Nos arrabaldes da cidade, entre o Parque de Perversões Mengel e uma fábrica de chapéus desactivada, um grupo de telefilólogos amadores entrega-se à escuta dos postes telefónicos.
— Hoje atrasei-me, os melhores já devem estar ocupados.
... os dias tão devagar, os anos tão depressa...
... Lichtenstein, disse? Não estou a ver quem possa ser...
... sabe quantos fusos horários existem na União Soviética?...
... sr. Zetetis? Tem notícias da expedição ao Polo Sul?...
...
acredito na poesia dos hotéis abandonados...
... estou a ouvi-la muito mal...
... lembras-te da letra de "You can even tango"?
... é do cine Orpheus?...
... não desligue por favor...
...
na paz da floresta submersa...
... onze...
... Osvaldo, a Natércia nunca usou óculos nem aparelho nos dentes...
... queria reservar 2 bilhetes para a sessão das 16h30...
... onze fusos horários...
... e além do mais nunca foi tua namorada...
...
na excitação das praias turísticas desertas...
... é ridículo...
... não vive aqui nenhum Lichtenstein, deve ser engano...
... está? Sr. Alzheimer?...
... comprei um puzzle na vossa loja e falta uma peça...
...
na elegância dos cemitérios de automóveis...
... esqueceu-se de que hoje temos ensaio?...
...
no mistério dos silos de estacionamento...
... nem sequer tem piada...
... Amélia Gozzil?...
... eu queria dizer-lhe que...
... achas que devo cortar o cabelo?
... Lichtenstein? Não trabalha ninguém com esse nome aqui. Experimente na secção de vendas...
...
na beleza dos acidentes de viação...
... queria dizer-lhe que estou apaixonado por si...
... e se o pintasse?...
... uma constipação quase fatal...
... já não tenho mais moedas...
Dia e noite, os fios conduzem um fluxo ininterrupto de palavras.
— Se ouvíssemos estes diálogos na íntegra ficaríamos certamente desiludidos com a sua banalidade e irrelevância. Mas só conseguimos captar fragmentos....
O zumbido de mil milhares de vozes, o cheiro intenso da madeira tratada.
— E estes, por serem enigmáticos ganham aos nossos ouvidos, a nobreza a imponência de ruínas de uma cidade perdida.
José Carlos Fernandes em dueto com J.G. Ballard (na pista de som)