Quarta-feira, Novembro 30
Three Years Later

“...The character played by Jean Seberg was a continuation of her role in Bonjour Tristesse. I could have taken the last shot of Preminger's film and started [À Bout de souffle] after dissolving to a title, 'Three Years Later'.”
Milne and Narboni (eds.), p. 173. Translated by Milne from original article: “Interview with Jean-Luc Godard”, Cahiers du cinéma, 138, December 1962
XIX
Repugnam-me certos sons, mas o mais odioso
É para mim o ladrar dos cães, o seu ganir atormenta-me os ouvidos.
Só um cão oiço muitas vezes com feliz agrado
Ladrar e ganir, o cão que o vizinho criou.
Pois uma vez ladrou à minha rapariga, que à socapa
veio ao meu encontro, e quase revelou o nosso segredo.
Agora, mal o oiço ladrar, logo penso que é ela que aí vem,
Ou recordo os tempos em que a esperada vinha.
Goethe, "Erotica Romana", tradução de Manuel Malzbender, Cavalo de Ferro
É para mim o ladrar dos cães, o seu ganir atormenta-me os ouvidos.
Só um cão oiço muitas vezes com feliz agrado
Ladrar e ganir, o cão que o vizinho criou.
Pois uma vez ladrou à minha rapariga, que à socapa
veio ao meu encontro, e quase revelou o nosso segredo.
Agora, mal o oiço ladrar, logo penso que é ela que aí vem,
Ou recordo os tempos em que a esperada vinha.
Goethe, "Erotica Romana", tradução de Manuel Malzbender, Cavalo de Ferro
Profissionais da aeronáutica
Quando se fala em profissionais ligados à navegação aérea, é normal lembrarmo-nos dos controladores de tráfego aéreo, dos pilotos de linha aérea, do pessoal de cabine, enfim daqueles actores que têm maior visibilidade perante o grande público e, sobretudo, perante os utilizadores do espaço aéreo.
Mas, a verdade é que existe uma grande variedade de profissionais cujo trabalho é fundamental ao normal funcionamento da navegação aérea.
Agradecendo a valiosa colaboração do Centro de Documentação e Informação da ANA, SA, mostramos algumas imagens desses profissionais.


Mas, a verdade é que existe uma grande variedade de profissionais cujo trabalho é fundamental ao normal funcionamento da navegação aérea.
Agradecendo a valiosa colaboração do Centro de Documentação e Informação da ANA, SA, mostramos algumas imagens desses profissionais.


BRUSCON (em tom de pergunta): Aquilo não é uma imagem de Hitler
ESTALAJADEIRO: Mas é claro
BRUSCON (em tom de pergunta): E aquilo ainda continua pendurado
ESTALAJADEIRO: Mas é claro
BRUSCON (em tom de pergunta): Há dezenas de anos
ESTALAJADEIRO: Mas é claro
BRUSCON: Que tem de se olhar bem para ela
para se ver que aquilo é o Hitler
de tão emporcalhada que está
ESTALAJADEIRO: Até agora ainda ninguém
se mostrou incomodado com isso
Thomas Bernhard, O Fazedor de Teatro.
ESTALAJADEIRO: Mas é claro
BRUSCON (em tom de pergunta): E aquilo ainda continua pendurado
ESTALAJADEIRO: Mas é claro
BRUSCON (em tom de pergunta): Há dezenas de anos
ESTALAJADEIRO: Mas é claro
BRUSCON: Que tem de se olhar bem para ela
para se ver que aquilo é o Hitler
de tão emporcalhada que está
ESTALAJADEIRO: Até agora ainda ninguém
se mostrou incomodado com isso
Thomas Bernhard, O Fazedor de Teatro.
Terça-feira, Novembro 29
Bonjour Tristesse

Siza Vieira, Schleisches Tor (Bonjour Tristesse), Berlin, 1976/82
Ontem decidi ver Bonjour Tristesse com legendas em alemão. Na ultima cena, Cécile explica algo que eu ainda não consegui explicar muito bem. Mas isso fica para depois.
...
Fazer poemas às segundas e terças-feiras, entre as 18h30 e as 20h00
Recebido por mail:
"Escrevi um poema mas não sinto que ainda esteja acabado... O que mudar? O que alterar? Como desenvolver as ideias mais importantes? O que é importante saber em termos de ritmo, prosódia, imagens, precisão?
Traga o seu poema e venha trabalhá-lo em 7 sessões com o poeta e crítico literário Pedro Sena-Lino.
Formador: Pedro Sena-Lino
Duração; 7 sessões de 90 m
(turmas com o máximo de 7 participantes)
Mensalidade: 85 euros/ Total (2 meses): 145 euros
Horário: Segunda-feira, 18h30-20h; Terça-feira, 18h45-20h15
Início: Janeiro 2006.
Local: Companhia do Eu."
"Escrevi um poema mas não sinto que ainda esteja acabado... O que mudar? O que alterar? Como desenvolver as ideias mais importantes? O que é importante saber em termos de ritmo, prosódia, imagens, precisão?
Traga o seu poema e venha trabalhá-lo em 7 sessões com o poeta e crítico literário Pedro Sena-Lino.
Formador: Pedro Sena-Lino
Duração; 7 sessões de 90 m
(turmas com o máximo de 7 participantes)
Mensalidade: 85 euros/ Total (2 meses): 145 euros
Horário: Segunda-feira, 18h30-20h; Terça-feira, 18h45-20h15
Início: Janeiro 2006.
Local: Companhia do Eu."
Livros cansados
A livraria In-libris, do Porto, especializada em livros antigos e esgotados, actualizou o seu catálogo on-line. Vale a pena uma visita. As descrições técnicas dos livros são deliciosas. Um exemplo: a propósito de "A vida de um rapás gordo", peça em três actos de André Brun (1923), diz-se que tem uma "capa cansada".
Mas também há livros com "encadernações em percalina" ou "em pele, da época, com nervuras e finos ferros a ouro na lombada", ou ainda "em tela protegida por sobrecapa de papel, policromada".
Preços para todos os gostos.
Mas também há livros com "encadernações em percalina" ou "em pele, da época, com nervuras e finos ferros a ouro na lombada", ou ainda "em tela protegida por sobrecapa de papel, policromada".
Preços para todos os gostos.
Aquilo que eu sou

Toda a gente vos dirá que não sou músico. E é verdade.
Desde o início da minha carreira me classifiquei entre os fonometrógrafos. Os meus trabalhos são pura fonométrica. Agarre-se no Filhos das Estrelas ou nos Trechos em Forma de Pêra, no Com fato de Cavalo ou nas Sarabandas, e descobrir-se-á que nenhuma ideia musical presidiu à criação de tais obras. O que lá domina é o pensamento científico.
De resto, mais prazer sinto a medir um som do que a ouvi-lo. De fonómetro em punho, trabalho com alegria & segurança.
O que não terei já pesado e medido? Todo o Beethoven, todo o Verdi, etc. É muito curioso.
Da primeira vez que me servi de um fonoscópio, examinei um si bemol de tamanho médio. Nunca deparei, posso garantir-vos, com uma coisa mais repugnante. Até chamei o criado para ele ver.
Com o fono-pesador um fá sustenido vulgar, como tantos há, atingiu os 93 quilogramas. Saía de um muito gordo tenor que também pesei.
E sabeis, por acaso, o que é limpar os sons? É uma coisa muito porca. Fiá-los é mais limpo. E quanto a sabê-los classificar, exige minúcia e boa vista; está-se em plena fonotécnica.
No que respeita às explosões sonoras tantas vezes desagradáveis, o algodão metido nos ouvidos consegue só por si atenuá-las razoavelmente. Está-se em plena pirofonia.
Para descrever as Peças Frias, servi-me de um caleidofone-gravador. Demorei sete minutos. E até chamei o criado para as ouvir.
Julgo poder afirmar que a fonologia é superior à música. É mais variada. E dá mais rendimento pecuniário. Devo-lhe a minha fortuna.
Seja como for, é mais fácil um fonometrista mediocremente treinado registar no motodinamofone um maior número de sons do que o mais hábil músico em tempo idêntico e com idêntico esforço. Por isso mesmo eu tanto escrevi.
O futuro pertence, pois, à filofonia.
Erik Satie, "Memória de um Amnésico", tradução de Alberto Nunes Sampaio, colecção memória do abismo #38, Hiena
Segunda-feira, Novembro 28
— A literatura é um jogo de possibilidades, disse Einstein enquanto lançava os dados
É possível não gostar de Thomas Bernhard e até, por incrível que pareça, também é possivel não gostar de Robert Walser. Pensando bem, o mais improvável até é gostar de Bernhard (que nunca mais se cala) e de Walser (que se cala demasiado) ao mesmo tempo e sem nos estatelarmos no chão.
Um optimista
Dois sapos na barriga de uma cobra ponderavam a mudança das suas condições. “Isto é um azar danado”, disse um. “Não tires conclusões precipitadas”, disse o outro: “Estamos a salvo da chuva e providos de alojamento e de comida”. “Quanto ao alojamento não há dúvida”, disse o primeiro sapo, “mas não vejo onde é que está a comida”. És um rezingão”, explicou o outro “ nós próprios somos a comida”
Ambrose Bierce, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2
Ambrose Bierce, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2
— Can you write like Gorey?
Gorey TTF: It's a TrueType font based on the distinctive hand lettering of Edward Gorey. Work well with OSX.
Este post foi escrito com uma caneta bic
A exposição de Thomas Hirschhorn não precisa de tradução. Anschool é uma palavra inventada, é gira, toda a gente a percebe e descreve bem a balbúrdia que nos espera em Serralves. Mas apeteceu-me traduzir e deu isto: DESCOLA.
Domingo, Novembro 27
Crítica
Estou farto daqueles "críticos de poesia" que, nos seus textos, procuram ser ainda mais "poéticos" dos que os próprios poemas sobre os quais escrevem.
Quem quiser ler alguma coisa sobre poesia neste país, está lixado. Felizmente, há os clássicos: os mortos que falam.
Quem quiser ler alguma coisa sobre poesia neste país, está lixado. Felizmente, há os clássicos: os mortos que falam.
Caim e Abel
Diz Jorge Gomes Miranda, no Mil Folhas deste sábado, que o irmão da poesia é o amor. Tocante, de facto. Mas tremo só de pensar quem poderão ser os pais dos petizes, os avós, os tios, os priminhos e por aí fora.
Os melhores livros de 2005
Se houvesse justiça neste e no outro mundo, a votação dos melhores livros de 2005, que o Francisco José Viegas lançou no Livro Aberto, só podia ter um resultado: o primeiro lugar em todas as categorias dos livros da Biblioteca de Papel, do Mário Santos, apresentados no Mil Folhas.
Sábado, Novembro 26
Sexta-feira, Novembro 25
O canal de TV mais shakespeareano de Portugal

