Sábado, Dezembro 3

27/4/73

Devo começar a preparar-me para um projecto que desde há anos trago na tola e não me será possível (reconheci-o hoje) realizar sem elementos recolhidos antecipadamente. Trata-se da História de Ratos ou trinta contos por mês, escrever um conteco todos os dias durante um mês ou mais se calhar, subordinados ao tema geral das histórias de ratos ou ad libitum, histórias de indivíduos ou animais ou até objectos imaginários que se portaram como ratos: afinal, apesar de todas as perseguições e malfeitorias do outro, da sociedade das Múltiplas Polícias, conseguiram levar a sua avante, a água ao seu moinho ou o queijo à sua fome.

Luiz Pacheco, Diário Remendado, D. Quixote

Sexta-feira, Dezembro 2


Filipa César, Berlin Zoo, Part02, 2001-2003, video, pal, sound, colour, 5' 37'' | Galeria Cristina Guerra
BRUSCON: Um actor de talento
é tão raro como um olho do cu na cara
Esta afirmação foi Pirandello quem a fez
ou talvez tenha sido eu próprio a fazê-la
Pirandello fez afirmações dessas
mas eu próprio estou sempre a fazer afirmações dessas
não sei as mais das vezes
se fui eu quem fez dada afirmação
ou se foi Pirandello quem a fez
não sei dizer

Thomas Bernhard, O Fazedor de Teatro.

FORA!

Ao lado da (colorida, barulhenta, exagerada, engraçada) exposição de Thomas Hirschhorn, a exposição de Rui Chafes e Pedro Costa. Bressoniana.
Nha cretcheu, meu amor
O nosso encontro torna a nossa vida mais bonita, pelo menos há mais de trinta anos.
Pela minha parte, torno-me mais novo e volto cheio de força.
Eu gostava de te oferecer cem mil cigarros,
uma dúzia de vestidos daqueles mais modernos,
um automóvel,
uma casinha de lava que tu tanto querias,
um ramalhete de flores de quatro tostões.
Mas antes de todas as coisas
Bebe uma garrafa de vinho do bom,
Pensa em mim.
Aqui o trabalho nunca pára.
Agora somos mais de cem.
No outro ontem, no meu aniversário
Foi altura de um longo pensamento para ti.
A carta que te levaram chegou bem.
Não tive resposta tua.
Fico à espera.
Todos os dias, todos os minutos,
Todos os dias aprendo umas palavras novas e bonitas, só para nós dois.
Mesmo assim à nossa medida, como um pijama de seda fina que tu não queres.
Só posso te chegar uma carta por mês.
Ainda sempre nada da tua mão.
Fica para a próxima.
Às vezes tenho medo de construir esta parede
Eu, com picareta e cimento
E tu, com o teu silêncio
Uma vala tão funda que te empurra para um longo esquecimento.
Até dói cá dentro ver estas coisas más que não queria ver
O teu cabelo tão lindo cai-me das mãos como as ervas secas.
Às vezes perco a força e juro que vou esquecer de mim.

Fontainhas, 2005, Pedro Costa, DVCam, cor 4:3, 4 minutos e 36 segundos,
Ventura e Pedro Costa e Robert Desnos na Exposição FORA! em Serralves

my aquatic life without Steve Zissou

Hoje o despertador não tocou e deixei-me dormir. Lembro-me com muita nitidez de uma das últimas imagens dos meus sonhos. Era o mar, mas não como ele é. Mais transparente, luminoso, mais verde que azul, prolongava-se para baixo e não para o largo, como se fosse um copo de água, um copo enorme. Via-se tudo até ao fundo, mas não tinha fundo. Mesmo assim atirei-me à água. Depois acordei com o barulho da rua, eram nove e dez, já devia estar a trabalhar.

Quinta-feira, Dezembro 1

A literatura e a música, e o cinema, e tal, sim senhor, é tudo muito interessante. Mas agora vamos falar de coisas realmente importantes

As lesões musculares do membro inferior continuam na ordem do dia, por motivarem a ausência [dos campos de futebol] de alguns notáveis da liga portuguesa. (...) Na ribalta permanece, também, a hérnia inguinal do desportista, em tempos designada por pubalgia, por força da novela que tem envolvido o tratamento e a recuperação do guarda-redes Quim (Benfica) e, agora, o colega de equipa Manuel Fernandes.
(...)
Importa acrescentar que a abordagem efectuada no tratamento dos jogadores do Benfica, que assentou numa reparação laparoscópica - apoiada em técnicas de imagem, minimizando a agressão cirúrgica local e permitindo um mais rápido retorno à competição - por contraponto com a técnica clássica (que implica a abordagem local e a reparação a céu aberto da lesão) -, a laparoscopia, dizia, nem sempre se revela a melhor solução.

Importa a respeito disto dizer que os problemas dolorosos relacionados com a parede abdominal inferior - hérnia do desportista -, os adutores (rupturas e sequelas) e a bacia lesões da sínfise - são causa frequente de queixas entre os futebolistas profissionais, motivando longos períodos de ausência da competição e colocando problemas de solução complicada.

