Sábado, Novembro 26

Lektion 14

Wir alle fallen
...

Sexta-feira, Novembro 25

O canal de TV mais shakespeareano de Portugal



"José Eduardo Moniz, director-geral da TVI, está decidido a dar tudo por tudo para manter a senda do sucesso de audiências no horário nobre. (...) E para provar as suas intenções apresentou ontem a novela incumbida dessa difícil tarefa e que se chama 'Dei-te quase tudo'. (...) Fernanda Serrano, que esteve cerca de ano e meio sem participar em novelas, resumiu, ao JN, o enredo da ficção 'É uma história sobre as contrariedades da vida, do apego e desapego, dos encontros e desencontros, inspirada nesse fabuloso romance (sic) que é 'Romeu e Julieta'."

Jornal de Notícias de hoje.

e ao sétimo post foi descansar

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Beware of the blog!

Comecem por aqui: Jesus Christ Superstar in Japanese (What better way to kick off Christ's month-long birthday bash than with the Japanese version of Jesus Christ Superstar? Here it is in its entirety, featuring a great Judas, a lame Pilate (a shame, since Pilate has many of the best songs), the needless knockoff song Can't We Start Again Please, inappropriate livestock sound effects and inexpicable excursions back into English.) Depois é só descer. Não percam a Peggy Lee a comer um McDonalds nem as previsões do Criswell.

A Nervous Tic Motion Of The Head To The Left

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Estas duas fotografias de Helena Almeida chamam-se "Seduzir". Devo dizer, desde já, que não tenho nada contra o acto: gingar para a direita, gingar para a esquerda, outra vez. Mesmo nada contra a coreografia. Mas meteu-se uma ideia estúpida e insistente na minha cabeça que estragou tudo. Acho que do outro lado, do lado que não se vê, a pintora tem um ipod preto impecável a debitar, mais alto do que o apropriado, Andrew Bird. Lá se vai a polissemia por água abaixo. Para sempre.

p.s. por falar em coreografias, vocês já ouviram falar do pássaro jardineiro? Descobri-o ontem no canal Odisseia, é um tipo extraordinário, um verdadeiro artista.

Lektion 13 *

Auswahlbibliographie Robert Walser | Werkausgaben | Sämtliche Werke in Einzelausgaben. Herausgegeben von Jochen Greven. 20 Bände. Frankfurt a. M.: Suhrkamp Taschenbuchverlag 1998–2000. (Jeder Band ist einzeln erhältlich)
Bd.1: Fritz Kochers Aufsätze. (st. 1101) | Bd.2: Geschichten. (st. 1102) | Bd.3: Aufsätze. (st. 1103) | Bd.4: Kleine Dichtungen. (st. 1104) | Bd.5: Der Spaziergang. (st. 1105) | Bd.6: Poetenleben. (st. 1106) | Bd.7: Seeland. (st. 1107) | Bd.8: Die Rose. (st. 1108) | Bd.9: Geschwister Tanner (st. 1109) | Bd.10: Der Gehülfe. (st. 1110) | Bd.11: Jakob von Gunten. Ein Tagebuch. (st. 1111) \ Bd.12: Der Räuber. Mit einem Nachwort v. Martin Jürgens. (st. 1112) | Bd.13: Die Gedichte. (st. 1113) | Bd.14: Komödie. Märchenspiele und szenische Dichtungen. (st. 1114) | Bd.15: Bedenkliche Geschichten. Prosa aus der Berliner Zeit. 1906–1912. (st. 1115) | Bd.16: Träumen. Prosa aus der Bieler Zeit. 1913–1920. (st.1116) | Bd.17: Wenn Schwache sich für stark halten. Prosa aus der Berner Zeit. 1921–1925. (st. 1117) | Bd.18: Zarte Zeilen. Prosa aus der Berner Zeit. 1926. (st. 1118) | Bd.19: Es war einmal. Prosa aus der Berner Zeit. 1927–1928. (st. 1119) | Bd.20: Für die Katz. Prosa aus der Berner Zeit. 1928–1933. (st.1120) | Robert Walser: Briefe. Hrsg. v. Jörg Schäfer unter Mitarbeit von Robert Mächler. Fr.a.M.: Suhrkamp 1979. (=Suhrkamp Taschenbuch. 488.) (vergriffen. Neuaufl. 2006) | Robert Walser: Aus dem Bleistiftgebiet. Mikrogramme aus den Jahren 1924–1933. Entziffert und herausgegeben von Bernhard Echte und Werner Morlang. 6 Bände. Frankfurt a. M.: Suhrkamp Verlag 1985–2000. (Leinen in Kassette 2002. Broschierte Sonderausgabe 2003. ) | Robert Walser: Europas schneeige Pelzboa. Texte zur Schweiz.Hrsg. v. Bernhard Echte. Fr.a.M.: Suhrkamp 2003. | Robert Walser: Feuer. Unbekannte Prosa und Gedichte. Hrsg. v. Bernhard Echte. Fr.a.M.: Suhrkamp 2003.

