Sábado, Dezembro 24

o mundo

Jean-Luc Godard é especialista em descrever os meus filmes numa única frase. Podia fazer um roteiro seguindo as suas pistas cinéfilas. Mas onde eu quero chegar é ao documentário que acompanha a edição da Criterion de "Au Hasard Balthazar". Entre outras coisas inteligentes, Godard diz que a obra-prima de Bresson é o mundo em noventa minutos.

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Sexta-feira, Dezembro 23

Cuidado com o gato

Claro que alguns dos artigos da Wikipedia são puras invenções. Não é de admirar. Ainda ninguém conseguiu provar que Jorge Luís Borges está realmente morto.

Post sobre não sei quê

Certos versos, num poema, funcionam como uma espécie de bibelôs – pequenos detalhes que adornam um tanto a composição.
Por exemplo, há versos que parecem jarras e outros que lembram escudelas. Como este: “O crepúsculo é a hora dos gatos.” Ou este: “E o nosso leito é um peixe voador.”
I'm dreaming of a blue Christmas


fotografia de Carla Carvalho

Quinta-feira, Dezembro 22

No Lido, Veneza
um velho com uma cesta de pedras,
aconteceu, disse a mais idosa dama, quando os trajes de praia
eram mais compridos,
e se o vento vinha, o velho punha uma pedra.

Pound, Canto XLVIII.

e agora vou para o Pólo Norte com o John Wayne

Against Winter

The truth is dark under your eyelids.
What are you going to do about it?
The birds are silent; there's no one to ask.
All day long you'll squint at the gray sky.
When the wind blows you'll shiver like straw.

A meek little lamb you grew your wool
Till they came after you with huge shears.
Flies hovered over open mouth,
Then they, too, flew off like the leaves,
The bare branches reached after them in vain.

Winter coming. Like the last heroic soldier
Of a defeated army, you'll stay at your post,
Head bared to the first snow flake.
Till a neighbor comes to yell at you,
You're crazier than the weather, Charlie.

Charles Simic


William Klein | Theater Tickets, New York | 1955

Quarta-feira, Dezembro 21

William Klein

Não há regras, não há proibições, não há limites.

o primeiro postulado de Euclides

Por um lado, a minha ideia de presente-mais-que-perfeito aproxima-se muito da maçã que o míudo oferece a Lilian Gish n' A Sombra do Caçador. Por outro lado, não.

Informação ao consumidor

O "Almocreve das Petas", de José Daniel Rodrigues da Costa, está à venda na Livraria Chaminé da Mota (Rua das Flores, Porto), por €37,50.

intenso muito acentuado



Os diálogos de Saraband são magníficos. No entanto, ontem, ao rever o filme, reparei que duas das sequências de que mais gosto não têm palavras. A primeira é a fuga de Karin, contada em flashback na terceira cena, a Marianne. Depois de lutar com o pai, Karin sai porta fora, em camisa de dormir, com umas botas de cano calçadas, e corre pela floresta (como a Karin d' A Fonte da Virgem) e tropeça e cai. A outra é quase no fim, no epílogo, quando Marianne recorda o último encontro com a sua filha. Estão as duas sentadas num quarto de um hospital, Marianne faz uma festa a Martha e ela, por um breve momento, abre os olhos. Os rostos das duas mulheres e o silêncio fazem lembrar Persona. Mas o que se passa nestas duas sequências é muito mais do que eu possa perceber ou explicar. Aliás, é para isso que serve o cinema, para substituir as palavras que não existem ainda. Como a música. Bergman ao lado de Bach.

