Sábado, Setembro 17

Pancadinhas no borato de sódio #7

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— Miguel? Preciso de falar contigo. Não, ao telefone não. No café. Daqui a meia hora. [>]

Imagem: Mario Algaze, Club La Paz, Bolivia, 1989. Sugerida por Lídia Pereira | Texto: C.

Sexta-feira, Setembro 16

CXVI

A man walked into a bar at sunset, took his hat off and wiped his brow with the back of his shirtsleeve.
"After a hard day's work you deserve a cold beer," said the bartender.
"Gimme a cold beer," he said. "It's been a long day but it's all worth it now."
The rest of the work crew walked into the bar.
"We've been working hard and now working time is through," they said.
"There's nothing like a cold beer when all is said and done."
"Man this beer hits the spot," said one, "all day long, while I was working, I was imagining how good this was gonna taste."
"Yeah, there's nothing like an ice cold beer after a hard day's work," said another.


David Berman, From Cantos for James Michener: Part II , in Actual Air, Drag City
Quando alguém diz: "Gosto de comer poetas ao pequeno-almoço", não é ironia, é profissão de fé.

coffee & Mahler

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Almoço de sexta-feira

Pão-alvo e pão molete em abundância; carnes assadas e grelhadas de diversas formas; guisados de nove espécies; couves repolhudas com tutano de boi; linguiças, salsichas e salpicões; salsichões, fricandós e presuntos; almôndegas e morcelas; carne-de-porco salgada; ovos preparados de cinquenta e três maneiras diferentes; trutas, azevias, rodovalhos e solhas, congros, lagostas e salmões; ostras e caranguejos; vinte e quatro espécies de caça; quartos de carneiro com alcaparras, carne de vaca de certo modo; polmes de ervilha, de favas e de espinafres; espargos e alcachofras; cem espécies de saladas; depois, queijos de todas as qualidades; pêssegos e pastéis de marmelo; coscorões, tortas de cem maneiras, cremes e confeitos (setenta e oito espécies); vinte qualidades de empadas; granjeias de cem cores; e tudo regado a vinho branco, a vinho tinto e de hipocraz em enormes copos.

Ementa, ainda que sumária, do banquete que os Gastrólatras ofereceram a Pantagruel e aos seus companheiros, durante a sua viagem até à terra de Bacbuc.
Rabelais tem o cuidado de sublinhar que do repasto nada sobrou.
...
Törless lembrou-se então de como lhe custara imaginar a vida dos pais. E olhou de soslaio para a mãe.
— O que é, filho?
— Nada, mãe, estava a pensar numa coisa.
E aspirou o cheiro levemente perfumado que subia do regaço da mãe.



fim de "As perturbações do pupilo Törless", tradução de João Barrento, D. Quixote, Lisboa, 2005

O movimento dos corpos celestes

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Mathieu Carrière em Der junge Törless, de Volker Schlöndorff, 1966

O que mais me comoveu no livro de Robert Musil foram os movimentos de Törless. Longe de casa e da família, ele ensaia pela primeira vez os verdadeiros movimentos do corpo e da alma. É um percurso nebuloso e instável que o leva até aquilo que existe sem prova, aquilo que não se consegue descrever, uma espécie de números imaginários só que ainda mais inacessíveis e assombrosos. A partir daí o mundo de Törless será deslumbrante como nunca antes:
«E nisto reparou — como se fosse a primeira vez — como o céu era alto.
Foi como um sobressalto. Mesmo por cima dele brilhava no azul uma pequena abertura incrivelmente funda entre as nuvens.
Sentiu que tinha de ser possível subir até lá com uma escada comprida, muito comprida. Mas quanto mais ele aí penetrava, subindo com o olhar, tanto mais o fundo azul brilhante se retirava. E no entanto parecia que era possível alcançá-lo e fazê-lo parar com o olhar. Este desejo tornou-se torturantemente intenso.
Era como se a visão, extremamente tensa, disparasse olhares como flechas por entre as nuvens, e como se ela, por mais longe que apontasse, falhasse sempre por pouco o alvo.»

mas também obscuro e movediço:
«Há qualquer coisa de obscuro em mim, sob os pensamentos, e que eu não posso avaliar com o pensamento, uma vida que não se deixa traduzir em palavras e que, apesar disso, é a minha vida...»