Prosastück *



Esta será provavelmente a minha última peça de prosa. Uma série de considerações leva-me a crer que este guardador de rebanhos já há muito deveria ter deixado de escrever e enviar estas prosas e abandonado de uma vez por todas uma actividade que está aparentemente para além das suas capacidades. É com muito agrado que vou procurar outro tipo de trabalho que me deixe comer o pão em paz.

O que é que fiz nestes últimos dez anos? Para responder a esta pergunta, primeiro tenho de suspirar; segundo, soluçar; e terceiro, começar um novo capítulo ou um parágrafo fresco.

Nestes últimos dez anos escrevi sem parar estas pequenas prosas que raramente se revelavam úteis. O que eu não aguentei? Cem vezes gritei: "Não escrevo nem mais uma linha!" — mas de cada vez, sem falha, escrevia e enviava nova mercadoria, no próprio dia ou no seguinte; agora não consigo compreender esse comportamento.

Robert Walser, guardador de rebanhos e tudo

NA AUTO-ESTRADA

Ainda posso perceber
Esses miúdos nos viadutos
Que atiram pedras aos carros da auto-estrada.
É um gesto eficaz
Que matou alguns caixeiros-viajantes,
E até famílias inteiras,
É pura malvadez
E o mundo precisa de pureza.

Mas como se justificam esses que nos acenam
Com alegria ao passarmos?

Manuel Resende, "O mundo clamoroso, ainda", Angelus Novus, 2004 (e vão quinze!)

Bestiario

Contos de James Joyce, Edgar Allan Poe, Ambrose Bierce, Nathaniel Hawthorne, Katherine Mansfield, Ernest Hemingway, entre muitos outros autores clássicos. Tudo na excelente revista de contos Bestiario. Para começar, destaco "O morto", de Tchekhov, na tradução dos nossos Nina Guerra e Filipe Guerra.

Quinta-feira, Novembro 24

"Dos benefícios do leite" ou "Um ensaio sobre as manifestações de afecto" ou outra coisa qualquer

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TROCADERO

Na cidade de Paris
Na Praça do Trocadero,
Reconstituíram
Uma aldeia alpina.
Só faltava a neve.

As tempestades de neve
Que fustigaram os Alpes
E as estações de ski
Bloqueram no caminho
As máquinas de fazer neve
Que fazem neve nos Alpes
Quando lá não há neve.


Manuel Resende, "O mundo clamoroso, ainda", Angelus Novus, 2004 (mais cinco para a contra corrente)

a raposa fordiana



A raposa e o canguru não foram feitos um para o outro. No entanto, desde o princípio da espécie que a raposa deseja dormir na bolsa morna do canguru; uma vontade ancestral e inexplicável. "Foi por isso e não por causa do queijo que se fez astuta", dizem as más línguas. A raposa encolhe os ombros: "escrevam a lenda se preferem, meus queridos". Na Austrália, o canguru salta com a descontração de quem não acredita em fábulas idiotas mas também ele tem um segredo: todas as noites sonha abraçar o tubarão.

Ezra



Depois de vários anúncios e adiamentos, chegou finalmente às livrarias a primeira edição portuguesa integral de "Os Cantos", a monumental obra-prima de Ezra Pound, pela mão da Assírio & Alvim. Trata-se de um acontecimento editorial de grande importância, uma vez que até à data estavam apenas disponíveis no mercado português pequenos excertos espalhados por antologias ou edições temáticas de alguns cantos específicos.
Infelizmente, esta edição é apenas meia novidade. E a razão é simples: a Assírio & Alvim recorreu à tradução já clássica do brasileiro José Lino Grünewald, originalmente editada no Brasil nos anos oitenta, pela editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro (a 2ª edição é de 2002).
Há dois anos, comprei a versão original, na livraria Nova Fronteira (C. C. Brasília, no Porto), por cerca de €29. A versão da Assírio & Alvim custa €40,50 (preço atribuído pela FNAC).
Depois, quando a Revolução Francesa o liberta do serviço na corte do príncipe eleitor, Beethoven vê-se obrigado a prover às suas necessidades: arranja maneira de vender as suas obras a editores e patrocinadores (a quem agradece com uma dedicatória); dá liçoes, tarefa que não aprecia muito, excepto quando se trata de jovens pianistas muito dotadas.