Karin, Marianne, e uma mesa cheia de cogumelos

— Conhece a Sonata de Paul Hindemith para violoncelo, opus 25?
— Não percebo nada de música.
— Ele quer que faça a audição com ela. É tão difícil.
— E ele que acha?
— Como é que ficava antes de lhe vi o período?
— Um monstro pré-menstrual. Ia para a cama dormir como um anjo e acordava como um demónio.
— O meu cérebro fica uma papa. E custa-me acordar. O papá é uma pessoa madrugadora.
— E esta manhã tiveste uma aula?
— Usei o pijama como protesto. E bocejei um pouco. Estávamos no quarto andamento. O raio do Hindemith escreveu: Quaternário intenso sem expressão e Pianíssimo contínuo. Percebe?
— Parece difícil, de qualquer jeito.
— Ali estava eu com o cérebo em papa a tentar ser "intensa sem expressão". Supliquei-lhe para me deixar em paz, mas ele estava impossível. Ele fez-me tocar a mesma coisa pelo menos uma vinte vezes! Por fim, eu disse muito calmamente: "Não quero saber de nada disto". Disse-lhe que aquilo não era nada uma aula, que era uma tortura animal. Ele também ficou zangado, mas riu-se e disse que devíamos tentar o início, onde diz: intenso muito acentuado, com arcada permanente. Mas estava tão fula que não consegui e ele disse que foi de propósito. Eu disse-lhe que ele não sabia ensinar o que foi injusto da minha parte. O papá é o professor mais paciente, sensível e cuidadoso que há. Ele disse não ter nada a ver com ensinar, mas com vontade e disciplina, e que eu era preguiçosa. Que eu era preguiçosa! Eu levantei-me e pus o violoncelo de lado, porque estava a tremer. Disse-lhe que por hoje chegava e queria dar um passeio sozinha. Ele ficou pálido. Nunca o tinha visto assim. E ele disse "Não sais desta sala". Eu calcei as botas e dirigi-me para a porta. Não o ouvi vir atrás de mim, mas ele agarrou-me pelos ombros...

Ingmar Bergman, Saraband


Abelardo Morell, "Two Open Books: Ellen Ternan and Charles Dickens", 2000.
"O comandante tinha o ar da pessoa que estava a levar a cabo com êxito uma das mais solenes realizações da sua vida. Passeava diante das fileiras e, a andar, dava uns estremeções com o corpo, arqueando ligeiramente as costas para trás. Via-se que o comandante observava com prazer o seu regimento, que estava contente com ele e que todas as suas forças espirituais se concentravam exclusivamente no regimento; apesar disso, o seu andar estremecido parecia manifestar, além dos interesses militares, que uma parte suficiente da sua alma se dedicava à vida social e ao sexo feminino."

Lev Tolstói, "Guerra e Paz", Vol I.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

Terça-feira, Dezembro 20

Den 20. Jänner ging Lenz durchs Gebirg

Este livro escapou à mão habilidosa de Mário Santos mas não escapou à minha. É um dos livros de 2005.

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Depois de cada maré baixa, Neptuno leva a mão às costas e queixa-se do reumatismo.
Das letzte Wort: Augenblick

Os Apressados

Wir sind die Treibenden
(in: Die Sonette an Orpheus, erster Teil n.º XXII)

Os apressados
somos
mesmo sem querermos

Corremos empurrados
como água que se despenha
duma alta cascata

Caindo
a água paira um instante no ar
abrindo o prisma
de um breve arco-íris
e depois prossegue
esquecida do voo

Para quê o voo
a queda
a flor?

Onde o repouso?

Há uma benção divina
no esquecimento


Ana Hatherly, Rilkeana, Assírio & Alvim, Novembro 1999

Higanbana

a magia do Natal já chegou ao blogue

Reparem bem na indumentária vermelha. O Pai Natal não é o lobo mau que deu cabo da avó e da menina naquele bosque escuro? ...

ele também é um organizador de roupeiros

Óscar Faria: O nome de Fernando Pessoa já surgiu num dos seus trabalhos...
Thomas Hirschhorn: Nos cachecóis...

