Sábado, Setembro 10

As Setas de João Barrento #6

"Calvário" (Escola Alemã do Médio Reno, primeira metade do século XV): um Calvário de marca bizantina, fundo a ouro, figuras que parecem uma "collage" do século XX, e um S. Jorge com o dragão à trela! E esta, hein? Mas também já vi coelhos à trela num parque de Stuttgart. E Benjamin lembra que, quando surgiram as primeiras Passagens de Paris, os "flâneurs" elegantes passeavam tartarugas pelas galerias como sinal do ritmo da sua ociosidade.

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

Sexta-feira, Setembro 9

Enquanto a chuva não recomeça

Certo dia, um estudante perguntou a Yitzhak de Berdichev, um dos grandes mestres Hassidim, por que razão se encontrava ausente a primeira página de todos os tratados no Talmude Bavli (Talmude da Babilónia), de forma que o leitor era obrigado a começar sempre na página 2. "Porque, por muitas páginas que o estudioso leia", respondeu o rabino, "não deve nunca esquecer que não chegou ainda à primeira página".

(Cf. BENTO, António, "A ideia do Estudo", Revista "Boca de Incêndio", nº 2.)

Figos

A maneira correcta de comer um figo à mesa
É parti-Io em quatro, pegando no pedúnculo,
E abri-Io para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida,
desabrochada em quatro espessas pétalas.

...

David Herbert Lawrence, versão de Herberto Helder

Dirty Dictators



Claro que num ditador o que me incomoda mais é a crueldade, a crueldade premeditada. Depois as outras características, por exemplo: a mesquinhez. Isto vem a propósito de um pequeno recorte de jornal sobre o Arquivo Salazar que veio parar às minhas mãos e no qual se conta que numa determinada carta Salazar informava o seu destinatário que "aquele homem não pode ser chefe de secretaria porque é da oposição, tem uma amante e a mulher pinta-se".

E já que falamos em ditadores, convém não perder os Dirty Dictators de THOMAS SCHÜTTE em Serralves (até 25 de Setembro).
Para a série, Frases que impõem respeito [hors série]

Nos dezoito dias que passei na Graciosa entretive-me a coleccionar frases que impõem respeito na ilha. Seleccionei três que explicam o que qualquer turista pode esperar da Graciosa, ou seja: nada ou muito pouco.
Eu, que desprezo alemães barrigudos, japoneses com máquinas, famílias com crianças aos gritos, cheiro a bronzeador em igrejas, que, confesso, sou mais preconceituosa do que pareço, que gosto da ilha assim mesmo, um bocado antiquada e carrancuda, difícil talvez mas por outro lado tão encantadora, concluindo: acho muita graça às expressões.

(a modos de conselho) Tira o cavalinho da chuva

(o facto consumado) Dar com os burrinhos na água

(com resignação) Traga o que houver

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As Setas de João Barrento #5

"Apolo e Diana" (Lucas Cranach, o Velho): aquela faixa e aquele laço, a cobrir as partes de Apolo, são pura Arte Nova!

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

Estradas secundárias

Aqui Jaz o Jazz

Quinta-feira, Setembro 8

A primeira vez que entendi

A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou mexendo.

De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.

Affonso Romano de Sant'Anna

Oil on canvas

No dia em que decidiu não dar mais ouvidos a Gauguin, Van Gogh perdeu uma orelha.

Pancadinhas no borato de sódio #2

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[<]
Tudo começou num café. Não é precisa muita imaginação, basta um café vulgar com paredes vermelhas, sofás escuros, ketchup, maionese, sal e pimenta. Como nesta fotografia; digamos que tudo começou neste café.
Ela era demasiado nova ou então via demasiados filmes... pensava que era só ligar uma jukebox e saiam tangos, tipo romântica... percebem? Mas isso já não interessa, a Rita morreu ontem. Vou reconstituir os últimos dias como pede o contrato e depois desapareço. Posso fumar um cigarro? [>]

Imagem: de Ben Couvillion, 2004. Sugerida por RMA. | Texto: C.

Vários tamanhos

Claro que não há mal nenhum no facto de os "grandes representantes do romance contemporâneo" passarem a vida a escrever poemas de amor, oh, tão belos, puros e castos. E os "melhores poetas vivos" se dedicarem com enorme gosto à crítica literária "de qualidade". E os melhores críticos literários da actualidade consagrarem o seu génio à escrita de dramas e tragédias, "dos mais extraordinários que se escreveram nos últimos anos". E os nossos grandes dramaturgos fazerem carreira como cronistas em jornais de referência e animadores de cocktail. E os cronistas escreverem romances históricos recordistas de vendas e com direito a destaque nos salões internacionais.