Jornal de Notícias de hoje.
Presentemente cumprimento uma rapariga, que vejo todos os dias, de forma muito singular, não inclinando a cabeça, mas sim levantando-a, tal como fazem os soldados na presença dos superiores. A rapariga já ficou bastante desconfiada. Que olhar sério lhe lanço sempre! Estremece, quando a cumprimento, foge, como se tivesse receio. Só a ela dirijo este tipo de cumprimento orgulhoso, verdadeiramente grandioso. Que significa isto? Vou dizê-lo. Ela trabalha numa livraria, livraria editora, e através dela cumprimento a minha profissão. Cumprimento todos as obras intelectuais que se encontram na livraria dela e em todas as outras livrarias. Nunca ninguém cumprimentou de forma tão desafiadora, tão grandiosa. Ela mal se atreve a olhar-me, o meu cumprimento tornou-a muito tímida, mas isso não importa. Em todo o caso tive um efeito sobre ela, tal como os poetas têm um efeito sobre os leitores. Ela não me compreende bem, isso explica-se facilmente. Como é que ela pode pensar que com o meu cumprimento especial pretendo respeitar-me a mim próprio. Há cumprimentos muito irrefletidos, mas também os há muito conscientes! Será que atormento a rapariga? E se atormentar! Assim fica a saber uma vez na vida como é que se comportam os escritores que não se esquecem do seu valor.

um de três textos inéditos de Robert Walser
traduzido a sério por Maria Ester Ramos e publicados na revista Ler #62

Quarta-feira, Novembro 30

I don't want You to go But you can't stay

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Three Years Later

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“...The character played by Jean Seberg was a continuation of her role in Bonjour Tristesse. I could have taken the last shot of Preminger's film and started [À Bout de souffle] after dissolving to a title, 'Three Years Later'.”

Milne and Narboni (eds.), p. 173. Translated by Milne from original article: “Interview with Jean-Luc Godard”, Cahiers du cinéma, 138, December 1962

XIX

Repugnam-me certos sons, mas o mais odioso
É para mim o ladrar dos cães, o seu ganir atormenta-me os ouvidos.
Só um cão oiço muitas vezes com feliz agrado
Ladrar e ganir, o cão que o vizinho criou.
Pois uma vez ladrou à minha rapariga, que à socapa
veio ao meu encontro, e quase revelou o nosso segredo.
Agora, mal o oiço ladrar, logo penso que é ela que aí vem,
Ou recordo os tempos em que a esperada vinha.


Goethe, "Erotica Romana", tradução de Manuel Malzbender, Cavalo de Ferro

Profissionais da aeronáutica

Quando se fala em profissionais ligados à navegação aérea, é normal lembrarmo-nos dos controladores de tráfego aéreo, dos pilotos de linha aérea, do pessoal de cabine, enfim daqueles actores que têm maior visibilidade perante o grande público e, sobretudo, perante os utilizadores do espaço aéreo.
Mas, a verdade é que existe uma grande variedade de profissionais cujo trabalho é fundamental ao normal funcionamento da navegação aérea.
Agradecendo a valiosa colaboração do Centro de Documentação e Informação da ANA, SA, mostramos algumas imagens desses profissionais.

BRUSCON (em tom de pergunta): Aquilo não é uma imagem de Hitler
ESTALAJADEIRO: Mas é claro
BRUSCON (em tom de pergunta): E aquilo ainda continua pendurado
ESTALAJADEIRO: Mas é claro
BRUSCON (em tom de pergunta): Há dezenas de anos
ESTALAJADEIRO: Mas é claro
BRUSCON: Que tem de se olhar bem para ela
para se ver que aquilo é o Hitler
de tão emporcalhada que está
ESTALAJADEIRO: Até agora ainda ninguém
se mostrou incomodado com isso

Thomas Bernhard, O Fazedor de Teatro.

Terça-feira, Novembro 29

Bonjour Tristesse

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Siza Vieira, Schleisches Tor (Bonjour Tristesse), Berlin, 1976/82

Ontem decidi ver Bonjour Tristesse com legendas em alemão. Na ultima cena, Cécile explica algo que eu ainda não consegui explicar muito bem. Mas isso fica para depois.
...

Fazer poemas às segundas e terças-feiras, entre as 18h30 e as 20h00

Recebido por mail:

"Escrevi um poema mas não sinto que ainda esteja acabado... O que mudar? O que alterar? Como desenvolver as ideias mais importantes? O que é importante saber em termos de ritmo, prosódia, imagens, precisão?
Traga o seu poema e venha trabalhá-lo em 7 sessões com o poeta e crítico literário Pedro Sena-Lino.

Formador: Pedro Sena-Lino
Duração; 7 sessões de 90 m
(turmas com o máximo de 7 participantes)
Mensalidade: 85 euros/ Total (2 meses): 145 euros
Horário: Segunda-feira, 18h30-20h; Terça-feira, 18h45-20h15
Início: Janeiro 2006.
Local: Companhia do Eu."

