Sábado, Outubro 29

as citações de JLG & principalmente de JCM até chegar a Bresson passando por Walser (tudo em menos de 1 minuto sem tocar o chão)

Jean-Luc Godard e João César Monteiro partilham um gosto semelhante e devorador por citações, no sentido que Walter Benjamin (o Privatgelehrter, por excelência) prescreveu: as citações nas minhas obras são como ladrões de estrada, que assaltam o viandante para o despojar das suas convicções. Nos seus filmes abundam citações: a outros filmes; realizadores; actores; personagens; enquadramentos; livros; música; quadros; e uma vez por outra, até a eles próprios (a mais surprendeente, porque premonitória, talvez seja de Godard quando em "Vivre sa Vie" filma Anna Karina dizendo/mentindo que já contracenou com Eddie Constantine. Isso virá de facto a acontecer três anos mais tarde, no futurista e poético Alphaville. "Le cinéma substitue à notre regard un monde qui s'accorde à nos désirs, n'est ce pas monsieur Godard?)

[Os percursos dos dois são, porém, muito diversos. Godard passou das aventuras musicais e cinematográficas para uma cruzada — mais densa e às vezes mais chata — filosófica. Claro que quando ele cita "Parfisal escreve à sua Amiga" no "Elogio do Amor" eu não me aborreço nada, antes pelo contrário. Mas não é de Godard (fica para outra altura) que quero falar. João César Monteiro seguiu um caminho mais livre, mais voluptuoso e mais divertido. (Deixem-me esperimentar a pirueta: ) A palavra apropriada para o descrever poderá ser libertino (incorporando uma parte de liberdade e várias de devassidão). Seja: João César Monteiro é um libertino que colecciona pensamentos e se ri de tudo. Com um riso escarninho, convém não esquecer.]

Desde o (tão-nouvelle-vague-que ele-é) "Quem espera por sapatos de defunto" até "Vai e Vem" poderiamos encher um calhamaço com as citações de João César Monteiro (e — penso agora — não será a "Branca de Neve" a sua citação mais exuberante e terna?) O assunto dava um rico tema para uma tese universitária enfadonha. Ou então, quem sabe, não ficaria o realizador mais satisfeito se da sua extensa obra saisse apenas um minúsculo livro de receitas culinárias e pensamentos extraviados, do género "como preparar um sável, de quantos ingredientes se faz um cozido à portuguesa, a importância do gelado na moral ocidental"? Mas isto é apenas uma opinião duvidosa, demasiado duvidosa. Não me proponho elaborar nenhuma das sugestões, é óbvio, e toda esta conversa desirmanada foi só para chegar ao fim de "As Bodas de Deus", cena 40, última fala, pela primeira vez em português:

João de Deus (off):
Ó Joana, que estranho caminho tive que percorrer para chegar junto de ti.


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Sexta-feira, Outubro 28

Em jeito de conclusão

Depois de várias tentativas, Kleist não encontrou nenhuma outra profissão a não ser a de poeta.

Canção do fim do mundo

No dia do fim do mundo,
Uma abelha gira em torno da flor da chagueira,
Um pescador conserta a rede reluzente,
Golfinhos saltam no mar contentes,
Pardais jovens agarram-se ao algeroz
E a cobra tem a sua pele dourada como deve ser.

No dia do fim do mundo,
Mulheres de sombrinha passeiam-se pelos campos,
Um bêbedo adormece à beira do relvado,
Vendedores apregoam legumes na rua,
Um barco de vela amarela aproxima-se da ilha
E o som de um violino paira no ar,
Descerrando a noite estrelada.
(...)

Czeslaw Milosz

por falar em Kleist

Na peça de teatro "No Alvo" mãe e filha entretêm-se um bom bocado a conversar sobre "A Bilha Quebrada". Diz a filha que o autor dramático, que acabaram de convidar para passar uns dias na casa de praia em Katwijk, prometeu ler-lhe a comédia de Kleist. Como forma de iniciação no conhecimento da arte dramática, explica. Talvez ao ar livre, em frente ao mar, acrescenta a mãe. "A Bilha Quebrada" é a sua — dele, do escritor — peça preferida, diz a filha. A mãe já não sabe se gosta ainda da peça, há vinte anos, ainda há quinze, nessa época tudo de Shakespeare me agradava mas a opereta também me agradava. Depois esquecem Kleist e passam a outros assuntos: a roupa, o passado, e o jovem escritor dramático convidado. A mãe fala, a filha faz as malas e ouve, é esse o ritmo.