Élisabeth Brisson e Marc Vignal.
put a little sugar in my coffee cup / take your spoon and stir it up

Nota do Conselho Executivo: Este blogue tem como política permitir mexer o café em nome do 'respeito'

Quarta-feira, Novembro 23

Möchtest du spazieren gehen?

A Rua do Bonfim toda, pelo passeio da direita, ao sol (pão de arroz do suribachi); Campo 24 de Agosto em obras; Santo Ildefonso (doce de chila com amêndoas) interrompida pelo Largo do Padrão; Praça dos Poveiros (a gata dorme no cesto); Passos Manuel; Santa Catarina até à Batalha (a Latina está tão bonita e arejada) e depois para trás — espreito os dvds na fnac? sim? não? não, já chega! — até à Rua Formosa (requeijão da serra da estrela); regresso a pé ou apanho um daqueles autocarros que vão para lugares desconhecidos? Baguim ou Formiga? Seixo.

2º Aviso

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Ouvi a notícia na rádio: há 10 mil relojoeiros anarquistas espalhados pelo mundo. São perigosos e têm um plano. Não confiem nos vossos relógios nem sequer no Guardian. Quanto aos chocolates, só em forma de guarda-chuva.

das Schweigen

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I'm in a bad way, no doubt about it. Earlier, things were simple; all I had to do was advertise: "Young man seeks employment." Today the advertisement reads, "Unfortunately no longer young, but already somewhat elderly and weary man begs for clemency and shelter." Times are changing, and the little years vanish like April snow. I'm a poor, no longer young, man, with just enough skill left to compose prose pieces like the following:

"Trot, trot, trot. What's with me? Have I gone a bit nuts? What's going to become of me? An errand boy, perhaps? I'm definitely keeping such a necessity in mind. One, two, three and four, five and six. Between sleeping and waking I heard it, as if it intended to go on for all eternity. Oh, I gave such a shriek, and was more conscious than ever of the sum of my insignificance. No, man isn't great; he's helpless and weak. Good enough."

I sent "Trot, trot, trot" to between twenty-one and thirty-eight newspapers in the hope it might be found appropriate, but in twenty-one to thirty-eight cases this hope proved false, and the thriller failed to find favor.

Thirty to forty supermen refused to accept the unquestionably outstanding piece. Instead, they emphatically turned it down and sent it flying right back to me.

One of these dictators wrote: "Mon dieu, what are you thinking of?" Another opined: "Ah, why don't you let Venetian Night have this magic trick of yours — they're sure to be delighted. But as for us, we must ask that you be so good as to spare us your trot-trot-trotteries and your five-or-sixeries."

I sent "Trot, trot, trot" to the newspaper cited, which politely declined it with the words: "Ah, please be so kind as to believe that this enchanting piece is poorly suited to us."

"What one man doesn't like may still please another," I reasoned, and sent the piece off to Cuba, which showed not the slightest interest. I think the best thing for me would be to sit in a corner and be silent.


Robert Walser, a caminho do bunker

Aviso

Se viajar de pé neste blogue, segure-se.
Logo que chega a Viena, [em 1792], Beethoven preocupa-se, naturalmente, em encontrar alojamento. (...) Uma vez alojado, procura os meios necessários para poder trabalhar (mesa, estante de música, piano) e preocupa-se em ficar apresentável, decidido a "equipar-se inteiramente de novo" para estar na moda: compra botas, sapatos, meias de seda negra, roupas, pó-de-arroz, "pomada" e procura um cabeleireiro assim como um professor de dança.

Élisabeth Brisson e Marc Vignal.

Terça-feira, Novembro 22

Conto de Natal

Era uma vez um arquitecto ou um cavalo: era mais um cavalo do que um arquitecto, em Filadélfia, a quem tinham dito: “Conheces a catedral de Colónia? Constrói uma catedral parecida com a catedral de Colónia!” E, como ele não conhecia a catedral de Colónia, então meteram-no na prisão. Mas, na prisão, apareceu-lhe um anjo que lhe disse: “Wolfrang! Wolfrang! porque estás angustiado? — Obrigam-me a ficar na prisão porque não conheço a catedral de Colónia! — Precisas de vinho do Reno para construir a catedral de Colónia, mas antes mostra-lhes o projecto e só então poderás sair da prisão.” E o anjo deu-lhe o projecto e ele mostrou o projecto e então pôde sair da prisão, mas nunca pôde construir a catedral porque lhe faltava o vinho do Reno. Teve a ideia de mandar vir vinho do Reno para Filadélfia, mas enviaram-lhe um vinho francês horroroso, de Moselle, de maneira que ele não pôde construir a catedral de colónia em Filadélfia; só conseguiu fazer um templo protestante horroroso.

