Em 1933 Robert Walser foi transferido de Waldau para Herisau contra sua vontade. Tinha 55 anos. A partir daí, não escreveu nem mais uma linha porque, disse, para o fazer precisaria de liberdade. Desiste do lápis e dos papéis usados, do verso dos envelopes, desiste de tudo, adapta-se às normas do hospício, cala-se. Mas o silêncio dele é um silêncio de luta, do contra, é a única e a última arma de que dispõe para se revoltar. Walser cala-se apenas para os outros:
não estou aqui para escrever mas para ser louco.
Robert Walser passou 23 anos em Herisau. O que é que ele fazia às ideias e às palavras durante todo esse tempo? Se a sua escrita sempre foi, ou, foi sendo cada vez mais (pelo menos assim suspeito) uma corrente formidável e indomável, ele não a poderia impedir do pé para a mão — morreria, não era? Ora bem, o que eu acho é que depois do
sistema do lápis, Walser inventou um sistema ainda mais perfeito, uma escrita ainda mais secreta e indecifrável: escrevia na cabeça, palavra a palavra, frase após frase. E vou mais longe: talvez as suas melhores obras sejam essas últimas, escritas sem qualquer registo, voláteis. As pequenas peças de prosa desfazem-se no ar como vapor de água, ao ritmo dos seus passos. Nunca ninguém vai saber.