[retirado da entrevista do Púlico, 4.11.2005, página 42]

Cabeça nas nuvens

O sol tropeçou do outro lado e veio cair de cabeça deste lado do mundo.
Agora, a manhã está cheia de dentes partidos.

O dom da palavra

Esta noite, na televisão, dois “grandes vultos da pátria” vão trocar umas ideias sobre o futuro de Portugal. O dicionário diz que a palavra "vulto" é um substantivo que significa "figura pouco nítida". Mas também "estátua", "volume", "massa". Para além de outros significados menos sérios. Portanto, um momento de televisão a não perder.

Segunda-feira, Dezembro 19

A great family Christmas film



Luis Miguel Cintra faz de caçador. O filme está na Venda de Natal da Atalanta, no Monumental. Custa cinco euros.
"Eu disse 'vamos falar de religião'.
Disse o cameleiro: 'devo ordenhar meu camelo.'
Então, quando ele acabou de ordenhar seu camelo eu disse:
'vamos falar de religião'.
E disse o cameleiro: 'é hora de beber leite.'
'Não quer um pouco?' Por delicadeza tentei acompanhá-lo.
'Já provou o leite de um camelo?'
Eu era incapaz de beber leite de camelo. 'Nunca fui capaz.'
Então ele bebeu todo o leite, e eu disse: 'vamos falar de religião.'
'bebi meu leite, devo dançar', disse o cameleiro.
Não falamos sobre religião."

Pound, Canto XLVI.

Sumário

de Contraluz

Quando desceram o enforcado do patíbulo, os seus olhos ainda não tinham perdido o brilho. Depressa o carrasco tratou de os fechar. No entanto, os circunstantes tinham-se apercebido disso e baixaram os olhos de vergonha.
Mas, nesse momento, o patíbulo julgou ser uma árvore, e como ninguém tinha os olhos abertos, não é possível comprovar se, de facto, ele também não o terá sido.

Paul Celan, Arte poética (O Merediano e outros textos), tradução de João Barrento, Cotovia, 1996

Writer, writer, give us a thong

"Every so often an idea comes along of such limpid obviousness that you wonder how it is possible no one thought of it before: I refer, of course, to the newly launched Lady Chatterley range of exotic lingerie.

The range is being sold by the Ann Summers sex shop under the slogan “not to be banned”, and includes a variety of erotic underwear in tasteful purple and pink, with bows, ribbons and plenty of whalebone stays; there is also a matching blindfold."

Continua...



Lev Tolstói com familiares, por volta de 1880.

Domingo, Dezembro 18

de Contraluz

Era Primavera, e as árvores voaram para os seus pássaros.

Paul Celan, Arte poética (O Merediano e outros textos), tradução de João Barrento, Cotovia, 1996

palavras cruzadas

Em "Um dia ideal para o Peixe-Banana" Seymour oferece a Muriel um livro do "único grande poeta do século". Jeder Engel ist schrecklich

No livro Rilkeana" (Assírio & Alvim, Novembro 1999) Ana Hatherly traduziu o primeiro verso de Die Engel assim: Todos têm uma boca lassa. Extraordinário!

Isto foi o que Robert Walser escreveu sobre Hölderlin: "I am convinced that Hölderlin was not that unhappy in his last thirty years, as the professors of literature want to make us believe. Being allowed to dream in a modest nook without being obliged to fulfill permanently all the demands of the world is surely not a martyrium. People only like to see it this way." Claro que ele está a falar de Hölderlin, não digo que não...

Lektion 17

Mischmasch — aprendi a palavra há duas ou três aulas, é um substantivo masculino, pode traduzir-se por "mixórdia". Não sei a sua origem mas é formidável; pelo som percebe-se a confusão que descreve. É das minhas, se assim posso dizer, aliás, é a palavra perfeita para explicar a forma como me relaciono com a literatura: "anda tudo emaranhado e aos tombos dentro da minha cabeça".


[Mischmasch também é isto. Faz todo o sentido]