Mais tarde Thomas Bernhard pega de novo na peça de Kleist e quase que podemos dizer que escreve um livro sobre ela, isto é, toda a trama de "Antigos Mestres" alicerça-se sobre o desejo inesperado de Reger de ir ao Burgtheater ver "A Bilha Quebrada" com o seu amigo Atzbacher. A Bilha Quebrada é a melhor comédia alemã e, além disso, o Burgtheater é o primeiro teatro do mundo, refere Reger. O convite, engendrado desde o início mas apresentado apenas nas últimas páginas do romance, é aceite: os dois homens foram de facto ao teatro e a representação foi horrorosa. "Antigos Mestres" termina assim, com estas palavras, deste modo surpreendente (pensem nisto como música, como o final surpreendente de uma composição, aliás pensem sempre na escrita de Bernhard como pura música).

Haverá ainda na literatura de língua alemã muitas mais referências à comédia de Kleist. Nenhuma porém mais doce e suave do que esta, Kleist em Thun, de Walser:
«Ele escreve, evidentemente. Uma vez por outra toma um transporte para Berna, para casa dos amigos de gostos literários e aí lê o que porventura escreveu. É claro que é enormemente elogiado, mas ele acha toda aquela gente um pouco estranha e sinistra. Escreve A Talha Quebrada. Mas para quê tudo isso? Chegou a Primavera. Os campos de Thun estão densamente cobertos de flores, o ar é perfumado e zumbe e ressoa e faz preguiça, ao sol está um calor de endoidecer. Sobe à cabeça de Kleist como ondas incandescentes e rubras e atordoa-o sempre que se senta à secretária e quer escrever. Amaldiçoa o seu trabalho. Quis ser camponês quando chegou à Suiça. Que bela ideia, essa. Em Potsdam é possível pensar facilmente numa coisa dessas. Em geral os poetas têm tanta facilidade em imaginar uma coisa. Com frequência senta-se à janela.»


as citações, por ordem de entrada em cena: "No Alvo" (Cotovia - tradução de Anabela Mendes) e "Antigos Mestres" (Assírio & Alvim - tradução de José A. Palma Caetano) de Thomas Bernhard e "Kleist em Thun" incluído em "O Passeio e outras histórias" (Granito Editores e Livreiros - tradução de Fernanda Gil Costa) de Robert Walser

Quinta-feira, Outubro 27

pelo contrário,

está provado cientificamente que os anúncios de gato perdido inventados são uma das empreitadas mais proveitosas para o país, para a humanidade e até mesmo para além disso. Muito para além disso, sem dúvida.

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90 — Duas possibilidades: fazer-se infinitamente pequeno, ou então sê-lo. A segunda é perfeição, portanto inacção, a primeira começo, portanto acção.

Franz Kafka, "Antologia de Páginas Íntimas" (Meditações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho), tradução de Alfredo Margarido, Guimarães Editores

And, interest in Franz Kafka's work continues to grow year after year

i hear VOICES in my head

1. Unidentified indignant radio host, San Francisco, April 1980.
2. Inflamed caller and smooth politician replying, both unidentified. Radio call-in show, New York, July 1979.
3. Dunya Yusin, Lebanese mountain singer (From "The Human Voice in the World of Islam" Tangent Records TGS 131).
4. Reverend Paul Morton, broadcast sermon, New Orleans, June 1980.
5. Unidentified exorcist, New York, September 1980
7. The Moving Star Hall Singers, Sea Islands, Georgia. (From "The Moving Star Hall Singers" Folkways FS3841).
8. Dunya Yusin. (See 3).
9. Samira Tewfik, Egyptian popular singer. (From "Les Plus Grandes Artistes du Monde Arabe" EMI Records).
10. Unidentified radio evangelist, San Francisco, April 1980.

...