"José Eduardo Moniz, director-geral da TVI, está decidido a dar tudo por tudo para manter a senda do sucesso de audiências no horário nobre. (...) E para provar as suas intenções apresentou ontem a novela incumbida dessa difícil tarefa e que se chama 'Dei-te quase tudo'. (...) Fernanda Serrano, que esteve cerca de ano e meio sem participar em novelas, resumiu, ao JN, o enredo da ficção 'É uma história sobre as contrariedades da vida, do apego e desapego, dos encontros e desencontros, inspirada nesse fabuloso romance (sic) que é 'Romeu e Julieta'."
Jornal de Notícias de hoje.
Beware of the blog!
Comecem por aqui: Jesus Christ Superstar in Japanese (What better way to kick off Christ's month-long birthday bash than with the Japanese version of Jesus Christ Superstar? Here it is in its entirety, featuring a great Judas, a lame Pilate (a shame, since Pilate has many of the best songs), the needless knockoff song Can't We Start Again Please, inappropriate livestock sound effects and inexpicable excursions back into English.) Depois é só descer. Não percam a Peggy Lee a comer um McDonalds nem as previsões do Criswell.
A Nervous Tic Motion Of The Head To The Left

Estas duas fotografias de Helena Almeida chamam-se "Seduzir". Devo dizer, desde já, que não tenho nada contra o acto: gingar para a direita, gingar para a esquerda, outra vez. Mesmo nada contra a coreografia. Mas meteu-se uma ideia estúpida e insistente na minha cabeça que estragou tudo. Acho que do outro lado, do lado que não se vê, a pintora tem um ipod preto impecável a debitar, mais alto do que o apropriado, Andrew Bird. Lá se vai a polissemia por água abaixo. Para sempre.
p.s. por falar em coreografias, vocês já ouviram falar do pássaro jardineiro? Descobri-o ontem no canal Odisseia, é um tipo extraordinário, um verdadeiro artista.
Lektion 13 *
Auswahlbibliographie Robert Walser | Werkausgaben | Sämtliche Werke in Einzelausgaben. Herausgegeben von Jochen Greven. 20 Bände. Frankfurt a. M.: Suhrkamp Taschenbuchverlag 1998–2000. (Jeder Band ist einzeln erhältlich)
Bd.1: Fritz Kochers Aufsätze. (st. 1101) | Bd.2: Geschichten. (st. 1102) | Bd.3: Aufsätze. (st. 1103) | Bd.4: Kleine Dichtungen. (st. 1104) | Bd.5: Der Spaziergang. (st. 1105) | Bd.6: Poetenleben. (st. 1106) | Bd.7: Seeland. (st. 1107) | Bd.8: Die Rose. (st. 1108) | Bd.9: Geschwister Tanner (st. 1109) | Bd.10: Der Gehülfe. (st. 1110) | Bd.11: Jakob von Gunten. Ein Tagebuch. (st. 1111) \ Bd.12: Der Räuber. Mit einem Nachwort v. Martin Jürgens. (st. 1112) | Bd.13: Die Gedichte. (st. 1113) | Bd.14: Komödie. Märchenspiele und szenische Dichtungen. (st. 1114) | Bd.15: Bedenkliche Geschichten. Prosa aus der Berliner Zeit. 1906–1912. (st. 1115) | Bd.16: Träumen. Prosa aus der Bieler Zeit. 1913–1920. (st.1116) | Bd.17: Wenn Schwache sich für stark halten. Prosa aus der Berner Zeit. 1921–1925. (st. 1117) | Bd.18: Zarte Zeilen. Prosa aus der Berner Zeit. 1926. (st. 1118) | Bd.19: Es war einmal. Prosa aus der Berner Zeit. 1927–1928. (st. 1119) | Bd.20: Für die Katz. Prosa aus der Berner Zeit. 1928–1933. (st.1120) | Robert Walser: Briefe. Hrsg. v. Jörg Schäfer unter Mitarbeit von Robert Mächler. Fr.a.M.: Suhrkamp 1979. (=Suhrkamp Taschenbuch. 488.) (vergriffen. Neuaufl. 2006) | Robert Walser: Aus dem Bleistiftgebiet. Mikrogramme aus den Jahren 1924–1933. Entziffert und herausgegeben von Bernhard Echte und Werner Morlang. 6 Bände. Frankfurt a. M.: Suhrkamp Verlag 1985–2000. (Leinen in Kassette 2002. Broschierte Sonderausgabe 2003. ) | Robert Walser: Europas schneeige Pelzboa. Texte zur Schweiz.Hrsg. v. Bernhard Echte. Fr.a.M.: Suhrkamp 2003. | Robert Walser: Feuer. Unbekannte Prosa und Gedichte. Hrsg. v. Bernhard Echte. Fr.a.M.: Suhrkamp 2003.
Bd.1: Fritz Kochers Aufsätze. (st. 1101) | Bd.2: Geschichten. (st. 1102) | Bd.3: Aufsätze. (st. 1103) | Bd.4: Kleine Dichtungen. (st. 1104) | Bd.5: Der Spaziergang. (st. 1105) | Bd.6: Poetenleben. (st. 1106) | Bd.7: Seeland. (st. 1107) | Bd.8: Die Rose. (st. 1108) | Bd.9: Geschwister Tanner (st. 1109) | Bd.10: Der Gehülfe. (st. 1110) | Bd.11: Jakob von Gunten. Ein Tagebuch. (st. 1111) \ Bd.12: Der Räuber. Mit einem Nachwort v. Martin Jürgens. (st. 1112) | Bd.13: Die Gedichte. (st. 1113) | Bd.14: Komödie. Märchenspiele und szenische Dichtungen. (st. 1114) | Bd.15: Bedenkliche Geschichten. Prosa aus der Berliner Zeit. 1906–1912. (st. 1115) | Bd.16: Träumen. Prosa aus der Bieler Zeit. 1913–1920. (st.1116) | Bd.17: Wenn Schwache sich für stark halten. Prosa aus der Berner Zeit. 1921–1925. (st. 1117) | Bd.18: Zarte Zeilen. Prosa aus der Berner Zeit. 1926. (st. 1118) | Bd.19: Es war einmal. Prosa aus der Berner Zeit. 1927–1928. (st. 1119) | Bd.20: Für die Katz. Prosa aus der Berner Zeit. 1928–1933. (st.1120) | Robert Walser: Briefe. Hrsg. v. Jörg Schäfer unter Mitarbeit von Robert Mächler. Fr.a.M.: Suhrkamp 1979. (=Suhrkamp Taschenbuch. 488.) (vergriffen. Neuaufl. 2006) | Robert Walser: Aus dem Bleistiftgebiet. Mikrogramme aus den Jahren 1924–1933. Entziffert und herausgegeben von Bernhard Echte und Werner Morlang. 6 Bände. Frankfurt a. M.: Suhrkamp Verlag 1985–2000. (Leinen in Kassette 2002. Broschierte Sonderausgabe 2003. ) | Robert Walser: Europas schneeige Pelzboa. Texte zur Schweiz.Hrsg. v. Bernhard Echte. Fr.a.M.: Suhrkamp 2003. | Robert Walser: Feuer. Unbekannte Prosa und Gedichte. Hrsg. v. Bernhard Echte. Fr.a.M.: Suhrkamp 2003.
Prosastück *
Esta será provavelmente a minha última peça de prosa. Uma série de considerações leva-me a crer que este guardador de rebanhos já há muito deveria ter deixado de escrever e enviar estas prosas e abandonado de uma vez por todas uma actividade que está aparentemente para além das suas capacidades. É com muito agrado que vou procurar outro tipo de trabalho que me deixe comer o pão em paz.
O que é que fiz nestes últimos dez anos? Para responder a esta pergunta, primeiro tenho de suspirar; segundo, soluçar; e terceiro, começar um novo capítulo ou um parágrafo fresco.
Nestes últimos dez anos escrevi sem parar estas pequenas prosas que raramente se revelavam úteis. O que eu não aguentei? Cem vezes gritei: "Não escrevo nem mais uma linha!" — mas de cada vez, sem falha, escrevia e enviava nova mercadoria, no próprio dia ou no seguinte; agora não consigo compreender esse comportamento.
Robert Walser, guardador de rebanhos e tudo
NA AUTO-ESTRADA
Ainda posso perceber
Esses miúdos nos viadutos
Que atiram pedras aos carros da auto-estrada.
É um gesto eficaz
Que matou alguns caixeiros-viajantes,
E até famílias inteiras,
É pura malvadez
E o mundo precisa de pureza.
Mas como se justificam esses que nos acenam
Com alegria ao passarmos?
Manuel Resende, "O mundo clamoroso, ainda", Angelus Novus, 2004 (e vão quinze!)
Esses miúdos nos viadutos
Que atiram pedras aos carros da auto-estrada.
É um gesto eficaz
Que matou alguns caixeiros-viajantes,
E até famílias inteiras,
É pura malvadez
E o mundo precisa de pureza.
Mas como se justificam esses que nos acenam
Com alegria ao passarmos?
Manuel Resende, "O mundo clamoroso, ainda", Angelus Novus, 2004 (e vão quinze!)
Quinta-feira, Novembro 24
TROCADERO
Na cidade de Paris
Na Praça do Trocadero,
Reconstituíram
Uma aldeia alpina.
Só faltava a neve.
As tempestades de neve
Que fustigaram os Alpes
E as estações de ski
Bloqueram no caminho
As máquinas de fazer neve
Que fazem neve nos Alpes
Quando lá não há neve.
Manuel Resende, "O mundo clamoroso, ainda", Angelus Novus, 2004 (mais cinco para a contra corrente)
Na Praça do Trocadero,
Reconstituíram
Uma aldeia alpina.
Só faltava a neve.
As tempestades de neve
Que fustigaram os Alpes
E as estações de ski
Bloqueram no caminho
As máquinas de fazer neve
Que fazem neve nos Alpes
Quando lá não há neve.
Manuel Resende, "O mundo clamoroso, ainda", Angelus Novus, 2004 (mais cinco para a contra corrente)
a raposa fordiana

