Sábado, Dezembro 31

Não faço listas mas

as nuvens mais bonitas são as que passam sobre as ilhas, no verão, como se fossem um prodígio.

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Sexta-feira, Dezembro 30

Steinbeck is back

"Boris, porém, (...) desviou habilmente a conversa. Pediu que Rostov lhe contasse como e onde fora ferido. Contar a história, para Rostov, era agradável, pelo que se lançou no relato, animando-se cada vez mais à medida que falava. Narrou a sua batalha de Shoengraben daquela maneira típica dos participantes nas batalhas, ou seja, tal como gostariam que tivesse sido, ou tal como ouviram contar os outros, ou tal como era mais bonito de contar, mas nada da forma como as coisas se passaram na realidade. (...) Quando começou a falar, tinha a sincera intenção de relatar as coisas tal como tinham acontecido na verdade, mas, imperceptível, involuntária e inevitavelmente passou a fantasiar. Se ele tivesse dito a verdade aos ouvintes, pessoas que, como ele próprio, já tinham ouvido muitíssimos relatos de ataques, tendo formado uma noção do que era um ataque e esperando portanto por um relato idêntico, não acreditariam nele. (...) Aliás, também não podia dizer simplesmente que iam todos a trote, que ele caiu do cavalo, que fez uma luxação da mão e que fugiu a sete pés de um francês até à floresta. Além disso, para contar tudo tal e qual, teria de fazer um grande esforço mental. Contar a verdade é muito difícil, e os jovens poucas vezes são capazes de o fazer. O que os outros esperavam era o relato de como lhe fervia o sangue, de como investiu, desenfreado, contra o carré inimigo, de como rompeu por ele adentro, espadeirando à direita e à esquerda, de como o seu sabre provou a carne do inimigo, de como saiu extenuado, e coisas quejandas. Então, contou-lhes tudo isso."

Lev Tolstói, "Guerra e Paz", Vol I.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

Excelência

Quinta-feira, Dezembro 29

Não faço listas mas

este ano o melhor serviço de esplanada foi o da Biblioteca da Graciosa.

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E il paradiso?

«E o Paraíso? Existe um Paraíso?».
«Creio que sim, minha senhora, mas os vinhos doces
já ninguém os quer».

Eugenio Montale, "Poesia", tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, Junho 2004

estreia hoje, no Teatro do Campo Alegre:

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Não faço listas mas

o melhor close up de 2005 foi este.

MECÂNICA POPULAR

— Pour Bresson, ce n'est pas un péché de regarder une fille. Il a l'accord de Dieu, tu vois?

o que é que o sapateado tem a ver com Robert Bresson? Até tem, mas é num compasso mais obscuro. Não vou falar disso, nem sequer d' A Janela indiscreta", que revi por estes dias, porque o caminho entre Bresson e Hitchcook já está ocupado. O que interessa, o que verdadeiramente interessa, é que 2006 continuará a ser o ano de Robert Bresson.

Quarta-feira, Dezembro 28

let's tap (just a little more)

Nenhum filósofo, incluindo Heidegger, foi capaz de falar sobre o Tempo com tanta propriedade como os velhotes nos autocarros.

Títulos dos livros de Efraim Medina Reyes

"Érase una vez el amor pero tuve que matarlo", "Técnicas de masturbación entre Batman y Robin" e "Sexualidad de la Pantera Rosa".

Não faço listas mas

o melhor concerto do ano foram dois!

Laurie Anderson: E eu estava a meio de uma longa conversa com uma amiga, que me dizia: “Quem te ensinou o que é a beleza?” E eu não soube responder. O que é a beleza, afinal? É uma coisa enorme, para além da razão? Ou é profunda e complicada? A resposta continuava a escapar-me, tornando-se cada vez mais remota. Como qualquer coisa off-off-off Broadway. Ou um tipo de sexo tão x-rated que é x-x-x-x-x-x-rated. Aquilo a que o Tom Waits chama “pessoas tão incrivelmente nuas que nem sequer têm pele.”

Corps

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Une des premières approches de Bresson consiste à révéler l’âme de ses personnages par le visage, les mains, la peau. Bresson, ancien peintre, rejoint ainsi tout un pan de la peinture du XVIème. Ernst Gombrich dans son Histoire de l’art, parle ainsi de Holbein : «En vieillissant, à mesure que son art se perfectionne, il renonce à de tels artifices (caractérisation du modèle par son entourage, par des détails, des accessoires). Il préfère s’effacer pour que rien ne vienne distraire l’attention du modèle lui même (…) Ces portraits de Holbein n’ont rien de dramatique, et ne tendent pas à l’éclat. Mais plus nous les regardons, plus nous avons l’impression de pénétrer le caractère et la personnalité du modèle.» Une immense attention est portée aux corps. Le corps est une sorte de miracle auquel l’âme est accrochée. Jeanne ne craint pas la mort mais refuse les flammes : «Je veux bien mourir. Mais je ne veux pas qu’on me brûle, je ne veux pas qu’on me mette en cendres.» Injonction à laquelle répond cette sentence de Warwick au bourreau : «Je ne veux plus voir un seul cheveu. Plus rien.» Bresson rappelle à ce propos une phrase de Léonard de Vinci dans ses cahiers, où il dit «qu’avant de mourir, l’âme pleure parce qu’elle va se séparer de cette merveille qu’est notre corps.» Il y a une véritable fascination de Robert Bresson pour la jeunesse qui rejoint cette fascination pour le corps. Ses modèles sont d’une grande sensualité. Déjà dès Les Dames du bois de Boulogne, Cocteau remarque «un film d’intimité tragique, un film de visages.» La Jeanne de Bresson diffère complètement de celle de Dreyer (les deux films sont basés sur les minutes du procès) par le regard. Quand la Jeanne de Dreyer lève constamment les yeux au ciel, témoignant par là d’une élévation spirituelle, d’une illumination, la Jeanne de Bresson a le regard baissé vers le sol, reliée en cela au monde, concrète et vivante. Les gestes de Michel dans Pickpocket, leur répétition inlassable, mécanique qui marque une aliénation, un emprisonnement, valent mille discours intérieurs. Ces corps, ces gestes, ce sont les modèles de Bresson qui les incarnent.

retirado de dvd classik
Depois de uma Ostra com Henri Michaux não me resta outra alternativa: procurar o homem austero e infinito.

RUMO AO HOMEM

Um sábio ser, um dia, veio e instruiu-nos a nós, os ignorantes.
Ensinou-nos a falar. Antes só sabíamos cantar.

Foi uma tentação. Com certeza devíamos aceitar. Agora todos sabemos falar, após alguns anos de infância e balbucios. Mas agora já não somos como dantes. Já não é aquele encanto.

Faziam-se coisas. Havia empresas, reuniões, obras, preparações rumo ao futuro. Tínhamos árvores. De quase tudo se ocupava ele. Outrora governava-nos. Não precisávamos de querer, de decidir. Ainda podíamos folgar. Desapareceu, sem conseguirmos perceber.

Agora tudo nos incumbe a nós, e ele deixa andar, já não se interessa.
É como se não desse por nada.

Não foi a primeira vez que ele se desligou.
A seu ver, é certo não sermos aceitáveis, nem sequer muito interessantes. Os nossos pais-predecessores sabiam interessá-lo. Eles sim, sabiam o que se impunha para não ficarem sozinhos, fazendo-o voltar. Nós porém não sabemos, não demos com o meio necessário.

Dantes uma música unia-nos. Uma música que nos fora dada para isso, para a ele voltarmos, para voltarmos ao ser tão importante que podia governar-nos a terra que era nossa. Uma certa música. Essa música, que nos fora legada para ser o elo, voltava a pô-lo em contacto com a gente. Mas foi perdida.

Alguns de nós deixam a tribo para ir viver com os animais selvagens. Nós deixamo-los ir.
Os animais selvagens não os aceitam. Não se deixam enganar por inclinações tumultuosas, por meras intenções.
Deste lado o fosso é grande e largo, um fosso que actualmente não pode ser coberto.