Quinta-feira, Setembro 15

Introdução aos estudos clássicos

Como Vergilio,
yo también amo a los pastores
con la diferencia de que,
dos mil años después del Mantuano,
encontré en un verde prado
un pastor reclinado en un tronco
tocando su armónica,
mientras pastaban las ovejas.

El fondo del paisage lo cerraba
una montaña azul, que hacía
un cuadro eglógico perfecto:
sólo me faltaba dialogar con el pastor.

Desde el alambrado lo llamé
levantando mi brazo
y él con el suyo me hizo un corte obsceno,
que me dejó como estúpido e mascando
las contradicciones de la vida y el arte,
el sexo y el amor.

Francisco Gandolfo

rua Justino Teixeira

As operárias saem entre as cinco e meia e as seis. Sobem a rua em pequenos grupos. Vestem roupas frescas e coloridas e trazem muitos sacos nas mãos, como se tivessem passado a tarde nas compras. Conversam; enquanto bebo o meu café junto à janela do primeiro andar apanho uma ou outra palavra. Lumière não as reconheceria. Nem JL Godard. E no entanto elas avançam, decididas, para o autocarro.

Pancadinhas no borato de sódio #6

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«... a minha obsessão seria uma realidade, existiria realmente no meu espírito; ou seria apenas um sonho que eu tivera e não lograra esquecer, confundindo-o com a realidade?»

Não existem pessoas de sombra... é tudo invenção e delírio dos escritores. As sombras não me assustam, são pura evanescência, mero reflexo... não tenho medo e desprezo todos os livros que digam o contrário... malditos livros... [>]

Imagem: de Allyson Clay (sem data nem nome). Sugerida por C. | Texto: C. com citação de "A Confissão de Lúcio" de Mário de Sá-Carneiro e duas palavras roubadas a "A História Fabulosa de Peter Schlemihl" de Adelbert von Chamisso.

As Setas de João Barrento #11

O último, e talvez o mais marcante, "punctum" do dia não o foi propriamente, pelo menos no sentido exacto do termo. Trata-se de uma tabuinha de Giovanni del Marco, ou del Ponte (1385-1437), "Os Reis Magos", colocada, como que por acaso — e nisto está o "punctum" —, à entrada de uma das muitas salas dos Mestres antigos. Essa pequena tábua, uma barra mínima de inspiração bizantina e tons quentes, saltou, como seta despedida do branco da parede alta, quase só ombreira de acesso aos grandes mestres, para os meus olhos e para os que me acompanhram nesse dia: o seu "punctum" foi a sua situação de modesto mas intenso lampejo de beleza, destacando-se no branco neutro da parede. Se pudesse escolher, seria o quadro que traria para casa.

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

Rejoicing in sound

A Lídia trouxe a boa nova: UBU IS BACK!

o pesadelo de JL Godard era o livro vermelho

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Quarta-feira, Setembro 14

Anedota

"Sonhei ontem que tinha um sapo gigante fechando o meu caminho. Ele não saía do lugar; eu ficava olhando pra cara dele à espera de qualquer coisa. (Verde.) Mas ele me encarava, piscava os dois olhos ao mesmo tempo, bem devagar, e dizia:

ÔI.

eu tossia um pouco, trocava de lado, ele olhava de novo e dizia:

ÔI.

foi assim a noite inteira - daí eu acordei, meu pai acendeu a luz e disse ÔI."

Respigado na Hortaliça. O "jornal" que ajuda a manter as gengivas saudáveis.

o sonho de JL Godard era fazer fotonovelas

Claro que não há mal nenhum em abusar dos adjectivos. Desde que o abusador use protecção.

