Sábado, Dezembro 17

para o rapaz de 1964 com alma de sambista *

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la maison de Neauphle-le-Château

O Novo Pai

Uma jovem veste as roupas do pai e diz à mãe: — Eu sou o teu novo marido.
— Espera só até o teu pai chegar a casa — ralha a mãe.
— Ele já chegou a casa — diz a jovem.
— Por favor não faças isso ao teu pai, ele trabalhou tanto durante toda a vida — diz a mãe.
— Bem sei, diz a jovem, precisa de descansar.

Quando o pai chega a casa está vestido com a roupa da filha. E à medida que vai entrando, cumprimenta: Olá mamã, olá papá, já cheguei...


Russell Edson, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2

(eu fico por aqui)

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< O homem que gostava muito, mesmo muito de flores. >

Luiz Pacheco, Diário Remendado, 20/6/75

Lektion 16

Hoje de manhã fiz o meu primeiro teste a alemão. Demasiado fácil para uma língua complicada. A meio, dei-me conta que estava a responder a lápis.

Sexta-feira, Dezembro 16

a coroa e o barrete frígio

Conto de Natal

Esta manhã, o meu filho tinha uma grande estrela na cabeça e anunciou a plenos pulmões o nascimento do menino Jesus. O menino Jesus chorava na manjedoura. O anjo Gabriel não parava quieto e fazia caretas a José que, por sua vez, o ameaçava com a serra de carpinteiro. Um camelo tropeçou numa das patas e o Rei Mago caiu no chão, espalhando o incenso. No final, as pessoas bateram palmas à lua, ao sol, às estrelas, aos pastores, às ovelhas, aos reis, à vaca e ao burro. E dois anjos, no meio de uma gritaria infernal, atacaram o Pai Natal.

The Crying Of Lot G

As estações dos correios transformaram-se numa espécie de loja de inconveniência. Para além dos selos — que já ninguém compra —vendem objectos díspares: canecas, chocolates, ursinhos vestidos de médico, telemóveis e livros. Começaram, à cautela, por Paulo Coelho e Pinto da Costa mas agora (será que as vendas subiram em flecha?) encheram as prateleiras e expositores com livros para crianças, adolescentes ou adultos.
Não concordo, acho que deviam vender apenas "O Leilão do Lote 49". Por debaixo do balcão.

[A short story about WASTE and the trumpet]

Quinta-feira, Dezembro 15

a lida da casa moderna (com os ouvidos em bella ciao)

Barbara Ciurej/Lindsay Lochman | Glory Odalisque & Glory Vacuum | 1980
perdidos e achados: (the not knowing)

«Não desejarei nunca a ninguém ser eu. Apenas eu sou capaz de me suportar a mim próprio. Saber tanto, ter visto tanto, e não dizer nada, apenas nada.» walser

Quarta-feira, Dezembro 14

"Claro que eles querem a guerra", disse Bill Yeats,
"Querem todas as garotas para eles".

Pound, Canto XLI.

