Sábado, Novembro 19
Lektion 12: Akkusativ (reconstituição)
Uma das miúdas da minha turma explica que o complemento directo "é uma espécie de segundo sujeito". O professor substituto arregala os olhos, abre a boca e passados alguns segundos diz: "não existe isso de segundo sujeito, nem em português nem em alemão".
Sexta-feira, Novembro 18
Depois o Grande Lombardo falou de si mesmo
Eu sou de Leonforte,
lá em cima, em Val Demone,
entre Enna e Nicosia
sou dono de terras
e tenho três filhas bonitas,
três filhas, cada qual
mais bonita do que a outra,
e tenho um cavalo
com que ando pelas minhas terras
e sinto-me um rei,
mas acho que não é tudo.
sentir-me um rei, quando monto a cavalo
e gostaria
de saber mais coisas,
de me sentir diferente,
com uma coisa nova na alma,
daria tudo o que tenho
até o cavalo, as terras
para me sentir mais em paz
com os homens,
como uma pessoa que não tem
nada de que se censurar
não é que eu tenha
alguma coisa a cendurar-me.
Nada disso. E não falo
como falam na sacristia.
Mas acho que não estou
em paz com os homens.
Gostaria de ter um a consciência fresca
e que me dissesse
para cumprir outros deveres,
não os do costume, outros,
deveres novos e mais dignos
para com os homens, porque
cumprir os deveres do costume
não basta e ficamos
como se nada tivéssemos feito,
descontentes connosco, decepcionados.
Penso que o homem está maduro
para outra coisa.
Não só para não roubar,
não matar, etc. e ser um bom cidadão.
Penso que o homem está maduro para outra
coisa, para outros deveres, deveres novos.
Acho que o que sentimos
é a falta de outros deveres,
de outras coisas para fazer.
Para a nossa consciência,
com um sentido novo.
...
Sicilia! de Jean-Marie Staub e Daniéle Huillet
lá em cima, em Val Demone,
entre Enna e Nicosia
sou dono de terras
e tenho três filhas bonitas,
três filhas, cada qual
mais bonita do que a outra,
e tenho um cavalo
com que ando pelas minhas terras
e sinto-me um rei,
mas acho que não é tudo.
sentir-me um rei, quando monto a cavalo
e gostaria
de saber mais coisas,
de me sentir diferente,
com uma coisa nova na alma,
daria tudo o que tenho
até o cavalo, as terras
para me sentir mais em paz
com os homens,
como uma pessoa que não tem
nada de que se censurar
não é que eu tenha
alguma coisa a cendurar-me.
Nada disso. E não falo
como falam na sacristia.
Mas acho que não estou
em paz com os homens.
Gostaria de ter um a consciência fresca
e que me dissesse
para cumprir outros deveres,
não os do costume, outros,
deveres novos e mais dignos
para com os homens, porque
cumprir os deveres do costume
não basta e ficamos
como se nada tivéssemos feito,
descontentes connosco, decepcionados.
Penso que o homem está maduro
para outra coisa.
Não só para não roubar,
não matar, etc. e ser um bom cidadão.
Penso que o homem está maduro para outra
coisa, para outros deveres, deveres novos.
Acho que o que sentimos
é a falta de outros deveres,
de outras coisas para fazer.
Para a nossa consciência,
com um sentido novo.
...
Sicilia! de Jean-Marie Staub e Daniéle Huillet
Siracusa, Spaccaforno, Modica, Genisi, Donnafugata...
..."Vou de licença... Vou a Sciacca, à minha terra."
"A Sciacca", disse eu. "E vem de longe?"
"De Bolonha", respondeu ele. "Trabalho lá. A minha mulher é bolonhesa. E os meus filhos também."
Estava contente. E eu disse. "E vai a Sciacca por aqui?"
"Sim, por aqui", disse ele. "Siracusa, Spaccaforno, Modica, Genisi, Donnafugata..."
"Vittoria, Falconara", eu disse, "Licata".
"Ahaaah!", ele disse. "Girgenti...!
"Agrigento, por favor", disse eu. "Mas se viesse por Caltanisseta não seria melhor?"
"É, seria melhor. E economizaria oito liras. Mas por aqui vai-se sempre junto ao mar..."
"Gosta do mar?" perguntei.
"Não sei", respondeu ele. "Penso que me agrada. De todo jeito a linha me agrada
Elio Vittorini, "Conversa na Sicília", Cosac & Naify, São Paulo, 2002
"A Sciacca", disse eu. "E vem de longe?"
"De Bolonha", respondeu ele. "Trabalho lá. A minha mulher é bolonhesa. E os meus filhos também."
Estava contente. E eu disse. "E vai a Sciacca por aqui?"
