Sábado, Outubro 15
Esplanada
O fim de tarde era belo, o sol brincava sobre as ondas, os navios vogavam suavemente à mercê de uma leve brisa, e um cano de esgoto lançava merda no Douro, mesmo junto à esplanada.
Machado de Assis goes to the movies
Às vezes — e não são tão poucas quanto isso — tenho a impressão que leio os livros todos de viés, passo ao lado do seu verdadeiro significado, invento coisas que não estão lá, no fundo dou cabo das obras. Ontem estava na cama a pensar nestas ninharias e conclui que, por exemplo, aquela referência (cinco posts mais abaixo) a Hitchcock é completamente descabida mas o pior da noite ainda estava para vir. Quando quis apurar de memória e às escuras quais os meus contos preferidos de Machado de Assis e porquê, surpreendi-me ao escolher entre eles Missa do Galo. Não por causa do conto que de facto me agrada muito mas por causa do motivo: gosto dele porque me lembra "Lost in Translation", disse para mim mesma. Ora, isto ou é tontice ou sono.
Sexta-feira, Outubro 14
Fogo e artifício
Os olhos saltam das órbitas e percorrem as salas correndo pelas paredes com as suas minúsculas perninhas. As orelhas rodam sobre si próprias como antenas parabólicas. O cérebro espreita pelas aberturas do nariz. A língua foge da boca e sobe aos telhados.
E depois não acontece mais nada.
E depois não acontece mais nada.
— Have you ever heard the long Pinteresque* silence?
Ontem à noite vi duas notícias sobre a atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Harold Pinter, na rtp e na sic. Muito mal amanhadas, construídas sobre frases feitas, "absurdo" para aqui e "absurdo" para acolá, imagens dos livros da Relógio d'Água nas prateleiras da fnac, genérico de "A amante do tenente francês" e pedaços de algumas peças representadas pelos Artistas Unidos. Tudo demasiado pobre, colado com cuspo. Para se salvarem recorreram ambas a Jorge Silva Melo que falou da notável capacidade de Pinter para dizer com poucas palavras e às vezes com nenhumas (sublime entendimento do silêncio) tanta coisa. O encenador 1 citou como exemplo o início da peça "O Amante": ao fim da tarde um homem chega a casa, pergunta à mulher se ela quer beber alguma coisa. Passados alguns segundos de silêncio ela responde "somos casados há 10 anos".
Já não me lembro qual das peças jornalísticas salientou que Harold Pinter era o (ou um dos) dramaturgo mais representado em Portugal; aí desatei a rir e voltei a "On purge bébé" de Jean Renoir.
__________
* adjectivo muito bem explicado pela Alexandra na sua Seta Despedida
1 responsável, juntamente com os outros Artistas Unidos e mais alguns grupos solidários, pela excelente divulgação dos textos de Pinter no nosso país nos ultimos anos
Já não me lembro qual das peças jornalísticas salientou que Harold Pinter era o (ou um dos) dramaturgo mais representado em Portugal; aí desatei a rir e voltei a "On purge bébé" de Jean Renoir.
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* adjectivo muito bem explicado pela Alexandra na sua Seta Despedida
1 responsável, juntamente com os outros Artistas Unidos e mais alguns grupos solidários, pela excelente divulgação dos textos de Pinter no nosso país nos ultimos anos
vais lá tu ou vou lá eu?
[técnica de sintonia mista: enquanto o Rui se entretem a trincar a menina Capitolina (primeiro grande amor de Dom Casmurro) aproveito e volto aos contos de Machado de Assis para dois curtos apontamentos em forma de elogio.]
Uma das coisas de que mais gosto em alguns contos de Machado de Assis é a volta que a estrutura toma. O narrador entra, desenrola a história e, de repente, dá uma guinada; quando chegamos ao fim percebemos que o que interessa, o que interessa a sério, é o segundo plano. O resto é mais ou menos como o MacGuffin de Hitchcock. Por exemplo em D. Paula podiamos dizer, distraídos, que o conto é sobre uma rapariga leviana que corre o risco de perder o marido e à última da hora se aflige; mas não, o que importa é o modo como a tia de Venancinha, D. Paula, revive — por estranha analogia — a sua juventude estróina. O melhor do conto é o que passa pela cabeça de sinhá velha.
Não é uma invenção de Machado de Assis mas juro que nunca vi caiporismo tão bem definido. O caiporismo é uma ideologia rasteirinha que se introduz na nossa vida para a arrasar minuto a minuto sem nos dar qualquer possibilidade de levantar a cabeça e recuperar. Pode traduzir-se por má sorte ou sorte torcida que, por sinal, também são expressões bem esgalhadas.
