— Conhece a Sonata de Paul Hindemith para violoncelo, opus 25?
— Não percebo nada de música.
— Ele quer que faça a audição com ela. É tão difícil.
— E ele que acha?
— Como é que ficava antes de lhe vi o período?
— Um monstro pré-menstrual. Ia para a cama dormir como um anjo e acordava como um demónio.
— O meu cérebro fica uma papa. E custa-me acordar. O papá é uma pessoa madrugadora.
— E esta manhã tiveste uma aula?
— Usei o pijama como protesto. E bocejei um pouco. Estávamos no quarto andamento. O raio do Hindemith escreveu: Quaternário intenso sem expressão e Pianíssimo contínuo. Percebe?
— Parece difícil, de qualquer jeito.
— Ali estava eu com o cérebo em papa a tentar ser "intensa sem expressão". Supliquei-lhe para me deixar em paz, mas ele estava impossível. Ele fez-me tocar a mesma coisa pelo menos uma vinte vezes! Por fim, eu disse muito calmamente: "Não quero saber de nada disto". Disse-lhe que aquilo não era nada uma aula, que era uma tortura animal. Ele também ficou zangado, mas riu-se e disse que devíamos tentar o início, onde diz: intenso muito acentuado, com arcada permanente. Mas estava tão fula que não consegui e ele disse que foi de propósito. Eu disse-lhe que ele não sabia ensinar o que foi injusto da minha parte. O papá é o professor mais paciente, sensível e cuidadoso que há. Ele disse não ter nada a ver com ensinar, mas com vontade e disciplina, e que eu era preguiçosa. Que eu era preguiçosa! Eu levantei-me e pus o violoncelo de lado, porque estava a tremer. Disse-lhe que por hoje chegava e queria dar um passeio sozinha. Ele ficou pálido. Nunca o tinha visto assim. E ele disse "Não sais desta sala". Eu calcei as botas e dirigi-me para a porta. Não o ouvi vir atrás de mim, mas ele agarrou-me pelos ombros...
Ingmar Bergman, Saraband