Sábado, Novembro 12

esta era a preferida de Edward Gorey

... I'm bang, bang, bang, bang, bang, bang, bang, bang,
banging in the nails.

... & mp3

Subbotnikmusik *

Sexta-feira, Novembro 11

José Carlos Fernandes ao vivo




Domingo, 13 de Novembro, às 18h00, o José Carlos Fernandes vai estar presente no Fórum Fantástico, que está a decorrer na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Telheiras, para a apresentação de "Black Box Stories", o seu novo projecto que conta com a colaboração de mais quatro desenhadores.
Creio que não é preciso acrescentar mais nada.

Edward Gorey

Apareceu na caixa de comentários, como quem não quer a coisa, dissimulado, a fazer-se difícil, a contar histórias desagradáveis. Fui lá e pu-lo a trabalhar. "Mas ele está morto", diise o Rui. "Melhor ainda, não lhe pagamos ordenado!". Começa hoje, pela letra "A".

strangers talk only about the weather #27

O sonho que ele me contou, o doce de abóbora no pão, as turras do gato, a manhã esplêndida e brilhante; tudo isto a esconder mais um dia de trabalhos forçados.

Quinta-feira, Novembro 10

Éramos tão pobres que eu tinha de fazer de isco na ratoeira. Sozinho, na cave, podia ouvi-los andar lá em cima, agitarem-se e virarem-se nas camas. “Estes são dias maus e tenebrosos”, disse-me o rato enquanto mordiscava a minha orelha. Os anos passaram. A minha mãe usava uma estola de pele de gato que afagava até que as centelhas iluminassem a cave.

Charles Simic, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2

For me, sculpture is the body

O pénis do Papa, outra vez

Há dias, publicamos aqui o extraordinário poema "The Pope's Penis", de Sharon Olds. Hoje publicamos a tradução de Jorge Sousa Braga, oferecida pelo Manuel Resende.

O PÉNIS DO PAPA

Dependurado lá no fundo das suas vestes, um delicado
badalo no centro dum sino.
Mexe-se quando ele se mexe, um peixe espectral numa
auréola de algas prateadas, os pêlos
balançando na escuridão e no calor - e à noite
enquanto os seus olhos dormem, ele levanta-se
em louvor de Deus.

Sharon Olds

Sem método nem sistema

Da página 22 para a 77, a árvore morta de Vladimir e Estragon renasce. Quatro ou cinco folhas, define Beckett nas indicações do segundo acto de "À espera de Godot".

Talvez faça parte da natureza das árvores mortas renascerem, mesmo que isso não sirva para nada.

Um método, um sistema

Na 2ª cena de "Sacríficio" Alexander planta uma árvore sem folhas enquanto conta ao filho a história de um monge ortodoxo chamado Pamve que (também) plantou uma árvore sem folhas no cimo de uma montanha e encarregou o seu discíplo Kolov de a regar todos os dias até as folhas nascerem de novo. Kolov assim fez durante três anos e um dia a árvore floriu. Depois Alexander explica ao rapaz as virtudes deste método. Alexander pensa, ou quer pensar, que acredita em algo mas engana-se, não é assim tão fácil, não basta enunciar.

Quarta-feira, Novembro 9

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Menu

Para calar os críticos da comida de plástico, uma cadeia de fast food decidiu lançar um novo menu: o osso duro de roer.
Em conferência de imprensa, o responsável máximo da cadeia explicou: "O osso duro de roer é um menu inovador criado pelo nosso Gabinete de Projectos e especialmente dirigido aos clientes mais exigentes. Estou a pensar, por exemplo, num Eduardo Prado Coelho ou mesmo num Rato Mickey."
Hoje resolvemos fazer ao contrário, somos nós que oferecemos ao Pedro Coelho e a Myrna Minkoff uma Ostra... e, vá lá, como somos mãos largas, também um arenque:

Fábula da Ostra e do Arenque

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Vivia a ostra bela e ajuizadamente numa rocha. Não sonhava com o amor, mas quando fazia bom tempo ficava boquiaberta, na maior beatitude possível. Encontrou-a porém o arenque, e foi uma paixão à primeira vista. Ficou perdidamente enamorado sem se atrever a confessar-lho.
Ora num dia de Verão a ostra bocejava feliz e queda. Encolhido atrás de um rochedo o arenque contemplava-a mas, de súbito, beijar a bem amada foi um desejo tão forte que nem pôde refreá-lo.
Meteu-se então entre as placas abertas da ostra e esta, surpreendida, fechou-as decapitando o miserável que flutuou à deriva e sem cabeça, pelo oceano.