"Sim, por aqui", disse ele. "Siracusa, Spaccaforno, Modica, Genisi, Donnafugata..."
"Vittoria, Falconara", eu disse, "Licata".
"Ahaaah!", ele disse. "Girgenti...!
"Agrigento, por favor", disse eu. "Mas se viesse por Caltanisseta não seria melhor?"
"É, seria melhor. E economizaria oito liras. Mas por aqui vai-se sempre junto ao mar..."
"Gosta do mar?" perguntei.
"Não sei", respondeu ele. "Penso que me agrada. De todo jeito a linha me agrada
Elio Vittorini, "Conversa na Sicília", Cosac & Naify, São Paulo, 2002
Ainda Nabokov
Ainda a propósito das fontes literárias que poderão ter influenciado Nabokov, aqui fica mais uma pista interessante.
PETER STEIN: É preciso recordar a famosa história segundo a qual Tchékhov pretendia romper com o realismo e escrever, depois de "O Cerejal", uma peça passada no Pólo Norte onde só há neve e gelo. Um naufrágio nessas paragens.
GEORGES BANU: Acho que Nabokov - que era um profundo conhecedor da literatura russa, muito rodado a farejar biografias -, quando escreveu "O Pólo", mais não faz do que retomar esse projecto inacabado de Tchékhov.
PETER STEIN: É possível.
Entrevista de Georges Banu a Peter Stein, publicada no 1º volume dos Cadernos Tchékhov, editado pelo Teatro Nacional S. João.
PETER STEIN: É preciso recordar a famosa história segundo a qual Tchékhov pretendia romper com o realismo e escrever, depois de "O Cerejal", uma peça passada no Pólo Norte onde só há neve e gelo. Um naufrágio nessas paragens.
GEORGES BANU: Acho que Nabokov - que era um profundo conhecedor da literatura russa, muito rodado a farejar biografias -, quando escreveu "O Pólo", mais não faz do que retomar esse projecto inacabado de Tchékhov.
PETER STEIN: É possível.
Entrevista de Georges Banu a Peter Stein, publicada no 1º volume dos Cadernos Tchékhov, editado pelo Teatro Nacional S. João.
Quinta-feira, Novembro 17
Ich liebe, du liebst
Depois de mais uma discussão sobre os múltiplos encantos de Robert Walser lembrei-me que talvez fosse uma boa ideia retirar, de uma vez por todas, a obra de Walser da literatura e colocá-la noutro sitio. Nas catástrofes naturais, junto às erupções dos vulcões? Pode ser assim?
hors série
É noutro registo Sérgio, mas deixa-me acrescentar Sícilia! de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet. Forneço pormenores da viagem logo que possa.
Lolita de Lichberg
O último número da revista Ficções inclui o conto "Lolita" de Heinz von Lichberg, que, segundo a tese do alemão Michael Maar, terá inspirado, consciente ou inconscientemente, Nabokov. Aqui, no Dias Felizes, já tínhamos feito referência ao polémico artigo no Times Literary Supplement no qual o ensaísta levantou pela primeira vez o problema. Ora, depois de ler o conto de Lichberg, em tradução de Marília Mendes, creio que se torna difícil não concordar, pelo menos em parte, com Maar.
Quarta-feira, Novembro 16
“Toda a gente conhece aquela história acerca de mim e do Dr. Freud”, diz o meu avô.
“Estávamos apaixonados pelo mesmo par de sapatos pretos na vitrina da mesma sapataria. A sapataria, infelizmente, estava sempre fechada. E num letreiro: MORTE NA FAMÍLIA, ou, VOLTAMOS DEPOIS DO ALMOÇO, mas por mais que eu esperasse ninguém vinha para a abrir.”
“Uma vez apanhei ali o Dr. Freud, a admirar descaradamente os sapatos. Olhámos um para o outro antes de irmos à nossa vida, para nunca mais nos voltarmos a encontrar.”
Charles Simic, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2
“Estávamos apaixonados pelo mesmo par de sapatos pretos na vitrina da mesma sapataria. A sapataria, infelizmente, estava sempre fechada. E num letreiro: MORTE NA FAMÍLIA, ou, VOLTAMOS DEPOIS DO ALMOÇO, mas por mais que eu esperasse ninguém vinha para a abrir.”
“Uma vez apanhei ali o Dr. Freud, a admirar descaradamente os sapatos. Olhámos um para o outro antes de irmos à nossa vida, para nunca mais nos voltarmos a encontrar.”
Charles Simic, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2
Oh!
Estavam dezoito meninas numa roda.
Chegou o carteiro com uma missiva.
Elas fizeram Buhhhhh! e a carta explodiu.
