Sábado, Outubro 8

Lida da casa

Como posso eu tê-la direita?
Não vês
A tábua debilitada, em ponto morto?
E não acredito que não consigas ouvir
Este fraco mas fatal tremor sob os pés
Quando, tão docemente invisível,
Entras de mansinho para limpar
A minha condenada mesa de três pernas.

Ian Hamilton, "Cinquenta Poemas", tradução de Nuno Vidal, Cotovia, Lisboa 1995

Sexta-feira, Outubro 7

3. estratégia oblíqua pós laboral:

primeira parte - ensaiar "Qué será, será" para assobio e alguns espirros.

segunda parte - sonhar com Peter Lorre.

Tanto esforço

Alguém me disse
li
ou
imaginei:
que o Marechal Rondom
ia erguendo postes e fios de telégrafo
pelo interior do país
enfrentando índios
cobras
e mosquitos
até que
envelhecido
levantou
heróico
o último poste na fronteira com a Bolívia.

Foi aí
que chegou-lhe a impiedosa notícia:
alhures
tinham acabado de inventar
o telégrafo sem fio.

Affonso Romano de Sant'Anna

2. Right!

(lá para as quatro e meia) tomar café com Brain Eno [& Peter Schmidt --> Oblique Strategies]:
10. Go slowly all the way round the outside

1. it's nothing at all

shuffle songs (no strategy at all): começar a tarde de sexta-feira a ouvir "Sunday Morning".


É uma fotografia de Jeff Wall, chama-se "A Woman with a Covered Tray".

Pode-se dizer que isto não é música?

Gosto muito da forma como Alfred Hitchcock trabalhou a banda sonora de Os Pássaros. Ao contrário do que tinha feito em "Psico" (com a cumplicidade dramática de Bernard Herrmann), desta vez não utilizou qualquer composição musical. Limitou-se a manipular os sons dos pássaros através do Trautonium, que é uma espécie de antecessor dos sintetizadores. Em todo o filme ouve-se apenas uma cançãozinha (que os míudos cantam na escola enquanto, lá fora, os corvos se amontoam inquietantemente junto a Melanie). Tudo o mais são ruídos, vozes, gritos, bater de asas e um grasnar metálico e assustador.

strangers talk only about the weather #24

O Verão nem sempre termina na data prevista; para mim acabou ontem. Agora tenho que lutar contra o Outono. Vestir uma camisola e enfrentar o exagero poético do Outono.

Aquilo

A coisa passa-se a uma hora muito pouco convencional: o início está marcado para as 13h00. Seja como for, às vezes o amor também tem hora marcada. E eu vou ali à Casa da Música ver a jovem Mullova tocar nas cordas do velho sabido Bach. E, discretamente, aninhado a um canto, salivar um pouco.

Quinta-feira, Outubro 6

O navio fantasma

Há muitas coisas previsíveis no filme "A Dama de Honor" de Claude Chabrol, mas não é disso que quero falar. É dos livros. Quando Philippe olha para os livros que Senta tem no quarto fica admirado; esperava que fossem peças ou de alguma forma ligados ao teatro — que ela diz estudar —, mas não são.

Histeria

Enquanto ela ria, tive a noção de ficar enredado nesse riso e de fazer parte dele, até os dentes dela não passarem de estrelas casuais, aptas para exercícios de pelotão. Com inspirações curtas, ela sorveu-me, inalado em cada recobro momentâneo, finalmente perdido nas cavernas sombrias da garganta, ferido nas pregas de músculos invisíveis. Um criado de mesa já idoso, trémulo das mãos, estendia à pressa uma toalha de quadrados vermelhos e brancos sobre a mesa de ferro, esverdeada e ferrugenta, e dizia: «Se a senhora e o cavalheiro desejarem tomar o chá no jardim...» Decidi que, se fosse possível parar nela a vibração dos seios, talvez se pudessem recuperar alguns fragmentos da tarde e, com cuidado subtil, concentrei as atenções em tal objectivo.

T.S. Eliot, "Prufrock e outras observações", tradução de João Almeida Flor,
Assírio & Alvim, Maio 2005

Mais marcadores de livros

Foi o cartaz que primeiro me chamou a atenção. Na bilheteira descobri uma (quase) reprodução: uma folha de papel couché, quinze por onze centrimetros, dobrada a meio, as mesmas cores, a mesma fotografia, o mesmo nome, a frase "há coisas que ninguém quer perder".

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Marcadores de livros

O exemplar de "A Praia" de Cesare Pavese que comprei (o livro não tem data mas creio que se trata de uma edição dos anos sessenta) nunca foi lido até ao fim; as páginas 131 e 133 ainda estão coladas.
Mais ou menos a meio encontrei um pedaço de uma revista. No rectângulo perfeito, cortado a direito com tesoura, uma notícia dá conta dos movimentos amorosos de Richard Beymer: o galã herói de "West Side Story" colecciona idílios e não é a distância que o detem no seu desejo de estar sempre junto da eleita (provisória) do seu coração. Assim, num destes fins-de-semana, tomou o avião para Estocolmo a fim de se juntar ao manequim sueco Anyeta Darin, por quem se apaixonou.
O texto é acompanhado por uma pequena fotografia do actor americano e intitula-se "O amor ignora distâncias".
Não sei se o recorte explica o abandono do livro. Seria demasiado fácil?

