Sábado, Dezembro 10

i think of you as a poet

If I am well-disposed, that's to say, feeling good, I tailor, cobble, weld, plane, knock, hammer, or nail together lines the content of which people understand at once. If you liked, you could call me a writer who goes to work with a lathe. My writing is wallpapering. One or two kindly people venture to think of me as a poet, which indulgence and manners allow me to concede. My prose pieces are, to my mind, nothing mor nor less than parts of a long, plotless, realistic story. For me, the sketches I produce now and then are shortish or longish chapters of a novel. The novel I am constantly writing is always the same one, and it might be described as a variously sliced up or torn-apart book of myself.

Robert Walser, Eine Art Erzãhlung, 1928-1929

Sexta-feira, Dezembro 9

DINNER AT THE MOTEL?

O problema dos homófonos

O primeiro dos quatro livros da nova edição de "Guerra e Paz", de Tolstói (Editorial Presença), começa com a seguinte nota dos tradutores:

"Sobre o título do romance:
Actualmente, o leitor comum considera que o título desta obra é composto por dois antónimos - guerra e paz - e, tradicionalmente, as traduções para línguas estrangeiras consagram o título «Guerra e Paz». Na verdade, no original russo não consta a palavra «paz», mas sim um seu homófono que significa «universo, sociedade, mundo humano» (no tempo de Tolstói os dois homófonos tinham grafia diferente, o que actualmente não acontece, e daí a confusão). Os tradutores da presente obra, porém, resolveram não contrariar a tradição e manter a tradução do título já consagrada no Ocidente."

Nina Guerra e Filipe Guerra.

A importância do inquérito para uma boa noite de sono

Um homem é morto a tiro pelas "forças de segurança" com base numa suspeita. Depois de morto, as "forças de segurança" concluem que o homem não constituía nenhuma ameaça, digamos, significativa. A "opinião pública" fica inquieta com a estranha eficácia das suas "forças de segurança". As "autoridades" prometem "abrir um inquérito". A "opinião pública" volta a dormir tranquila e a sorrir durante o sono.

A escrita invisível

Em 1933 Robert Walser foi transferido de Waldau para Herisau contra sua vontade. Tinha 55 anos. A partir daí, não escreveu nem mais uma linha porque, disse, para o fazer precisaria de liberdade. Desiste do lápis e dos papéis usados, do verso dos envelopes, desiste de tudo, adapta-se às normas do hospício, cala-se. Mas o silêncio dele é um silêncio de luta, do contra, é a única e a última arma de que dispõe para se revoltar. Walser cala-se apenas para os outros: não estou aqui para escrever mas para ser louco.
Robert Walser passou 23 anos em Herisau. O que é que ele fazia às ideias e às palavras durante todo esse tempo? Se a sua escrita sempre foi, ou, foi sendo cada vez mais (pelo menos assim suspeito) uma corrente formidável e indomável, ele não a poderia impedir do pé para a mão — morreria, não era? Ora bem, o que eu acho é que depois do sistema do lápis, Walser inventou um sistema ainda mais perfeito, uma escrita ainda mais secreta e indecifrável: escrevia na cabeça, palavra a palavra, frase após frase. E vou mais longe: talvez as suas melhores obras sejam essas últimas, escritas sem qualquer registo, voláteis. As pequenas peças de prosa desfazem-se no ar como vapor de água, ao ritmo dos seus passos. Nunca ninguém vai saber.
Why be sweet, why be careful, why he kind? / A man has only one thing on his mind / Why ask palitely, why go lightly, / Why say please? / They only want to get you on your knees / There are a few things I never could believe / A woman when she weeps / A merchant when he swears / A thief who says he'll pay / A lawyer when he cares / A snake when he is sleeping / A drunkard when he prays / I don't believe you go to heaven / When you're good / Everything goes to hell, anyway...

(eles andam por aí)

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< ... Tenho de ver rapidamente O Último Tango em Paris e Grande Farra, pelo menos. Eles aí voltam, os puritanos! do Pêcê, da católica hipocrisia, do provincianismo tacanho.>

Luiz Pacheco, Diário Remendado, 27/10/74

Quinta-feira, Dezembro 8

Full Text

O Guardian publica aqui a versão integral do discurso que Harold Pinter gravou em vídeo para a cerimónia de entrega do Nobel.
Um texto anti-americano q.b.