A raposa e o canguru não foram feitos um para o outro. No entanto, desde o princípio da espécie que a raposa deseja dormir na bolsa morna do canguru; uma vontade ancestral e inexplicável. "Foi por isso e não por causa do queijo que se fez astuta", dizem as más línguas. A raposa encolhe os ombros: "escrevam a lenda se preferem, meus queridos". Na Austrália, o canguru salta com a descontração de quem não acredita em fábulas idiotas mas também ele tem um segredo: todas as noites sonha abraçar o tubarão.
Ezra

Depois de vários anúncios e adiamentos, chegou finalmente às livrarias a primeira edição portuguesa integral de "Os Cantos", a monumental obra-prima de Ezra Pound, pela mão da Assírio & Alvim. Trata-se de um acontecimento editorial de grande importância, uma vez que até à data estavam apenas disponíveis no mercado português pequenos excertos espalhados por antologias ou edições temáticas de alguns cantos específicos.
Infelizmente, esta edição é apenas meia novidade. E a razão é simples: a Assírio & Alvim recorreu à tradução já clássica do brasileiro José Lino Grünewald, originalmente editada no Brasil nos anos oitenta, pela editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro (a 2ª edição é de 2002).
Há dois anos, comprei a versão original, na livraria Nova Fronteira (C. C. Brasília, no Porto), por cerca de €29. A versão da Assírio & Alvim custa €40,50 (preço atribuído pela FNAC).
Depois, quando a Revolução Francesa o liberta do serviço na corte do príncipe eleitor, Beethoven vê-se obrigado a prover às suas necessidades: arranja maneira de vender as suas obras a editores e patrocinadores (a quem agradece com uma dedicatória); dá liçoes, tarefa que não aprecia muito, excepto quando se trata de jovens pianistas muito dotadas.
Élisabeth Brisson e Marc Vignal.
Élisabeth Brisson e Marc Vignal.
put a little sugar in my coffee cup / take your spoon and stir it up
Nota do Conselho Executivo: Este blogue tem como política permitir mexer o café em nome do 'respeito'
Nota do Conselho Executivo: Este blogue tem como política permitir mexer o café em nome do 'respeito'
Quarta-feira, Novembro 23
Möchtest du spazieren gehen?
A Rua do Bonfim toda, pelo passeio da direita, ao sol (pão de arroz do suribachi); Campo 24 de Agosto em obras; Santo Ildefonso (doce de chila com amêndoas) interrompida pelo Largo do Padrão; Praça dos Poveiros (a gata dorme no cesto); Passos Manuel; Santa Catarina até à Batalha (a Latina está tão bonita e arejada) e depois para trás — espreito os dvds na fnac? sim? não? não, já chega! — até à Rua Formosa (requeijão da serra da estrela); regresso a pé ou apanho um daqueles autocarros que vão para lugares desconhecidos? Baguim ou Formiga? Seixo.
2º Aviso

Ouvi a notícia na rádio: há 10 mil relojoeiros anarquistas espalhados pelo mundo. São perigosos e têm um plano. Não confiem nos vossos relógios nem sequer no Guardian. Quanto aos chocolates, só em forma de guarda-chuva.
das Schweigen

