Sábado, Outubro 22

A cantiga de Pedro Eanes Solaz

Eu velida nom dormia
lelia doura,
e meu amigo venia,
edoi lelia doura.

Nom dormia e cuidava
lelia doura,
e meu amigo chegava,
edoi lelia doura.

E meu amigo venia,
lelia doura,
e d'amor tam bem dizia
edoi lelia doura.

E meu amigo chegava,
lelia doura,
e d'amor tam bem cantava
edoi lelia doura.

muito desejei amigo,
lelia doura,
que vos tevesse comigo,
edoi lelia doura.

Muito desejei amado,
lelia doura,
que vos tevesse a meu lado,
edoi lelia doura.

Leli, leli, par Deus, leli
lelia doura,
bem sei eu que nom diz leli,
edoi lelia doura.

Bem sei eu quem nom diz leli,
lelia doura,
demo x'é quem nom diz lelia,
edoi lelia doura.

Pedro Eanes Solaz.
Séc. XIII.


"Durante muito tempo esta notável cantiga de amigo de Pedro Eanes Solaz não encontrou uma explicação cabal, dada a estranheza do seu duplo refrão. Mas desde o momento em que esse refrão foi identificado como uma frase árabe significando «e a noite roda», o seu sentido clarificou-se. Mantendo o perfeito e extraordinário lirismo das cantigas de amigo, Pedro Eanes Solaz aludiria aqui, ao mesmo tempo, aos amores proibidos entre uma donzela e um muçulmano (uma soldadeira bailarina com um músico árabe, dos que frequentavam as cortes peninsulares, seria imaginável). Esta hipótese, que actualmente prevalece, parece-me, aliás, confirmada por aquele demo que surge na última estrofe, parecendo baralhar todo o universo lírico anterior."
Graça Videira Lopes

Recordo ainda que esta cantiga emprestou o seu refrão ao título da "Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa", organizada por Herberto Helder.

Sexta-feira, Outubro 21

Long Live Joe Strummer!

(le vrai raccord) No último episódio de "Café e cigarros", Taylor e Bill bebem café ("é o que os trabalhadores bebem " diz Bill) como quem bebe champanhe (e o Armony transforma-se em Paris dos anos vinte...). Quando entro no site de Broken Flowers vejo Bill Murray de fato de treino azul escuro com duas riscas vermelhas, sentado num sofá, junto a uma mesa. Em cima da mesa há um telemóvel que não toca, um comando de televisão parado, uma carta que pisca, uma garrafa de campanhe aberta e um flute.

... infelizmente o domador de cadeiras não pode empregar uma cadeira para manter as feras à distância.

[de memória, o final da Ostra de hoje na Antena 2. Texto e imagem de José Carlos Fernandes; sons e realização de Pedro Coelho]

Lektion 7

As aranhas: em alemão diz-se die spinnen.

Lektion 6 (Hören Sie)

Perguntem a quem quiserem e dir-vos-ão que é dos homens mais doces que podem encontrar. Quando gosta de alguém dá abraços que doem nas costas. A primeira vez que viu Cassie foi numa fotografia no Melody Maker. Diz que sentiu "qualquer coisa muito forte", que, provavelmente, "há-de haver alguma palavra alemã para descrever".

Perfil (de David Berman ) completo no Y, por João Bonifácio

— Ah! preferir?

— Com o devido respeito, senhor — disse ele — eu ontem estive a pensar aqui no Bartleby, e julgo que se ele pelo menos preferisse tomar um quarto de boa cerveja todos os dias, isso o faria corrigir-se, e lhe permitiria trabalhar no conferir dos documentos.
— Então você também já emprega a palavra — exclamei eu já um pouco irritado.
— Com o devido respeito, que palavra, senhor? — perguntou Turkey, introduzindo-se respeitosamente no espaço reduzido atrás do biombo, e, ao fazê-lo, levando-me a colidir com o escrivão. — Que palavra, senhor?
— Preferia ser deixado aqui sozinho — declarou Bartleby, como que ofendido por ver tanta gente perturbar a sua privacidade.
— É essa a palavra, Turkey — exclamei eu — é essa.
— Ah! preferir? Sim — esquisita palavra. Eu nunca a uso. Mas, senhor, como eu ia a dizer, se ele ao menos preferisse — ...
— Turkey — interrompi — retire-se por favor.
— Certamente, senhor, se assim o prefere.