Quarta-feira, Outubro 5

Não por acaso

Poema rima com problema.

Ficções

Torna-se cada vez mais vago
distinguir
memória de imaginação.

Lembro-me de coisas que nunca aconteceram
e recupero cenas que jamais vivi.
Quando ouço coisas que dizem
que fiz, que vi e vivi
então é um meigo espanto.

Está difícil compatibilizar as fotos
com as versões dos fatos
que eu pensei ou fiz.

Acho que inventei
também o meu país.

Affonso Romano de Sant'Anna

eles riem-se





Juan Muñoz | Towards the Corner | 1998

Escreviver

ou morrer.

Terça-feira, Outubro 4

Lektion 3 (die Ordinalzahlen)

Die erste Elegie; Die zweite Elegie; Die dritte Elegie; Die vierte Elegie; Die fünfte Elegie; Die sechste Elegie; Die siebente Elegie; Die achte Elegie; Die neunte Elegie; Die zehnte Elegie.

Juan Muñoz é um magnífico dramaturgo

Susan Sontag in the anechoic chamber

The scene changes to an empty room.
Rimbaud has gone to Abyssinia to make his fortune in the slave trade. Wittgenstein has first chosen schoolteaching, then menial work as a hospital orderly. Duchamp has turned to chess. And, accompanying these exemplary renunciations of a vocation, each man has declared that he considers his previous achievements in poetry, philosophy, or art as trifling, of no importance.
...

Susan Sontag, The Aesthetics of Silence, in UBUWEB : PAPERS : WORDS

Fade out

Todos os candidatos têm grandes projectos para redimir o povo.
O povo é que não se dá conta.

Segunda-feira, Outubro 3

[No alfarrabista da Travessa de Cedofeita (Livraria Lumière) há alguns livros de Cesare Pavese na montra. Dois são meus, os outros de quem os agarrar.]

Sonho

Corre uma fome pela camarata —
É verdade...
Emanações, explosões. Um espírito:
«Eu sou o gruère! —
Lefêbvre: «Keller!»
O espírito: «Eu sou o Brie! —
Os soldados cortam o seu pão:
«É a vida!
O espírito. — «Eu sou o Roquefort!
— «Isso é a nossa morte!...
— Eu sou o gruère
E o Brie!... etc.

Arthur Rimbaud, tradução de Maria Gabriela Llansol, "O Rapaz raro (iluminações e poemas),
Relógio d'Água, Maio de 1998 (incluido numa carta a Ernest Delahaye)

a chávena de café na mão direita

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JUAN MUÑOZ | Après Degas | 1997 | resina e metal

Ganhe dinheiro a partir de casa

A literatura dá dinheiro!
Saiba como aqui.

Transportes alternativos

Esta manhã, no metro, comecei a ler as "Crónicas de Hollywood", de F. Scott Fitzgerald.
Mais ou menos a meio da terceira crónica, adormeci.

Domingo, Outubro 2

25. As ruínas de Babel

Nos arrabaldes da cidade, entre o Parque de Perversões Mengel e uma fábrica de chapéus desactivada, um grupo de telefilólogos amadores entrega-se à escuta dos postes telefónicos.
— Hoje atrasei-me, os melhores já devem estar ocupados.

... os dias tão devagar, os anos tão depressa...
... Lichtenstein, disse? Não estou a ver quem possa ser...
... sabe quantos fusos horários existem na União Soviética?...
... sr. Zetetis? Tem notícias da expedição ao Polo Sul?...
... acredito na poesia dos hotéis abandonados...
... estou a ouvi-la muito mal...
... lembras-te da letra de "You can even tango"?
... é do cine Orpheus?...
... não desligue por favor...
... na paz da floresta submersa...
... onze...
... Osvaldo, a Natércia nunca usou óculos nem aparelho nos dentes...
... queria reservar 2 bilhetes para a sessão das 16h30...
... onze fusos horários...
... e além do mais nunca foi tua namorada...
... na excitação das praias turísticas desertas...
... é ridículo...
... não vive aqui nenhum Lichtenstein, deve ser engano...
... está? Sr. Alzheimer?...
... comprei um puzzle na vossa loja e falta uma peça...
... na elegância dos cemitérios de automóveis...
... esqueceu-se de que hoje temos ensaio?...
... no mistério dos silos de estacionamento...
... nem sequer tem piada...
... Amélia Gozzil?...
... eu queria dizer-lhe que...
... achas que devo cortar o cabelo?
... Lichtenstein? Não trabalha ninguém com esse nome aqui. Experimente na secção de vendas...
... na beleza dos acidentes de viação...
... queria dizer-lhe que estou apaixonado por si...
... e se o pintasse?...
... uma constipação quase fatal...
... já não tenho mais moedas...

Dia e noite, os fios conduzem um fluxo ininterrupto de palavras.
— Se ouvíssemos estes diálogos na íntegra ficaríamos certamente desiludidos com a sua banalidade e irrelevância. Mas só conseguimos captar fragmentos....

O zumbido de mil milhares de vozes, o cheiro intenso da madeira tratada.
— E estes, por serem enigmáticos ganham aos nossos ouvidos, a nobreza a imponência de ruínas de uma cidade perdida.


José Carlos Fernandes em dueto com J.G. Ballard (na pista de som)