I'm in a bad way, no doubt about it. Earlier, things were simple; all I had to do was advertise: "Young man seeks employment." Today the advertisement reads, "Unfortunately no longer young, but already somewhat elderly and weary man begs for clemency and shelter." Times are changing, and the little years vanish like April snow. I'm a poor, no longer young, man, with just enough skill left to compose prose pieces like the following:
"Trot, trot, trot. What's with me? Have I gone a bit nuts? What's going to become of me? An errand boy, perhaps? I'm definitely keeping such a necessity in mind. One, two, three and four, five and six. Between sleeping and waking I heard it, as if it intended to go on for all eternity. Oh, I gave such a shriek, and was more conscious than ever of the sum of my insignificance. No, man isn't great; he's helpless and weak. Good enough."
I sent "Trot, trot, trot" to between twenty-one and thirty-eight newspapers in the hope it might be found appropriate, but in twenty-one to thirty-eight cases this hope proved false, and the thriller failed to find favor.
Thirty to forty supermen refused to accept the unquestionably outstanding piece. Instead, they emphatically turned it down and sent it flying right back to me.
One of these dictators wrote: "Mon dieu, what are you thinking of?" Another opined: "Ah, why don't you let Venetian Night have this magic trick of yours — they're sure to be delighted. But as for us, we must ask that you be so good as to spare us your trot-trot-trotteries and your five-or-sixeries."
I sent "Trot, trot, trot" to the newspaper cited, which politely declined it with the words: "Ah, please be so kind as to believe that this enchanting piece is poorly suited to us."
"What one man doesn't like may still please another," I reasoned, and sent the piece off to Cuba, which showed not the slightest interest. I think the best thing for me would be to sit in a corner and be silent.
Robert Walser, a caminho do bunker
Logo que chega a Viena, [em 1792], Beethoven preocupa-se, naturalmente, em encontrar alojamento. (...) Uma vez alojado, procura os meios necessários para poder trabalhar (mesa, estante de música, piano) e preocupa-se em ficar apresentável, decidido a "equipar-se inteiramente de novo" para estar na moda: compra botas, sapatos, meias de seda negra, roupas, pó-de-arroz, "pomada" e procura um cabeleireiro assim como um professor de dança.
Élisabeth Brisson e Marc Vignal.
Élisabeth Brisson e Marc Vignal.
Terça-feira, Novembro 22
Conto de Natal
Era uma vez um arquitecto ou um cavalo: era mais um cavalo do que um arquitecto, em Filadélfia, a quem tinham dito: “Conheces a catedral de Colónia? Constrói uma catedral parecida com a catedral de Colónia!” E, como ele não conhecia a catedral de Colónia, então meteram-no na prisão. Mas, na prisão, apareceu-lhe um anjo que lhe disse: “Wolfrang! Wolfrang! porque estás angustiado? — Obrigam-me a ficar na prisão porque não conheço a catedral de Colónia! — Precisas de vinho do Reno para construir a catedral de Colónia, mas antes mostra-lhes o projecto e só então poderás sair da prisão.” E o anjo deu-lhe o projecto e ele mostrou o projecto e então pôde sair da prisão, mas nunca pôde construir a catedral porque lhe faltava o vinho do Reno. Teve a ideia de mandar vir vinho do Reno para Filadélfia, mas enviaram-lhe um vinho francês horroroso, de Moselle, de maneira que ele não pôde construir a catedral de colónia em Filadélfia; só conseguiu fazer um templo protestante horroroso.
Max Jacob, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2
Max Jacob, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2
I have heard the key
Há filmes que escondem dentro de si uma chave (jogo 1). Não sei se isto é verdade, desconfio que não, de forma alguma, mas dá-me muito jeito. Por exemplo, em "Mulholland Drive", lembram-se? a chave até aparece e é azul. A chave abre o filme, isto é, abre o sonho. E o filme é o sonho, ou o sonho é o filme, dá no mesmo. Mas adiante. No fim-de-semana arrumei "The Conversation" junto a "Blow up" e lembrei-me da chave do filme do Antonioni.
O fotógrafo chega a casa, quase no início da história. Está cansado, senta-se numa cadeira. O pintor que anda a dormir com a sua mulher, decide, sem mais nem menos, explicar umas coisas:
Voltando a "The Conversation": a sua chave é o "Blow up". Coppola confirma-o nos comentários audio que acompanham o DVD. Mas há outra (bastante simbólica, para apreciadores do género freudiano), aliás há várias, há sempre (quase) tudo o que quisermos, não é? Isso é muito reconfortante.
Em vez de chaves podemos procurar o punctum Barthiano (jogo 2). Há uma cena muito adequada: é de noite, Harry Caul vai a casa da namorada, ela já está na cama, eles bebem um bocado de vinho, quase que discutem, ela está de roupão e meias brancas até meio da perna, ele nem tirou a gabardine transparente. A namorada nunca mais volta a aparecer no filme mas ninguém se esquece das meias brancas. Já agora, esta cena era um sonho recorrente de Coppola: ele sonhava que tinha uma casa rasca num sítio qualquer, que ninguém conhecia e nessa casa estava sempre uma rapariga à sua espera. Depois de filmar a sequência, a rapariga desapareceu do sonho.
O fotógrafo chega a casa, quase no início da história. Está cansado, senta-se numa cadeira. O pintor que anda a dormir com a sua mulher, decide, sem mais nem menos, explicar umas coisas:
— Já deve ter cinco ou seis anos. Não significam nada quando as pinto. É uma confusão. Depois descubro algo a que me agarrar, como isto... como aquela perna. E acaba por ganhar algum sentido e tornar-se coerente. É como descobrir uma pista numa história de detectives. Não me perguntes sobre esta. Ainda não sei.Para quem não precisar de tantas palavras, há ainda a inesquecível cena do ténis.
— Posso comprá-la?
— Não.
— Podes oferecer-ma?
—
Voltando a "The Conversation": a sua chave é o "Blow up". Coppola confirma-o nos comentários audio que acompanham o DVD. Mas há outra (bastante simbólica, para apreciadores do género freudiano), aliás há várias, há sempre (quase) tudo o que quisermos, não é? Isso é muito reconfortante.
Em vez de chaves podemos procurar o punctum Barthiano (jogo 2). Há uma cena muito adequada: é de noite, Harry Caul vai a casa da namorada, ela já está na cama, eles bebem um bocado de vinho, quase que discutem, ela está de roupão e meias brancas até meio da perna, ele nem tirou a gabardine transparente. A namorada nunca mais volta a aparecer no filme mas ninguém se esquece das meias brancas. Já agora, esta cena era um sonho recorrente de Coppola: ele sonhava que tinha uma casa rasca num sítio qualquer, que ninguém conhecia e nessa casa estava sempre uma rapariga à sua espera. Depois de filmar a sequência, a rapariga desapareceu do sonho.
o comboio não pára na estação
Sérgio, tanto quanto sei, Sicília! não passou a formato DVD. Os diálogos que publiquei são da tal viagem de comboio ao longo da costa siciliana e foram retirados do livro de Elio Vittorini (da edição brasileira — que é a que tenho — e agora, por gentileza do Cenobita, da portuguesa) e também do livro que acompanha o filme de Pedro Costa "Onde jaz o teu sorriso?" que é sobre Jean-Marie Straub, Danièlle Huillet & Sicília!.
Gente da Sicília
— O senhor tem uma bela voz de barítono.Ruborizou-se logo.
— Oh! — disse.
— Porquê? Não sabia? — disse eu.
— Oh, quanto a saber sei — disse ele, corado e contente.
E eu disse:
— Naturalmente. Não podia ter vivido até agora sem o saber. É pena que seja empregado das Finanças em vez de cantar.
— Pois é — disse ele. — Gostava bem… No Falstaff, no Rigoletto… Em todos os palcos da Europa.
— Ou mesmo pelas ruas, que importa? Sempre é melhor que ser funcionário — disse eu.
— Oh, sim, talvez… — disse ele.
esta e outras capas de Elio Vittorini, para ver no Cenobita Tranquilo
"Produz-se tanta música na casa onde vivem as famílias Beethoven e Willman que o proprietário, que sendo padeiro de profissão trabalha à noite e dorme de dia, pede à família Beethoven para se mudar."
Élisabeth Brisson e Marc Vignal.
Élisabeth Brisson e Marc Vignal.
Segunda-feira, Novembro 21
Gary Snyder em português
No Brasil, a editora Azougue acaba de editar a primeira antologia em português de Gary Snyder, poeta norte-americano ligado à fundação do movimento beat. "Re-habitar" inclui 50 poemas e 8 ensaios, e tem tradução de Luci Collin.
YASE: SETEMBRO
A velha Sra. Kawabata
roça as altas e espigosas ervas daninhas —
mais em duas horas
do que eu consigo roçar num dia.
duma montanha
de capim e cardo
ela separou cinco hastes poeirentas
de flores do campo azuis e irregulares
e as colocou na minha cozinha
num jarro.
YASE: SEPTEMBER
Old Mrs. Kawabata/ cuts down the tall spike weeds — / more in two hours/ than I can get down in a day.// out of a mountain/ of grass and thistle/ she saved five dusty stalks/ of ragged wild blue flower/ and put them in my kitchen/ in a jar.
YASE: SETEMBRO
A velha Sra. Kawabata
roça as altas e espigosas ervas daninhas —
mais em duas horas
do que eu consigo roçar num dia.
duma montanha
de capim e cardo
ela separou cinco hastes poeirentas
de flores do campo azuis e irregulares
e as colocou na minha cozinha
num jarro.
YASE: SEPTEMBER
Old Mrs. Kawabata/ cuts down the tall spike weeds — / more in two hours/ than I can get down in a day.// out of a mountain/ of grass and thistle/ she saved five dusty stalks/ of ragged wild blue flower/ and put them in my kitchen/ in a jar.
A música
A música é a coisa mais doce do mundo. Adoro notas musicais. Correria mil léguas só para ouvir uma. Muitas vezes, no Verão, quando passeio pelas ruas e ouço o som de um piano vindo de uma casa desconhecida, páro, pronto a morrer logo ali. Gostava de morrer a ouvir um bocado de musica. Imagino isso tão fácil, tão natural, mas claro que é impossível. As notas apunhalam-nos muito suavemente. As feridas que deixam podem arder mas não infectam. Delas jorram melancolia e dor em vez de sangue. Quando as notas páram, tudo se acalma de novo dentro de mim. Então vou fazer os trabalhos de casa, comer ou jogar e não penso mais nisso. Um piano, acho eu, é o que soa com mais encanto. Mesmo nas mãos de um amador. Não é a interpretação que escuto, apenas o som. Nunca poderia ser músico. Porque fazer música nunca seria suficientemente doce, suficientemente inebriante para mim. Ouvir música é, de longe, mais espiritual. A música deixa-me sempre triste mas triste no sentido em que um sorriso triste é triste. Uma tristeza simpática, é o que quero dizer. A música mais alegre não é alegre para mim e a mais melancólica não me toca com particular melancolia ou desânimo. Ao ouvir música, tenho sempre a mesma impressão: falta qualquer coisa. Nunca descobrirei a causa desta suave tristeza, nunca hei-de investigá-la. Não desejo saber o que é. Não desejo saber tudo. Inteligente, como penso que sou, tenho, no entanto, por assim dizer, pouca sede de conhecimento. Desconfio que é por eu ser, por natureza, o oposto de curioso. Sinto-me perfeitamente feliz deixando todas as coisas em meu redor correrem sem preocupar a minha cabeça com o modo como acontecem. De certeza que isto é deplorável e não me ajudará a seguir uma carreira. Talvez. Não tenho medo da morte, por isso também não temo a vida. Vejo que comecei a filosofar. A música é a arte mais estouvada e por isso a mais doce. Os intelectuais nunca a apreciarão mas são os que mais profundamente beneficiam quando a ouvem. Não é possível querer entender e apreciar uma arte. A arte quer enroscar-se em nós. É uma criatura tão terrivelmente pura e autosatisfeita que se ofende quando alguém tenta passá-la à frente. Castiga quem se aproxima com a intenção de se apoderar dela. Os artistas depressa percebem isto. Acham que a sua profissão é lidar com a arte, com aquela que não se deixa tocar por ninguém. É por isso que nunca quis ser músico. Tenho medo do castigo que uma criatura tão justa possa infligir. É bom gostar de uma arte, mas deve-se ter cuidado e não o admitir para si próprio. O nosso amor é sempre mais forte quando não sabemos que amamos. — A música magoa-me. Nem sei mesmo se a amo de verdade. É ela que me encontra onde quer que seja, eu não a procuro. Deixo-a acariciar-me. Mas essas carícias são dolorosas. Como devo dizer? A música é um choro melodioso, uma evocação em notas, um quadro de sons. Não sei dizer com acerto. Por isso é que ninguém leva a sério as minhas considerações sobre arte. Sem dúvida que elas falham o alvo, aliás, como a música, que hoje ainda não me atingiu. Falta qualquer coisa quando não ouço música e quando ouço, então é que falta mesmo qualquer coisa. É o melhor que posso dizer sobre a música.