Claro que não há mal nenhum nisto. Mas eu prefiro os mortos.

As Setas de João Barrento #4

"Sant' Ana, Virgem e Menino, com Santos" (Mestre da lenda de Santa Úrsula): descubro no rosto da Virgem uma rapariga que vi no dia anterior no comboio! E o menino — parece um "rocker" flamengo de hoje, cabeleira loura, solta, sorriso trocista e atrevido!

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

ich, du

Decidi aprender alemão por causa dos meus escritores. Enquanto as aulas não começam vou ensaiando algumas palavras e frases em casa; para já, a maior dificuldade é ultrapassar a trovoada que se acumula na boca, o alemão tem consoantes a mais e as consoantes são agrestes. A primeira palavra preferida (nem sei se é surpreendente ou não) é Schnee (lê-se chenê). Quer dizer neve mas a mim soa como um cachecol morno. Agarro-me a ela, é esse o meu caminho.

where I belong is on Bourbon Street

Nova Orleães (1946)

...
Certa manhã — julgo que era Dezembro, um domingo frio com um sol cinzento e triste — subi o bairro até ao velho mercado onde, nessa altura do ano, se encontram delicados frutos de Inverno, tangerinas doces, a vinte cêntimos a dúzia, e flores de inverno, poinsetias e camélias brancas. As ruas de Nova Orleães têm perspectivas compridas e solitárias; nas horas mortas o seu ambiente faz lembrar Chirico, e as coisas inocentes (um rosto por trás da luz entrecortada de uns estores, freiras caminhando ao longe, um braço gordo e escuro balouçando languidamente de uma janela, um rapaz negro agachado sozinho num beco, soprando bolas de sabão e observando tristemente a sua ascenção e explosão) adquirem geralmente contornos de violência. Nessa manhã, dizia, detive-me no meio de um quarteirão, porque me apercebera pelo canto do olho, de um túnel, de um jardim deixado ao abandono. Um cão de caça branco com um aspecto alucinado permanecia hirto na luz verde da relva que brilhava no fim do túnel e, compulsivamente, virei nessa direcção. Lá dentro havia uma fonte, a água jorrava delicadamente da boca de bronze da estátua de um macaco e produzia sons de sinos desolados em charcos de seixos. Pendia de um salgueiro: um homem com ar de bandido e cabelo platinado, artificial; pendia tão frouxamente como o próprio salgueiro. Havia terror naquele jardim sufocado e silencioso. As janelas fechadas espreitavam às cegas; as babas dos caracóis cintilavam, prateadas, sobre inhames, nada se mexia a não ser a sua sombra. Balouçava levemente, para trás e para a frente, e todavia não havia vento. Tinha um anel com um diamante de imitação que luzia ao sol, e no seu braço a tatuagem de um nome, «Francy». O cão baixou a cabeça para beber da fonte, e eu larguei a correr. Francy — teria sido por ela que se matara? Não sei N.O. (Nova Orleães) é um lugar secreto.
...

Truman Capote, "Os cães ladram", tradução de Margarida Vale de Gato, Relógio d'Água, Julho de 2002

Livros usados, raros e esgotados

No silêncio da noite encantada
há um aroma a excrementos e um pedaço de lata
que me corta o sapato.

Jorge Eduardo Eielson.
"Naturaleza Muerta", 1958.

[A tradução, lamentavelmente, é minha.]

Quarta-feira, Setembro 7

Pancadinhas no borato de sódio #1



Fumando um cigarro, 30 metros acima do solo, Rita observava o cenário. Lá fora, atrás do vidro, tinham construído um espaço em constante mudança: automóveis, néons, cafés e lojas, pessoas e sacos de plástico apressados, uma espécie de terra de ninguém cheia de gente. Os cenógrafos tinham seguido escrupulosamente as indicações da produção da fotonovela. Mas havia um pormenor estranho: no céu estavam pendurados três sóis (Bergman?) Enquanto contava os sóis pela décima quarta vez, um verso irrompeu na sua cabeça: “um rebanho de ruínas pastava no meio da cidade.” Também ela tinha uma história para contar. Qual história? [>]

Imagem: fotograma de “Détective”, de Jean-Luc Godard, 1985. Sugerida por C. | Texto: RMA.

Vamos fazer uma fotonovela?

As regras são poucas e simples:

• Objectivo: divertimo-nos um bom bocado.