Porque nós não somos animais. Embora de certo modo ainda não sejamos homens perfeitamente. Havemos de sê-lo. Convém não desesperar. Já o fomos. Fomo-lo em tempos recuados. Ao mesmo tempo que esses que hoje em dia nos bosques e na savana inteiramente voltaram a ser animais, mas respeitamo-los. Vedamo-nos vigiar as suas vidas ou indagar seja o que for sobre essas vidas, o que desta ou daquela maneira talvez os humilhasse.
Porque, apesar de termos ficado, quanto a nós, mais de meios-homens sobretudo no aspecto, e por isso à frente dessas vidas, é de recear e é possível que só depois delas de novo nos tornemos homens completos e verídicos. Não se pode saber. Não se pode ter a certeza. Gabar-se a gente disso não cairia bem.
Por enquanto, a quatro patas ou de outro jeito, na floresta, em tocas, elas aguardam o seu longínquo futuro de homens, com grande dignidade, com uma dignidade exemplar.


Henri Michaux, textos extraídos de Chemins cherchés Chemins perdus Transgressions, Gallimard, Paris, 1981, tradução de Júlio Henriques, um de dois poemas publicados na revista Utopia

Has anyone ever tried putting on a costume to be a real Superhero?

"Are there people out there that actually wear spandex outfits and actually go around trying to fight crime?
Sadly, the answer is yes."


Abelardo Morell, "Digital Book", 2002.

Terça-feira, Dezembro 27

No Dias Felizes publicamos muita poesia porque estamos firmemente empenhados em contribuir para a riqueza da nação, gerando capital social.

O curso geral dos acontecimentos

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º ;                                ×
                 ¤
          ::                                                         ?
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!

Shame Dean

Nunca
amor
me
abraçaste
com
tanta
força
como
agora
que
estamos
a
cair
da
moto

Lorenzo Helguero
(Peru, 1969)

SHAME DEAN//Nunca/amor/me/has/abrazado/tan/fuerte/como/ahora/que/nos/estamos/cayendo/de/la/moto

da devoção



Robert Bresson fala pouco*, devagar. Escolhe as palavras como se fossem frutos maduros. Está sentado, muito direito, parece um cientista ou um poeta; um dos mais raros e mais belos poetas. Tudo o que diz surge como uma evidência, como se não pudesse ser de outra forma. Responde às perguntas do jornalista, explica lentamente o que é o cinematógrafo, porque é que utiliza modelos e não actores (e não é ele pintor?), porque é que a verdadeira arte deve surgir da justaposição (e é isso mesmo que ele quer dizer: uma posição justa, a única) das imagens e não do interior, do excesso de cada um delas. Nada a mais, apenas o necessário. Uma imagem que se relaciona com outra, o som, o silêncio, os gestos. Não a naturalidade mas a natureza. Há uma certa luz no seu rosto. Eu acredito em Bresson.

___________
* no programa de televisão Pour le Plaisir de 11 de Maio de 1966 dedicado a Au Hasard Balthazar, que acompanha a edição em DVD da Criterion

Não faço listas mas

gostava de lembrar que 2005 foi o ano de Robert Bresson.
Vejo um pássaro imóvel na goteira,
pode parecer um pombo mas é mais esguio
e tem um vago tufo na cabeça ou talvez seja o vento,
quem poderá sabê-lo, as janelas estão fechadas.
Se também tu o vês, quando te acordam
os motores dos barcos, isto é tudo quanto
nos é dado saber sobre a felicidade.
Tem um preço demasiado alto, não é para nós e quem a tem
não sabe o que fazer com ela.

Eugenio Montale, "Poesia", tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, Junho 2004

Comboios no céu

Uma nuvem após outra, após outra, após outra, após outra, após outra. Correndo para a próxima estação.

não mostrar nada

Jornalista: Há algo de bastante perturbador, obscuro e ambíguo na relação de Marie com Balthazar...
Robert Bresson: É amor com um objecto não muito claro. Os adolescentes podem apaixonar-se por algo muito vago, muito indefinido. O amor precisa de ter um objecto. O objecto de amor dela não é o burro. Penso que o burro é apenas um intermediário.
Anne Wiazemsky: Eu acho que é uma manifestação de ternura... talvez mesmo de amor, talvez. No fim de contas, é comum enfeitar os animais que estimamos com flores.
Jornalista: Mas não de noite...
Anne Wiazemsky: Porque não, se estivermos acordados?
Robert Bresson: A grande dificuldade é que toda a arte é abstracta e sugestiva ao mesmo tempo. Não é preciso mostrar tudo. Quando mostramos tudo, deixa de ser arte. A grande dificuldade no cinematógrafo é precisamente não mostrar. O ideal seria não mostrar nada mas isso é impossível.

pequeno excerto do programa de televisão Pour le Plaisir de 11 de Maio de 1966 dedicado a Au Hasard Balthazar
Robert Bresson: Acredito na musa do cinema. Degas dizia: "As musas não falam entre si, elas dançam juntas".


no programa de televisão Pour le Plaisir de 11 de Maio de 1966 dedicado a Au Hasard Balthazar

ajustar o sapato, por Edgar Degas

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Segunda-feira, Dezembro 26

HOMENAJE A RAFAEL SANZIO

Señor
Ten Merced
De mi hijo
Porque él es epiléptico
Y sufre horrendamente
Porque muchas veces
Cae al agua

Y otras
Sobre el fuego

Y yo lo llevé
A tus discípulos
Mas ellos nada pueden

Este fue el último cuadro
De Rafael Sanzio
Antes de su muerte
El viernes santo de 1520
A la edad de 37


Luis Hernández
(Perú, 1941-1977)

Na ponta da língua

"Eckermann possuia um carácter tranquilo e era bondoso. Vivia com simplicidade dada a sua pobreza crónica. Amante da ornitologia, tinha a sua modesta casa cheia de gaiolas com pássaros e alguns andavam soltos pelas divisões. Uma manhã, quando ia para calçar as botas, descobriu que uma delas albergava um ninho com ovos. Como não tinha outro par, optou por ficar em casa durante mais de uma semana até que os pássaros rompessem a casca."

O suplemento Babelia desta semana, inclui, como já é habitual, vários textos de leitura obrigatória. Esta breve passagem, que decidi traduzir para português, foi retirada do artigo de Luis Claros dedicado a Johann Peter Eckermann.

Adolf Wöflli

À Waldau, peut-être a-t-il croisé le peintre Wölffli qui devait mourir l'année suivante. À l'inverse de Walser, c'est à l'asile que cet anonyme, devenu aujourd'hui célèbre, a realisé la plus grande partie de son oeuvre, plus de mille dessins ainsi que des poèmes.

Le Vagabond Immobile, Robert Walser" de Marie-Louise Audibert, Gallimard

Le vagabond immobile

Ofereceram-me um livro sobre Walser, uma espécie de biografia. Li-o no fim-de-semana. Se pudesse, desfazia a história toda e eliminava para sempre Waldau e Herisau.


Abelardo Morell, "Book of Stars", 1994.
"Quanto mais avançava para as posições mais próximas do inimigo, tanto mais alinhadas e animadas se lhe apresentavam as tropas. (...) Chegado à linha da frente, o príncipe Andrei pôs-se a andar ao longo dela. As linhas, a nossa [russa] e a francesa (...) estavam tão perto uma da outra que os soldados podiam ver as caras dos inimigos e falar com eles. Além dos soldados que aqui tinham tomado posição, havia muitos curiosos de um lado e do outro que, galhofando, observavam os estranhos e desconhecidos adversários. (...) O oficial russo [Dólokhov] falava fogosamente com um granadeiro francês. (...) Falavam, evidentemente, da campanha. O francês tentava provar, confundindo os austríacos com os russos, que os russos se tinham entregado e entrado em fuga a partir já de Ulm; Dólokhov replicava que os russos não se entregavam, mas que iam bater os franceses.
- Mandaram-nos para aqui para corrermos convosco, e é isso que vamos fazer - dizia Dólokhov.
- Tendes é de ter cautela em não caírdes nossos prisioneiros, juntamente com os vossos cossacos - disse o granadeiro.
Os espectadores franceses riram-se. (...)
- Bonaparte... - ia lançar-se Dólokhov, mas o francês interrompeu-o:
- Não há cá Bonaparte. Há o imperador! Sacré nom... - gritou o francês com zanga.
- Pr'o diabo o vosso imperador!
E Dólokhov praguejou grosseiramente, como um soldado e, pondo a espingarda ao ombro, afastou-se.
- Isso é que é falar francês - disseram os soldados [russos] da linha. - Agora tu, Sídorov!
Sídorov piscou um olho e, dirigindo-se aos franceses, começou a metralhar palavras incompreensíveis.
- Cari, malá, tafá, safi, muter, cascá - arremedava ele, dando umas entoações muito expressivas à sua lengalenga.
- Ho, ho, ho! Há, há, há! Hu, hu! - explodiram as gargalhadas entre os soldados, umas gargalhadas tão saudáveis e alegres que contagiaram involuntariamente os franceses da linha oposta; depois disto, parecia que só restava descarregar as espingardas, fazer explodir os projécteis e ir toda a gente para casa.
Mas as espingardas continuaram carregadas, as seteiras das casas e fortificações continuavam a ser olhos ameaçadores, e os canhões, retirados dos seus jogos dianteiros, continuavam apontados."