Guillaume Apolinaire, "O Poeta Assassinado", tradução de Aníbal Fernandes, Estampa,
colecção LIVRO B, Lisboa 1983

Rosa vermelha

Rosa vermelha
Rosa vermelha
Rosa vermelha

Ele levou-me ao jardim da rosa vermelha
E atou uma rosa vermelha às minhas madeixas trémulas na escuridão
E por fim
Adormeceu comigo sobre a pétala duma rosa vermelha.

Excerto de "Rosa Vermelha", de Forugh Farrokhzad.
Tradução inédita de Mohsen Rostami. Este texto faz parte de uma pequena antologia desta excepcional poeta iraniana, que sera publicada no número 8 da revista “aguasfurtadas”, actualmente no prelo.

Terça-feira, Novembro 8



Guillaume Apollinaire, "Il Pleut", 1916.

A lista de chapéus famosos

Parece-me que o chapéu de Napoleão é uma escolha óbvia para a lista de chapéus famosos, mas não é esse o chapéu que tenho em mente. Esse era o chapéu com que se exibia. Penso sim é na sua touca de banho privativa, que, com toda a honestidade, não era lá muito diferente daquela que qualquer idiota pode comprar hoje em dia na loja da esquina, à excepção de duas pequenas diferenças. A primeira nem sequer tem piada: é que era simplesmente uma touca de banho branca, de borracha, mas muito pequena. Napoleão levava uma vida tão febril desde a sua infância, e até antes disso, que nunca teve oportunidade de comprar uma nova touca de banho, mesmo quando já era crescido — Bom, ele não cresceu assim tanto, mas a sua cabeça sim. Era, à nascença, um cabeça-de-alfinete e usou sempre, até à morte (a sério), a mesma pequenina touca de banho com que nascera, pelo que mais tarde lhe viria dar muitas dores e muitas enxaquecas, como se precisasse ainda de mais. Por isso tinha de untar o crânio com imensa vaselina para enfiar a coisa. A segunda excentricidade é que era uma touca de banho tricórnia. Isto dá pano para mangas para os académicos, e com razão. A minha teoria é deveras simplória: é que por baixo da sua cabeça pública havia uma outra cabeça, que era uma espécie de pirâmide ou uma coisa assim.

James Tate, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2

Humm

Vladimir: Já alguma vez leste a Bíblia?
Estragon: A Bíblia... (Pensa) Devo ter dado uma vista de olhos.
Vladimir: Lembras-te dos Evangelhos?
Estragon: Lembro-me dos mapas da Terra Santa. Eram coloridos. Muito bonitos. O Mar Morto era azul claro. Só de olhar para ele ficava com sede. É para lá que vamos, costumava dizer que é ali que vamos passar a nossa lua de mel. Vamos nadar. Vamos ser felizes.
Vladimir: Devias ter ido para poeta.
Estragon: Mas eu fui poeta (Um gesto a indicar os trapos com que está vestido.) Não se nota?
Silêncio

Samuel Beckett, "À espera de Godot", tradução de José Maria vieira Mendes, Cotovia, já em 2ª edição

red shoes by the newstand

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No fim-de-semana fiquei a saber, por uma notícia apanhada à sorte na televisão, que Bento XVI mudou de costureiro oficial e não abdica dos seus caríssimos sapatos Prada. O Papa anterior andava de pantufas, acrescentou o jornalista. Pantufas? O chefe da Igreja Católica? Nunca imaginei dizer isto mas na verdade Joseph Ratzinger parece-me muito mais sensato e inteligente nas suas escolhas íntimas: o modelo Prada é perfeito e, como nós sabemos, há mais mistérios num par de sapatos vermelhos do que supõe a nossa vã filosofia.