Uma das coisas de que mais gosto em alguns contos de Machado de Assis é a volta que a estrutura toma. O narrador entra, desenrola a história e, de repente, dá uma guinada; quando chegamos ao fim percebemos que o que interessa, o que interessa a sério, é o segundo plano. O resto é mais ou menos como o MacGuffin de Hitchcock. Por exemplo em D. Paula podiamos dizer, distraídos, que o conto é sobre uma rapariga leviana que corre o risco de perder o marido e à última da hora se aflige; mas não, o que importa é o modo como a tia de Venancinha, D. Paula, revive — por estranha analogia — a sua juventude estróina. O melhor do conto é o que passa pela cabeça de sinhá velha.
Não é uma invenção de Machado de Assis mas juro que nunca vi caiporismo tão bem definido. O caiporismo é uma ideologia rasteirinha que se introduz na nossa vida para a arrasar minuto a minuto sem nos dar qualquer possibilidade de levantar a cabeça e recuperar. Pode traduzir-se por má sorte ou sorte torcida que, por sinal, também são expressões bem esgalhadas.
Quinta-feira, Outubro 13
are you?
Eles não estavam lá de manhã, voltaram — como ontem aliás — à hora do almoço. Confirmei, é um homem e uma mulher, apesar de ele parecer pouco homem e ela pouco mulher. Não sei o que fizeram ao guarda-sol, desapareceu. Ele continua deitado mas agora debaixo de um outdoor da Eristoff (are you eristoff?). Ela sentou-se mais ao lado, encostada a uma das traves verticais, com uma garrafa na mão. Barafusta. O sacos estão alinhados em fila por baixo do cartaz azul, como numa montra.
Conferência de imprensa
O novo milionário é Harold Pinter. Excelente dramaturgo e também poeta. No entanto, pessoalmente, e pelas razões que apontei anteriormente, preferia que o prémio tivesse sido atribuído a outro autor, uma vez que o essencial da obra de Pinter já está traduzido para português.
HAROLD PINTER!
By himself.
em cena: "Não sei resumir nenhuma das minhas peças. Não sei descrever nenhuma. Só sei dizer foi isto o que aconteceu, foi isto o que disseram, foi isto o que fizeram." Harold Pinter
na câmara escura: Natureza morta | o quarto pinteriano | Porque é que gosto de Harold Pinter?
next year: Pinter will act in Krapp's Last Tape by Samuel Beckett.
Que canal de televisão irá programar nos próximos dias, por exemplo: The Servant? Ou Go Between? Ou Accident?...
em cena: "Não sei resumir nenhuma das minhas peças. Não sei descrever nenhuma. Só sei dizer foi isto o que aconteceu, foi isto o que disseram, foi isto o que fizeram." Harold Pinter
na câmara escura: Natureza morta | o quarto pinteriano | Porque é que gosto de Harold Pinter?
next year: Pinter will act in Krapp's Last Tape by Samuel Beckett.
Que canal de televisão irá programar nos próximos dias, por exemplo: The Servant? Ou Go Between? Ou Accident?...
o mal entendido
"... a maior parte das vezes, a melancolia é apenas uma questão de luz", foi mais ou menos isso que ele me disse. Mas, por distracção, creio, entendi outra coisa.
O Prémio Nobel da Literatura será anunciado dentro de momentos
Não nego. O Prémio Nobel é um assunto que me interessa. Foi graças aos prémios atribuídos a Seamus Heaney e Wislawa Szymborska, só para dar dois exemplos relativamente recentes, que os leitores portugueses tiveram acesso a uma parte das suas obras em português. O Nobel força os tristes editores portugueses a comprarem direitos e a editarem livros, mesmo tratando-se de poesia. Claro que tudo não passa de um negócio, às vezes na pior acepção da palavra, com lucros bem menores no caso da poesia, esse sub-sub-negócio. E depois?
Este ano, os "críticos", "analistas" e outros "especialistas" apontam como possíveis vencedores os poetas Ali Ahmad Said (Síria) e Tomas Tranströmer (Suécia), dois autores praticamente inéditos em Portugal.
Ou seja, se o prémio for atribuído a um prosador, será um desperdício.
Este ano, os "críticos", "analistas" e outros "especialistas" apontam como possíveis vencedores os poetas Ali Ahmad Said (Síria) e Tomas Tranströmer (Suécia), dois autores praticamente inéditos em Portugal.
