as citações de JLG & principalmente de JCM até chegar a Bresson passando por Walser (tudo em menos de 1 minuto sem tocar o chão)
[Os percursos dos dois são, porém, muito diversos. Godard passou das aventuras musicais e cinematográficas para uma cruzada — mais densa e às vezes mais chata — filosófica. Claro que quando ele cita "Parfisal escreve à sua Amiga" no "Elogio do Amor" eu não me aborreço nada, antes pelo contrário. Mas não é de Godard (fica para outra altura) que quero falar. João César Monteiro seguiu um caminho mais livre, mais voluptuoso e mais divertido. (Deixem-me esperimentar a pirueta: ) A palavra apropriada para o descrever poderá ser libertino (incorporando uma parte de liberdade e várias de devassidão). Seja: João César Monteiro é um libertino que colecciona pensamentos e se ri de tudo. Com um riso escarninho, convém não esquecer.]
Desde o (tão-nouvelle-vague-que ele-é) "Quem espera por sapatos de defunto" até "Vai e Vem" poderiamos encher um calhamaço com as citações de João César Monteiro (e — penso agora — não será a "Branca de Neve" a sua citação mais exuberante e terna?) O assunto dava um rico tema para uma tese universitária enfadonha. Ou então, quem sabe, não ficaria o realizador mais satisfeito se da sua extensa obra saisse apenas um minúsculo livro de receitas culinárias e pensamentos extraviados, do género "como preparar um sável, de quantos ingredientes se faz um cozido à portuguesa, a importância do gelado na moral ocidental"? Mas isto é apenas uma opinião duvidosa, demasiado duvidosa. Não me proponho elaborar nenhuma das sugestões, é óbvio, e toda esta conversa desirmanada foi só para chegar ao fim de "As Bodas de Deus", cena 40, última fala, pela primeira vez em português:
João de Deus (off):
Ó Joana, que estranho caminho tive que percorrer para chegar junto de ti.