...
Chegou o carteiro com uma missiva.
Elas fizeram Buhhhhh! e a carta explodiu.
...
Fridolin assentiu com a cabeça. — Sim lembro-me. Que é que tinha o rapaz? — Inquiriu.
Há duas coisas de que gosto muito em Citizen Kane. Uma é Rosebud e não me refiro apenas ao que significa ou pode significar; é a própria palavra que me atrái. A outra está escondida no diálogo entre Bernstein e o jornalista. O velho sugere que Rosebud talvez seja o nome de uma rapariga, houve muitas nos primeiros tempos. Mas o jornalista acha pouco provável que, no derradeiro minuto, Kane se lembrasse de uma rapariga que tivesse conhecido, casualmente, cinquenta anos antes. Então Bernstein explica-lhe como é que a memória funciona:
Neste ponto, apetece interromper a conversa entre os dois e fazer uma ligação directa a Eyes wide open de Stanley Kubrick ou, deveria dizer, a Arthur Schnitzler? Mas isso levar-nos-ia a Max Ophüls...
— Você é muito jovem, Sr... Thompson. Um homem recorda coisas que nem imagina. Eu, por exemplo um dia em 1896, ia de barco para Jersey, e conforme partíamos, vi uma moça noutro barco a chegar. Ela usava um vestido branco e levava uma sombrinha branca. Só a vi por um segundo, e ela nem me viu, mas não se passou um mês desde aí, que eu não tivesse pensado nela.
Neste ponto, apetece interromper a conversa entre os dois e fazer uma ligação directa a Eyes wide open de Stanley Kubrick ou, deveria dizer, a Arthur Schnitzler? Mas isso levar-nos-ia a Max Ophüls...
Terça-feira, Novembro 15
His name is Orson Welles

A voz de Orson Welles é puro cinema. As luvas de Orson Welles também. Assim como os seus projectos inacabados ou amputados. Mais o chapéu, a capa, os olhos. E o primeiro plano de Touch of Evil e...
Retrato robô
Por altura da guerra entre a Grécia e a Turquia, uma senhora abordou Tchékhov e perguntou-lhe: "Como é que acha que vai acabar a guerra?" Ele respondeu: "Certamente que vai acabar pela paz." "E quem é que vai vencer?" "Ah, vai vencer quem estiver melhor alimentado e quem for mais culto." "Gosta mais dos turcos ou dos gregos?" "Eu gosto de marmelada."
António Pescada, Cadernos Tchékhov, Vol. 1.
António Pescada, Cadernos Tchékhov, Vol. 1.
Outono
Quando o Outono chega, as folhas caem das árvores para o chão. Aliás, deveria dizer: quando as folhas caem, é Outono. Preciso de melhorar o meu estilo. Na minha última redacção escreveram: estilo lamentável. Acho isto preocupante, mas não consigo mudar. Gosto do Outono e pronto. O ar fica mais fresco, todas as coisas sobre a terra parecem de repente tão diferentes, as manhãs são fulgurantes e esplêndidas e as noites deliciosamente frias. Mesmo assim, passeamos até muito tarde. Sobre a cidade, a montanha apresenta cores bonitas, e é triste pensar que elas já anunciam o seu próprio desaparecimento. Em breve vai andar neve pelo ar. Eu também gosto da neve embora seja desagradável vaguear por aí com os pés frios e molhados. Mas então para que é que servem as pantufas quentes e fofas e a casa aquecida? Só tenho pena das crianças pobres que, eu bem sei, não têm a casa quente. Como deve ser horrível andar às voltas sempre gelado. Não seria capaz de fazer o meu trabalho de casa, morreria, sim, sem dúvida alguma morreria se fosse pobre. Como estão as árvores! Os seus ramos ferem o ar cinzento como punhais afiados e vêem-se corvos, o que raramente acontece. Deixa de se ouvir o canto dos pássaros. A natureza é qualquer coisa. O modo como se veste de novas cores, muda de roupa, põe e tira máscaras! Esquisito. Se eu fosse pintor, o que não está fora de questão, pois ninguém sabe o seu destino, muito gostaria de ser um pintor do Outono. O meu único receio é que as minhas cores não estejam à altura. Talvez ainda saiba demasiado pouco sobre o Outono. Mas para quê preocupar-me com algo que ainda não aconteceu? Ao fim e ao cabo é ao presente que me devo dedicar. Onde é que já ouvi isto? De certeza que já ouvi estas palavras em algum lado, possivelmente ao meu irmão mais velho, que anda na universidade. Daqui a pouco é Inverno, a neve cairá em torvelinhos, oh, estou tão ansioso por isso! Quando tudo fica completamente branco, estudamos muito melhor. As cores podem atrapalhar a nossa memória. As cores são um caos delicioso. Gosto de coisas de uma só cor, de uma só tonalidade. A neve é uma canção bastante monótona. Porque é que uma cor não nos há-de tocar como uma canção! O branco é um murmúrio, um sussurro, uma prece. As cores de fogo, como estas do Outono, são gritos. O verde do pino do Verão é uma canção para várias vozes no tom mais agudo. Será isto verdade? Não tenho a certeza se está certo. Bom, o professor terá a amabilidade de me corrigir. — Tudo no mundo parece voar! O Natal já está à porta, daqui ao Ano Novo é um saltinho e daí à Primavera outro tanto, tudo avança, passo a passo. Seria de tolo querer contá-los. Não gosto de números. Sou mau a matemática embora as minhas notas sejam razoáveis. Nunca serei um homem de negócios, desconfio. Por isso os meus pais não me puseram a praticar. Eu fugiria e com que é que eles ficariam? Mas, já falei o suficiente sobre o Outono? Escrevi umas coisas sobre a neve. Isso vai dar uma boa nota na minha caderneta. As notas são uma invenção estúpida. Tive um "A" em canto e não sei cantar uma nota. Então como é? Deveriam dar-nos maçãs em vez de notas. Mas, depois, acho eu, teriam que distribuir tantas maçãs. Oh!
