Sábado, Setembro 24

Lektion 2

Na Alemanha, antes de 1933, os cinemas eram chamados Lichtspiele (jogos de luz).

(aula gentilmente leccionada pelo senhor Jean-Marie Straub)

Sexta-feira, Setembro 23

You naughty boy!



«O que me agradou [no conto de Dauphne du Maurier] foi o facto de serem aves comuns, pássaros que vemos diariamente, conseguem compreender este estado de espírito?»
Alfred Hitchcock

o nosso CANDIDATO

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Entram no palco dois homens, de grão na asa, sorriem com simpatia um para o outro, alisam os penteados, aproximam-se do microfone.

Assessor de Imprensa: Queridos eleitores! Está aqui, para conversar convosco, o nosso candidato. Hoje é o último dia da campanha, ainda podemos falar com os eleitores do nosso programa, os senhores eleitores ainda podem ver-nos assim, informalmente... como pessoas normais, por isso vamos aproveitar esta boa ocasião e passar de imediato ao que interessa. Passo a palavra ao nosso candidato! (Bate palmas, cede o microfone ao CANDIDATO.)

Candidato: Se ainda persistirem dúvidas quanto ao destino que os queridos eleitores darão ao seu voto, pois bem, dêem-mo, a mim. Não vão lamentar e, se lamentarem, eu devolverei esse voto aos senhores. Prometo que não acontecerá nada ao voto dos eleitores. Dentro de quatro anos vou devolvê-lo aos senhores eleitores, são e salvo. Isto no caso de me elegerem, é claro! Para já, o principal: o meu plano, se me elegerem, é eliminar o trabalho!

Assessor de Imprensa: Sim?

Candidato: Sim!... Ultimamente tenho andado a pensar!

Assessor de Imprensa: Sim?

Candidato: Sim! Tenho andado a pensar... e passou-me pela cabeça, aliás, surgiu-me definitivamente na cabeça no preciso momento em que me dirigia para este encontro com os meus queridos...

Assessor de Imprensa: ... eleitores!

...

e as promessas continuam. Espertalhão, o CANDIDATO revela estratégias estúpidas, mas com uma lógica férrea, grandes conhecimentos futebolísticos e muito pátuá. Conhecem o género, não é?
O texto é de Vladímir Presniakov e Oleg Presniakov e a tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra. Os Livrinhos de Teatro são editados pela Cotovia & Artistas Unidos, encontram-se à venda nas melhores livrarias e cabem do bolso dos jeans.

Técnica mista

Para manter a forma, todas as manhãs finjo que saio de casa, apanho o autocarro e vou trabalhar no escritório. E depois finjo que escrevo sobre isso.

Duas Lolitas

"In the spring of 2004 Michael Maar published articles - first in the Frankfurter Allgemeine Zeitung and then in the Times Literary Supplement - pointing out striking similarities betweeen Vladimir Nabokov's classic novel, Lolita, and an earlier forgotten story (first published in 1916) by a largely forgotten German author and journalist, Heinz von Lichberg. Maar did not claim that Nabokov had plagiarised the piece, but suggested that the evidence did suggest some awareness on Nabokov's part of the precursor-story. It was a literary discovery that was widely reported and discussed."

A história não é nova. Mas vale a pena ler este artigo sobre o assunto.
Nesta página, há um longo excerto em português do artigo de Michael Maar, no Times Literary Supplement.

Quinta-feira, Setembro 22

strangers talk only about the weather #23

Decidimos trocar o inverno na Rússia pelo Verão na Islândia.

Cantam as nossas almas

A revista dos Artistas Unidos é a melhor publicação literária portuguesa, depois da aguasfurtadas.

Arquive-se como filme perdido

O tempo não está para brincadeiras por isso — a Rita que nos desculpe a carreira tão curta — a fotonovela acaba aqui, sem fade. Os beijos ficam reservados para os participantes: Mário, Teresa, Olho Pineal, at, NunoC, Sandra Costa, Maria, Afonso Bivar, Carla de Elsinore, Pontinha, Lídia Pereira, Pedro e Pedro. That's All, Folks!