Post-it

Nunca é demais lembrar a todos os nossos leitores que este é melhor blogue português de literatura, música, artes decorativas, anúncios promocionais e bebidas espirituosas. Uma referência tanto mais pertinente quanto comemoramos hoje, com todo o fervor de que somos capazes, a Imaculada Conceição de Nossa Senhora, a rainha de todos os santos.

Quarta-feira, Dezembro 7

Lektion 15

...

Valerio: Und ich werde Staatsminister und es wird ein Dekret erlassen, daß wer sich Schwielen in die Hände schafft unter Kuratel gestellt wird, daß wer sich krank arbeitet kriminalistisch strafbar ist, daß jeder der sich rühmt sein Brod im Schweiße seines Angesichts zu essen, für verrückt und der menschlichen Gesellschaft gefährlich erklärt wird und dann legen wir uns in den Schatten und bitten Gott um Makkaroni, Melonen und Feigen, um musikalische Kehlen, klassische Leiber und eine kommode Religion!

Georg Büchner, Leonce und Lena, Ein Lustspiel, Dritter Act

dois tipos sentados



Duas personagens de Harold Pinter, fotografadas por Francis Bacon. Pode ser num quarto qualquer, em qualquer sítio, onde menos se espera. Parecem decentes mas o que dizem — nem é bem isso, é mais o que não dizem, o que insinuam, o que deixam no ar — é terrível. Eles existem, apesar da minha dislexia iconográfica.

il faut

< Changer la vie.
Para começar, é evidente, a minha; pois assim não quero nem posso continuar. A punheta de manhã, a fome durante o dia, a solidão sempre, sem o vinho a lucidez e a tristeza, a velhice, a decadência. Que não me vai aproveitar a mim, vá. Mas diga (como pede a Maria) algo aos outros. É esse o meu dever de escriba.

Luiz Pacheco, Diário Remendado, 14/1/72

Você está aqui

Todas as manhãs, os jornais fazem questão de nos lembrar que o grande desígnio nacional é combater a "instabilidade". A instabilidade política, a instabilidade orçamental, a instabilidade no trabalho, a instabilidade familiar, a instabilidade emocional. Para viver plenamente satisfeitos precisamos de "estabilidade". E, no entanto, "estabilidade" é a palavra mais cobarde que existe.

Terça-feira, Dezembro 6

R: segunda via (as medidas dele)

< À espera de provas do Porto! A minha mania da tarefa única, prioritária, obcecante. E tudo a andar em roda.
50-60 de pulso. Coramina, café, ovos, pão. Vou-me abaixo? O desejo fácil de meter álcool no bucho, como das outras duas últimas vezes. Passou logo. E depois... a macacada? Aguentar! Mandei vir a Olga com medicina. E vou tentar levantar-me. Reagir. Estourar na cama e de cachecol parece-me impróprio de um guerreiro Pacheco.
1 Persantin + 2 Unisedil. Carrego nas drogas, que estão a acabar, raio. A D. Olga propõe anis, vinho do Porto. Volto à mesma. Resisto.
Podem ser truques dos anticorpos para lhes enfiar a pinga.

Oirado de oirar, termo muito usado nas palavras cruzadas. >

Luiz Pacheco, Diário Remendado, 29/11/71

— um café com algumas flores partidas, por favor

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fotografia de Nobuyoshi Araki

Jim Jarmusch: I like to look in the shadows and the margins to find things that aren't considered dramatic like a taxi ride or a cup of coffee.

I'm attracted to those in-between moments because in life a lot of very moving and important things come out of them. And in this film, I didn't want to give you too much information about where we were in America: I wanted the airports and rental cars and highways to look the same. We even made up fake licence plates. I'd say to the crew that we were filming in Generica.
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R: convivência na Justiça

(dez páginas para trás, situação-limite resolvida em vésperas do natal )

< Maria dormiu e fodeu cá em casa.
Edição salva.