Robert Walser, de Fritz Kocher’s Essays
Robert Walser, de Fritz Kocher’s Essays
desportos e divertimentos (nocturnos)
Noutro dia, para desanuviar da carga de trabalho que me caiu em cima, resolvi traduzir um texto de Robert Walser. É uma tradução imperfeita, feita em segunda mão a partir do inglês, e deveria ser apenas para uso doméstico ou, roubando descaradamente a expressão de Walser, für die Katz. No entanto, pensei uma, duas, três vezes, e decidi publicar o texto na secção de classificados amorosos. Já a seguir: o Outono, conforme ele é.
ZWV 187
Em 1723, Zelenka compôs uma pequena peça a que deu o curioso título de "Hipocondrie". Os musicólogos não se entendem sobre as razões que terão levado o compositor a escolher este título. Mais: os musicólogos têm dificuldade em classificar a peça. Não sabem se foi escrita para viver isoladamente ou se faria parte de uma obra mais vasta. Desconhecem se é um simples rascunho ou se Zelenka lhe deu um ar inacabado com segundas intenções. Eu gosto muito desta peça. E gostava muito de dar a minha opinião sobre o caso. Mas sei que se começar a escrever vou sentir dores nas cruzes e o reumático nas mãos vai, com toda a certeza, dar sinal de si.
Segunda-feira, Novembro 14
ficções #12
Um conto por extenso: O Órfão, de Heinrich von Kleist.
Antonio Piachi, negociante abastado de Roma, via-se por vezes obrigado a fazer longas viagens de negócios. Quando assim era, costumava deixar ficar Elvira, a sua jovem esposa, à guarda de parentes dela. Numa destas viagens, Piachi levou consigo Paolo, rapaz de onze anos, filho da sua primeira mulher, até Ragusa. A cidade e os arredores foram porém assolados por uma peste que espalhou o pânico na região.
...
DIÁRIO DE HANNAH ARENDT
A filósofa Hannah Arendt
Está a descascar cebolas na cozinha.
Pergunta: «Sabes dizer-me
O horário dos correios?»
E a amiga:
«Tu estás apaixonada...»
Manuel Resende, "O mundo clamoroso, ainda", Angelus Novus, 2004
Está a descascar cebolas na cozinha.
Pergunta: «Sabes dizer-me
O horário dos correios?»
E a amiga:
«Tu estás apaixonada...»
Manuel Resende, "O mundo clamoroso, ainda", Angelus Novus, 2004
Cenas da vida no campo

Na nova encenação de "O Tio Vânia", actualmente em cena no Carlos Alberto, há dois aspectos que, quanto a mim, merecem destaque: a organização do espaço cénico, que convida o público a participar na intimidade do palco, e a magnífica interpretação de João Pedro Vaz, no papel do doutor Astrov.
Em cena até 4 de Dezembro.
Duas Colunas
Entretanto, parece confirmar-se o fim do "Duas Colunas", o belíssimo jornal do Teatro Nacional de S. João, cujo último número saiu já há largos meses. Um fim mais ou menos esperado, dadas as habituais dificuldades de financiamento de projectos desta natureza. Num dos textos do livro de apoio a "O Tio Vânia", fala-se numa espécie de plano de "reformulação do Centro de Edições" do S. João. Mais um excelente serviço público que se extingue no Porto.