"A banda [Mesa] que ninguém sabia quem era infiltrou-se nos ouvidos de muito boa gente, conquistou crítica, exposição mediática - e tudo isto com o mérito simultâneo de rasgar o hímen arreigado e acéfalo das 'playlists'"

João Bonifácio, suplemento "Y", do jornal Público (9 de Setembro).

take one

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winnie:
a sombrinha que me deste. naquele dia. (Pausa). aquele dia. o lago. os nenúfares. (Olha em frente. Pausa) qual dia? (Pausa) quais nenúfares? (Longa pausa. Fecha os olhos. Campainha estridente. Abre logo os olhos. Pausa. Olha à direita)

As Setas de João Barrento #10

"A melancolia de um belo dia" (Chirico): grandes superfícies, céu e terra, monte e casa, arte e homem, e as sombras. Pintura do tempo. Anda por aqui toda a existência, desde as origens.

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

Sarabanda

"Giacomo Casanova obtém a maior parte das suas vitórias amorosas no fundo das caleches - o que não deixa de ser notável, se pensarmos nos obstáculos da época. Molas de uma qualidade deplorável, estradas campestres férteis em lamaçais - com mais buracos do que a Lua! - corpetes e outros trapos femininos que entravavam os movimentos, sem esquecer os olhares indiscretos que lançam criados marotos - e, a despeito disso tudo, o homem triunfa em poucos minutos!
Sem dúvida que as mulheres desse tempo se mostravam mais consentâneas (pelo menos, nas 'Memórias'), isto é, mais viris quanto às coisas da carne. Apenas o critério da sensualidade? Mesmo nas mais grotescas posturas, o corpo é susceptível de se entregar às mais graves alegrias - e isto sem o menor cuidado estético.
Nem que sejam sublimes, as mulheres que exigem um ambiente apropriado - cores, perfumes, preliminares, Abschaukelung ('demora') - deviam deixar o amor para as outras. O 'ambiente' constitui sem dúvida o bicho mais insidioso que a impotência inventou! Só há uma coisa autêntica: servir o corpo nos seus mais burlescos gozos com o mesmo pathos que Orfeu punha ao serviço do seu alaúde infernal!"

Miklós Szentkuthy, "À Margem de Casanova".

Terça-feira, Setembro 13

Pancadinhas no borato de sódio #5

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Ela percebeu que tinha sido reconhecida. Confirmou as suspeitas no dia em que encostou a sombra à parede:

— Tu ou eu. Este buraco é demasiado estreito para ambas.

A sombra estava preparada para o ataque. Permaneceu em silêncio e esboçou um sorriso. Não imaginas o que te espera minha querida, pensou. [>]

Imagem: Sombra, de Lourdes Castro, s/d. Sugerida por C. | Texto: Carla de Elsinore

As Setas de João Barrento #9

"L' homme des nuages" (Frits van den Borghe, 1927): o Surrealismo belga mostra a metafísica ocidental quadripartida. No quadro, quatro nuvens e um homem a atravessá-las. Quatro níveis que se vão rarefazendo dos pés para a cabeça: ao nível dos pés, a Comida; ao nível do sexo, a Mulher nua; ao nível do coração, a Rosa; no topo, a Cabeça, o grande símbolo da encefalocracia ocidental desde Sócrates (só falta o nível cristão da Alma).

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

Queridos leitores!

A semana passada decidimos contratar um consultor (um tipo muito bom, com diversos MBA's e devidamente reverenciado pela comunidade) para analisar o nosso blogue; queriamos ser proactivos. O dossier chegou hoje, pagámos um balúrdio mas valeu a pena pois ficámos a saber que, número um: falta-nos uma orientação política clara e ao mesmo tempo polémica; e número dois: precisamos de mais exposição pública, demonstrar mais sentimentos e afectos, gerar empatias.
Havia um número três que fazia considerações estéticas sobre o que escrevemos mas por descuido caiu-lhe um café em cima e ficou ilegível.