Ou seja, se o prémio for atribuído a um prosador, será um desperdício.
Os vermes
"Quando, mais tarde, vim a saber que a lança de Aquiles também curou uma ferida que fez, tive tais ou quais veleidades de escrever uma dissertação a este propósito. Cheguei a pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abri-los, a compará-los, catando o texto e o sentido, para achar a origem comum do oráculo pagão e do pensamento israelita. Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles.
- Meu senhor - respondeu-me um longo verme gordo -, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.
Não lhes arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído."
Machado de Assis, Dom Casmurro.
- Meu senhor - respondeu-me um longo verme gordo -, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.
Não lhes arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído."
Machado de Assis, Dom Casmurro.
Quarta-feira, Outubro 12
Voyage au bout de la nuit
Ça a débuté comme ça. Moi, j'avais jamais rien dit. Rien. C'est Arthur Ganate qui m'a fait parler. Arthur, un étudiant, un carabin lui aussi, un camarade. On se rencontre donc place Clichy. C'était après le déjeuner. Il veut me parler. Je l'écoute...
Michel Simon e Louis-Ferdinand Céline para a Zazie, com os cumprimentos da UBUWEB.
Michel Simon e Louis-Ferdinand Céline para a Zazie, com os cumprimentos da UBUWEB.
E se Godot vier?
(De carro não vemos nada; a cidade assemelha-se a um écran de televisão, plano e distante, sem ninguém. Quando andamos a pé é que descobrimos as personagens, caímos dentro de um livro.)
Acabei de ver duas personagens de Beckett. Estão — ainda devem estar — deitadas na Praça das Flores, num descampado, em cima de ervas daninhas. Deitadas como se estivessem na praia ao sol, mas hoje chove e o chão está húmido. Não as consegui ver bem, creio que são um homem e uma mulher, cada um com vários sacos, deitados — lado a lado —, debaixo de um guarda sol de gomos coloridos.
Acabei de ver duas personagens de Beckett. Estão — ainda devem estar — deitadas na Praça das Flores, num descampado, em cima de ervas daninhas. Deitadas como se estivessem na praia ao sol, mas hoje chove e o chão está húmido. Não as consegui ver bem, creio que são um homem e uma mulher, cada um com vários sacos, deitados — lado a lado —, debaixo de um guarda sol de gomos coloridos.
"What! You are giving up your Queen? Sheer madness!"
ponto 2. A Academia Sueca ainda não sabe disto mas afinal a literatura é um jogo de xadrez!
ponto 2. A Academia Sueca ainda não sabe disto mas afinal a literatura é um jogo de xadrez!
ponto 1. A Literatura é uma disciplina, não é um parque de diversões!
«Knut Ahnlund, um dos 18 membros da Academia Sueca da Língua, que atribui o Nobel da Literatura, anunciou a sua demissão como resposta à entrega do galardão do ano passado à escritora Elfriede Jelinek, por considerar que a eleição causou "um dano irreparável no prestígio do prémio".
...
O Prémio Nobel da Literatura deste ano é conhecido amanhã ao início da tarde. O vencedor receberá 1,1 milhões de euros.»
princípio e fim da notícia do Público, página 38
Lektion 4
Im Bureau
Der Mond blickt zu uns hinein,
er sieht mich als armen Kommis
schmachten unter dem strengen Blick
meines Prinzipals.
Ich kratze verlegen am Hals.
Dauernden Lebenssonnenschein
kannte ich noch nie.
Mangel ist mein Geschick;
kratzen zu müssen am Hals
unter dem Blick des Prinzipals.
Der Mond ist die Wunde der Nacht,
Blutstropfen sind alle Sterne.
Ob ich dem blühenden Glück auch ferne,
ich bin dafür bescheiden gemacht.
Der Mond ist die Wunde der Nacht.
Robert Walser
tradução para inglês
Der Mond blickt zu uns hinein,
er sieht mich als armen Kommis
schmachten unter dem strengen Blick
meines Prinzipals.
Ich kratze verlegen am Hals.
Dauernden Lebenssonnenschein
kannte ich noch nie.
Mangel ist mein Geschick;
kratzen zu müssen am Hals
unter dem Blick des Prinzipals.
Der Mond ist die Wunde der Nacht,
Blutstropfen sind alle Sterne.
Ob ich dem blühenden Glück auch ferne,
ich bin dafür bescheiden gemacht.
Der Mond ist die Wunde der Nacht.
Robert Walser
tradução para inglês
Baltazar Gorecky vai a caminho do emprego de arquivista no Instituto Superior de Cronografia e Ciências Exactas quando é assaltado por uma recordação de infância.