Prolongamento com vodka

< O Tio Vânia já vai a meio do 2.º acto, o Xico tem-lhe dado. Com esta nova invasão na minha vida (mental), vou repetir a experiência (talvez) que fiz em 1960 com a revisão-refundição-versão pachecal de A Minha mulher e depois, nos anos seguintes, com a série de contos compilados no volume Os Mujiques e que fui fazendo de 60 a 62 ou 63, em Lisboa, Almoinha, Macieira e Setúbal. Foram os meus anos Tchekov. Li tudo, meditei mais e aprendi. A melhor forma de crítica a um texto estrangeiro é a sua tradução: há que lhe penetrar todos os meandros e pesar, maduramente, as dificuldades, ambiguidades (algumas indefiníveis, intransponíveis para outra língua); tanto pior na fraude que é trabalhar sobre versões onde se encontra de tudo: cortes e fantasias escusadas. Os contos de Os Mujiques, onde me faltaram dois e fundamentais: A Senhora do Cãozinho e O Estudante (este, a melhor coisa de Tchekov, afirmado por ele mesmo; aquele, um texto delicadíssimo, cheio de subtilezas e nuances sentimentais) pu-los no meu português a partir das traduções aldrabadas do tipo do Porto (Cordeiro de Brito), do Dennis Roche, primeiro tradutor francês ainda em vida do Tchekov, parece-me, doutras versões francesas, e espanholas (directas) da Austral (muito cortadas), de uma inglesa, outra italiana e de uma antologia brasileira...
(...) Nele, Tchekov, o objectivo primeiro e o mais difícil é a aprensão do tom. Ora melancólico, ora humorístico, é ele que impregna e unifica todos os elementos da narrativa, por vezes banais ou aparentemente desnecessários. Apanhado o tom e conseguindo dá-lo em português, o resto são pormenores de fidelidade ao original — mas que é dele? como chegar lá? com 7 versões diante do nariz, umas recheadas de material outras muito despachadas, com cortes evidentes (porque os outros tradutores não iam inventar e o critério que adoptei foi seguir sempre as traduções que me pareceram mais completas). Tive duas opiniões, opostas mas a segunda suspeita: a Fernanda Alves disse-me, de A Minha Mulher, que eu soubera transmitir o tal tom tchekoviano (e creio que sim); o Vítor, em assembleia complacente e numa das suas costumadas rábulas, disse que a Célia, que sabe russo (pelo menos, uma vez lá em casa vi-a a estudar), dera com uma data de disparates meus, o que também acho provável, mas na medida em que..
Voltando ao Tchekov, dramaturgo, e ao Tchekov, contista, porque vou reler outra vez tudo e tentar comprar aquela biografia recente que já tive encomendada e me venderam...

Luiz Pacheco, Diário Remendado, ?/?/73



Tolstói e a família, por volta de 1880. O espaço lembra um dos salões aristocráticos descritos pelo autor em "Guerra e Paz". Palco privilegiado dos "momentos de 'paz' (amores, intrigas de salão, divertimentos, trivialidades)", de que fala Filipe Guerra, e que, na verdade, se encontram "intimamente relacionados com a guerra".
De qualquer maneira, cerca de 80 anos separam o início da acção de "Guerra e Paz" (1805) e esta fotografia.

Terça-feira, Dezembro 13

si ceci est cela, cela est ceci

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(para o Rui que em tempos me apresentou a John Cage e agora negoceia jóias)

A primeira regra é comprar ingredientes bons, mesmo que sejam caros. Por isso, a massa deve fresca e italiana (eu gosto da marca Bertagni e, dos vários recheios disponíveis, recomendo al pesto ); os coentros, em ramo viçoso; os cogumelos mais formosos que encontrarem; azeite de Valpaços virgem extra; alhos (fica à desamão mas os melhores e mais intensos são os da Graciosa); e queijo parmesão.

Antes de mais, coloca-se um disco de John Cage num volume suficientemente alto, serve qualquer composição (excluindo o falso silêncio), por exemplo: Aria (for Cathy Berberian), 1958.
Veste-se um avental limpo, de qualquer cor. Em seguida cortam-se os cogumelos em lâminas (este é um dos meus momentos preferidos por causa da textura dos cogumelos) e salteiam-se lentamente em lume brando com o tal azeite e os alhos moídos, até ficar tudo castanho escuro, tipo bosque-profundo. Se gostarmos de pensamentos mórbidos é a altura certa para os desenvolver, depois será tarde.
Como podem comprovar, é possível acompanhar a composição de Cage partindo um copo de pé alto ou dizendo uma frase em russo. À parte põe-se água ao lume e quando ela ferver mergulham-se os tortellini no tacho durante um ou dois minutos, que é quanto basta. Depois escorrem-se e acrescentam-se aos cogumelos, juntamente com um ramo de coentros finamente picado. Pode-se adicionar mais um fio de azeite ou não, a gosto. Mexe-se tudo com muita gentileza e serve-se (em pratos aquecidos, se estiverem virados para os pormenores) polvilhado com o queijo acabado de ralar. Acompanha-se com um vinho tinto do Douro com uma graduação superior a 13 graus. Convida-se Walser para jantar. Entretanto, ele chega. Traz um gelado em forma de pêra. Muda-se o disco.