Bartleby de Herman Melville, páginas 50 e 51, tradução de Gil de Carvalho, Gato Maltês #19,
Assírio & Alvim, Abril de 1988

Quinta-feira, Outubro 20

P: Onde está então a mais bela árvore da floresta?
R: (Mostra-se o sexo com a mão direita)
P: Qual é a árvore mais frondosa?
R: (Toca-se nos cabelos)
P: Qual é a mais alta árvore da Venda?
R: (Toca-se o alto da cabeça)
P: Qual é a árvore mais direita?
R: (Mostra-se o dedo indicador)
P: Qual é a árvore mais nodosa?
R: (Levam-se as mãos aos joelhos)
P: Qual é o tronco da árvore?
R: (Toca-se o tronco, pondo-se as tocas nos lados do corpo)
P: Qual é a árvore de 10 ramos?
R: (Mostram-se os dez dedos das tocas abertas)

(Excerto de um ritual dos Bons Primos Lenhadores da Floresta da Venda de Macon, 1751. Citado por Maria Estela Guedes, no nº 10, da "Boca do Inferno".)

Untitled from Ode à ma mère

outros diários

Ainda que tenha escrito legivelmente o meu nome na recepção do hotel, ainda que me tenham escrito duas vezes seguidas correctamente, foi apesar disso, Josef K. ... que inscreveram no quadro. Ser-me-á necessário esclarecê-los ou deixar-me esclarecer por eles?
Franz Kafka, 27 de Janeiro de 1923


[...] Uma das tristes consequências da nossa miserável condição, pensava no outro dia, é vermo-nos obrigados a ter de nos aturar constantemente a nós próprios. É isso que torna tão agradável o convívio com as pessoas simpáticas: durante alguns instantes elas fazem-nos acreditar que nelas existe um pouco de nós próprios — mas bem depressa caímos de novo na nossa triste unidade! [...]
Eugène Delacroix, Domingo, 25 de Janeiro de 1824
Diário, tradução de Fernando Guerreiro, Estampa, 1979

A posição

"Deixaram-me entrar. Subi de imediato até ao quarto das crianças e trepei para o berço e adoptei a famosa posição fetal.
Eles não sabiam que pensar. Parados junto ao berço olhavam para mim.
Eram jovens. Estavam na sua casa. Em vez de uma criança, tinham um adulto no berçário.
É claro que não tinham previsto nada disso. Nunca pensaram que uma coisa desse género pudesse acontecer.

Eu tinha feito a minha jogada. Tudo o que podia fazer era manter a posição fingindo dormir..."

Russell Edson.
Tradução de José Alberto Oliveira.

A ler

Quarta-feira, Outubro 19

(coisas do passado)

A sala do Terço foi uma das últimas salas de cinema a fechar no Porto. Fica perto de minha casa, costumava lá ir, nem precisava de levar o carro, ia a pé. Os bilhetes eram muito baratos, se não engano custavam apenas dois euros e meio. A sala era um bocado tristonha, antiga e até cheirava a mofo mas eu gostava daquele ar fora do tempo. Lembro-me que foi lá que vi o "24 Hour Party People"; era o sítio mais adequado ao filme, de certo modo utilizava os mesmos princípios de ocupação de espaço, no entanto o Porto não é Londres e ninguém topou isso — a sessão estava às moscas, um velhote dormitava.
Resumindo: como as receitas da bilheteira não paravam de diminuir, o Instituto que geria a sala do Terço resolveu fechar as portas. Houve protestos, claro. A última sessão estava cheia, as câmaras da televisão à porta. Projectaram "As Horas. Não gostei do filme, quando acabou saí. Os outros ficaram lá dentro, a bater o pé, a lutar contra o fecho imagino. Cada um luta como pode e como sabe. Ao atravessar o jardim do Marquês e depois, Latino Coelho fora, fazia contas, onde raio estavam estas pessoas ontem, nas outras sesssões, nas sessões vazias. Agora barafustam mas estarão dispostos a vir cá amanhã e depois e depois? Ninguém me respondeu porque eu falava sozinha. E continuo ainda agora a falar sozinha.

