< O Tio Vânia já vai a meio do 2.º acto, o Xico tem-lhe dado. Com esta nova invasão
na minha vida (mental), vou repetir a experiência (talvez) que fiz em 1960 com a revisão-refundição-versão pachecal de
A Minha mulher e depois, nos anos seguintes, com a série de contos compilados no volume
Os Mujiques e que fui fazendo de 60 a 62 ou 63, em Lisboa, Almoinha, Macieira e Setúbal. Foram os meus anos Tchekov. Li tudo, meditei mais e aprendi. A melhor forma de crítica a um texto estrangeiro é a sua tradução: há que lhe penetrar todos os meandros e pesar, maduramente, as dificuldades, ambiguidades (algumas indefiníveis, intransponíveis para outra língua); tanto pior na fraude que é trabalhar sobre versões onde se encontra de tudo: cortes e fantasias escusadas. Os contos de
Os Mujiques, onde me faltaram dois e fundamentais:
A Senhora do Cãozinho e
O Estudante (este, a melhor coisa de Tchekov, afirmado por ele mesmo; aquele, um texto delicadíssimo, cheio de subtilezas e nuances sentimentais) pu-los no meu português a partir das traduções aldrabadas do tipo do Porto (Cordeiro de Brito), do Dennis Roche, primeiro tradutor francês ainda em vida do Tchekov, parece-me, doutras versões francesas, e espanholas (directas) da Austral (muito cortadas), de uma inglesa, outra italiana e de uma antologia brasileira...
(...) Nele, Tchekov, o objectivo primeiro e o mais difícil é a aprensão do
tom. Ora melancólico, ora humorístico, é ele que impregna e unifica todos os elementos da narrativa, por vezes banais ou aparentemente desnecessários.
Apanhado o tom e conseguindo dá-lo em português, o resto são pormenores de fidelidade ao original — mas que é dele? como chegar lá? com 7 versões diante do nariz, umas recheadas de material outras muito despachadas, com cortes evidentes (porque os outros tradutores não iam inventar e o critério que adoptei foi seguir sempre as traduções que me pareceram mais completas). Tive duas opiniões, opostas mas a segunda suspeita: a Fernanda Alves disse-me, de
A Minha Mulher, que eu soubera transmitir o tal tom tchekoviano (e creio que sim); o Vítor, em assembleia complacente e numa das suas costumadas rábulas, disse que a Célia, que sabe russo (pelo menos, uma vez lá em casa vi-a a estudar), dera com uma data de disparates meus, o que também acho provável, mas na medida em que..
Voltando ao Tchekov, dramaturgo, e ao Tchekov, contista, porque vou reler outra vez tudo e tentar comprar aquela biografia recente que já tive encomendada e me venderam...
Luiz Pacheco, Diário Remendado, ?/?/73