Livros cansados

A livraria In-libris, do Porto, especializada em livros antigos e esgotados, actualizou o seu catálogo on-line. Vale a pena uma visita. As descrições técnicas dos livros são deliciosas. Um exemplo: a propósito de "A vida de um rapás gordo", peça em três actos de André Brun (1923), diz-se que tem uma "capa cansada".
Mas também há livros com "encadernações em percalina" ou "em pele, da época, com nervuras e finos ferros a ouro na lombada", ou ainda "em tela protegida por sobrecapa de papel, policromada".
Preços para todos os gostos.

Aquilo que eu sou



Toda a gente vos dirá que não sou músico. E é verdade.
Desde o início da minha carreira me classifiquei entre os fonometrógrafos. Os meus trabalhos são pura fonométrica. Agarre-se no Filhos das Estrelas ou nos Trechos em Forma de Pêra, no Com fato de Cavalo ou nas Sarabandas, e descobrir-se-á que nenhuma ideia musical presidiu à criação de tais obras. O que lá domina é o pensamento científico.
De resto, mais prazer sinto a medir um som do que a ouvi-lo. De fonómetro em punho, trabalho com alegria & segurança.
O que não terei já pesado e medido? Todo o Beethoven, todo o Verdi, etc. É muito curioso.
Da primeira vez que me servi de um fonoscópio, examinei um si bemol de tamanho médio. Nunca deparei, posso garantir-vos, com uma coisa mais repugnante. Até chamei o criado para ele ver.
Com o fono-pesador um fá sustenido vulgar, como tantos há, atingiu os 93 quilogramas. Saía de um muito gordo tenor que também pesei.
E sabeis, por acaso, o que é limpar os sons? É uma coisa muito porca. Fiá-los é mais limpo. E quanto a sabê-los classificar, exige minúcia e boa vista; está-se em plena fonotécnica.
No que respeita às explosões sonoras tantas vezes desagradáveis, o algodão metido nos ouvidos consegue só por si atenuá-las razoavelmente. Está-se em plena pirofonia.
Para descrever as Peças Frias, servi-me de um caleidofone-gravador. Demorei sete minutos. E até chamei o criado para as ouvir.
Julgo poder afirmar que a fonologia é superior à música. É mais variada. E dá mais rendimento pecuniário. Devo-lhe a minha fortuna.
Seja como for, é mais fácil um fonometrista mediocremente treinado registar no motodinamofone um maior número de sons do que o mais hábil músico em tempo idêntico e com idêntico esforço. Por isso mesmo eu tanto escrevi.
O futuro pertence, pois, à filofonia.

Erik Satie, "Memória de um Amnésico", tradução de Alberto Nunes Sampaio, colecção memória do abismo #38, Hiena

Segunda-feira, Novembro 28

— A literatura é um jogo de possibilidades, disse Einstein enquanto lançava os dados

É possível não gostar de Thomas Bernhard e até, por incrível que pareça, também é possivel não gostar de Robert Walser. Pensando bem, o mais improvável até é gostar de Bernhard (que nunca mais se cala) e de Walser (que se cala demasiado) ao mesmo tempo e sem nos estatelarmos no chão.

Um optimista

Dois sapos na barriga de uma cobra ponderavam a mudança das suas condições. “Isto é um azar danado”, disse um. “Não tires conclusões precipitadas”, disse o outro: “Estamos a salvo da chuva e providos de alojamento e de comida”. “Quanto ao alojamento não há dúvida”, disse o primeiro sapo, “mas não vejo onde é que está a comida”. És um rezingão”, explicou o outro “ nós próprios somos a comida”


Ambrose Bierce, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2

— Can you write like Gorey?

Gorey TTF: It's a TrueType font based on the distinctive hand lettering of Edward Gorey. Work well with OSX.

Este post foi escrito com uma caneta bic

A exposição de Thomas Hirschhorn não precisa de tradução. Anschool é uma palavra inventada, é gira, toda a gente a percebe e descreve bem a balbúrdia que nos espera em Serralves. Mas apeteceu-me traduzir e deu isto: DESCOLA.

Thomas Hirschhorn liebt Robert Walser aber ich liebe Walser besser

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Domingo, Novembro 27

Crítica

Estou farto daqueles "críticos de poesia" que, nos seus textos, procuram ser ainda mais "poéticos" dos que os próprios poemas sobre os quais escrevem.
Quem quiser ler alguma coisa sobre poesia neste país, está lixado. Felizmente, há os clássicos: os mortos que falam.

Caim e Abel

Diz Jorge Gomes Miranda, no Mil Folhas deste sábado, que o irmão da poesia é o amor. Tocante, de facto. Mas tremo só de pensar quem poderão ser os pais dos petizes, os avós, os tios, os priminhos e por aí fora.

Os melhores livros de 2005

Se houvesse justiça neste e no outro mundo, a votação dos melhores livros de 2005, que o Francisco José Viegas lançou no Livro Aberto, só podia ter um resultado: o primeiro lugar em todas as categorias dos livros da Biblioteca de Papel, do Mário Santos, apresentados no Mil Folhas.