Pancadinhas no borato de sódio #10

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Imagem: mais um fotograma de "Stranger than paradise" de Jim Jarmusch, sugerido por C.| Música: Calliope de Tom Waits (Sorry, not available anymore))

A CANSEIRA DOS MELHORES

«Em que anda a trabalhar?» — perguntaram ao sr. K. O sr. K respondeu: «Um trabalhão! Ando a preparar o meu próximo erro.»

Histórias do Sr. Keuner, de Bertold Brecht, tradução de Paulo Quintela, in Obras Completas (de Paulo Quintela) IV – Traduções III, Fundação Calouste Gulbenkian, 1999

Dalla nube alla resistenza

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No texto de introdução do catálogo que a Cinemateca Portuguesa dedicou a Jean-Marie Straub e Danièle Huillet em Novembro de 1998, António Rodrigues sugere que poder-se-ia explicar a obra dos dois cineastas através de curtas frases, de citações directa ou indirectamente extraídas dos seus próprios filmes.

Por exemplo, este ciclo poderia ter sido intitulado: Da nuvem à resistência
ou Os olhos não querem estar sempre fechados
ou Não reconciliados
ou Demasidado cedo, demasiado tarde
ou, de modo menos óbvio, Algo deve queimar em cada plano
ou Quando a terra voltar a brilhar verde para ti
ou É preciso? É preciso!
ou Mas no deserto, vós sois invencíveis
ou Destrói, estraga, engole, despedaça com uma fúria súbita o falso traidor, o sangue assassino
ou Mas se isto não é aquilo a que se chama cinema, que raio é então?
ou talvez En rachâchant
ou até Lições de história

Mil maravilhas

Quando deus fez os homens, deu-lhes várias coisas extraordinárias. Esqueceu-se, porém, da literatura. Alguém fez então notar a deus o seu divino erro. Este, reconhecendo a importância da literatura na vida terrena, ofereceu aos homens as fábricas inesgotáveis de bibelôs chineses.

Quarta-feira, Setembro 21

Pancadinhas no borato de sódio #9

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I'll give you a basket of hugs, but then you'll run away, I guess. You always run away.
— Maybe if your arms were two poems...
— I thought they were...
— Sometimes, in some cold, cold nights... [>|]

Imagem: fotograma de "Stranger than paradise" de Jim Jarmusch, sugerido por C.| Texto: Pedro.

Ver coisas

Bel Canto

Num jornal, cujo título prefiro não revelar, leio que a Assírio & Alvim promete para esta rentrée a primeira edição portuguesa dos "Cantos", de Pound. É pelo menos a segunda vez que a editora anuncia este volume. Eu compreendo que seja complicado lançar um livro que pesa sensivelmente quatro quilos. Além disso, nem todos os tradutores têm músculo para certos trabalhos pesados. Mas, caramba, será desta?

The Blue Brother

A Relógio D'Água, por sua vez, anuncia para breve a edição de "O Homem da Guitarra Azul", o clássico de Wallace Stevens, de 1937.
O Outono promete.

Ela sofria de um grave problema sentimental.

"Um tipo raro de disfunção fonético-semântica", explicaram os médicos. Em vez de beijos, rolavam pela sua boca em projecções fantásticas, verdadeiros seixos. Redondos, macios, cor-de-rosa.

with chairs, with foam



Julião Sarmento > I Love You (with chairs) + Kiss Me (with foam)

A notícia do dia:

uma rapariga de vestido às flores
atravessa uma ponte.