Robert Walser, 1902
Robert Walser, 1902
Grandes cenas
Amigo leitor. Se tens mais de 12 anos, ou aparentas ter, e menos de 125, não percas a peça "Ratos e Homens", a partir da obra homónima de John Steinbeck, com dramaturgia e encenação de Fernando Moreira. No Teatro Rivoli, no Porto, até 24 de Novembro. Sempre às 21h30.
Domingo, Novembro 20
A Praça dos Poveiros
não é particularmente interessante nem bonita; aliás, nem sequer parece uma praça. No entanto, junto à esquina de Passos Manuel há uma (de três) ginkgo biloba lindíssima. Ainda é jovem, está repleta de folhas triangulares entre o verde e o amarelo torrado. Há também, no cruzamento com a Rua da Alegria, uma gata tigrada que vive numa tabacaria.
Sábado, Novembro 19
Lektion 12: Akkusativ (reconstituição)
Uma das miúdas da minha turma explica que o complemento directo "é uma espécie de segundo sujeito". O professor substituto arregala os olhos, abre a boca e passados alguns segundos diz: "não existe isso de segundo sujeito, nem em português nem em alemão".
Sexta-feira, Novembro 18
Depois o Grande Lombardo falou de si mesmo
Eu sou de Leonforte,
lá em cima, em Val Demone,
entre Enna e Nicosia
sou dono de terras
e tenho três filhas bonitas,
três filhas, cada qual
mais bonita do que a outra,
e tenho um cavalo
com que ando pelas minhas terras
e sinto-me um rei,
mas acho que não é tudo.
sentir-me um rei, quando monto a cavalo
e gostaria
de saber mais coisas,
de me sentir diferente,
com uma coisa nova na alma,
daria tudo o que tenho
até o cavalo, as terras
para me sentir mais em paz
com os homens,
como uma pessoa que não tem
nada de que se censurar
não é que eu tenha
alguma coisa a cendurar-me.
Nada disso. E não falo
como falam na sacristia.
Mas acho que não estou
em paz com os homens.
Gostaria de ter um a consciência fresca
e que me dissesse
para cumprir outros deveres,
não os do costume, outros,
deveres novos e mais dignos
para com os homens, porque
cumprir os deveres do costume
não basta e ficamos
como se nada tivéssemos feito,
descontentes connosco, decepcionados.
Penso que o homem está maduro
para outra coisa.
Não só para não roubar,
não matar, etc. e ser um bom cidadão.
Penso que o homem está maduro para outra
coisa, para outros deveres, deveres novos.
Acho que o que sentimos
é a falta de outros deveres,
de outras coisas para fazer.
Para a nossa consciência,
com um sentido novo.
...
Sicilia! de Jean-Marie Staub e Daniéle Huillet
lá em cima, em Val Demone,
entre Enna e Nicosia
sou dono de terras
e tenho três filhas bonitas,
três filhas, cada qual
mais bonita do que a outra,
e tenho um cavalo
com que ando pelas minhas terras
e sinto-me um rei,
mas acho que não é tudo.
sentir-me um rei, quando monto a cavalo
e gostaria
de saber mais coisas,
de me sentir diferente,
com uma coisa nova na alma,
daria tudo o que tenho
até o cavalo, as terras
para me sentir mais em paz
com os homens,
como uma pessoa que não tem
nada de que se censurar
não é que eu tenha
alguma coisa a cendurar-me.
Nada disso. E não falo
como falam na sacristia.
Mas acho que não estou
em paz com os homens.
Gostaria de ter um a consciência fresca
e que me dissesse
para cumprir outros deveres,
não os do costume, outros,
deveres novos e mais dignos
para com os homens, porque
cumprir os deveres do costume
não basta e ficamos
como se nada tivéssemos feito,
descontentes connosco, decepcionados.
Penso que o homem está maduro
para outra coisa.
Não só para não roubar,
não matar, etc. e ser um bom cidadão.
Penso que o homem está maduro para outra
coisa, para outros deveres, deveres novos.
Acho que o que sentimos
é a falta de outros deveres,
de outras coisas para fazer.
Para a nossa consciência,
com um sentido novo.
...
Sicilia! de Jean-Marie Staub e Daniéle Huillet
Siracusa, Spaccaforno, Modica, Genisi, Donnafugata...
..."Vou de licença... Vou a Sciacca, à minha terra."
"A Sciacca", disse eu. "E vem de longe?"
"De Bolonha", respondeu ele. "Trabalho lá. A minha mulher é bolonhesa. E os meus filhos também."
Estava contente. E eu disse. "E vai a Sciacca por aqui?"
"Sim, por aqui", disse ele. "Siracusa, Spaccaforno, Modica, Genisi, Donnafugata..."
"Vittoria, Falconara", eu disse, "Licata".
"Ahaaah!", ele disse. "Girgenti...!
"Agrigento, por favor", disse eu. "Mas se viesse por Caltanisseta não seria melhor?"
"É, seria melhor. E economizaria oito liras. Mas por aqui vai-se sempre junto ao mar..."
"Gosta do mar?" perguntei.
"Não sei", respondeu ele. "Penso que me agrada. De todo jeito a linha me agrada
Elio Vittorini, "Conversa na Sicília", Cosac & Naify, São Paulo, 2002
"A Sciacca", disse eu. "E vem de longe?"
"De Bolonha", respondeu ele. "Trabalho lá. A minha mulher é bolonhesa. E os meus filhos também."
Estava contente. E eu disse. "E vai a Sciacca por aqui?"
"Sim, por aqui", disse ele. "Siracusa, Spaccaforno, Modica, Genisi, Donnafugata..."
"Vittoria, Falconara", eu disse, "Licata".
"Ahaaah!", ele disse. "Girgenti...!
"Agrigento, por favor", disse eu. "Mas se viesse por Caltanisseta não seria melhor?"
"É, seria melhor. E economizaria oito liras. Mas por aqui vai-se sempre junto ao mar..."
"Gosta do mar?" perguntei.
"Não sei", respondeu ele. "Penso que me agrada. De todo jeito a linha me agrada
Elio Vittorini, "Conversa na Sicília", Cosac & Naify, São Paulo, 2002
Ainda Nabokov
Ainda a propósito das fontes literárias que poderão ter influenciado Nabokov, aqui fica mais uma pista interessante.
PETER STEIN: É preciso recordar a famosa história segundo a qual Tchékhov pretendia romper com o realismo e escrever, depois de "O Cerejal", uma peça passada no Pólo Norte onde só há neve e gelo. Um naufrágio nessas paragens.
GEORGES BANU: Acho que Nabokov - que era um profundo conhecedor da literatura russa, muito rodado a farejar biografias -, quando escreveu "O Pólo", mais não faz do que retomar esse projecto inacabado de Tchékhov.
PETER STEIN: É possível.
Entrevista de Georges Banu a Peter Stein, publicada no 1º volume dos Cadernos Tchékhov, editado pelo Teatro Nacional S. João.
PETER STEIN: É preciso recordar a famosa história segundo a qual Tchékhov pretendia romper com o realismo e escrever, depois de "O Cerejal", uma peça passada no Pólo Norte onde só há neve e gelo. Um naufrágio nessas paragens.
GEORGES BANU: Acho que Nabokov - que era um profundo conhecedor da literatura russa, muito rodado a farejar biografias -, quando escreveu "O Pólo", mais não faz do que retomar esse projecto inacabado de Tchékhov.
PETER STEIN: É possível.
Entrevista de Georges Banu a Peter Stein, publicada no 1º volume dos Cadernos Tchékhov, editado pelo Teatro Nacional S. João.
Quinta-feira, Novembro 17
Ich liebe, du liebst
Depois de mais uma discussão sobre os múltiplos encantos de Robert Walser lembrei-me que talvez fosse uma boa ideia retirar, de uma vez por todas, a obra de Walser da literatura e colocá-la noutro sitio. Nas catástrofes naturais, junto às erupções dos vulcões? Pode ser assim?
hors série
É noutro registo Sérgio, mas deixa-me acrescentar Sícilia! de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet. Forneço pormenores da viagem logo que possa.
Lolita de Lichberg
O último número da revista Ficções inclui o conto "Lolita" de Heinz von Lichberg, que, segundo a tese do alemão Michael Maar, terá inspirado, consciente ou inconscientemente, Nabokov. Aqui, no Dias Felizes, já tínhamos feito referência ao polémico artigo no Times Literary Supplement no qual o ensaísta levantou pela primeira vez o problema. Ora, depois de ler o conto de Lichberg, em tradução de Marília Mendes, creio que se torna difícil não concordar, pelo menos em parte, com Maar.
Quarta-feira, Novembro 16
“Toda a gente conhece aquela história acerca de mim e do Dr. Freud”, diz o meu avô.
“Estávamos apaixonados pelo mesmo par de sapatos pretos na vitrina da mesma sapataria. A sapataria, infelizmente, estava sempre fechada. E num letreiro: MORTE NA FAMÍLIA, ou, VOLTAMOS DEPOIS DO ALMOÇO, mas por mais que eu esperasse ninguém vinha para a abrir.”
“Uma vez apanhei ali o Dr. Freud, a admirar descaradamente os sapatos. Olhámos um para o outro antes de irmos à nossa vida, para nunca mais nos voltarmos a encontrar.”
Charles Simic, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2
“Estávamos apaixonados pelo mesmo par de sapatos pretos na vitrina da mesma sapataria. A sapataria, infelizmente, estava sempre fechada. E num letreiro: MORTE NA FAMÍLIA, ou, VOLTAMOS DEPOIS DO ALMOÇO, mas por mais que eu esperasse ninguém vinha para a abrir.”
“Uma vez apanhei ali o Dr. Freud, a admirar descaradamente os sapatos. Olhámos um para o outro antes de irmos à nossa vida, para nunca mais nos voltarmos a encontrar.”
Charles Simic, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2
Oh!
Estavam dezoito meninas numa roda.
Chegou o carteiro com uma missiva.
Elas fizeram Buhhhhh! e a carta explodiu.
...
Chegou o carteiro com uma missiva.
Elas fizeram Buhhhhh! e a carta explodiu.
...
Fridolin assentiu com a cabeça. — Sim lembro-me. Que é que tinha o rapaz? — Inquiriu.
Há duas coisas de que gosto muito em Citizen Kane. Uma é Rosebud e não me refiro apenas ao que significa ou pode significar; é a própria palavra que me atrái. A outra está escondida no diálogo entre Bernstein e o jornalista. O velho sugere que Rosebud talvez seja o nome de uma rapariga, houve muitas nos primeiros tempos. Mas o jornalista acha pouco provável que, no derradeiro minuto, Kane se lembrasse de uma rapariga que tivesse conhecido, casualmente, cinquenta anos antes. Então Bernstein explica-lhe como é que a memória funciona:
Neste ponto, apetece interromper a conversa entre os dois e fazer uma ligação directa a Eyes wide open de Stanley Kubrick ou, deveria dizer, a Arthur Schnitzler? Mas isso levar-nos-ia a Max Ophüls...
— Você é muito jovem, Sr... Thompson. Um homem recorda coisas que nem imagina. Eu, por exemplo um dia em 1896, ia de barco para Jersey, e conforme partíamos, vi uma moça noutro barco a chegar. Ela usava um vestido branco e levava uma sombrinha branca. Só a vi por um segundo, e ela nem me viu, mas não se passou um mês desde aí, que eu não tivesse pensado nela.
Neste ponto, apetece interromper a conversa entre os dois e fazer uma ligação directa a Eyes wide open de Stanley Kubrick ou, deveria dizer, a Arthur Schnitzler? Mas isso levar-nos-ia a Max Ophüls...
Terça-feira, Novembro 15
His name is Orson Welles