Lev Tolstói, "Guerra e Paz", Vol I.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

Los magos perdidos

"Alrededor de las cuadras y los corrales, se habían refugiado muchos forasteros pobres, numerosas familias sin hogar. Nunca olvidaré la estrella brillando tan cercana sobre los míseros cobijos improvisados. Nunca olvidaré el asombro de los harapientos ante los jaeces lujosos de los camellos y las ropas doradas de la comitiva. Nunca olvidaré las idas y venidas de los Reyes desorientados, incapaces de encontrar al Niño entre tantos recién nacidos que lloraban bajo la helada."

José María Merino

Domingo, Dezembro 25

Der Schnee

La ville entière est cette nuit
une splendeur blanche de conte.
Doucement je suis sorti
dans la neige, la neige appliquée
pour à l’air libre
lancer des youpis à tue-tête.
Après tout j’invente ainsi des notes;
pour ces hommes distingués dont je veux être
il ne convient pas de crier sa joie de vivre.
De cela se préoccupent les rustres
qui ne se plient pas aux douces prières.
Ainsi j’allais donc vraiment très
doucement à travers l’éclat absent de la lune,
car il neigeait. La neige n’est pas dure,
bien plutôt tendre, humide et molle;
Les flocons qui tombent
sont caressants plus que secs.
C’est comme s’ils embrassaient
quelqu’un et comme s’ils le savaient,
comme si la première et douce neige savait
qu’elle ne fait pas mal aux petites joues
qu’elle effleure de son écume.
Si je ne me trompe,
mon étrange manière casanière m’a permit
d’attraper un beau tableau d’hiver!


Robert Walser, traduzido por Olivier Fressard

Sábado, Dezembro 24

o mundo

Jean-Luc Godard é especialista em descrever os meus filmes numa única frase. Podia fazer um roteiro seguindo as suas pistas cinéfilas. Mas onde eu quero chegar é ao documentário que acompanha a edição da Criterion de "Au Hasard Balthazar". Entre outras coisas inteligentes, Godard diz que a obra-prima de Bresson é o mundo em noventa minutos.

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Sexta-feira, Dezembro 23

Cuidado com o gato

Claro que alguns dos artigos da Wikipedia são puras invenções. Não é de admirar. Ainda ninguém conseguiu provar que Jorge Luís Borges está realmente morto.

Post sobre não sei quê

Certos versos, num poema, funcionam como uma espécie de bibelôs – pequenos detalhes que adornam um tanto a composição.
Por exemplo, há versos que parecem jarras e outros que lembram escudelas. Como este: “O crepúsculo é a hora dos gatos.” Ou este: “E o nosso leito é um peixe voador.”
I'm dreaming of a blue Christmas


fotografia de Carla Carvalho

Quinta-feira, Dezembro 22

No Lido, Veneza
um velho com uma cesta de pedras,
aconteceu, disse a mais idosa dama, quando os trajes de praia
eram mais compridos,
e se o vento vinha, o velho punha uma pedra.

Pound, Canto XLVIII.

e agora vou para o Pólo Norte com o John Wayne

Against Winter

The truth is dark under your eyelids.
What are you going to do about it?
The birds are silent; there's no one to ask.
All day long you'll squint at the gray sky.
When the wind blows you'll shiver like straw.

A meek little lamb you grew your wool
Till they came after you with huge shears.
Flies hovered over open mouth,
Then they, too, flew off like the leaves,
The bare branches reached after them in vain.

Winter coming. Like the last heroic soldier
Of a defeated army, you'll stay at your post,
Head bared to the first snow flake.
Till a neighbor comes to yell at you,
You're crazier than the weather, Charlie.

Charles Simic


William Klein | Theater Tickets, New York | 1955

Quarta-feira, Dezembro 21

William Klein

Não há regras, não há proibições, não há limites.

o primeiro postulado de Euclides

Por um lado, a minha ideia de presente-mais-que-perfeito aproxima-se muito da maçã que o míudo oferece a Lilian Gish n' A Sombra do Caçador. Por outro lado, não.

Informação ao consumidor

O "Almocreve das Petas", de José Daniel Rodrigues da Costa, está à venda na Livraria Chaminé da Mota (Rua das Flores, Porto), por €37,50.

intenso muito acentuado



Os diálogos de Saraband são magníficos. No entanto, ontem, ao rever o filme, reparei que duas das sequências de que mais gosto não têm palavras. A primeira é a fuga de Karin, contada em flashback na terceira cena, a Marianne. Depois de lutar com o pai, Karin sai porta fora, em camisa de dormir, com umas botas de cano calçadas, e corre pela floresta (como a Karin d' A Fonte da Virgem) e tropeça e cai. A outra é quase no fim, no epílogo, quando Marianne recorda o último encontro com a sua filha. Estão as duas sentadas num quarto de um hospital, Marianne faz uma festa a Martha e ela, por um breve momento, abre os olhos. Os rostos das duas mulheres e o silêncio fazem lembrar Persona. Mas o que se passa nestas duas sequências é muito mais do que eu possa perceber ou explicar. Aliás, é para isso que serve o cinema, para substituir as palavras que não existem ainda. Como a música. Bergman ao lado de Bach.

Karin, Marianne, e uma mesa cheia de cogumelos

— Conhece a Sonata de Paul Hindemith para violoncelo, opus 25?
— Não percebo nada de música.
— Ele quer que faça a audição com ela. É tão difícil.
— E ele que acha?
— Como é que ficava antes de lhe vi o período?
— Um monstro pré-menstrual. Ia para a cama dormir como um anjo e acordava como um demónio.
— O meu cérebro fica uma papa. E custa-me acordar. O papá é uma pessoa madrugadora.
— E esta manhã tiveste uma aula?
— Usei o pijama como protesto. E bocejei um pouco. Estávamos no quarto andamento. O raio do Hindemith escreveu: Quaternário intenso sem expressão e Pianíssimo contínuo. Percebe?
— Parece difícil, de qualquer jeito.
— Ali estava eu com o cérebo em papa a tentar ser "intensa sem expressão". Supliquei-lhe para me deixar em paz, mas ele estava impossível. Ele fez-me tocar a mesma coisa pelo menos uma vinte vezes! Por fim, eu disse muito calmamente: "Não quero saber de nada disto". Disse-lhe que aquilo não era nada uma aula, que era uma tortura animal. Ele também ficou zangado, mas riu-se e disse que devíamos tentar o início, onde diz: intenso muito acentuado, com arcada permanente. Mas estava tão fula que não consegui e ele disse que foi de propósito. Eu disse-lhe que ele não sabia ensinar o que foi injusto da minha parte. O papá é o professor mais paciente, sensível e cuidadoso que há. Ele disse não ter nada a ver com ensinar, mas com vontade e disciplina, e que eu era preguiçosa. Que eu era preguiçosa! Eu levantei-me e pus o violoncelo de lado, porque estava a tremer. Disse-lhe que por hoje chegava e queria dar um passeio sozinha. Ele ficou pálido. Nunca o tinha visto assim. E ele disse "Não sais desta sala". Eu calcei as botas e dirigi-me para a porta. Não o ouvi vir atrás de mim, mas ele agarrou-me pelos ombros...