...

à suivre "O Passo Suspenso da Memória", de José Carlos Fernandes (via Visões Utéis)
...

à suivre "O Passo Suspenso da Memória", de José Carlos Fernandes (via Visões Utéis)
Oração da manhã
O cimbalino, o cigarro e uma passagem de Dom Casmurro. A Trindade Divina nos abençoe e nos proteja durante este dia. Amém.
Terça-feira, Outubro 11
(em italiano diz-se malinconia)
ENCONTRO
Hesitámos por um momento
e pouco depois reconhecemos
que sofríamos da mesma doença.
Não existe definição
para esta maravilhosa tortura,
há quem lhe chame spleen
e quem fale em melancolia.
Mas se aceitamos o jogo
nas suas margens encontramos
um sinal inteligível
que pode dar sentido ao todo.
Eugenio Montale, "Poesia" (Diário Póstumo, 19696), tradução de José Manuel de Vasconcelos,
Assírio & Alvim, Lisboa, Junho 2004
ENCONTRO
Hesitámos por um momento
e pouco depois reconhecemos
que sofríamos da mesma doença.
Não existe definição
para esta maravilhosa tortura,
há quem lhe chame spleen
e quem fale em melancolia.
Mas se aceitamos o jogo
nas suas margens encontramos
um sinal inteligível
que pode dar sentido ao todo.
Eugenio Montale, "Poesia" (Diário Póstumo, 19696), tradução de José Manuel de Vasconcelos,
Assírio & Alvim, Lisboa, Junho 2004
chez moi, la fête commence aujourd'hui
"O que vão ver não é nem um drama nem uma comédia. Não tem qualquer intenção moral nem prova o que quer que seja. Os personagens não são heróis nem vilões. São apenas pobres seres humanos, como vocês e como eu."— diz o fantoche na apresentação do filme


La CHIENNE, Jean Renoir, 1931


La CHIENNE, Jean Renoir, 1931
strangers talk only about the weather #25
O que eu queria agora era uma trovoada forte, raios e chuva a rodos. Que me apanhasse a meio caminho de casa. And the band is going home, it’s raining hammers, it’s raining nails...
Em Pavese o Verão é sempre o fim do Verão;
mesmo quando está calor, corre um certo vento. Imagino os seus homens (só os homens, as mulheres não, as mulheres nunca) com um casaco pelos ombros. Consigo até adivinhar um arrepio a crescer nos braços; depois — é inevitável — forma-se uma espécie de nuvem nos olhos, aquilo a que chamamos melancolia?
Claro que isto não é nenhuma teoria literária são apenas os meus próprios erros de leitura.
Claro que isto não é nenhuma teoria literária são apenas os meus próprios erros de leitura.
Guia de leitura com copos
Este senhor, Dennis McCarthy, criou uma página sobre whiskey onde sugere os melhores copos para acompanhar a leitura de certos poemas. Por exemplo, para ler To a Young Beauty, de Yeats, o ideal é ter à mão um copito de Jameson. Já The Raven, de Poe, pede acima de tudo um Jim Beam Rye. Mas há mais.
Booker Prize
Para os interessados, o irlandês John Banville é o vencedor do Booker Prize.
Livros de Banville em português.
Livros de Banville em português.
Segunda-feira, Outubro 10
eu vi as redes por dentro
Jaime é um ensaio poético sobre um homem que nasceu em 1900 na Covilhã, aos 31 anos foi internado no Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda em Lisboa e aí permaneceu e escreveu e desenhou até morrer em 1969. Apesar de mais ou menos correcta, esta descrição é demasiado frágil porque o filme de António Reis é mais do que o retrato de um homem ou até de um homem louco, é o retrato da própria loucura, até onde é possível imaginá-la. É um dos filmes mais arrepiantes e sombrios que já vi.
Water Music
Choveu durante a noite. Os olhos da cidade estão cheios de pequenas cataratas.
Desgraçadamente a oftalmologia é uma arte em extinção entre os melros.
Desgraçadamente a oftalmologia é uma arte em extinção entre os melros.
Isto não é photoshop
Afinal, as sondagens estavam certas. Rui Rio ganhou e ampliou a sua vantagem. Muitos portuenses acabam de perder mais quatro anos de vida.
Domingo, Outubro 9
(este é um post político)
O filme JAIME de António Reis é uma obra-prima. Passou às 16h00 no Auditório de Serralves. Não contei bem mas creio que não estavam mais de vinte pessoas na sala.







