Eugène Delacroix, Diário, tradução de Fernando Guerreiro, Estampa, 1979
Sábado, Novembro 5
Sábado, 15 de Maio [de 1824 ] De dia — O que faz de um homem um homem de génio — ou melhor o que eles fazem — não são as ideias novas mas essa ideia, que nunca os larga, que o que já foi dito não o foi nunca suficientemente.
Eugène Delacroix, Diário, tradução de Fernando Guerreiro, Estampa, 1979
Eugène Delacroix, Diário, tradução de Fernando Guerreiro, Estampa, 1979
Sexta-feira, Novembro 4
Obras públicas
Jean Arp dizia que é preciso colocar cada coisa no seu lugar essencial. Não podia estar mais de acordo. Vou colocar na estante a romã que me ofereceste, entre o grande livro do Resende e o último do Oscar Wilde.
Basta de entropia!
Antes de sair de casa meti no mesmo saco duas romãs, quatro álbuns de José Carlos Fernandes e alguns textos de Robert Walser. Quando cheguei ao escritório descobri que, durante a curta viagem a pé, se tinha criado um profundo entendimento entre os três, eram quase amigos do peito.
Talvez tenha descoberto uma nova actividade recreativa, pensei. Pelo sim pelo não já decidi: amanhã vou passear Thomas Bernhard, Glenn Gould e alguns dióspiros por aí. Desejem-nos boa sorte.
Talvez tenha descoberto uma nova actividade recreativa, pensei. Pelo sim pelo não já decidi: amanhã vou passear Thomas Bernhard, Glenn Gould e alguns dióspiros por aí. Desejem-nos boa sorte.
Um Concerto Triunfal
Um conjunto de música de câmara, como se costuma dizer, famoso por apenas tocar música antiga em instrumentos da época e cujo reportório se limita a Rossini, Frescobaldi, Vivaldi e Pergolesi, deu um concerto num velho castelo nas margens do Attersee e aí conheceu o maior sucesso da sua carreira. Os aplausos só terminaram quando o conjunto de música de câmara não encontrou mais nenhum número extra-programa para tocar. Não foi senão na manhã seguinte que se revelou aos músicos que tinham tocado numa instituição de surdos-mudos.
Thomas Bernhard, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2
Thomas Bernhard, tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2
Mordicus
Um natural de Augsburgo foi internado no asilo de alienados de Augsburgo pela simples razão de que durante toda a sua vida assegurara que as últimas palavras de Goethe tinham sido mais não e não mais luz!, o que, por fim, acabou por enervar todos os que se relacionavam com ele ao ponto de se juntarem para conseguir o internamento deste augsburguês tão infelizmente obcecado pela sua crença. Seis médicos recusaram-se a internar o desgraçado; o sétimo prescreveu de imediato o internamento. Por esta razão, assim o soube pelo Frankfurter Allgemeine Zeitung, este médico foi recentemente condecorado com a medalha Goethe da cidade de Frankfurt.
Thomas Bernhard, in Der Stimmenimitator (1978), tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2
Thomas Bernhard, in Der Stimmenimitator (1978), tradução de Myrna Minkoff, texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2
Lektion 11
Übertreibungskünstler: a palavra é utilizada em "Extinção". José A. Palma Caetano traduziu-a por artista do exagero. Serve na perfeição para classificar o próprio Thomas Bernhard. Que ninguém duvide: isto é um elogio! A seguir servimos uma dose dupla de ostras com champanhe e música.
Quinta-feira, Novembro 3
Um Conto-de-fadas dos Países do Norte

Um velho decidiu-se a ir para os bosques, embora não soubesse para fazer o quê. Então ele voltou e disse:
— Eh! velha!, olha lá!
A velha caiu de borco no chão. Desde então as lebres são brancas no Inverno.
Danil Kharms, 1941.
Tradução de Myrna Minkoff.
Texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2.
Imagem: fotograma de Brown Bunny, de Vincent Gallo.
Cal Trask
Quando li o post da Zazie comecei a pensar em "tipos feios mas com pinta". Sabe-se lá porquê, o que me ocorreu foi bastante diferente. Quem vi, uma e outra vez, diante de mim foi James Dean na primeira sequência de "A Leste do Paraíso", a correr (atrás da mãe, saberemos mais tarde) com as mãos nos bolsos. Ninguém corre assim, com as mãos nos bolsos, como se uma força o empurrasse para baixo, como se fosse a cair, e no entanto nunca James Dean me pareceu tão real e belo como nessa cena. Não encontrei nenhuma reprodução desses planos mas vocês podem imaginá-los, não é?


Lets X= X
Mas claro que é de ciência que se trata, Alexandre. Senão vejamos: ontem imprimi oito dos teus anúncios sobre o desaparecimento de Bergotte; à noite distribui-os regularmente em redor de casa seguindo a forma de um octógono; colei-os a quarenta centímetros do solo, que é mais ou menos o que alcança um gato adulto quando se espreguiça. Isto não é o que se chama convencionalmente método-experimental-pronto-a-usar? Seja ou não, de manhã tinha à porta trinta e dois gatos pretos e tigrados, peludos ou nem por isso, que se apresentaram, cada um por si, com imensa gentileza. Diziam ser Bergotte. E na verdade são.
Lonely carousel
A carreira vinte faz um percurso circular, isto é, os autocarros seguem não um mas dois circuitos distintos que se cruzam mas nunca se tocam. O autocarros não precisam de inverter a marcha, andam sempre à volta da cidade sem parar, como se fosse um carrossel. Por causa disso é o paraíso dos velhos. Ontem, por volta das três da tarde, junto à paragem do Lima 5, o motorista confidenciava a uma mulher alguns pormenores sobre o caso. Dizia ele que estes velhos que se entretêm a passear no vinte (todos os dias excepto ao fim-de-semana, sublinhou) sentam-se sempre nas cadeiras do fundo e aí pelas quatro horas abrem os sacos de plástico e põem-se a comer pão com marmelada.
Quarta-feira, Novembro 2
O futuro da engenharia
Sobre o assunto supracitado convém ainda referir/linkar o site das t-shirts fussy (cuja autora também aprecia James Tate). Lembram-se de uma cena de "Vertigo" em que Midge mostra a Scottie/James Stewart um soutien sem alças, desenhado por um engenheiro de pontes? Pois bem, consta que estas formidáveis t-shirts foram criadas por um perito em mecânica ondulatória.
As mesmas mamas