Ingmar Bergman, Saraband


Abelardo Morell, "Two Open Books: Ellen Ternan and Charles Dickens", 2000.
"O comandante tinha o ar da pessoa que estava a levar a cabo com êxito uma das mais solenes realizações da sua vida. Passeava diante das fileiras e, a andar, dava uns estremeções com o corpo, arqueando ligeiramente as costas para trás. Via-se que o comandante observava com prazer o seu regimento, que estava contente com ele e que todas as suas forças espirituais se concentravam exclusivamente no regimento; apesar disso, o seu andar estremecido parecia manifestar, além dos interesses militares, que uma parte suficiente da sua alma se dedicava à vida social e ao sexo feminino."

Lev Tolstói, "Guerra e Paz", Vol I.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

Terça-feira, Dezembro 20

Den 20. Jänner ging Lenz durchs Gebirg

Este livro escapou à mão habilidosa de Mário Santos mas não escapou à minha. É um dos livros de 2005.

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Depois de cada maré baixa, Neptuno leva a mão às costas e queixa-se do reumatismo.
Das letzte Wort: Augenblick

Os Apressados

Wir sind die Treibenden
(in: Die Sonette an Orpheus, erster Teil n.º XXII)

Os apressados
somos
mesmo sem querermos

Corremos empurrados
como água que se despenha
duma alta cascata

Caindo
a água paira um instante no ar
abrindo o prisma
de um breve arco-íris
e depois prossegue
esquecida do voo

Para quê o voo
a queda
a flor?

Onde o repouso?

Há uma benção divina
no esquecimento


Ana Hatherly, Rilkeana, Assírio & Alvim, Novembro 1999

Higanbana

a magia do Natal já chegou ao blogue

Reparem bem na indumentária vermelha. O Pai Natal não é o lobo mau que deu cabo da avó e da menina naquele bosque escuro? ...

ele também é um organizador de roupeiros

Óscar Faria: O nome de Fernando Pessoa já surgiu num dos seus trabalhos...
Thomas Hirschhorn: Nos cachecóis...

[retirado da entrevista do Púlico, 4.11.2005, página 42]

Cabeça nas nuvens

O sol tropeçou do outro lado e veio cair de cabeça deste lado do mundo.
Agora, a manhã está cheia de dentes partidos.

O dom da palavra

Esta noite, na televisão, dois “grandes vultos da pátria” vão trocar umas ideias sobre o futuro de Portugal. O dicionário diz que a palavra "vulto" é um substantivo que significa "figura pouco nítida". Mas também "estátua", "volume", "massa". Para além de outros significados menos sérios. Portanto, um momento de televisão a não perder.

Segunda-feira, Dezembro 19

A great family Christmas film


Luis Miguel Cintra faz de caçador. O filme está na Venda de Natal da Atalanta, no Monumental. Custa cinco euros.
"Eu disse 'vamos falar de religião'.
Disse o cameleiro: 'devo ordenhar meu camelo.'
Então, quando ele acabou de ordenhar seu camelo eu disse:
'vamos falar de religião'.
E disse o cameleiro: 'é hora de beber leite.'
'Não quer um pouco?' Por delicadeza tentei acompanhá-lo.
'Já provou o leite de um camelo?'
Eu era incapaz de beber leite de camelo. 'Nunca fui capaz.'
Então ele bebeu todo o leite, e eu disse: 'vamos falar de religião.'
'bebi meu leite, devo dançar', disse o cameleiro.
Não falamos sobre religião."

Pound, Canto XLVI.

Sumário

de Contraluz

Quando desceram o enforcado do patíbulo, os seus olhos ainda não tinham perdido o brilho. Depressa o carrasco tratou de os fechar. No entanto, os circunstantes tinham-se apercebido disso e baixaram os olhos de vergonha.
Mas, nesse momento, o patíbulo julgou ser uma árvore, e como ninguém tinha os olhos abertos, não é possível comprovar se, de facto, ele também não o terá sido.

Paul Celan, Arte poética (O Merediano e outros textos), tradução de João Barrento, Cotovia, 1996

Writer, writer, give us a thong

"Every so often an idea comes along of such limpid obviousness that you wonder how it is possible no one thought of it before: I refer, of course, to the newly launched Lady Chatterley range of exotic lingerie.

The range is being sold by the Ann Summers sex shop under the slogan “not to be banned”, and includes a variety of erotic underwear in tasteful purple and pink, with bows, ribbons and plenty of whalebone stays; there is also a matching blindfold."

Continua...



Lev Tolstói com familiares, por volta de 1880.

Domingo, Dezembro 18

de Contraluz

Era Primavera, e as árvores voaram para os seus pássaros.

Paul Celan, Arte poética (O Merediano e outros textos), tradução de João Barrento, Cotovia, 1996

palavras cruzadas

Em "Um dia ideal para o Peixe-Banana" Seymour oferece a Muriel um livro do "único grande poeta do século". Jeder Engel ist schrecklich

No livro Rilkeana" (Assírio & Alvim, Novembro 1999) Ana Hatherly traduziu o primeiro verso de Die Engel assim: Todos têm uma boca lassa. Extraordinário!

Isto foi o que Robert Walser escreveu sobre Hölderlin: "I am convinced that Hölderlin was not that unhappy in his last thirty years, as the professors of literature want to make us believe. Being allowed to dream in a modest nook without being obliged to fulfill permanently all the demands of the world is surely not a martyrium. People only like to see it this way." Claro que ele está a falar de Hölderlin, não digo que não...

Lektion 17

Mischmasch — aprendi a palavra há duas ou três aulas, é um substantivo masculino, pode traduzir-se por "mixórdia". Não sei a sua origem mas é formidável; pelo som percebe-se a confusão que descreve. É das minhas, se assim posso dizer, aliás, é a palavra perfeita para explicar a forma como me relaciono com a literatura: "anda tudo emaranhado e aos tombos dentro da minha cabeça".


[Mischmasch também é isto. Faz todo o sentido]

Sábado, Dezembro 17

para o rapaz de 1964 com alma de sambista *

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la maison de Neauphle-le-Château

O Novo Pai

Uma jovem veste as roupas do pai e diz à mãe: — Eu sou o teu novo marido.
— Espera só até o teu pai chegar a casa — ralha a mãe.
— Ele já chegou a casa — diz a jovem.
— Por favor não faças isso ao teu pai, ele trabalhou tanto durante toda a vida — diz a mãe.
— Bem sei, diz a jovem, precisa de descansar.

Quando o pai chega a casa está vestido com a roupa da filha. E à medida que vai entrando, cumprimenta: Olá mamã, olá papá, já cheguei...


Russell Edson, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2

(eu fico por aqui)

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< O homem que gostava muito, mesmo muito de flores. >

Luiz Pacheco, Diário Remendado, 20/6/75

Lektion 16

Hoje de manhã fiz o meu primeiro teste a alemão. Demasiado fácil para uma língua complicada. A meio, dei-me conta que estava a responder a lápis.

Sexta-feira, Dezembro 16

a coroa e o barrete frígio

Conto de Natal

Esta manhã, o meu filho tinha uma grande estrela na cabeça e anunciou a plenos pulmões o nascimento do menino Jesus. O menino Jesus chorava na manjedoura. O anjo Gabriel não parava quieto e fazia caretas a José que, por sua vez, o ameaçava com a serra de carpinteiro. Um camelo tropeçou numa das patas e o Rei Mago caiu no chão, espalhando o incenso. No final, as pessoas bateram palmas à lua, ao sol, às estrelas, aos pastores, às ovelhas, aos reis, à vaca e ao burro. E dois anjos, no meio de uma gritaria infernal, atacaram o Pai Natal.

The Crying Of Lot G

As estações dos correios transformaram-se numa espécie de loja de inconveniência. Para além dos selos — que já ninguém compra —vendem objectos díspares: canecas, chocolates, ursinhos vestidos de médico, telemóveis e livros. Começaram, à cautela, por Paulo Coelho e Pinto da Costa mas agora (será que as vendas subiram em flecha?) encheram as prateleiras e expositores com livros para crianças, adolescentes ou adultos.
Não concordo, acho que deviam vender apenas "O Leilão do Lote 49". Por debaixo do balcão.