Io sono una forza del Passato.

Solo nella tradizione è il mio amore.
Vengo dai ruderi, dalle Chiese,
dalle pale d'altare, dai borghi
dimenticati sugli Appennini o le Prealpi,
dove sono vissuti i fratelli.
Giro per la Tuscolana come un pazzo,
per l'Appia come un cane senza padrone.
O guardo i crepuscoli, le mattine
su Roma, sulla Ciociaria, sul mondo,
come i primi atti della Dopostoria,
cui io sussisto, per privilegio d'anagrafe,
dall'orlo estremo di qualche età
sepolta. Mostruoso è chi è nato
dalle viscere di una donna morta.
E io, feto adulto, mi aggiro
più moderno d'ogni moderno
a cercare i fratelli che non sono più.


Pier Paolo Pasolini (Poesia in forma di rosa) , dito por Orson Welles no espisódio "La ricotta" do filme "RoGoPaG"

Salão de beleza

O Paulinho Assunção continua a fazer das suas. Agora é Quixote.

Natureza morta



Acabo de ler a crítica de Jorge Gomes Miranda sobre a nova antologia poética de Pier Paolo Pasolini (Assírio & Alvim), publicada no Mil|Folhas, de 24 de Setembro (não está em linha).
Mais uma vez, fico com a sensação de que seria muito mais proveitoso para o leitor se o suplemento se limitasse a editar alguns poemas do livro, que tem tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo. Não quero dizer com isto que o texto de Jorge Gomes Miranda é mau. Na verdade, nem é melhor nem pior do que muitos textos de crítica literária que se editam nos jornais: quase todos iguais, seguindo uma espécie de fórmula benigna e pachorrenta, mais evidente nos textos sobre poesia.
Mas o problema deve ser meu, que não percebo nada de crítica literária. Sou um simples leitor de poemas.

Terça-feira, Outubro 18

Lektion 5

Robert Walser: Ich schreibe das Prosastück, das mir hier entstehen zu wollen scheint, in stiller Mitternacht, und ich schreibe es für die Katz, will sagen, für den Tagesgebrauch. Die Katz ist eine Art Fabrik oder Industrieetablissement, für das die Schriftsteller täglich, ja vielleicht sogar stündlich treulich und emsig arbeiten oder abliefern.

Contagem decrescente

Nos últimos anos "A Sombra do Caçador" tem passado com alguma regularidade nas salas de cinema do Porto. Desconheço o motivo, aliás, nem deve haver motivo; uma cópia nova em rodagem explica e arruma o caso. Em 2001 o filme foi projectado no Rivoli, integrado num dos momentos da "Odisseia nas Imagens"; a sala estava cheia. No ano seguinte o filme de Charles Laughton voltou a Serralves graças aos Filhos de Lumière que o incluiram no ciclo "Sabor do Cinema". Manuel António Pina foi convocado para falar do amor e do ódio, das rãs e das aranhas, dos fantasmas da infância. A sala estava mais vazia do que cheia.
Hoje e amanhã o filme regressa ao écran, desta vez faz parte da programação do cine-estúdio do Campo Alegre. Vamos a apostas?


p.s. No Público (1ª página do Local Porto) uma noticia anuncia que o "Cinema Nun'Álvares não tem futuro assegurado". Não é surpresa nenhuma.

Taxa de juro

"Tenho de vender a minha diminuta colecção de selos para poder devolver ao Tio António os 3000 réis (que imprudentemente lhe pedi emprestados para comprar Life of Shelley, de Dowden)."

Fernando Pessoa

House by the Railroad

François Truffaut: "Touch of Evil" confirma uma ideia que vem desde "The Big Sleep", "Kiss me Deadly", "Psycho": filmado por um realizador inspirado, o thriller mais vulgar pode transformar-se num conto de fadas emocionante. "Toda a arte é abstracta", disse Jean Renoir.