Luiz Pacheco, Diário Remendado, 23/12/71
Os textos começam a pensar-se mal a gente adormece.
Algumas pessoas conseguem acordar a meio da noite e a meio do dia, e surpreender os textos em pleno acto de pensar-se.
Assim, presos pelo fio do seu próprio pensamento, os textos tornam-se alvos fáceis.
E então as pessoas apanham-nos como se apanham os pássaros nos prados com a ajuda de redes.
Depois, fechados em gaiolas, basta engordá-los com alpista e emagrecê-los com a dose certa de morte.

Segunda-feira, Dezembro 5

1ª jogada

...Como li ontem no Giono: «Forcer la main est magnifique.» E ainda esta, que já sabia: «Personne ne peut vivre sans joie. La vie, c'est la joie.» >

Luiz Pacheco, Diário Remendado, 6/3/74

na letra "efe" o Gorey dá de frosques

31/10/74

Noite dos diabos, com asma (?). Distraí-me com o Freud e o Beckett (Malone Meurt). Lembro como o trecho do lápis pequenino (lido ainda em Almoinha num Les Temps Modernes antigo) terá talvez influenciado o tom de O Teodolito. A escrita do Samuel Beckett é de uma implacabilidade, recheada de contradições e denegações, de rimas internas, de uma constante ironia superior e, de repente, logo inesperado o comentário metafísico, quase sem se dar por isso.

Luiz Pacheco, Diário Remendado, D. Quixote

Le journal d'une femme de chambre

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Jean Renoir adaptou a história em 1946 com Paulette Goddard. "Um dos seus filmes mais belos e mais incompreendidos", resumiu João Bénard da Costa. Luis Buñuel filmou-a dezoito anos mais tarde com Jeanne Moreau (e as suas botinas, devo acrescentar). Infelizmente (ainda) não vi nenhum dos dois filmes. Mas nem tudo está perdido, ontem encontrei em casa da minha mãe, cheio de pó, o livro de Octave Mirbeau, traduzido, com mestria e desembaraço, por Manuel João Gomes (edição de 1979, Cículo de Leitores). Lê-se em duas noites. O mundo é sórdido, Célestine, muito sórdido.

O que é que Jean Renoir e Luis Buñuel têm em comum?

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Por via das dúvidas

Imaginem uma grande lixeira. E no meio do lixo, um pequeníssimo diamante. O mais raro e puro e brilhante de todos os diamantes.
Imaginem milhões de pessoas a revolver furiosamente o lixo, à procura da pedra. Dias, meses, anos inteiros. Sempre com lixo pela cintura. De vez em quando, alguém desenterra um cristal perfeito, uma boa imitação de vidro, enganadoras flores de quartzo. Pequenas coisas de uma beleza plausível. Mas nada que faça sombra, por um segundo que seja, ao brilho do diamante verdadeiro.
Muitos afirmam sem hesitar que o diamante nunca foi descoberto. E há mesmo quem defenda que a pedra não existe, que não passa de uma espécie de incêndio que certas pessoas trazem permanentemente dentro da cabeça.
Mas eu sei que o diamante é muito mais do que um mero exercício da imaginação. E sei de pessoas – muito poucas, é certo – que já o encontraram. Basta ler os poemas.

Notícia do dia

Esta manhã, uma maçã vermelha rolou pela rua, caída da sua caixa de maçãs vermelhas. A maçã pertencia a uma mercearia cinzenta da Rua Nove de Julho.

Pinter no Babelia

"El Premio Nobel de Literatura a Harold Pinter es uno de los más merecidos en la historia de esa institución." (Carlos Fuentes)

Dossier dedicado a Harold Pinter, esta semana, no Babelia.

Domingo, Dezembro 4

pregos, panados, moelas, figado, rissóis, croquetes

Mesas, mesas, cadeiras, cadeiras. Dedos pretos devido aos jornais. Dedos amarelos por causa do tabaco. Frases-chave saltando do livro. Frases-chave que não abrem coisa nenhuma. No jornal, um escritor sérvio diz que o seu gato gosta de passear sobre os teclados. O gato escreve histórias extraordinárias na língua dos gatos, diz o escritor. Uma televisão dá saltos mortais por cima das cabeças de dois velhotes adormecidos. Sete da tarde no café Piolho. Fecho o caderno. Mãos vazias.