[A short story about WASTE and the trumpet]

Quinta-feira, Dezembro 15

a lida da casa moderna (com os ouvidos em bella ciao)

Barbara Ciurej/Lindsay Lochman | Glory Odalisque & Glory Vacuum | 1980
perdidos e achados: (the not knowing)

«Não desejarei nunca a ninguém ser eu. Apenas eu sou capaz de me suportar a mim próprio. Saber tanto, ter visto tanto, e não dizer nada, apenas nada.» walser

Quarta-feira, Dezembro 14

"Claro que eles querem a guerra", disse Bill Yeats,
"Querem todas as garotas para eles".

Pound, Canto XLI.

Prolongamento com vodka

< O Tio Vânia já vai a meio do 2.º acto, o Xico tem-lhe dado. Com esta nova invasão na minha vida (mental), vou repetir a experiência (talvez) que fiz em 1960 com a revisão-refundição-versão pachecal de A Minha mulher e depois, nos anos seguintes, com a série de contos compilados no volume Os Mujiques e que fui fazendo de 60 a 62 ou 63, em Lisboa, Almoinha, Macieira e Setúbal. Foram os meus anos Tchekov. Li tudo, meditei mais e aprendi. A melhor forma de crítica a um texto estrangeiro é a sua tradução: há que lhe penetrar todos os meandros e pesar, maduramente, as dificuldades, ambiguidades (algumas indefiníveis, intransponíveis para outra língua); tanto pior na fraude que é trabalhar sobre versões onde se encontra de tudo: cortes e fantasias escusadas. Os contos de Os Mujiques, onde me faltaram dois e fundamentais: A Senhora do Cãozinho e O Estudante (este, a melhor coisa de Tchekov, afirmado por ele mesmo; aquele, um texto delicadíssimo, cheio de subtilezas e nuances sentimentais) pu-los no meu português a partir das traduções aldrabadas do tipo do Porto (Cordeiro de Brito), do Dennis Roche, primeiro tradutor francês ainda em vida do Tchekov, parece-me, doutras versões francesas, e espanholas (directas) da Austral (muito cortadas), de uma inglesa, outra italiana e de uma antologia brasileira...
(...) Nele, Tchekov, o objectivo primeiro e o mais difícil é a aprensão do tom. Ora melancólico, ora humorístico, é ele que impregna e unifica todos os elementos da narrativa, por vezes banais ou aparentemente desnecessários. Apanhado o tom e conseguindo dá-lo em português, o resto são pormenores de fidelidade ao original — mas que é dele? como chegar lá? com 7 versões diante do nariz, umas recheadas de material outras muito despachadas, com cortes evidentes (porque os outros tradutores não iam inventar e o critério que adoptei foi seguir sempre as traduções que me pareceram mais completas). Tive duas opiniões, opostas mas a segunda suspeita: a Fernanda Alves disse-me, de A Minha Mulher, que eu soubera transmitir o tal tom tchekoviano (e creio que sim); o Vítor, em assembleia complacente e numa das suas costumadas rábulas, disse que a Célia, que sabe russo (pelo menos, uma vez lá em casa vi-a a estudar), dera com uma data de disparates meus, o que também acho provável, mas na medida em que..
Voltando ao Tchekov, dramaturgo, e ao Tchekov, contista, porque vou reler outra vez tudo e tentar comprar aquela biografia recente que já tive encomendada e me venderam...

Luiz Pacheco, Diário Remendado, ?/?/73



Tolstói e a família, por volta de 1880. O espaço lembra um dos salões aristocráticos descritos pelo autor em "Guerra e Paz". Palco privilegiado dos "momentos de 'paz' (amores, intrigas de salão, divertimentos, trivialidades)", de que fala Filipe Guerra, e que, na verdade, se encontram "intimamente relacionados com a guerra".
De qualquer maneira, cerca de 80 anos separam o início da acção de "Guerra e Paz" (1805) e esta fotografia.

Terça-feira, Dezembro 13

si ceci est cela, cela est ceci

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(para o Rui que em tempos me apresentou a John Cage e agora negoceia jóias)

A primeira regra é comprar ingredientes bons, mesmo que sejam caros. Por isso, a massa deve fresca e italiana (eu gosto da marca Bertagni e, dos vários recheios disponíveis, recomendo al pesto ); os coentros, em ramo viçoso; os cogumelos mais formosos que encontrarem; azeite de Valpaços virgem extra; alhos (fica à desamão mas os melhores e mais intensos são os da Graciosa); e queijo parmesão.

Antes de mais, coloca-se um disco de John Cage num volume suficientemente alto, serve qualquer composição (excluindo o falso silêncio), por exemplo: Aria (for Cathy Berberian), 1958.
Veste-se um avental limpo, de qualquer cor. Em seguida cortam-se os cogumelos em lâminas (este é um dos meus momentos preferidos por causa da textura dos cogumelos) e salteiam-se lentamente em lume brando com o tal azeite e os alhos moídos, até ficar tudo castanho escuro, tipo bosque-profundo. Se gostarmos de pensamentos mórbidos é a altura certa para os desenvolver, depois será tarde.
Como podem comprovar, é possível acompanhar a composição de Cage partindo um copo de pé alto ou dizendo uma frase em russo. À parte põe-se água ao lume e quando ela ferver mergulham-se os tortellini no tacho durante um ou dois minutos, que é quanto basta. Depois escorrem-se e acrescentam-se aos cogumelos, juntamente com um ramo de coentros finamente picado. Pode-se adicionar mais um fio de azeite ou não, a gosto. Mexe-se tudo com muita gentileza e serve-se (em pratos aquecidos, se estiverem virados para os pormenores) polvilhado com o queijo acabado de ralar. Acompanha-se com um vinho tinto do Douro com uma graduação superior a 13 graus. Convida-se Walser para jantar. Entretanto, ele chega. Traz um gelado em forma de pêra. Muda-se o disco.

Para Esmé – com amor e sordidez, (sem conhecimento do senhor J.D. Salinger)

Para além dos romances, das peças, e dos poemas, Thomas Bernhard também escreveu pequenas peças de prosa. Há dez textos traduzidos para português no livro "Novíssimas Histórias com Tempo e Lugar (Prosa de Autores Austríacos) 1970-2000, coordenado por Ludwig Scheidl e editado pela MinervaCoimbra. São histórias minúsculas e estranhas que nos deixam uma impressão esquisita na cabeça e os lábios secos. Eu acho que aquela miúda inglesa Esmé — que se interessava "extremamente por sordidez", lembro-me bem— é capaz de gostar do estilo. Por isso a dedicatória roubada. Ela merecia a primeira história, eu sei, mas leva a última. Merecia também uma tradução melhor (esta não vem assinada, depreendo que seja de Ludwig Scheidl ou de um seu colaborador) mas dá para perceber o tom e para ganhar alento para as aulas de alemão. É o que se quer.
O sobrevivente anota: pelos finais da guerra foram feitas galerias nos dois montes da cidade, para dentro das quais as pessoas afluíam, porque ameaçavam as destruições. Só porque entram na mina escapam com vida. Primeiro não se atrevem a sair para a luz do dia. Alguns habitantes deixam passar os portões os que lhes parecem fracos e inutéis, finalmente também, as crianças e à tarde abandonam todos em silêncio as galerias, onde muitos deles morreram com falta de ar, porque havia pouco oxigénio. Voluntários trazem os mortos para fora e enterram-nos diante das saídas. Mas quando a guerra acabou, acontece o que ninguém é capaz de compreender: não tapam as galerias, mas entram nelas, como se lhes tornou um hábito. Todos os dias à mesma hora. Haverão de procurar as galerias, enquanto viverem.
uma pequena história de Thomas Bernhard, retirada de Ereignisse (Acontecimentos) editado pela primeira vez em 1969

(empate técnico?)

< Tenho outras coisas a fazer: a versão do Tio Vânia, que o Xico começou ontem. Voltei ao meu caro Tchekov, e aqui havia já muito a dizer mas estou com pressa. É dia de acção.

Luiz Pacheco, Diário Remendado, 4/6/73

Lugares perigosos

Um artigo muito interessante de Jorge Vilas, no Jornal de Notícias de ontem, dá-nos conta de que o Porto foi, desde sempre, um destino de eleição para os suicidas portugueses. Gente que escolhe esta cidade para acabar com a vida. "O Porto tinha o condão de atrair suicidas." Porque será? Aposto que os portuenses sabem a resposta.