A voz de Orson Welles é puro cinema. As luvas de Orson Welles também. Assim como os seus projectos inacabados ou amputados. Mais o chapéu, a capa, os olhos. E o primeiro plano de Touch of Evil e...
Retrato robô
Por altura da guerra entre a Grécia e a Turquia, uma senhora abordou Tchékhov e perguntou-lhe: "Como é que acha que vai acabar a guerra?" Ele respondeu: "Certamente que vai acabar pela paz." "E quem é que vai vencer?" "Ah, vai vencer quem estiver melhor alimentado e quem for mais culto." "Gosta mais dos turcos ou dos gregos?" "Eu gosto de marmelada."
António Pescada, Cadernos Tchékhov, Vol. 1.
António Pescada, Cadernos Tchékhov, Vol. 1.
Outono
Quando o Outono chega, as folhas caem das árvores para o chão. Aliás, deveria dizer: quando as folhas caem, é Outono. Preciso de melhorar o meu estilo. Na minha última redacção escreveram: estilo lamentável. Acho isto preocupante, mas não consigo mudar. Gosto do Outono e pronto. O ar fica mais fresco, todas as coisas sobre a terra parecem de repente tão diferentes, as manhãs são fulgurantes e esplêndidas e as noites deliciosamente frias. Mesmo assim, passeamos até muito tarde. Sobre a cidade, a montanha apresenta cores bonitas, e é triste pensar que elas já anunciam o seu próprio desaparecimento. Em breve vai andar neve pelo ar. Eu também gosto da neve embora seja desagradável vaguear por aí com os pés frios e molhados. Mas então para que é que servem as pantufas quentes e fofas e a casa aquecida? Só tenho pena das crianças pobres que, eu bem sei, não têm a casa quente. Como deve ser horrível andar às voltas sempre gelado. Não seria capaz de fazer o meu trabalho de casa, morreria, sim, sem dúvida alguma morreria se fosse pobre. Como estão as árvores! Os seus ramos ferem o ar cinzento como punhais afiados e vêem-se corvos, o que raramente acontece. Deixa de se ouvir o canto dos pássaros. A natureza é qualquer coisa. O modo como se veste de novas cores, muda de roupa, põe e tira máscaras! Esquisito. Se eu fosse pintor, o que não está fora de questão, pois ninguém sabe o seu destino, muito gostaria de ser um pintor do Outono. O meu único receio é que as minhas cores não estejam à altura. Talvez ainda saiba demasiado pouco sobre o Outono. Mas para quê preocupar-me com algo que ainda não aconteceu? Ao fim e ao cabo é ao presente que me devo dedicar. Onde é que já ouvi isto? De certeza que já ouvi estas palavras em algum lado, possivelmente ao meu irmão mais velho, que anda na universidade. Daqui a pouco é Inverno, a neve cairá em torvelinhos, oh, estou tão ansioso por isso! Quando tudo fica completamente branco, estudamos muito melhor. As cores podem atrapalhar a nossa memória. As cores são um caos delicioso. Gosto de coisas de uma só cor, de uma só tonalidade. A neve é uma canção bastante monótona. Porque é que uma cor não nos há-de tocar como uma canção! O branco é um murmúrio, um sussurro, uma prece. As cores de fogo, como estas do Outono, são gritos. O verde do pino do Verão é uma canção para várias vozes no tom mais agudo. Será isto verdade? Não tenho a certeza se está certo. Bom, o professor terá a amabilidade de me corrigir. — Tudo no mundo parece voar! O Natal já está à porta, daqui ao Ano Novo é um saltinho e daí à Primavera outro tanto, tudo avança, passo a passo. Seria de tolo querer contá-los. Não gosto de números. Sou mau a matemática embora as minhas notas sejam razoáveis. Nunca serei um homem de negócios, desconfio. Por isso os meus pais não me puseram a praticar. Eu fugiria e com que é que eles ficariam? Mas, já falei o suficiente sobre o Outono? Escrevi umas coisas sobre a neve. Isso vai dar uma boa nota na minha caderneta. As notas são uma invenção estúpida. Tive um "A" em canto e não sei cantar uma nota. Então como é? Deveriam dar-nos maçãs em vez de notas. Mas, depois, acho eu, teriam que distribuir tantas maçãs. Oh!
Robert Walser, de Fritz Kocher’s Essays
Robert Walser, de Fritz Kocher’s Essays
desportos e divertimentos (nocturnos)
Noutro dia, para desanuviar da carga de trabalho que me caiu em cima, resolvi traduzir um texto de Robert Walser. É uma tradução imperfeita, feita em segunda mão a partir do inglês, e deveria ser apenas para uso doméstico ou, roubando descaradamente a expressão de Walser, für die Katz. No entanto, pensei uma, duas, três vezes, e decidi publicar o texto na secção de classificados amorosos. Já a seguir: o Outono, conforme ele é.
ZWV 187
Em 1723, Zelenka compôs uma pequena peça a que deu o curioso título de "Hipocondrie". Os musicólogos não se entendem sobre as razões que terão levado o compositor a escolher este título. Mais: os musicólogos têm dificuldade em classificar a peça. Não sabem se foi escrita para viver isoladamente ou se faria parte de uma obra mais vasta. Desconhecem se é um simples rascunho ou se Zelenka lhe deu um ar inacabado com segundas intenções. Eu gosto muito desta peça. E gostava muito de dar a minha opinião sobre o caso. Mas sei que se começar a escrever vou sentir dores nas cruzes e o reumático nas mãos vai, com toda a certeza, dar sinal de si.
Segunda-feira, Novembro 14
ficções #12
Um conto por extenso: O Órfão, de Heinrich von Kleist.
Antonio Piachi, negociante abastado de Roma, via-se por vezes obrigado a fazer longas viagens de negócios. Quando assim era, costumava deixar ficar Elvira, a sua jovem esposa, à guarda de parentes dela. Numa destas viagens, Piachi levou consigo Paolo, rapaz de onze anos, filho da sua primeira mulher, até Ragusa. A cidade e os arredores foram porém assolados por uma peste que espalhou o pânico na região.
...
DIÁRIO DE HANNAH ARENDT
A filósofa Hannah Arendt
Está a descascar cebolas na cozinha.
Pergunta: «Sabes dizer-me
O horário dos correios?»
E a amiga:
«Tu estás apaixonada...»
Manuel Resende, "O mundo clamoroso, ainda", Angelus Novus, 2004
Está a descascar cebolas na cozinha.
Pergunta: «Sabes dizer-me
O horário dos correios?»
E a amiga:
«Tu estás apaixonada...»
Manuel Resende, "O mundo clamoroso, ainda", Angelus Novus, 2004
Cenas da vida no campo