Lasse Söderberg

Terça-feira, Setembro 20

Revisões da matéria dada

O Público de ontem incluía, na página 37, um poema de Nuno Júdice intitulado "O Banho de Susana", baseado na célebre história de "Susana e os velhos", contada pelo profeta Daniel, no Velho Testamento. Por qualquer razão que eu não compreendo, ainda há quem insista nos habituais lugares comuns associados a este episódio: durante o seu banho, a inocente Susana é vítima de um pérfido acto de voyeurismo cometido por dois velhos com más intenções e patati-patatá. Pela minha parte podem ter a certeza que não acredito nem pouco mais ou menos nessa historieta. Susana sabia muito bem que os velhos jarretas a espiavam. Há muito tempo que os velhos e Susana confraternizavam desta maneira. Tintoretto também notou que a história estava mal contada, pondo em cena todos os personagens em perfeita harmonia, juntando-os num tranquilo idílio.

Pancadinhas no borato de sódio #8



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Àquela hora da tarde, o café estava praticamente deserto. Miguel acendeu um cigarro. Rita continuava atrasada. Do outro lado da sala, duas velhotas dormitavam, embaladas pela música caprichosa da máquina de café.
Miguel não sabia explicar porque razão gostava de Rita. Quer dizer, Miguel adorava nela precisamente o que deveria repugná-lo: a obsessão dela em relação à literatura. Miguel detestava o luxo literário. Rita exalava literatura por todos os seus poros, por todas as suas articulações, pelo seu corpo, pela sua alma. A sua vida era uma espécie de programa literário. Miguel era incapaz de apreciar pessoas como ela. E, no entanto, adorava-a. Pior: ele sabia que a literatura havia de a aniquilar. E, por consequência, a ele também.
Enquanto metade da sua cabeça pensava isto, a outra metade notou que Rita entrara no café e se encaminhava rapidamente para a sua mesa.
— "What would you give me for a basket of kisses?" — disparou Rita.
Miguel suspirou.[>]

Imagem: sugerida pelo Pedro | Texto: RMA

Tudo, compreende?

"Se passo demasiado alto / ou demasiado baixo / está tudo estragado. Não pode existir / uma malha muito lassa / um buraco / por onde a emoção / a luz / a verdade se escape. / Compreenda / que trabalho a tela toda / aproximo, no mesmo ímpeto / na mesma fé / tudo o que se espalha / tudo o que vemos se dispersa, / desaparece. / A natureza é sempre a mesma, / mas nada resta dela / do que nos aparece. / A nossa arte deve dar o frémito da sua duração / com os elementos, a aparência de todas as mudanças / deve fazer-nos apreciá-la / eterna / que existe por baixo dela? / Talvez nada, talvez tudo. / Tudo, compreende? (...)"

" (...) Mas se tenho a mínima distracção, / a mínima falha, / fraqueza, / sobretudo se interpreto excessivamente, / se uma teoria me fascina hoje, / que contraria a da véspera, / se penso enquanto pinto, / se intervenho, / pronto, desaparece tudo! / —Se intervém, como? / O artista é apenas um receptáculo de sensações, um cérebro / um aparelho registador. / Se intervém, se ousa misturar-se / voluntariamente no que deve traduzir / introduz a sua pequenez. / A obra é inferior./ — Para si, o artista seria então inferior à natureza? / Não, não disse nada disso. / A arte é uma harmonia paralela à natureza / se o pintor não se intrometer voluntariamente, / compreenda-me bem. / Toda a sua vontade, deve ser silêncio. / Deve fazer calar em si todas as vozes dos preconceitos. / Deve esquecer / esquecer, fazer silêncio. / Ser um eco perfeito / então, na sua placa sensível, / toda a paisagem se inscreverá. / Para a fixar na tela, para a exteriorizar, / virá depois a técnica, / mas uma técnica respeitosa, / que também só deve obedecer, / traduzir inconscientemente, / de tal modo conhece a língua, / o texto que decifra, / os dois textos paralelos, / a natureza vista e a natureza sentida / que devem, ambas, / amalgamar-se. / A paisagem reflete-se, / humaniza-se, / pensa-se em mim. / Objectivo-a, projecto-a / fixo-a na minha tela. (...)!