Segunda-feira, Novembro 7

Solo

Em pleno autocarro, um homem é atacado por um violoncelo.
O homem regressa a casa com diversas mazelas, entre as quais uma giga alojada no interior da cabeça.
Em casa, o homem queixa-se da sua pouca sorte à mulher.
A mulher diz: "A polícia nunca aparece quando precisamos dela."

The Pope's Penis

It hangs deep in his robes, a delicate
clapper at the center of a bell.
It moves when he moves, a ghostly fish in a
halo of silver sweaweed, the hair
swaying in the dark and the heat - and at night
while his eyes sleep, it stands up
in praise of God.

Sharon Olds

– Avózinha, tens uns olhos tão grandes!

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Assim e assado

Segundo Joseph Beuys, todos os seres humanos são artistas. Ora, pessoalmente não tenho motivos de queixa. A generalidade da crítica e o próprio Eduardo Prado Coelho nunca me trataram mal.

Tílias

Alguém me fala de tílias. Conheço uma avenida de tílias. Atravesso-a todos os dias em direcção ao trabalho. E os dias começam bem, penso. Percorro esta atmosfera que me anuncia a manhã. Bem sei que terminarei o dia dobrado pelo incumprido. Mas agora há uma voz que me fala de tílias e uma avenida de tílias e a sagração do que me espera. Sincero jogo. Precário jogo.

Luís Quintais, Angst, Cotovia, Lisboa 2002

Escolhi este livro porque

"O poder da alma de Robert Walser só atinge aqueles que (como eu) gostam de R. Walser e faz-nos amá-lo possessivamente, exclusivamente, de forma egoísta. Não quero partilhar este amor com mais ninguém. Só eu compreendi R. Walser."

Thomas Hirschhorn, textos da exposição "Anschool II", patente no Museu de Serralves.

Esqueçam as dietas. Somos todos gordos.




Há muito tempo que Serralves não oferecia uma exposição tão boa. É o que penso. "Anschool II", de Thomas Hirschhorn, é uma grande exposição. Simples e complexa, directa e exigente. Uma obra excepcional que funciona como um espelho: olhamos e somos nós que estamos expostos. Nós somos o que Hirschhorn mostra. Somos aqueles fios eléctricos, os pedaços de madeira, os vidros, as fotocópias, os jornais, as revistas, os anúncios publicitários, os manequins com cancros de plástico, os camuflados. As nossas escolas são assim, as nossas casas são assim, as nossas cidades são aquelas. A nossa vida é uma cópia daquele estranho labirinto que Hirschhorn montou em Serralves, com paredes de cartão e fita adesiva. Este é o nosso mundo. E a própria arte de Hirschhorn não está fora dele. Um mundo em guerra aberta com tudo e com todos os que se lhe opõem. Uma guerra em que todos estamos envolvidos. Porque é assim que queremos viver.
Eu sei. Tudo isto não passa de uma série de lugares comuns. Mas é justamente isso que a exposição mostra: o imenso lugar comum em que vivemos e queremos continuar a viver. Por isso, esta exposição não vai mudar nada. E, no entanto, muda alguma coisa. Excelente.

Outras leituras desta exposição no Bombyx Mori e Elsinore.

Domingo, Novembro 6

Distorção semântica de 3° grau

Quando aprendemos uma língua acontece, por vezes, interpretarmos mal certas palavras atribuindo-lhes sentidos que não estão lá. Eu sou perita em interpretar mal e é deste modo que avanço pelo alemão dentro. Por exemplo: à frase "ich bin müde" — que quer dizer literalmente "eu estou cansada" — acrescentei significados diversos e errados. Em termos fonéticos "müde" assemelha-se à nossa palavra "muda" (e também ao "mute" inglês), daí derivei com um à vontade irresponsável para "calada". Para além disso, e agora entramos no campo do inexplicável, acho que "müde" exprime uma tristeza profunda, digamos que se a língua fosse uma paleta de cores "müde" corresponderia ao branco sujo e lamacento da neve misturada com terra. À revelia do dicionário, sempre que digo "ich bin müde" quero dizer que estou cansada, calada e triste, por essa ordem, como se cada adjectivo fosse mais um degrau. Deturpada a meu bel-prazer, "müde" é uma palavra-espiral magnífica. Os alemães que me desculpem a falta de jeito.