Voltando ao assunto, ainda pensamos fazer uma reportagem fotográfica, uma coisa tipo Wallpaper*, erótico@chique#homeless&design mas eu teimava em aparecer com o colete retro-reflector e o Rui..., bom, nem comento as propostas dele; além disso as nossas casas são uma lástima e nós não somos fotogénicos. Por defeito, desistimos dos sentimentos espontâneos.

Concluimos que nos restava apenas a opção política, por isso, e apesar de nos provocar vómitos constantes, resolvemos antecipar a campanha eleitoral e convidar O Nosso Candidato. Quem tiver pressa deve consultar o Livrinho de Teatro #13, página 85; quem puder, que aguente. É uma promessa para cumprir.

Perdas poéticas

Perco, em média, três poemas por semana
por desatenção e desmazelo.
Ainda há pouco um solicitou-me a atenção
e perdulário fingi não vê-lo.

Ah, o que perco por soberba
o que perco talvez por não aceitar
o que eu mesmo me ofereço.

Os que me vêem passar
me pensam rico, no entanto,
o que perdi não tinha preço.

Affonso Romano de Sant'Anna

Pancadinhas no borato de sódio #4



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Como se sabe, Rita morreu no dia em que deveria começar esta fotonovela. O ponto mais alto da sua carreira de actriz e modelo fotográfico. Agora que já decorreu algum tempo e é possível olhar para trás com alguma serenidade, certos sinais ganham um sentido inesperado. Alguns dias antes da tragédia, Rita disse-me que em sua casa se passavam coisas estranhas durante a noite. E o mais surpreendente é que ela desconfiava da sua própria sombra. Rita estava convencida que, enquanto dormia, a sua sombra planeava a sua morte. [>]

Texto: RMA. | Imagem: "Some places in the world a woman could walk (Twitch)", de Allyson Clay, 1993. Sugerida por Afonso Bivar.

Atalante

Henri Langlois: Le cinéma muet fut un diamant d'abord brut, puis poli et taillé. Le cinéma sonore doit fondre deux ordres de matériaux, l'image et le son, comme le fait l'art du vitrail ou celui de la céramique.
Mais seul Vigo a réussi cette fusion parfaite: son cinéma est aussi homogène que du muet.


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Dita Parlo no Teatro do Campo Alegre, hoje e amanhã às 18h30 e 22h00

É imenso o império do ice cream

Volto ao João César Monteiro, a Morituri te Salutant e à auto-entrevista em que o próprio se questiona sobre a realização do seu primeiro filme, um curto documentário sobre Sophia de Mello Breyner. Dois pequenos sublinhados :

— Não lhe parece que o seu filme possa constituir uma mudança na vida do documentarismo português?
— Não faço ideia. Acabei o filme em Dezembro e de então para cá tenho feito publicidade e comprado camisolas de gola alta. Não se muda nada a comprar camisolas de gola alta. Nem sequer o carácter.
...

— Que critério adopta na selecção dos textos escolhidos para o filme?
— Escolhi o final de "A Menina do Mar" porque gosto de ouvir ler contos infantis e porque desconfio que aquele bocadinho dá prazer aos meus amigos milaneses.
...

Dos amigos milaneses nada sei, no entanto percebo muito bem o prazer dos contos infantis e aprovo, aliás, mais do que isso, proponho comemorações privadas na esplanada do Apolo 80: gelado de framboesa para três — esperamos por Walser. Está bom tempo, ele há-de chegar. Como é que se diz gelado de frambroesa em alemão, Alexandra?