Escritor:
Isso está provado
Nós apenas temos provas para o fracasso
dos escritores
Todos os escritores falharam
Houve sempre apenas escritores falhados

Mãe:
E Shakespeare

Escritor:
Shakespeare também
mas eu disse todos
partem todos do princípio
de que falham
quando têm algum valor
Só os estúpidos os medíocres
nunca pensaram nisso
Pensar em falhar
é o pensamento essencial



Thomas Bernhard, "No Alvo", tradução de Anabela Mendes, Edições Cotovia, Lisboa 1990

1.19 €

Indiferente às oscilações do petróleo, do dólar e do euro, às greves, às eleições presidenciais, às campanhas da TMN, aos furacões, aos picos de audiências, o preço das romãs tem-se mantido constante n' A Flor do Amparo.

Whale Watching

(depois de "A susbstância de que são feitos os sonhos" de José Carlos Fernandes) I've finally decided that what Moby Dick is really about is enormous heads

Quarta-feira, Outubro 26

Fenómenos paranormais no Porto

É já depois de amanhã que abre, no Porto, uma nova livraria. Chama-se Index e fica na Rua D. Manuel II, 320, quase em frente à entrada principal dos jardins do Palácio de Cristal. Justa Barbosa, a mentora do projecto, promete fugir ao óbvio, às novidades e aos best-sellers, e apostar nos fundos, nas ciências, na ficção, na arte, no livro infantil e na arquitectura.

[Manuel Jorge Marmelo]

um sonho ilegal:

(Perhaps we should never have written about him in the first place) Fechei os olhos e vi passar diante de mim um desfile de Robert Walsers. O décimo terceiro era eu própria. The world was as full of life as ever and as fair as in its fairest hour. Gently I crept away and went out onto the street.

Ida e volta

Fui ao Parque da Cidade, como os poetas iam ao Hélicon, procurar a inspiração.
Oh, as flores, os pássaros, o aroma dos pinheiros.
- Mas eu não quero nada disso! - gritei eu.
E acrescentei - Estou interessado apenas na inspiração.
Mas a sacana, mal me via ao longe, fugia a sete pés, voando por cima da erva, como se tivesse avistado o diabo.
Portanto, não me restou outra alternativa senão contentar-me com as florzinhas, os passarinhos e a merda dos pinheiros.
E, à noite, cobrir-me de sonhos cor-de-rosa na quantidade devida.

strangers talk only about the weather #26

Henri Michaux, Éclatements, 1954

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O não sei quê

Estou à espera de não sei quê.
Por que demora a revelar-se
o não sei quê?

Nãoseiquê que não te revelas:
estou dependente de ti
porque vives dentro de mim
e não te posso encontrar.

EL NO SÉ QUÉ
Estoy a la espera de no sé qué./ ¿Por qué demora en revelárseme/ el no sé qué?// Nosequé que no te revelas:/ estoy pendiente de ti/ porque te llevo adentro/ y no te puedo encontrar.


Francisco Gandolfo
A “tradução” é minha.
(Agradeço contribuições para melhorar a "tradução")

Intervalo

"- Sobe - ordenou o senador Spiralgold ao seu piloto privativo.
O helicóptero zumbiu e tomou altura, oscilando levemente.
- Acelera! - disse apressado o senador para o piloto atento.
O piloto carregou no botão. O fundo abriu-se e o senador Spiralgold esborrachou-se no solo, com eficácia.
- Coisas que acontecem - comentou para o piloto o espião moscovita disfarçado de garrafa de gin."

Mário-Henrique Leiria

Um exclusivo não autorizado "Ostra, de Pedro Coelho" / Dias Felizes.

Lektion 9

No Goethe-Institut ensinam-me frases úteis e a mover os lábios de forma correcta. Em casa pratico a apanha dos frutos: plückten die gelben und bläulichen Feigen... plückten die noch nicht reifen bekrönten Granatäpfel...

Terça-feira, Outubro 25

Leaning, leaning!/ Safe and secure from all alarms! / Leaning, leaning! / Leaning on the everlasting arms!

No Diário de Lisboa de 5 de Maio de 1963 a estreia do filme de Charles Laughton "The Night of the Hunter" no cinema Tivoli era anunciada deste modo simples, cativante e — porque não dizê-lo — enternecedor: "Sob a capa de um misticismo ardente ocultava-se a cobiça homicida de um maníaco".

Agora concentrem-se e tentem imaginar o místico Robert Mitchum. Ou melhor, façam isso logo à noite, na cama.