Night end day

Vai alta a noite. Caiu o silêncio. Partiu uma perna. Neste momento, como se diz, o prognóstico é reservado.

Segunda-feira, Dezembro 12

Duas respostas de alunos de uma escola do concelho de Santo Tirso, numa prova recente de História do 8º ano.

Pergunta: "Refere o objectivo da política expansionista de D. João II."
Resposta: "O objectivo era tornar mais povos cristãos e contar com a ajuda do Papa João Paulo."

Pergunta: "Indica para quem se tornou mais vantajoso o contrato de arrendamento da costa ocidental africana, estabelecido por D. Afonso V. Justifica a tua resposta."
Resposta: "O contracto tornou-se mais vantajoso para o Fernão Gomes, pois assim podiam transportar mercearia de um lado para o outro."
"Vai haver guerra?" "Não, Senhorita Wi'let,
Não no que toca a relações comerciais."

Pound, Canto XXXVIII.

Brincar com o fogo

Arrastado pelo vício da luxúria, delicio-me com cada pormenor das descrições de roupas femininas no "Guerra e Paz".

"Ouviu-se do quarto contíguo o rocegar de um vestido de mulher."

Os personagens masculinos falam com a boca.
Os femininos falam através dos vestidos.

Ainda a propósito do título "Guerra e Paz"

Ainda a propósito dos problemas levantados pela tradução do título "Guerra e Paz", a que fizemos referência aqui, o Filipe Guerra (um dos tradutores da obra) fez o favor de nos oferecer mais algumas explicações:

"Mesmo na Rússia actual, o entendimento maioritário do título do livro é «guerra e paz», muito por «culpa» do próprio Tolstói que, ao ver a tradução francesa do título, gostou e a «aprovou», embora este título, no fundo, contrarie a própria lógica do roman-fleuve de Tolstói, onde apenas se trata da guerra e todos os momentos de «paz» (amores, intrigas de salão, divertimentos, trivialidades) estejam intimamente relacionados com a guerra, do princípio ao fim do livro. Mesmo no fim, a derrota e a fuga dos franceses não significam ainda a paz, apenas uma suspensão, uma nova forma de guerra. Por curiosidade, o «i» de «mir» (actualmente «guerra» e «mundo») tem ainda uma representação gráfica distinta consoante a palavra em certas línguas eslavas como o bielorrusso."

(Texto retirado das nossas caixas de comentários).

Faz-de-conta

Retiradas as bandeiras do Scolari, há agora um Pai Natal pendurado em cada janela. Os políticos costumam dizer que os portugueses são sábios. Mas eu juro que não entendo.

a beleza do cinema mudo

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"Este tipo ainda vai fazer um filme sem uma única palavra...", foi mais ou menos o que ele disse enquanto descíamos as escadas do centro comercial, ainda atordoados.
Sem querer, tinha acabado de explicar tudo quanto é possível explicar sobre o encanto de Bill Murray.

Êxtase

«Se te sentares aqui durante muito tempo e ficares muito quieta, és capaz de conseguir ver um dos antílopes azuis,» disse eu para Cora. «Faria qualquer coisa para ver um desses antílopes azuis,» disse ela. «Era capaz de tirar a roupa e deitar-me sem me mexer durante todo o dia em cima da relva.» «É uma boa ideia», disse eu, «tirar a roupa, quero dizer, assim é mais natural.» Conhecera Cora na biblioteca na noite anterior e contara-lhe acerca do antílope azul, pelo que marcáramos um encontro para tentar vê-los. Permanecemos nus perto um do outro durante horas. Estava um belo dia de sol com uma brisa que provocava cócegas. Por fim, Cora sussurrou ao meu ouvido, “Meu Deus, estou a vê-los. São tão delicados, tão airosos. São como anjos, anjos de centáureas azuis.» Olhei para Cora. Estava a desaparecer. Tornava-se num deles.

James Tate, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2
- Se toda a gente combatesse apenas pelas convicções, não haveria guerras - disse [o príncipe Andrei].
- O que seria óptimo - disse Pierre.
O príncipe Andrei soltou uma risadinha.
- Seria muito possível que fosse óptimo, mas nunca acontecerá...
- Diga-me, por que é que vai para a guerra? - perguntou Pierre.
- Porquê? Não sei. Tem de ser. Além disso, vou... - Fez uma pausa. - Vou porque esta vida que levo aqui, esta vida... não me agrada!

Lev Tolstói, "Guerra e Paz", Livro I.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

As gordas no WC

Yi Tien Electronics today announced a breakthrough news delivery system for the restroom. At a press conference, Yi Tien Electronics unveiled the rsstroom reader™, an rss reader for the restroom which prints directly to toilet tissue through RapidResolution® inkjet technology. Complete with wireless connectivity, the rsstroom reader™ will print out up to the minute articles from rss 2.0 and atom newsfeeds. Configurable via web browser*, the rsstroom reader™ can be set up to output an unlimited number of feeds in either sequential, alternating, or random mode. Included with the rsstroom reader™ deluxe package is the biometric seat which allows for customized feed output based on the unique features of users. The biometric seat also allows for tracking & printing the progress of your weight-loss regime.

Domingo, Dezembro 11

por causa de Paulette Goddard

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< Li anteontem o Diárío de uma Criada de Quarto, do Octave Mirbeau (aliás, tenho já uma colecção de diários, memórias, biografias, fora a lista que apontei — pág. 26 — e dá horas e horas de leitura). O livro do Mirbeau (trad. péssima, como se espera) tem um sabor gaulês que me deu muito gozo, e donde posso extrair boas lições para os meus episódios eróticos, a enxertar no Diário remendado. De notar, a técnica do flashback, o suspense com que são preparadas certas cenas ou o aparecimento de personagens, tudo muito bem encadeado.

Luiz Pacheco, Diário Remendado, 31/10/75

Sábado, Dezembro 10

i think of you as a poet

If I am well-disposed, that's to say, feeling good, I tailor, cobble, weld, plane, knock, hammer, or nail together lines the content of which people understand at once. If you liked, you could call me a writer who goes to work with a lathe. My writing is wallpapering. One or two kindly people venture to think of me as a poet, which indulgence and manners allow me to concede. My prose pieces are, to my mind, nothing mor nor less than parts of a long, plotless, realistic story. For me, the sketches I produce now and then are shortish or longish chapters of a novel. The novel I am constantly writing is always the same one, and it might be described as a variously sliced up or torn-apart book of myself.

Robert Walser, Eine Art Erzãhlung, 1928-1929

Sexta-feira, Dezembro 9

DINNER AT THE MOTEL?

O problema dos homófonos

O primeiro dos quatro livros da nova edição de "Guerra e Paz", de Tolstói (Editorial Presença), começa com a seguinte nota dos tradutores:

"Sobre o título do romance:
Actualmente, o leitor comum considera que o título desta obra é composto por dois antónimos - guerra e paz - e, tradicionalmente, as traduções para línguas estrangeiras consagram o título «Guerra e Paz». Na verdade, no original russo não consta a palavra «paz», mas sim um seu homófono que significa «universo, sociedade, mundo humano» (no tempo de Tolstói os dois homófonos tinham grafia diferente, o que actualmente não acontece, e daí a confusão). Os tradutores da presente obra, porém, resolveram não contrariar a tradição e manter a tradução do título já consagrada no Ocidente."

Nina Guerra e Filipe Guerra.

A importância do inquérito para uma boa noite de sono

Um homem é morto a tiro pelas "forças de segurança" com base numa suspeita. Depois de morto, as "forças de segurança" concluem que o homem não constituía nenhuma ameaça, digamos, significativa. A "opinião pública" fica inquieta com a estranha eficácia das suas "forças de segurança". As "autoridades" prometem "abrir um inquérito". A "opinião pública" volta a dormir tranquila e a sorrir durante o sono.

