiver!
Robert Walser, traduzido por Olivier Fressard
une splendeur blanche de conte.
Doucement je suis sorti
dans la neige, la neige appliquée
pour à l’air libre
lancer des youpis à tue-tête.
Après tout j’invente ainsi des notes;
pour ces hommes distingués dont je veux être
il ne convient pas de crier sa joie de vivre.
De cela se préoccupent les rustres
qui ne se plient pas aux douces prières.
Ainsi j’allais donc vraiment très
doucement à travers l’éclat absent de la lune,
car il neigeait. La neige n’est pas dure,
bien plutôt tendre, humide et molle;
Les flocons qui tombent
sont caressants plus que secs.
C’est comme s’ils embrassaient
quelqu’un et comme s’ils le savaient,
comme si la première et douce neige savait
qu’elle ne fait pas mal aux petites joues
qu’elle effleure de son écume.
Si je ne me trompe,
mon étrange manière casanière m’a permit
d’attraper un beau tableau d’hiver!
Robert Walser, traduzido por Olivier Fressard