Max Jacob, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2

e continuamos a soletrar o alfabeto com Edward Gorey

I have heard the key

Há filmes que escondem dentro de si uma chave (jogo 1). Não sei se isto é verdade, desconfio que não, de forma alguma, mas dá-me muito jeito. Por exemplo, em "Mulholland Drive", lembram-se? a chave até aparece e é azul. A chave abre o filme, isto é, abre o sonho. E o filme é o sonho, ou o sonho é o filme, dá no mesmo. Mas adiante. No fim-de-semana arrumei "The Conversation" junto a "Blow up" e lembrei-me da chave do filme do Antonioni.

O fotógrafo chega a casa, quase no início da história. Está cansado, senta-se numa cadeira. O pintor que anda a dormir com a sua mulher, decide, sem mais nem menos, explicar umas coisas:
— Já deve ter cinco ou seis anos. Não significam nada quando as pinto. É uma confusão. Depois descubro algo a que me agarrar, como isto... como aquela perna. E acaba por ganhar algum sentido e tornar-se coerente. É como descobrir uma pista numa história de detectives. Não me perguntes sobre esta. Ainda não sei.
— Posso comprá-la?
— Não.
— Podes oferecer-ma?
Para quem não precisar de tantas palavras, há ainda a inesquecível cena do ténis.

Voltando a "The Conversation": a sua chave é o "Blow up". Coppola confirma-o nos comentários audio que acompanham o DVD. Mas há outra (bastante simbólica, para apreciadores do género freudiano), aliás há várias, há sempre (quase) tudo o que quisermos, não é? Isso é muito reconfortante.
Em vez de chaves podemos procurar o punctum Barthiano (jogo 2). Há uma cena muito adequada: é de noite, Harry Caul vai a casa da namorada, ela já está na cama, eles bebem um bocado de vinho, quase que discutem, ela está de roupão e meias brancas até meio da perna, ele nem tirou a gabardine transparente. A namorada nunca mais volta a aparecer no filme mas ninguém se esquece das meias brancas. Já agora, esta cena era um sonho recorrente de Coppola: ele sonhava que tinha uma casa rasca num sítio qualquer, que ninguém conhecia e nessa casa estava sempre uma rapariga à sua espera. Depois de filmar a sequência, a rapariga desapareceu do sonho.

o comboio não pára na estação

Sérgio, tanto quanto sei, Sicília! não passou a formato DVD. Os diálogos que publiquei são da tal viagem de comboio ao longo da costa siciliana e foram retirados do livro de Elio Vittorini (da edição brasileira — que é a que tenho — e agora, por gentileza do Cenobita, da portuguesa) e também do livro que acompanha o filme de Pedro Costa "Onde jaz o teu sorriso?" que é sobre Jean-Marie Straub, Danièlle Huillet & Sicília!.

Gente da Sicília

— O senhor tem uma bela voz de barítono.
Ruborizou-se logo.
— Oh! — disse.
— Porquê? Não sabia? — disse eu.
— Oh, quanto a saber sei — disse ele, corado e contente.
E eu disse:
— Naturalmente. Não podia ter vivido até agora sem o saber. É pena que seja empregado das Finanças em vez de cantar.
— Pois é — disse ele. — Gostava bem… No Falstaff, no Rigoletto… Em todos os palcos da Europa.
— Ou mesmo pelas ruas, que importa? Sempre é melhor que ser funcionário — disse eu.
— Oh, sim, talvez… — disse ele.


esta e outras capas de Elio Vittorini, para ver no Cenobita Tranquilo
"Produz-se tanta música na casa onde vivem as famílias Beethoven e Willman que o proprietário, que sendo padeiro de profissão trabalha à noite e dorme de dia, pede à família Beethoven para se mudar."

Élisabeth Brisson e Marc Vignal.

O fim está próximo

Segunda-feira, Novembro 21

Gary Snyder em português

No Brasil, a editora Azougue acaba de editar a primeira antologia em português de Gary Snyder, poeta norte-americano ligado à fundação do movimento beat. "Re-habitar" inclui 50 poemas e 8 ensaios, e tem tradução de Luci Collin.

YASE: SETEMBRO

A velha Sra. Kawabata
roça as altas e espigosas ervas daninhas —
mais em duas horas
do que eu consigo roçar num dia.

duma montanha
de capim e cardo
ela separou cinco hastes poeirentas
de flores do campo azuis e irregulares
e as colocou na minha cozinha
num jarro.