A escrita invisível

Em 1933 Robert Walser foi transferido de Waldau para Herisau contra sua vontade. Tinha 55 anos. A partir daí, não escreveu nem mais uma linha porque, disse, para o fazer precisaria de liberdade. Desiste do lápis e dos papéis usados, do verso dos envelopes, desiste de tudo, adapta-se às normas do hospício, cala-se. Mas o silêncio dele é um silêncio de luta, do contra, é a única e a última arma de que dispõe para se revoltar. Walser cala-se apenas para os outros: não estou aqui para escrever mas para ser louco.
Robert Walser passou 23 anos em Herisau. O que é que ele fazia às ideias e às palavras durante todo esse tempo? Se a sua escrita sempre foi, ou, foi sendo cada vez mais (pelo menos assim suspeito) uma corrente formidável e indomável, ele não a poderia impedir do pé para a mão — morreria, não era? Ora bem, o que eu acho é que depois do sistema do lápis, Walser inventou um sistema ainda mais perfeito, uma escrita ainda mais secreta e indecifrável: escrevia na cabeça, palavra a palavra, frase após frase. E vou mais longe: talvez as suas melhores obras sejam essas últimas, escritas sem qualquer registo, voláteis. As pequenas peças de prosa desfazem-se no ar como vapor de água, ao ritmo dos seus passos. Nunca ninguém vai saber.
Why be sweet, why be careful, why he kind? / A man has only one thing on his mind / Why ask palitely, why go lightly, / Why say please? / They only want to get you on your knees / There are a few things I never could believe / A woman when she weeps / A merchant when he swears / A thief who says he'll pay / A lawyer when he cares / A snake when he is sleeping / A drunkard when he prays / I don't believe you go to heaven / When you're good / Everything goes to hell, anyway...

(eles andam por aí)

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< ... Tenho de ver rapidamente O Último Tango em Paris e Grande Farra, pelo menos. Eles aí voltam, os puritanos! do Pêcê, da católica hipocrisia, do provincianismo tacanho.>

Luiz Pacheco, Diário Remendado, 27/10/74

Quinta-feira, Dezembro 8

Full Text

O Guardian publica aqui a versão integral do discurso que Harold Pinter gravou em vídeo para a cerimónia de entrega do Nobel.
Um texto anti-americano q.b.

Post-it

Nunca é demais lembrar a todos os nossos leitores que este é melhor blogue português de literatura, música, artes decorativas, anúncios promocionais e bebidas espirituosas. Uma referência tanto mais pertinente quanto comemoramos hoje, com todo o fervor de que somos capazes, a Imaculada Conceição de Nossa Senhora, a rainha de todos os santos.

Quarta-feira, Dezembro 7

Lektion 15

...

Valerio: Und ich werde Staatsminister und es wird ein Dekret erlassen, daß wer sich Schwielen in die Hände schafft unter Kuratel gestellt wird, daß wer sich krank arbeitet kriminalistisch strafbar ist, daß jeder der sich rühmt sein Brod im Schweiße seines Angesichts zu essen, für verrückt und der menschlichen Gesellschaft gefährlich erklärt wird und dann legen wir uns in den Schatten und bitten Gott um Makkaroni, Melonen und Feigen, um musikalische Kehlen, klassische Leiber und eine kommode Religion!

Georg Büchner, Leonce und Lena, Ein Lustspiel, Dritter Act

dois tipos sentados


Duas personagens de Harold Pinter, fotografadas por Francis Bacon. Pode ser num quarto qualquer, em qualquer sítio, onde menos se espera. Parecem decentes mas o que dizem — nem é bem isso, é mais o que não dizem, o que insinuam, o que deixam no ar — é terrível. Eles existem, apesar da minha dislexia iconográfica.

il faut

< Changer la vie.
Para começar, é evidente, a minha; pois assim não quero nem posso continuar. A punheta de manhã, a fome durante o dia, a solidão sempre, sem o vinho a lucidez e a tristeza, a velhice, a decadência. Que não me vai aproveitar a mim, vá. Mas diga (como pede a Maria) algo aos outros. É esse o meu dever de escriba.

Luiz Pacheco, Diário Remendado, 14/1/72

Você está aqui

Todas as manhãs, os jornais fazem questão de nos lembrar que o grande desígnio nacional é combater a "instabilidade". A instabilidade política, a instabilidade orçamental, a instabilidade no trabalho, a instabilidade familiar, a instabilidade emocional. Para viver plenamente satisfeitos precisamos de "estabilidade". E, no entanto, "estabilidade" é a palavra mais cobarde que existe.

Terça-feira, Dezembro 6

R: segunda via (as medidas dele)

< À espera de provas do Porto! A minha mania da tarefa única, prioritária, obcecante. E tudo a andar em roda.
50-60 de pulso. Coramina, café, ovos, pão. Vou-me abaixo? O desejo fácil de meter álcool no bucho, como das outras duas últimas vezes. Passou logo. E depois... a macacada? Aguentar! Mandei vir a Olga com medicina. E vou tentar levantar-me. Reagir. Estourar na cama e de cachecol parece-me impróprio de um guerreiro Pacheco.
1 Persantin + 2 Unisedil. Carrego nas drogas, que estão a acabar, raio. A D. Olga propõe anis, vinho do Porto. Volto à mesma. Resisto.
Podem ser truques dos anticorpos para lhes enfiar a pinga.

Oirado de oirar, termo muito usado nas palavras cruzadas. >

Luiz Pacheco, Diário Remendado, 29/11/71

— um café com algumas flores partidas, por favor

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fotografia de Nobuyoshi Araki

Jim Jarmusch: I like to look in the shadows and the margins to find things that aren't considered dramatic like a taxi ride or a cup of coffee.

I'm attracted to those in-between moments because in life a lot of very moving and important things come out of them. And in this film, I didn't want to give you too much information about where we were in America: I wanted the airports and rental cars and highways to look the same. We even made up fake licence plates. I'd say to the crew that we were filming in Generica.
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R: convivência na Justiça

(dez páginas para trás, situação-limite resolvida em vésperas do natal )

< Maria dormiu e fodeu cá em casa.
Edição salva.

Luiz Pacheco, Diário Remendado, 23/12/71
Os textos começam a pensar-se mal a gente adormece.
Algumas pessoas conseguem acordar a meio da noite e a meio do dia, e surpreender os textos em pleno acto de pensar-se.
Assim, presos pelo fio do seu próprio pensamento, os textos tornam-se alvos fáceis.
E então as pessoas apanham-nos como se apanham os pássaros nos prados com a ajuda de redes.
Depois, fechados em gaiolas, basta engordá-los com alpista e emagrecê-los com a dose certa de morte.

Segunda-feira, Dezembro 5

1ª jogada

...Como li ontem no Giono: «Forcer la main est magnifique.» E ainda esta, que já sabia: «Personne ne peut vivre sans joie. La vie, c'est la joie.» >

Luiz Pacheco, Diário Remendado, 6/3/74

na letra "efe" o Gorey dá de frosques

31/10/74

Noite dos diabos, com asma (?). Distraí-me com o Freud e o Beckett (Malone Meurt). Lembro como o trecho do lápis pequenino (lido ainda em Almoinha num Les Temps Modernes antigo) terá talvez influenciado o tom de O Teodolito. A escrita do Samuel Beckett é de uma implacabilidade, recheada de contradições e denegações, de rimas internas, de uma constante ironia superior e, de repente, logo inesperado o comentário metafísico, quase sem se dar por isso.

Luiz Pacheco, Diário Remendado, D. Quixote

Le journal d'une femme de chambre

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Jean Renoir adaptou a história em 1946 com Paulette Goddard. "Um dos seus filmes mais belos e mais incompreendidos", resumiu João Bénard da Costa. Luis Buñuel filmou-a dezoito anos mais tarde com Jeanne Moreau (e as suas botinas, devo acrescentar). Infelizmente (ainda) não vi nenhum dos dois filmes. Mas nem tudo está perdido, ontem encontrei em casa da minha mãe, cheio de pó, o livro de Octave Mirbeau, traduzido, com mestria e desembaraço, por Manuel João Gomes (edição de 1979, Cículo de Leitores). Lê-se em duas noites. O mundo é sórdido, Célestine, muito sórdido.

O que é que Jean Renoir e Luis Buñuel têm em comum?