Na nova encenação de "O Tio Vânia", actualmente em cena no Carlos Alberto, há dois aspectos que, quanto a mim, merecem destaque: a organização do espaço cénico, que convida o público a participar na intimidade do palco, e a magnífica interpretação de João Pedro Vaz, no papel do doutor Astrov.
Em cena até 4 de Dezembro.
Duas Colunas
Entretanto, parece confirmar-se o fim do "Duas Colunas", o belíssimo jornal do Teatro Nacional de S. João, cujo último número saiu já há largos meses. Um fim mais ou menos esperado, dadas as habituais dificuldades de financiamento de projectos desta natureza. Num dos textos do livro de apoio a "O Tio Vânia", fala-se numa espécie de plano de "reformulação do Centro de Edições" do S. João. Mais um excelente serviço público que se extingue no Porto.
Domingo, Novembro 13
Sábado, Novembro 12
Sexta-feira, Novembro 11
José Carlos Fernandes ao vivo

Domingo, 13 de Novembro, às 18h00, o José Carlos Fernandes vai estar presente no Fórum Fantástico, que está a decorrer na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Telheiras, para a apresentação de "Black Box Stories", o seu novo projecto que conta com a colaboração de mais quatro desenhadores.
Creio que não é preciso acrescentar mais nada.
Edward Gorey
Apareceu na caixa de comentários, como quem não quer a coisa, dissimulado, a fazer-se difícil, a contar histórias desagradáveis. Fui lá e pu-lo a trabalhar. "Mas ele está morto", diise o Rui. "Melhor ainda, não lhe pagamos ordenado!". Começa hoje, pela letra "A".
strangers talk only about the weather #27
O sonho que ele me contou, o doce de abóbora no pão, as turras do gato, a manhã esplêndida e brilhante; tudo isto a esconder mais um dia de trabalhos forçados.
Quinta-feira, Novembro 10
Éramos tão pobres que eu tinha de fazer de isco na ratoeira. Sozinho, na cave, podia ouvi-los andar lá em cima, agitarem-se e virarem-se nas camas. “Estes são dias maus e tenebrosos”, disse-me o rato enquanto mordiscava a minha orelha. Os anos passaram. A minha mãe usava uma estola de pele de gato que afagava até que as centelhas iluminassem a cave.
Charles Simic, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2
Charles Simic, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2
O pénis do Papa, outra vez
Há dias, publicamos aqui o extraordinário poema "The Pope's Penis", de Sharon Olds. Hoje publicamos a tradução de Jorge Sousa Braga, oferecida pelo Manuel Resende.
O PÉNIS DO PAPA
Dependurado lá no fundo das suas vestes, um delicado
badalo no centro dum sino.
Mexe-se quando ele se mexe, um peixe espectral numa
auréola de algas prateadas, os pêlos
balançando na escuridão e no calor - e à noite
enquanto os seus olhos dormem, ele levanta-se
em louvor de Deus.
Sharon Olds
O PÉNIS DO PAPA
Dependurado lá no fundo das suas vestes, um delicado
badalo no centro dum sino.
Mexe-se quando ele se mexe, um peixe espectral numa
auréola de algas prateadas, os pêlos
balançando na escuridão e no calor - e à noite
enquanto os seus olhos dormem, ele levanta-se
em louvor de Deus.
Sharon Olds
Sem método nem sistema
Da página 22 para a 77, a árvore morta de Vladimir e Estragon renasce. Quatro ou cinco folhas, define Beckett nas indicações do segundo acto de "À espera de Godot".
Talvez faça parte da natureza das árvores mortas renascerem, mesmo que isso não sirva para nada.
Talvez faça parte da natureza das árvores mortas renascerem, mesmo que isso não sirva para nada.
Um método, um sistema
Na 2ª cena de "Sacríficio" Alexander planta uma árvore sem folhas enquanto conta ao filho a história de um monge ortodoxo chamado Pamve que (também) plantou uma árvore sem folhas no cimo de uma montanha e encarregou o seu discíplo Kolov de a regar todos os dias até as folhas nascerem de novo. Kolov assim fez durante três anos e um dia a árvore floriu. Depois Alexander explica ao rapaz as virtudes deste método. Alexander pensa, ou quer pensar, que acredita em algo mas engana-se, não é assim tão fácil, não basta enunciar.
Quarta-feira, Novembro 9
Menu
Para calar os críticos da comida de plástico, uma cadeia de fast food decidiu lançar um novo menu: o osso duro de roer.
Em conferência de imprensa, o responsável máximo da cadeia explicou: "O osso duro de roer é um menu inovador criado pelo nosso Gabinete de Projectos e especialmente dirigido aos clientes mais exigentes. Estou a pensar, por exemplo, num Eduardo Prado Coelho ou mesmo num Rato Mickey."
Em conferência de imprensa, o responsável máximo da cadeia explicou: "O osso duro de roer é um menu inovador criado pelo nosso Gabinete de Projectos e especialmente dirigido aos clientes mais exigentes. Estou a pensar, por exemplo, num Eduardo Prado Coelho ou mesmo num Rato Mickey."
Hoje resolvemos fazer ao contrário, somos nós que oferecemos ao Pedro Coelho e a Myrna Minkoff uma Ostra... e, vá lá, como somos mãos largas, também um arenque:
Fábula da Ostra e do Arenque

Vivia a ostra bela e ajuizadamente numa rocha. Não sonhava com o amor, mas quando fazia bom tempo ficava boquiaberta, na maior beatitude possível. Encontrou-a porém o arenque, e foi uma paixão à primeira vista. Ficou perdidamente enamorado sem se atrever a confessar-lho.
Ora num dia de Verão a ostra bocejava feliz e queda. Encolhido atrás de um rochedo o arenque contemplava-a mas, de súbito, beijar a bem amada foi um desejo tão forte que nem pôde refreá-lo.
Meteu-se então entre as placas abertas da ostra e esta, surpreendida, fechou-as decapitando o miserável que flutuou à deriva e sem cabeça, pelo oceano.
Guillaume Apolinaire, "O Poeta Assassinado", tradução de Aníbal Fernandes, Estampa,
colecção LIVRO B, Lisboa 1983
Fábula da Ostra e do Arenque

Vivia a ostra bela e ajuizadamente numa rocha. Não sonhava com o amor, mas quando fazia bom tempo ficava boquiaberta, na maior beatitude possível. Encontrou-a porém o arenque, e foi uma paixão à primeira vista. Ficou perdidamente enamorado sem se atrever a confessar-lho.
Ora num dia de Verão a ostra bocejava feliz e queda. Encolhido atrás de um rochedo o arenque contemplava-a mas, de súbito, beijar a bem amada foi um desejo tão forte que nem pôde refreá-lo.
Meteu-se então entre as placas abertas da ostra e esta, surpreendida, fechou-as decapitando o miserável que flutuou à deriva e sem cabeça, pelo oceano.
Guillaume Apolinaire, "O Poeta Assassinado", tradução de Aníbal Fernandes, Estampa,
colecção LIVRO B, Lisboa 1983
Rosa vermelha
Rosa vermelha
Rosa vermelha
Rosa vermelha
Ele levou-me ao jardim da rosa vermelha
E atou uma rosa vermelha às minhas madeixas trémulas na escuridão
E por fim
Adormeceu comigo sobre a pétala duma rosa vermelha.
Excerto de "Rosa Vermelha", de Forugh Farrokhzad.
Tradução inédita de Mohsen Rostami. Este texto faz parte de uma pequena antologia desta excepcional poeta iraniana, que sera publicada no número 8 da revista “aguasfurtadas”, actualmente no prelo.
Rosa vermelha
Rosa vermelha
Ele levou-me ao jardim da rosa vermelha
E atou uma rosa vermelha às minhas madeixas trémulas na escuridão
E por fim
Adormeceu comigo sobre a pétala duma rosa vermelha.
Excerto de "Rosa Vermelha", de Forugh Farrokhzad.
Tradução inédita de Mohsen Rostami. Este texto faz parte de uma pequena antologia desta excepcional poeta iraniana, que sera publicada no número 8 da revista “aguasfurtadas”, actualmente no prelo.
Terça-feira, Novembro 8
A lista de chapéus famosos
Parece-me que o chapéu de Napoleão é uma escolha óbvia para a lista de chapéus famosos, mas não é esse o chapéu que tenho em mente. Esse era o chapéu com que se exibia. Penso sim é na sua touca de banho privativa, que, com toda a honestidade, não era lá muito diferente daquela que qualquer idiota pode comprar hoje em dia na loja da esquina, à excepção de duas pequenas diferenças. A primeira nem sequer tem piada: é que era simplesmente uma touca de banho branca, de borracha, mas muito pequena. Napoleão levava uma vida tão febril desde a sua infância, e até antes disso, que nunca teve oportunidade de comprar uma nova touca de banho, mesmo quando já era crescido — Bom, ele não cresceu assim tanto, mas a sua cabeça sim. Era, à nascença, um cabeça-de-alfinete e usou sempre, até à morte (a sério), a mesma pequenina touca de banho com que nascera, pelo que mais tarde lhe viria dar muitas dores e muitas enxaquecas, como se precisasse ainda de mais. Por isso tinha de untar o crânio com imensa vaselina para enfiar a coisa. A segunda excentricidade é que era uma touca de banho tricórnia. Isto dá pano para mangas para os académicos, e com razão. A minha teoria é deveras simplória: é que por baixo da sua cabeça pública havia uma outra cabeça, que era uma espécie de pirâmide ou uma coisa assim.
James Tate, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2
James Tate, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2
Vladimir: Já alguma vez leste a Bíblia?
Estragon: A Bíblia... (Pensa) Devo ter dado uma vista de olhos.
Vladimir: Lembras-te dos Evangelhos?
Estragon: Lembro-me dos mapas da Terra Santa. Eram coloridos. Muito bonitos. O Mar Morto era azul claro. Só de olhar para ele ficava com sede. É para lá que vamos, costumava dizer que é ali que vamos passar a nossa lua de mel. Vamos nadar. Vamos ser felizes.
Vladimir: Devias ter ido para poeta.
Estragon: Mas eu fui poeta (Um gesto a indicar os trapos com que está vestido.) Não se nota?
Silêncio
Samuel Beckett, "À espera de Godot", tradução de José Maria vieira Mendes, Cotovia, já em 2ª edição
Estragon: A Bíblia... (Pensa) Devo ter dado uma vista de olhos.
Vladimir: Lembras-te dos Evangelhos?
Estragon: Lembro-me dos mapas da Terra Santa. Eram coloridos. Muito bonitos. O Mar Morto era azul claro. Só de olhar para ele ficava com sede. É para lá que vamos, costumava dizer que é ali que vamos passar a nossa lua de mel. Vamos nadar. Vamos ser felizes.
Vladimir: Devias ter ido para poeta.
Estragon: Mas eu fui poeta (Um gesto a indicar os trapos com que está vestido.) Não se nota?
Silêncio
Samuel Beckett, "À espera de Godot", tradução de José Maria vieira Mendes, Cotovia, já em 2ª edição
red shoes by the newstand