Joseph Stefano, argumentista de Psycho: ... depois disse-lhe que achava que se o Norman Bates fosse um quadro, teria sido pintado pelo Hopper e ele [Anthony Perkins] concordou.


Edward Hopper, 1925

tradutores, bolsinhas e um crocodilo

1. Há tradutores de quem gosto muito. Nas férias comprei um gato maltês de um escritor austríaco até então desconhecido, apenas porque era traduzido por José A. Palma Caetano. Devo confessar que a originalidade do título também ajudou bastante; reparem bem, o conto chama-se "A Flagelação das Bolsinhas de Camurça". É quase impossível resistir à palavra flagelação junto a um substantivo tão inesperado e ainda por cima diminutivo. Agora também eu aguardo mais obras de Heimito von Doderer em português.


2. Pode ainda acontecer o tradutor ser ele próprio, e antes de mais, escritor estimado. É o caso de José Alberto Oliveira. O seu Bestiário (Assírio & Alvim, Março de 2004) é, desde que o li, o meu bestiário.
Eis as breves histórias do crocodilo acanhado e da traça shakespereana:

Nada direi do crocodilo
É um bicho tímido, reservado, a quem a realidade magoa os dentes.


Poema da traça

Livros, livros
não o disse Hamlet,
o de nariz arguto,
que maquinava
a perdição de um reino.

Antes cair de bêbada
no luar de um rio,
que ser assim educada.

Em literatura, é irrelevante se as ideias têm pés ou cabeça. Desde que tenham pernas para andar.

Edson, inventor da lâmpada eléctrica incandescente

As ideias de Russell Edson não têm pés nem cabeça. A ideia é precisamente essa. São grandes ideias porque não têm pés nem cabeça.

Segunda-feira, Outubro 17

— He was some kind of a man... What does it matter what you say about people?

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Só há um sítio aceitável para ver "Touch of evil" de Orson Welles: uma sala de cinema.

Como uma vaca veio residir com os orelhudos

"Um dia numa floresta um coelho matou um homem. Uma vaca observava esperando que o homem se levantasse. Um insecto rastejou na cara do homem. Uma vaca observava esperando que o homem se levantasse. Uma vaca saltou uma sebe para ver mais de perto como um coelho arruma um homem. Um coelho ataca uma vaca pensando que a vaca veio ajudar o homem. O coelho domina a vaca e arrasta a vaca para a sua toca.
Quando a vaca desperta a vaca pensa, eu queria estar no cimo da terra indo com o homem para o meu estábulo.
Mas a vaca permanece com estes orelhudos para o resto da vida."

Russell Edson.
Tradução de José Alberto Oliveira.
Quem vai ao mar procurar a poesia, sabe muito bem que a encontraria mais facilmente em terra. E vice-versa.

Domingo, Outubro 16

MINETTI:

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A sociedade sem classes
não percebe patavina
não percebe patavina
Estamos constantemente a construir
uma tragédia
ou uma comédia
quando criamos a tragédia
no fundo acaba por ser só uma comédia
e vice-versa.
apelando à responsabilidade de cada um
se me faço entender bem
E voltamos sempre e apenas à arte teatral


da pág. 29 de "Minetti" de Thomas Bernhard, traduzido por João Barrento, Cotovia, Lisboa 1990

O artista de teatro

Minetti no hall de um hotel de Ostende. Minetti com os atilhos das ceroulas desapertados, Minetti com a sua máscara de Rei Lear, a máscara feita por Ensor. Minetti que não pisa um palco há trinta anos. Minetti em frente ao espelho. Minetti desolado. Minetti que repudiou toda a literatura clássica, que odeia todo o progresso. Minetti à espera do director do teatro de Flensburg que nunca chegará. Minetti esquecido. Minetti a aprodrecer em Dinkelsbühl, durante trinta anos a apodrecer em Dinkelsbühl no meio das couves. Minetti morto.
É uma peça terrível, chorei de uma ponta à outra. Não se deve ler Thomas Bernhard numa tarde tristonha de domingo. Não sei o que me passou pela cabeça.