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Por via das dúvidas

Imaginem uma grande lixeira. E no meio do lixo, um pequeníssimo diamante. O mais raro e puro e brilhante de todos os diamantes.
Imaginem milhões de pessoas a revolver furiosamente o lixo, à procura da pedra. Dias, meses, anos inteiros. Sempre com lixo pela cintura. De vez em quando, alguém desenterra um cristal perfeito, uma boa imitação de vidro, enganadoras flores de quartzo. Pequenas coisas de uma beleza plausível. Mas nada que faça sombra, por um segundo que seja, ao brilho do diamante verdadeiro.
Muitos afirmam sem hesitar que o diamante nunca foi descoberto. E há mesmo quem defenda que a pedra não existe, que não passa de uma espécie de incêndio que certas pessoas trazem permanentemente dentro da cabeça.
Mas eu sei que o diamante é muito mais do que um mero exercício da imaginação. E sei de pessoas – muito poucas, é certo – que já o encontraram. Basta ler os poemas.

Notícia do dia

Esta manhã, uma maçã vermelha rolou pela rua, caída da sua caixa de maçãs vermelhas. A maçã pertencia a uma mercearia cinzenta da Rua Nove de Julho.

Pinter no Babelia

"El Premio Nobel de Literatura a Harold Pinter es uno de los más merecidos en la historia de esa institución." (Carlos Fuentes)

Dossier dedicado a Harold Pinter, esta semana, no Babelia.

Domingo, Dezembro 4

pregos, panados, moelas, figado, rissóis, croquetes

Mesas, mesas, cadeiras, cadeiras. Dedos pretos devido aos jornais. Dedos amarelos por causa do tabaco. Frases-chave saltando do livro. Frases-chave que não abrem coisa nenhuma. No jornal, um escritor sérvio diz que o seu gato gosta de passear sobre os teclados. O gato escreve histórias extraordinárias na língua dos gatos, diz o escritor. Uma televisão dá saltos mortais por cima das cabeças de dois velhotes adormecidos. Sete da tarde no café Piolho. Fecho o caderno. Mãos vazias.

Sábado, Dezembro 3

27/4/73

Devo começar a preparar-me para um projecto que desde há anos trago na tola e não me será possível (reconheci-o hoje) realizar sem elementos recolhidos antecipadamente. Trata-se da História de Ratos ou trinta contos por mês, escrever um conteco todos os dias durante um mês ou mais se calhar, subordinados ao tema geral das histórias de ratos ou ad libitum, histórias de indivíduos ou animais ou até objectos imaginários que se portaram como ratos: afinal, apesar de todas as perseguições e malfeitorias do outro, da sociedade das Múltiplas Polícias, conseguiram levar a sua avante, a água ao seu moinho ou o queijo à sua fome.

Luiz Pacheco, Diário Remendado, D. Quixote

Sexta-feira, Dezembro 2

BRUSCON: Um actor de talento
é tão raro como um olho do cu na cara
Esta afirmação foi Pirandello quem a fez
ou talvez tenha sido eu próprio a fazê-la
Pirandello fez afirmações dessas
mas eu próprio estou sempre a fazer afirmações dessas
não sei as mais das vezes
se fui eu quem fez dada afirmação
ou se foi Pirandello quem a fez
não sei dizer

Thomas Bernhard, O Fazedor de Teatro.

FORA!

Ao lado da (colorida, barulhenta, exagerada, engraçada) exposição de Thomas Hirschhorn, a exposição de Rui Chafes e Pedro Costa. Bressoniana.
Nha cretcheu, meu amor
O nosso encontro torna a nossa vida mais bonita, pelo menos há mais de trinta anos.
Pela minha parte, torno-me mais novo e volto cheio de força.
Eu gostava de te oferecer cem mil cigarros,
uma dúzia de vestidos daqueles mais modernos,
um automóvel,
uma casinha de lava que tu tanto querias,
um ramalhete de flores de quatro tostões.
Mas antes de todas as coisas
Bebe uma garrafa de vinho do bom,
Pensa em mim.
Aqui o trabalho nunca pára.
Agora somos mais de cem.
No outro ontem, no meu aniversário
Foi altura de um longo pensamento para ti.
A carta que te levaram chegou bem.
Não tive resposta tua.
Fico à espera.
Todos os dias, todos os minutos,
Todos os dias aprendo umas palavras novas e bonitas, só para nós dois.
Mesmo assim à nossa medida, como um pijama de seda fina que tu não queres.
Só posso te chegar uma carta por mês.
Ainda sempre nada da tua mão.
Fica para a próxima.
Às vezes tenho medo de construir esta parede
Eu, com picareta e cimento
E tu, com o teu silêncio
Uma vala tão funda que te empurra para um longo esquecimento.
Até dói cá dentro ver estas coisas más que não queria ver
O teu cabelo tão lindo cai-me das mãos como as ervas secas.
Às vezes perco a força e juro que vou esquecer de mim.

Fontainhas, 2005, Pedro Costa, DVCam, cor 4:3, 4 minutos e 36 segundos,
Ventura e Pedro Costa e Robert Desnos na Exposição FORA! em Serralves

my aquatic life without Steve Zissou

Hoje o despertador não tocou e deixei-me dormir. Lembro-me com muita nitidez de uma das últimas imagens dos meus sonhos. Era o mar, mas não como ele é. Mais transparente, luminoso, mais verde que azul, prolongava-se para baixo e não para o largo, como se fosse um copo de água, um copo enorme. Via-se tudo até ao fundo, mas não tinha fundo. Mesmo assim atirei-me à água. Depois acordei com o barulho da rua, eram nove e dez, já devia estar a trabalhar.

Quinta-feira, Dezembro 1

A literatura e a música, e o cinema, e tal, sim senhor, é tudo muito interessante. Mas agora vamos falar de coisas realmente importantes

As lesões musculares do membro inferior continuam na ordem do dia, por motivarem a ausência [dos campos de futebol] de alguns notáveis da liga portuguesa. (...) Na ribalta permanece, também, a hérnia inguinal do desportista, em tempos designada por pubalgia, por força da novela que tem envolvido o tratamento e a recuperação do guarda-redes Quim (Benfica) e, agora, o colega de equipa Manuel Fernandes.
(...)
Importa acrescentar que a abordagem efectuada no tratamento dos jogadores do Benfica, que assentou numa reparação laparoscópica - apoiada em técnicas de imagem, minimizando a agressão cirúrgica local e permitindo um mais rápido retorno à competição - por contraponto com a técnica clássica (que implica a abordagem local e a reparação a céu aberto da lesão) -, a laparoscopia, dizia, nem sempre se revela a melhor solução.

Importa a respeito disto dizer que os problemas dolorosos relacionados com a parede abdominal inferior - hérnia do desportista -, os adutores (rupturas e sequelas) e a bacia lesões da sínfise - são causa frequente de queixas entre os futebolistas profissionais, motivando longos períodos de ausência da competição e colocando problemas de solução complicada.

Jornal de Notícias de hoje.
Presentemente cumprimento uma rapariga, que vejo todos os dias, de forma muito singular, não inclinando a cabeça, mas sim levantando-a, tal como fazem os soldados na presença dos superiores. A rapariga já ficou bastante desconfiada. Que olhar sério lhe lanço sempre! Estremece, quando a cumprimento, foge, como se tivesse receio. Só a ela dirijo este tipo de cumprimento orgulhoso, verdadeiramente grandioso. Que significa isto? Vou dizê-lo. Ela trabalha numa livraria, livraria editora, e através dela cumprimento a minha profissão. Cumprimento todos as obras intelectuais que se encontram na livraria dela e em todas as outras livrarias. Nunca ninguém cumprimentou de forma tão desafiadora, tão grandiosa. Ela mal se atreve a olhar-me, o meu cumprimento tornou-a muito tímida, mas isso não importa. Em todo o caso tive um efeito sobre ela, tal como os poetas têm um efeito sobre os leitores. Ela não me compreende bem, isso explica-se facilmente. Como é que ela pode pensar que com o meu cumprimento especial pretendo respeitar-me a mim próprio. Há cumprimentos muito irrefletidos, mas também os há muito conscientes! Será que atormento a rapariga? E se atormentar! Assim fica a saber uma vez na vida como é que se comportam os escritores que não se esquecem do seu valor.

um de três textos inéditos de Robert Walser
traduzido a sério por Maria Ester Ramos e publicados na revista Ler #62