YASE: SEPTEMBER
Old Mrs. Kawabata/ cuts down the tall spike weeds — / more in two hours/ than I can get down in a day.// out of a mountain/ of grass and thistle/ she saved five dusty stalks/ of ragged wild blue flower/ and put them in my kitchen/ in a jar.

Então e "The General"?

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A música

A música é a coisa mais doce do mundo. Adoro notas musicais. Correria mil léguas só para ouvir uma. Muitas vezes, no Verão, quando passeio pelas ruas e ouço o som de um piano vindo de uma casa desconhecida, páro, pronto a morrer logo ali. Gostava de morrer a ouvir um bocado de musica. Imagino isso tão fácil, tão natural, mas claro que é impossível. As notas apunhalam-nos muito suavemente. As feridas que deixam podem arder mas não infectam. Delas jorram melancolia e dor em vez de sangue. Quando as notas páram, tudo se acalma de novo dentro de mim. Então vou fazer os trabalhos de casa, comer ou jogar e não penso mais nisso. Um piano, acho eu, é o que soa com mais encanto. Mesmo nas mãos de um amador. Não é a interpretação que escuto, apenas o som. Nunca poderia ser músico. Porque fazer música nunca seria suficientemente doce, suficientemente inebriante para mim. Ouvir música é, de longe, mais espiritual. A música deixa-me sempre triste mas triste no sentido em que um sorriso triste é triste. Uma tristeza simpática, é o que quero dizer. A música mais alegre não é alegre para mim e a mais melancólica não me toca com particular melancolia ou desânimo. Ao ouvir música, tenho sempre a mesma impressão: falta qualquer coisa. Nunca descobrirei a causa desta suave tristeza, nunca hei-de investigá-la. Não desejo saber o que é. Não desejo saber tudo. Inteligente, como penso que sou, tenho, no entanto, por assim dizer, pouca sede de conhecimento. Desconfio que é por eu ser, por natureza, o oposto de curioso. Sinto-me perfeitamente feliz deixando todas as coisas em meu redor correrem sem preocupar a minha cabeça com o modo como acontecem. De certeza que isto é deplorável e não me ajudará a seguir uma carreira. Talvez. Não tenho medo da morte, por isso também não temo a vida. Vejo que comecei a filosofar. A música é a arte mais estouvada e por isso a mais doce. Os intelectuais nunca a apreciarão mas são os que mais profundamente beneficiam quando a ouvem. Não é possível querer entender e apreciar uma arte. A arte quer enroscar-se em nós. É uma criatura tão terrivelmente pura e autosatisfeita que se ofende quando alguém tenta passá-la à frente. Castiga quem se aproxima com a intenção de se apoderar dela. Os artistas depressa percebem isto. Acham que a sua profissão é lidar com a arte, com aquela que não se deixa tocar por ninguém. É por isso que nunca quis ser músico. Tenho medo do castigo que uma criatura tão justa possa infligir. É bom gostar de uma arte, mas deve-se ter cuidado e não o admitir para si próprio. O nosso amor é sempre mais forte quando não sabemos que amamos. — A música magoa-me. Nem sei mesmo se a amo de verdade. É ela que me encontra onde quer que seja, eu não a procuro. Deixo-a acariciar-me. Mas essas carícias são dolorosas. Como devo dizer? A música é um choro melodioso, uma evocação em notas, um quadro de sons. Não sei dizer com acerto. Por isso é que ninguém leva a sério as minhas considerações sobre arte. Sem dúvida que elas falham o alvo, aliás, como a música, que hoje ainda não me atingiu. Falta qualquer coisa quando não ouço música e quando ouço, então é que falta mesmo qualquer coisa. É o melhor que posso dizer sobre a música.

Robert Walser, 1902

Grandes cenas



Amigo leitor. Se tens mais de 12 anos, ou aparentas ter, e menos de 125, não percas a peça "Ratos e Homens", a partir da obra homónima de John Steinbeck, com dramaturgia e encenação de Fernando Moreira. No Teatro Rivoli, no Porto, até 24 de Novembro. Sempre às 21h30.

Domingo, Novembro 20

A Praça dos Poveiros

não é particularmente interessante nem bonita; aliás, nem sequer parece uma praça. No entanto, junto à esquina de Passos Manuel há uma (de três) ginkgo biloba lindíssima. Ainda é jovem, está repleta de folhas triangulares entre o verde e o amarelo torrado. Há também, no cruzamento com a Rua da Alegria, uma gata tigrada que vive numa tabacaria.