Para Esmé – com amor e sordidez, (sem conhecimento do senhor J.D. Salinger)

Para além dos romances, das peças, e dos poemas, Thomas Bernhard também escreveu pequenas peças de prosa. Há dez textos traduzidos para português no livro "Novíssimas Histórias com Tempo e Lugar (Prosa de Autores Austríacos) 1970-2000, coordenado por Ludwig Scheidl e editado pela MinervaCoimbra. São histórias minúsculas e estranhas que nos deixam uma impressão esquisita na cabeça e os lábios secos. Eu acho que aquela miúda inglesa Esmé — que se interessava "extremamente por sordidez", lembro-me bem— é capaz de gostar do estilo. Por isso a dedicatória roubada. Ela merecia a primeira história, eu sei, mas leva a última. Merecia também uma tradução melhor (esta não vem assinada, depreendo que seja de Ludwig Scheidl ou de um seu colaborador) mas dá para perceber o tom e para ganhar alento para as aulas de alemão. É o que se quer.
O sobrevivente anota: pelos finais da guerra foram feitas galerias nos dois montes da cidade, para dentro das quais as pessoas afluíam, porque ameaçavam as destruições. Só porque entram na mina escapam com vida. Primeiro não se atrevem a sair para a luz do dia. Alguns habitantes deixam passar os portões os que lhes parecem fracos e inutéis, finalmente também, as crianças e à tarde abandonam todos em silêncio as galerias, onde muitos deles morreram com falta de ar, porque havia pouco oxigénio. Voluntários trazem os mortos para fora e enterram-nos diante das saídas. Mas quando a guerra acabou, acontece o que ninguém é capaz de compreender: não tapam as galerias, mas entram nelas, como se lhes tornou um hábito. Todos os dias à mesma hora. Haverão de procurar as galerias, enquanto viverem.
uma pequena história de Thomas Bernhard, retirada de Ereignisse (Acontecimentos) editado pela primeira vez em 1969

(empate técnico?)

< Tenho outras coisas a fazer: a versão do Tio Vânia, que o Xico começou ontem. Voltei ao meu caro Tchekov, e aqui havia já muito a dizer mas estou com pressa. É dia de acção.

Luiz Pacheco, Diário Remendado, 4/6/73

Lugares perigosos

Um artigo muito interessante de Jorge Vilas, no Jornal de Notícias de ontem, dá-nos conta de que o Porto foi, desde sempre, um destino de eleição para os suicidas portugueses. Gente que escolhe esta cidade para acabar com a vida. "O Porto tinha o condão de atrair suicidas." Porque será? Aposto que os portuenses sabem a resposta.

Night end day

Vai alta a noite. Caiu o silêncio. Partiu uma perna. Neste momento, como se diz, o prognóstico é reservado.

Segunda-feira, Dezembro 12

Duas respostas de alunos de uma escola do concelho de Santo Tirso, numa prova recente de História do 8º ano.

Pergunta: "Refere o objectivo da política expansionista de D. João II."
Resposta: "O objectivo era tornar mais povos cristãos e contar com a ajuda do Papa João Paulo."

Pergunta: "Indica para quem se tornou mais vantajoso o contrato de arrendamento da costa ocidental africana, estabelecido por D. Afonso V. Justifica a tua resposta."
Resposta: "O contracto tornou-se mais vantajoso para o Fernão Gomes, pois assim podiam transportar mercearia de um lado para o outro."
"Vai haver guerra?" "Não, Senhorita Wi'let,
Não no que toca a relações comerciais."

Pound, Canto XXXVIII.

Brincar com o fogo

Arrastado pelo vício da luxúria, delicio-me com cada pormenor das descrições de roupas femininas no "Guerra e Paz".

"Ouviu-se do quarto contíguo o rocegar de um vestido de mulher."