No fim-de-semana fiquei a saber, por uma notícia apanhada à sorte na televisão, que Bento XVI mudou de costureiro oficial e não abdica dos seus caríssimos sapatos Prada. O Papa anterior andava de pantufas, acrescentou o jornalista. Pantufas? O chefe da Igreja Católica? Nunca imaginei dizer isto mas na verdade Joseph Ratzinger parece-me muito mais sensato e inteligente nas suas escolhas íntimas: o modelo Prada é perfeito e, como nós sabemos, há mais mistérios num par de sapatos vermelhos do que supõe a nossa vã filosofia.
Segunda-feira, Novembro 7
Solo
Em pleno autocarro, um homem é atacado por um violoncelo.
O homem regressa a casa com diversas mazelas, entre as quais uma giga alojada no interior da cabeça.
Em casa, o homem queixa-se da sua pouca sorte à mulher.
A mulher diz: "A polícia nunca aparece quando precisamos dela."
O homem regressa a casa com diversas mazelas, entre as quais uma giga alojada no interior da cabeça.
Em casa, o homem queixa-se da sua pouca sorte à mulher.
A mulher diz: "A polícia nunca aparece quando precisamos dela."
The Pope's Penis
It hangs deep in his robes, a delicate
clapper at the center of a bell.
It moves when he moves, a ghostly fish in a
halo of silver sweaweed, the hair
swaying in the dark and the heat - and at night
while his eyes sleep, it stands up
in praise of God.
Sharon Olds
clapper at the center of a bell.
It moves when he moves, a ghostly fish in a
halo of silver sweaweed, the hair
swaying in the dark and the heat - and at night
while his eyes sleep, it stands up
in praise of God.
Sharon Olds
Assim e assado
Segundo Joseph Beuys, todos os seres humanos são artistas. Ora, pessoalmente não tenho motivos de queixa. A generalidade da crítica e o próprio Eduardo Prado Coelho nunca me trataram mal.
Tílias
Alguém me fala de tílias. Conheço uma avenida de tílias. Atravesso-a todos os dias em direcção ao trabalho. E os dias começam bem, penso. Percorro esta atmosfera que me anuncia a manhã. Bem sei que terminarei o dia dobrado pelo incumprido. Mas agora há uma voz que me fala de tílias e uma avenida de tílias e a sagração do que me espera. Sincero jogo. Precário jogo.
Luís Quintais, Angst, Cotovia, Lisboa 2002
Luís Quintais, Angst, Cotovia, Lisboa 2002
Escolhi este livro porque
"O poder da alma de Robert Walser só atinge aqueles que (como eu) gostam de R. Walser e faz-nos amá-lo possessivamente, exclusivamente, de forma egoísta. Não quero partilhar este amor com mais ninguém. Só eu compreendi R. Walser."
Thomas Hirschhorn, textos da exposição "Anschool II", patente no Museu de Serralves.
Thomas Hirschhorn, textos da exposição "Anschool II", patente no Museu de Serralves.
Esqueçam as dietas. Somos todos gordos.

Há muito tempo que Serralves não oferecia uma exposição tão boa. É o que penso. "Anschool II", de Thomas Hirschhorn, é uma grande exposição. Simples e complexa, directa e exigente. Uma obra excepcional que funciona como um espelho: olhamos e somos nós que estamos expostos. Nós somos o que Hirschhorn mostra. Somos aqueles fios eléctricos, os pedaços de madeira, os vidros, as fotocópias, os jornais, as revistas, os anúncios publicitários, os manequins com cancros de plástico, os camuflados. As nossas escolas são assim, as nossas casas são assim, as nossas cidades são aquelas. A nossa vida é uma cópia daquele estranho labirinto que Hirschhorn montou em Serralves, com paredes de cartão e fita adesiva. Este é o nosso mundo. E a própria arte de Hirschhorn não está fora dele. Um mundo em guerra aberta com tudo e com todos os que se lhe opõem. Uma guerra em que todos estamos envolvidos. Porque é assim que queremos viver.
Eu sei. Tudo isto não passa de uma série de lugares comuns. Mas é justamente isso que a exposição mostra: o imenso lugar comum em que vivemos e queremos continuar a viver. Por isso, esta exposição não vai mudar nada. E, no entanto, muda alguma coisa. Excelente.
Outras leituras desta exposição no Bombyx Mori e Elsinore.
Domingo, Novembro 6
Distorção semântica de 3° grau
Quando aprendemos uma língua acontece, por vezes, interpretarmos mal certas palavras atribuindo-lhes sentidos que não estão lá. Eu sou perita em interpretar mal e é deste modo que avanço pelo alemão dentro. Por exemplo: à frase "ich bin müde" — que quer dizer literalmente "eu estou cansada" — acrescentei significados diversos e errados. Em termos fonéticos "müde" assemelha-se à nossa palavra "muda" (e também ao "mute" inglês), daí derivei com um à vontade irresponsável para "calada". Para além disso, e agora entramos no campo do inexplicável, acho que "müde" exprime uma tristeza profunda, digamos que se a língua fosse uma paleta de cores "müde" corresponderia ao branco sujo e lamacento da neve misturada com terra. À revelia do dicionário, sempre que digo "ich bin müde" quero dizer que estou cansada, calada e triste, por essa ordem, como se cada adjectivo fosse mais um degrau. Deturpada a meu bel-prazer, "müde" é uma palavra-espiral magnífica. Os alemães que me desculpem a falta de jeito.
Sábado, Novembro 5
Sábado, 15 de Maio [de 1824 ] De dia — O que faz de um homem um homem de génio — ou melhor o que eles fazem — não são as ideias novas mas essa ideia, que nunca os larga, que o que já foi dito não o foi nunca suficientemente.
Eugène Delacroix, Diário, tradução de Fernando Guerreiro, Estampa, 1979
Eugène Delacroix, Diário, tradução de Fernando Guerreiro, Estampa, 1979
Sexta-feira, Novembro 4
Obras públicas
Jean Arp dizia que é preciso colocar cada coisa no seu lugar essencial. Não podia estar mais de acordo. Vou colocar na estante a romã que me ofereceste, entre o grande livro do Resende e o último do Oscar Wilde.
Basta de entropia!
Antes de sair de casa meti no mesmo saco duas romãs, quatro álbuns de José Carlos Fernandes e alguns textos de Robert Walser. Quando cheguei ao escritório descobri que, durante a curta viagem a pé, se tinha criado um profundo entendimento entre os três, eram quase amigos do peito.
Talvez tenha descoberto uma nova actividade recreativa, pensei. Pelo sim pelo não já decidi: amanhã vou passear Thomas Bernhard, Glenn Gould e alguns dióspiros por aí. Desejem-nos boa sorte.
Talvez tenha descoberto uma nova actividade recreativa, pensei. Pelo sim pelo não já decidi: amanhã vou passear Thomas Bernhard, Glenn Gould e alguns dióspiros por aí. Desejem-nos boa sorte.