The Definition of Gardening

Jim just loves to garden, yes he does.
He likes nothing better than to put on
his little overalls and his straw hat.
He says, "Let's go get those tools, Jim."
But then doubt begins to set in.
He says, "What is a garden, anyway?"
And thoughts about a "modernistic" garden
begin to trouble him, eat away at his resolve.
He stands in the driveway a long time.
"Horticulture is a groping in the dark
into the obscure and unfamiliar,
kneeling before a disinterested secret,
slapping it, punching it like a Chinese puzzle,
birdbrained babbling gibberish, dig and
destroy, pull out and apply salt,
hoe and spray, before it spreads, burn roots,
where not desired, with gloved hands, poisonous,
the self-sacrifice of it, the self-love,
into the interior, thunderclap, excruciating,
through the nose, the earsplitting necrology
of it, the withering, shrivelling,
the handy hose holder and Persian insect powder
and smut fungi, the enemies of the iris,
wireworms are worse than their parents,
there is no way out, flowers as big as heads,
pock-marked, disfigured, blinking insolently
at me, the me who so loves to garden
because it prevents the heaving of the ground
and the untimely death of porch furniture,
and dark, murky days in a large city
and the dream home under a permanent storm
is also a factor to keep in mind."

James Tate

Segunda-feira, Setembro 12

I'm going to kill myself tomorrow

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wes anderson meets elliot smith meets salinger meets richie tenenbaum meets louis malle meets...

As Setas de João Barrento #8

"A queda de Ícaro" (Pieter Brueghel): a representação mais inesperada deste mito. Quase só mar, natureza e cidade. Primeiro plano: um lavrador indiferente, um pastor a olhar para o céu, mas para o lado errado; atrás dele, na água, mas quase sem se ver, o Ícaro caído. E o pescador que nem dá por ele, o céu amarelado, o Sol aa pôr-se. De Ícaro, o quadro parece não querer saber: é um ponto no canto inferior direito (como que uma assinatura), já caído na água, de pernas para o ar. Natureza e cidade ocupam quase toda a composição. A insignificância de Ícaro contém um sentido filosófico-moral: condena-se a ambição desmedida. Neste quadro, o heroi mítico é um "anti-punctum".

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

Words? Music? No: it's what's behind

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O senhor Leopoldo decidiu ler o "Ulisses" de James Joyce. É um homem empenhado e queria a toda a força perceber a instabilidade (o itálico é dele) da música contemporânea. Quando lhe disseram * que o livro era um caminho possível nem hesitou, meteu logo mãos à obra. Trinta páginas por dia, transpirava, franzia o sobrolho, resfolgava. No fim da batalha não compreendeu nem as palavras nem a música e, para grande tristeza da mulher, passou a comer rins ao pequeno-almoço.

Pancadinhas no borato de sódio #3

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Rita caminhava sempre como se fosse ao encontro da morte ou do amor. Demasiado segura, usava o chão como os deuses usam as sombras para enviar presságios aos homens: deixando horas vazias por onde passava.

Rita não era a mulher da fotografia.[>]

Imagem: de Guy Bourdin. Sugerida por C. | Texto: Sandra Costa

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Nota: Na caixa de comentários, há vários caminhos alternativos para esta fotonovela. Esses caminhos poderão continuar a ser explorados nas caixas de comentários, funcionando, digamos, como histórias paralelas. Não excluímos a possibilidade de, a qualquer momento, converter uma dessas "histórias paralelas" na "história oficial".

O único postulado lógico da civilização

"Sófocles? Shakespeare? Nunca saberiam transcrever a fissura que exala este simples fragmento de Casanova: 'Saio mascarado.'"

Miklós Szentkuthy, "À Margem de Casanova".

Conclusão:

O meu mecânico, o Sr. Neves, é um artista moderno: apoia-se nos desperdícios e não nas finas matérias.

Domingo, Setembro 11

Cellar Door

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Karen Pommeroy: This famous linguist once said that of all the phrases in the English language, of all the endless combinations of words in all of history, that Cellar Door is the most beautiful.

As Setas de João Barrento #7

"Adão e Eva" (Lucas Cranach, o Velho): quadro dos mais conhecidos. Mas reparo agora na posição das pernas de Eva (a direita, aliás, muito mal pintada, e o joelho esquerdo não é melhor): com a perna esquerda toda enrolada na direita, como é que ela não cai? Estranho é também o grande alce atrás de Eva (será já uma Diana caçadora? De homens?)

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005