Os personagens masculinos falam com a boca.
Os femininos falam através dos vestidos.

Ainda a propósito do título "Guerra e Paz"

Ainda a propósito dos problemas levantados pela tradução do título "Guerra e Paz", a que fizemos referência aqui, o Filipe Guerra (um dos tradutores da obra) fez o favor de nos oferecer mais algumas explicações:

"Mesmo na Rússia actual, o entendimento maioritário do título do livro é «guerra e paz», muito por «culpa» do próprio Tolstói que, ao ver a tradução francesa do título, gostou e a «aprovou», embora este título, no fundo, contrarie a própria lógica do roman-fleuve de Tolstói, onde apenas se trata da guerra e todos os momentos de «paz» (amores, intrigas de salão, divertimentos, trivialidades) estejam intimamente relacionados com a guerra, do princípio ao fim do livro. Mesmo no fim, a derrota e a fuga dos franceses não significam ainda a paz, apenas uma suspensão, uma nova forma de guerra. Por curiosidade, o «i» de «mir» (actualmente «guerra» e «mundo») tem ainda uma representação gráfica distinta consoante a palavra em certas línguas eslavas como o bielorrusso."

(Texto retirado das nossas caixas de comentários).

Faz-de-conta

Retiradas as bandeiras do Scolari, há agora um Pai Natal pendurado em cada janela. Os políticos costumam dizer que os portugueses são sábios. Mas eu juro que não entendo.

a beleza do cinema mudo

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"Este tipo ainda vai fazer um filme sem uma única palavra...", foi mais ou menos o que ele disse enquanto descíamos as escadas do centro comercial, ainda atordoados.
Sem querer, tinha acabado de explicar tudo quanto é possível explicar sobre o encanto de Bill Murray.

Êxtase

«Se te sentares aqui durante muito tempo e ficares muito quieta, és capaz de conseguir ver um dos antílopes azuis,» disse eu para Cora. «Faria qualquer coisa para ver um desses antílopes azuis,» disse ela. «Era capaz de tirar a roupa e deitar-me sem me mexer durante todo o dia em cima da relva.» «É uma boa ideia», disse eu, «tirar a roupa, quero dizer, assim é mais natural.» Conhecera Cora na biblioteca na noite anterior e contara-lhe acerca do antílope azul, pelo que marcáramos um encontro para tentar vê-los. Permanecemos nus perto um do outro durante horas. Estava um belo dia de sol com uma brisa que provocava cócegas. Por fim, Cora sussurrou ao meu ouvido, “Meu Deus, estou a vê-los. São tão delicados, tão airosos. São como anjos, anjos de centáureas azuis.» Olhei para Cora. Estava a desaparecer. Tornava-se num deles.

James Tate, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2
- Se toda a gente combatesse apenas pelas convicções, não haveria guerras - disse [o príncipe Andrei].
- O que seria óptimo - disse Pierre.
O príncipe Andrei soltou uma risadinha.
- Seria muito possível que fosse óptimo, mas nunca acontecerá...
- Diga-me, por que é que vai para a guerra? - perguntou Pierre.
- Porquê? Não sei. Tem de ser. Além disso, vou... - Fez uma pausa. - Vou porque esta vida que levo aqui, esta vida... não me agrada!

Lev Tolstói, "Guerra e Paz", Livro I.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

As gordas no WC

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Domingo, Dezembro 11

por causa de Paulette Goddard

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< Li anteontem o Diárío de uma Criada de Quarto, do Octave Mirbeau (aliás, tenho já uma colecção de diários, memórias, biografias, fora a lista que apontei — pág. 26 — e dá horas e horas de leitura). O livro do Mirbeau (trad. péssima, como se espera) tem um sabor gaulês que me deu muito gozo, e donde posso extrair boas lições para os meus episódios eróticos, a enxertar no Diário remendado. De notar, a técnica do flashback, o suspense com que são preparadas certas cenas ou o aparecimento de personagens, tudo muito bem encadeado.

Luiz Pacheco, Diário Remendado, 31/10/75