3. Há tradutores de quem não gosto.

Ontem dei de caras com a edição portuguesa de "Os Emigrantes" de W. S. Sebald. A medo lá fui ver de quem era a tradução; quando li o nome lamentei de novo não ter aprendido alemão aos quinze anos. Assim sendo, prefiro a versão inglesa de Michael Hulse:
At the end of september 1970, shortly before I took up my position in Norwich, I drove out to Hingham with Clara in search of somewhere to live...

Marnie: Adoro cinema, conheço o jogo.



(os livros do filme) Na viagem de núpcias Mark Rutland lê com enfado "Animals of the Seashore". Diz ele que é para arranjar tema de conversa; as coisas estão mal entre os dois (aliás este casamento é das preversões mais fascinantes de Hitchcock).
Algumas cenas depois, numa das discussões do casal e antes do jogo de associações de ideias começar, Marnie refere com desprezo "A Frigidez Feminina" e "O Psicopata Delinquente e Criminoso". Não chegamos a perceber se ela os leu ou se está apenas a gozar, no sentido cínico: "me Jane tu Freud". Para suavizar, Mark aconselha a Marnie "O Eu Desconhecido". Soa menos mal, não é? O que ele não diz à mulher nessa altura — mas nós vemos, com a ajuda da ciumenta Lil — é que o seu livro de cabeceira intitula-se "Sexual Aberrations of the Criminal Female".
É por isso que eu gosto tanto de Sir Alfred Hitchcock, por causa da sua mente perturbada. Em inglês, diz-se, creio, dirty mind.

O pistão

"Quando eu era moço, representou-se aí, em não sei que teatro, um drama que acabava pelo juízo final. A principal personagem era Asaverus, que no último quadro concluía um monólogo por esta exclamação: 'Ouço a trombeta do arcanjo!' Não se ouviu trombeta nenhuma. Asaverus, envergonhado, repetiu a palavra, agora mais alto, para advertir o contra-regra, mas, ainda nada. Então caminhou para o fundo, disfarçadamente trágico, mas efectivamente com o fim de falar ao bastidor, e dizer em voz surda: 'O pistão! O pistão! O pistão!' O público ouviu esta palavra e desatou a rir, até que, quando a trombeta soou deveras e Asaverus bradou pela terceira vez que era a do arcanjo, um gaiato da plateia corrigiu cá de baixo: 'Não, senhor, é o pistão do arcanjo!'"

Machado de Assis, "Dom Casmurro".

Segunda-feira, Outubro 24

Bem-vindo ao Dias Felizes.
Para qualquer assunto, contacte-nos através do nosso inúmero azul.
El Vacío me ha trabado para que no diga nada,
ni siquiera algo contra él.
Pero como no lo le llevo el apunte porque me fastidia
insoportablemente, aprovecho para insultarlo.
Después de insultar al Vacío me siento mejor,
quizá porque el Vacío no es un malvado absoluto
o tal vez porque no existe,
aunque todo lo que concibe la Mente, de algún modo lo es.

Francisco Gandolfo

Um poema de Gandolfo em português.

2,5 dioptrias

Já experimentei tudo. Mas o invisível não arreda pé.

ora bolas!

meias tintas:

combinar as calças de bombazine castanhas compradas ontem com uma t-shirt cor de ameixa do verão passado.

uma novela uma certamente

Que Faz Em linha Datar Assim Diferente? Em linha datar é, para pôr é muito simplesmente ou lisa, encontrando um sócio com a ajuda de uma máquina a saber o computador através do Internet. Que próprio faz a idéia e o processo muito uma novela uma certamente, centenas de povos felizes através do globo foram bem sucedido em encontrar sócios apropriados pelos meios em linha de datar.

retirado de Find Yourself a Date Now at christian dating - HotDateToday.com
tradução automática e surpreendente?