fragmentos do texto do terceiro plano de CÉZANNE de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, citados por João Botelho no artigo "Se isto não é o cinema, que raio então é o cinema?, páginas 62 e 63 do catálogo da Cinemateca Portuguesa, Novembro de 1998
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No outro dia, vimos (...) um filme de Stroheim que não conhecíamos, HELLO SISTER*: o que se perdeu no cinema, de lá para cá, é absolutamente fabuloso. Pois a democracia não deve existir apenas a nível das personagens, mas também a nível do equilíbrio entre a personagem e o espaço no qual ela é mostrado. Quando Stroheim mostra uma rua, a rua existe. Quando a personagem atravessa uma rua, é um terror, sente-se o que é uma rua, o trânsito e um ser humano numa rua. (...) Há muito pouca gente capaz de fazer isto, hoje. (...) seria necessário que em cada segundo, em cada plano, se sinta aquilo que Renoir chamava a feeria. É por isso que Stroheim é o maior, maior do que Griffith ou John Ford, mesmo que eu não me lembre de nada maior do que CIVIL WAR em HOW THE WEST WAS WON.

Jean-Marie Straub, Catálogo da Cinemateca Portuguesa, Novembro de 1998

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* Título com o qual foi distribuído WALKING DOWN BROADWAY (1932-36), iniciado por Stroheim e terminado por Alfred Louis Werker

Lost in adulation

Some writers achieve great popularity and then disappear forever. The bestseller lists of the past fifty years are, with a few lively exceptions, a somber graveyard of dead books.

Carlos Fuentes, na Sign and Sight.

Segunda-feira, Setembro 19

Bela Infância

A boca de uma rapariga que passara muito tempo no canavial
estava tão roída.
Quando lhe abriram o peito, o esófago estava todo esburacado.
Finalmente, num caramanchão sob o diafragma
encontrou-se um ninho de ratinhos.
Um dos irmãozinhos estava morto.
Os outros tinham vivido do fígado e dos rins,
bebido o sangue frio e passado
aqui uma bela infância.
Mas depressa tiveram também uma bela morte:
Deitaram-nos todos à água.
Ah, como os pequenos focinhos chiavam!


Gottfried Benn, "50 Poemas", tradução de Vasco Graça Moura, Relógio d'Água, Janeiro de 1998

o vento nas árvores

Há uma frase muito bonita de Griffith: "O que falta ao cinema moderno é a beleza, a beleza do vento nas árvores". O vento é importante, (...) o vento não é nada mais do que o espírito...

Jean-Marie Straub, Catálogo da Cinemateca Portuguesa, Novembro de 1998

Einstellung

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(...) É necessário, acima de tudo, que a câmara não seja um olho, mas um olhar. Este é o trabalho. (...) E conhecer a distância, moral e material (dá na mesma) entre o que se mostra e a câmara. Para o enquadramento, os alemães usam a palavra "Einstellung". Einstellung também significa disposição moral. (...) O que é necessário, creio, é uma ideia. Uma ideia que não seja uma intenção simbólica nem psicológica. Uma ideia moral, logo política.

Jean-Marie Straub, Catálogo da Cinemateca Portuguesa, Novembro de 1998

Domingo, Setembro 18

Lektion 1

(de manhã na esplanada) Misturo frases banais (Ich möchte mit Rita Wolbert sprechen) com poemas difíceis (Der Tod ist eine Blume, die blüht ein einzig Mal. / Doch so er blüht, blüht nichts als er. / Er blüht, sobald er will, er blüht nich in der Zeit. / ...) e, sem querer, descubro que "sombra" é do género masculino, diz-se: der Schatten.

Pensamento do dia

Se o amor é questão de corpo, há que conhecer intimamente esta ferramenta - por outras palavras, ler os anatomistas e não os poetas, frequentar as clínicas e não os teatros.
Miklós Szentkuthy, "À Margem de Casanova".