Era um daqueles dias. Eu descia a avenida e aquele cartaz na vitrina do teatro chamou-me a atenção. Realmente um par de mamas deslumbrante. Era meio-dia e estava um calor dos diabos na rua. Então eu disse: que diabo, larguei uma nota e entrei. Apanhei um lugar sozinho mesmo no meio da sala. O pano subiu: no meio do palco estava o mesmo cartaz e mais nada. Fiquei para ali a suar. Finalmente decidi mandar aquilo para o diabo e saí. Ainda era meio-dia e na rua estava um calor dos diabos.
James Tate.
Tradução de Myrna Minkoff.
Texto sonorizado por Pedro Coelho para a rubrica "Ostra", emitida na Antena 2.
os gestos banais

Aprender alemão não é fácil e não é apenas por causa dos sons demasiado graves ou das palavras amontoadas. Ontem, ao rever "Roma, cidade aberta", não percebi nada do que os soldados alemães diziam. Uma língua opaca e incompreensível. Em todo o filme apenas um dos alemães fala de uma forma aceitável; porque está bêbado. No entanto, o que mais me marcou (e o filme de Roberto Rosselini é arrepiante de uma ponta à outra) não foram as palavras, mas um gesto banal. Quando a câmara está preparada para a tortura de Giorgio Manfredi, vemos o soldado alemão, que transcreve os interrogatórios, de pé, como se não fosse nada com ele, afiando um lápis.
Em segunda mão
Um dia Arnold Böcklin, seu filho Carlo e Gottfried Keller estavam na taberna, como habitualmente. As suas libações eram conhecidas desde longa data pelo carácter fechado e taciturno dos convivas: uma vez mais encontravam-se calados. Após um longo momento, o jovem Böcklin observou: "Está calor", e um quarto de hora depois, o velho: "Há falta de ar." Keller, pelo seu lado, esperou um momento; a seguir levantou-se, proferindo as seguintes palavras: "Não quero beber com gente tão palradora."
História contada por Walter Benjamin e publicada pela &etc na introdução de "Gata Borralheira", de Robert Walser.
História contada por Walter Benjamin e publicada pela &etc na introdução de "Gata Borralheira", de Robert Walser.
Walser, ainda
À medida que vou descendo nos textos de Walser, torna-se cada vez mais evidente para mim que ele escrevia com um propósito: acabar com a literatura. E esse é o objectivo mais nobre que um escritor pode ter.
Terça-feira, Novembro 1
Ilusão

Confirmou os cálculos pela sétima vez: oito mil quatrocentas e sessenta e cinco. Menos dezassete que no mês anterior. Desde o início do ano já se tinham extinguido mais de noventa estrelas. Até agora ninguém se apercebera mas à medida que as estrelas se fossem apagando seria inevitável que alguém desse pela sua falta e nessa altura a sua cabeça rolaria, pois as cabeças dos astrónomos sempre rolaram quando na abóboda celeste ocorrem coisas inexplicáveis.
Foi assim que, socorrendo-se de todas as suas artes, instalou sobre todo o reino uma vasta tela negra com estrelas pintadas. É sob este firmamento de tela que ainda hoje vivemos, sem suspeitar que para além dele as estrelas há muito deixaram de brilhar.
José Carlos Fernandes, retirado de "Os clássicos da Banda Desenhada - Série Ouro #18 (Histórias a preto & branco 1992-1999) dedicado a José Carlos Fernandes
Segunda-feira, Outubro 31
Lektion 10
Taschenmusik: (Letzte Nacht) An den Rändern der Stadt, die im Dunkel versinkenden Strassen. Das ferne Bellen der Hunde. Der hohe schwarze Himmel. Um das Gesicht der kühle und spielerische Wind. Im Rücken der weiße Kreis der letzten Laterne.
Domingo, Outubro 30
Livre associação de heróis
Primeiro "Feitos e Ditos de Nasredin": uma colecção de histórias muito curtas de Nasredim, morais mas, podemos também dizer, bastante imorais (depende apenas da perspectiva), filmadas com uma simplicidade desarmante por Pierre-Marie Goulet. Veio-me à cabeça Cush, o cínico — a minha personagem preferida de Corto Maltese. No intervalo, quando fui tomar um café, em vez das maçãs golden vi os cestos sobre o balcão cheios de romãs rosadas. E o rapaz bonito que me entregou a chávena e o troco era um princípe das mil e uma noites, disso não tenho dúvidas.
"O riso tem que ser uma arma", explicou Saguenail na segunda parte. Referia-se a Charles Chaplin e ao seu "Um Rei em Nova Iorque". "O sarcasmo também", acrescentou Heikal, sentado imprudentemente a meu lado. Na sombra de ambos pode crescer uma revolução?
"O riso tem que ser uma arma", explicou Saguenail na segunda parte. Referia-se a Charles Chaplin e ao seu "Um Rei em Nova Iorque". "O sarcasmo também", acrescentou Heikal, sentado imprudentemente a meu lado. Na sombra de ambos pode crescer uma revolução?