Movimento preciso e meccanico

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Terá sido porque estava cansada ou então por não ter jantado, a verdade é que Rinaldo Alessandrini parecia um polvo, um maestro-polvo, estão a ver? E todos eles tocavam demasiado depressa, pelo menos na minha cabeça a música — Locatelli, Corelli e Vivaldi — ia a galope.
No intervalo, entraram no palco alguns rapazes vestidos de negro, com microfones e fios enganchados nas roupas. Mudaram os instrumentos, acrescentaram cadeiras, espalharam as pautas. Um bombeiro atravessou a sala de olhos arregalados. Ao meu lado, um casal que veio de fora admirava tudo; ele não parava de falar de pães, mais precisamente de sandes de fiambre enquanto ela acariciava e olhava para as suas botas bicudas.
O melhor estava quase a chegar: György Ligeti. O "Concerto de Câmara" é maravilhoso, e o terceiro andamento deixou-me sem palavras, sem fome nem sono.
A noite fechou com "Duktus" de Emanuel Nunes. A composição fica algures entre "O Homem da Câmara de Filmar, "A Estrada Perdida" e um outro filme que ainda não foi realizado.
O compositor — percebi pela primeira vez como ele é parecido com Roberto Benigni — veio ao palco agradecer, estava comovido e Peter Rundel tinha lágrimas nos olhos. O Remix Ensemble festejava o seu quinto aniversário, para nosso imenso prazer.

Lektion 8

Duktus (do latim ductus) é uma palavra alemã que contém em si os seguintes significados (os quais, em português, também derivam do latim):
— condu(c)ção): acção de conduzir "guiando", "levando".
— condu(c)to: canal.
dúctil(idade): acção de conduzir "puxando", "esticando", transformando num fio, sempre através duma força de tracção.

Duktus em alemão está ainda associado aos diferentes tipos de fluência da escrita, quer dizer, à maneira individual de escrever, tanto no seu aspecto caligráfico (desenho, linha), como no aspecto estilístico (literário).

excerto do texto de João de Rafael sobre a composição Duktus de Emanuel Nunes

Domingo, Outubro 23

Ich bin der Welt abhanden gekommen

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Bill: Estás bem Taylor?
Taylor: Não, nem por isso.
Bill: O que se passa?
Taylor: Não sei... Sinto-me tão alheado... Perdi o contacto com o mundo. Conheces aquela canção do Mahler? "Perdi o contacto com o mundo" ?
Bill: Não.
Taylor: É uma das mais belas e tristes canções jamais compostas. Até me parece estar a ouvi-la... Também ouves?
Bill: Acho que sim.

Taylor: Ressoou por todo o edifício. Onde estamos?
Bill: No Armory, Taylor.
Taylor: "No Armory, Taylor" — Parece tão pesado e lúgubre. O Armory...
Bill: Nikola Testa... viu a terra como um condutor... de ressonância acústica.
Taylor: Não faço a menor ideia do que estás a falar... Podes explicar-me?
Bill: Não, nem por isso.
Taylor: Já sei! Vamos fingir que este café é champanhe.
Bill: Porquê?
Taylor: Para comemorar a vida! Sabes, como fazem os ricos e os elegantes. As pessoas com classe...
Bill: Prefiro café. É o que os trabalhadores bebem.
Taylor: És tão provinciano, Bill. Sabes qual é o teu problema?
Bill: Qual é?
Taylor: Não tens... joie de vivre
Bill: Não tenho?
Taylor: Não, além disso este café é horrível.
Bill: Tens razão. É muito mau, não é?
Taylor: Pavoroso. Proponho um brinde.
Bill: A que vamos brindar?
Taylor: Meu deus... Paris! Na década de 1920... Josephine Baker,... o Moulin Rouge... qu'est que c'est... ça va...
Bill: E também Nova Iorque, na década de 1970. No final da década.
Taylor: A sério? Está bem.
Bill: À nossa!
Taylor: À nossa!
Bill: Hum, é delicioso, não é?
Taylor: Champanhe, o néctar dos deuses...

Taylor: É esse o teu almoço, um café e um cigarro? Não é muito saudável.
Bill: Já almoçamos.
Taylor: Almoçamos?
Bill: Isto é uma espécie de pausa. É a pausa para o café...
Taylor: Que deprimente. Quanto dura a nossa pausa?
Bill: Dura uns dez minutos e está quase no fim
Taylor: Diz que não é verdade. Bom...
Bill: O que foi?
Taylor: Pedi-te que me dissesses que não é verdade.
Bill: Digo que o quê não é verdade?
Taylor: Esquece, esquece. Seja como for, tenho de fazer uma sesta. Portanto, chama-me quando a pausa acabar.
Bill: Tens menos de dois minutos para fazer a tua sesta.

Bill: Taylor... Taylor...

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Nota: a tradução é a do dvd distribuído pela Atalanta, excepto duas frases que alterei porque não me soavam bem