• Passo-a-passo –> #1 publicamos uma fotografia e vocês fazem a legenda na respectiva caixa de comentário (por norma não deverá ser muito extensa mas, como excepção, poderá sê-lo) –> #2.1 escolhemos uma das legendas propostas (e, em princípio, apenas uma) para publicação –> #2.2 também pode ser ao contrário, isto é, escrevemos nós o texto e pedimos a imagem ou sequência de imagens (fica a informação gráfica: a largura útil deste blogue é de 660 pixels; as imagens propostas devem ter obrigatoriamente boa resolução) –> #3 e assim sucessivamente até ao fim (que ocorre quando aparecer a famosa sequência: fade + The end).

• A história deverá ter algum rigor e continuidade, por exemplo o nome das personagens deverá manter-se (mas o seu rosto pode mudar) e os factos passados deverão ser sempre considerados na evolução da trama (se a Rita matou o José — nomes fictícios —, o José só poderá voltar a aparecer graças a um flashback que se perceba, isto não é um filme de Ed Wood!) ; podem utilizar todos os truques literários, gráficos e cinematográficos que conheçam (ou que ainda estão por conhecer).

• Royalties: não pagamos a ninguém mas agradecemos todas as participações. Se entretanto surgir algum patrocinador endinheirado, prometemos oferecer uma agradável viagem de balão a todos os colaboradores.

• Ah, e o título? Virá depois, quando menos se esperar. Os dois primeiros posts serão por conta da casa.

• Regras omissas serão tratadas a seu tempo, com o máximo de rigor e seriedade.

• Gostava de acrescentar em letras mais pequenas que a ideia vem de três coisas, desligadas entre si: um poema de e.e. cummings que começa assim "Let's start... e acaba assado squeeze your nuts and open your face; La Jetée de Chris Marker; e uma redacção colectiva em que participei quando andava no ciclo preparatório e na qual, lembro-me bem, introduzi um nariz perdido, sem na altura saber que isso era assunto literário.

strangers talk only about the weather #22

— Ainda é Verão!

As Setas de João Barrento #3

"A injustiça de Otão: Suplício do inocente" (Thiery Bouts, 1415/20-1475): um quadro a dois tempos e em dois planos. O primeiro quadro do díptico mostra o condenado vivo, a caminho da execução, e em baixo, à direita, a decapitação. O segundo quadro ("A prova do fogo") tem também uma composição narrativa que mostra o absurdo da "justiça": em cima, ao fundo, uma fogueira (com bruxa?), em baixo, a mãe ou mulher do executado diante do trono, segurando na mão a barra de ferro em brasa, prova da inocência. Otão erra em três frentes!

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

A noite era bela, a lua brincava sobre as ondas, a barca vogava suavemente. Oh, a poesia! Oh, o amor!

"(...) Na fila à minha frente [no navio que faz a travessia entre o Rio de Janeiro e Niterói], vemos um casal. Eles nem se dão conta de que eu existo. Ela, num rosto sem maquilhagem nem bronzeamentos, volta-se para ele, põe os braços no pescoço, e vai-lhe mordiscando a face. De súbito, esse mordiscar transforma-se em voracidade e começa a a beijá-lo empolgadamente, como quem o quer incorporar em si. É uma fome antiga. Começa então um beijo que me parece interminável (talvez a eles pareça demasiado curto). É um beijo profundo que de repente os atravessa e os cobre, e ninguém sabe quando irá parar. Surpreendo-me a pensar que haverá um momento em que um deles decide que o beijo chegou ao seu termo e o outro aceita que as bocas se separem. É quando eles regressam da nuvem que passava dentro deles. Mas quem decide que acabou? E porquê? Desejaríamos que certos instantes durassem para sempre e a pele tivesse a leveza pura da água."

Eduardo Prado Coelho, no Público de ontem (o texto não está em linha).

Terça-feira, Setembro 6

Au Cabaret-Vert cinq heures du soir

Depuis huit jours j'avais déchiré mes bottines
Aux cailloux des chemins. J'entrais à Charleroi.
— Au Cabaret-Vert: je demandais des tartines
Du beurre et du jambon qui fût à moitié froid.

Bienheureux, j'allongeais les jambes sous la table
Verte: je contemplais les sujets très naïfs
De la tapisserie. — Et ce fut adorable,
Quand la fille aux tétons énormes, aux yeux vifs,

— Celle-là, ce n'est pas un baiser qui l'épeure! —
Rieuse, m'apporta des tartines de beurre,
Du jambon tiède, dans un plat colorié,

Du jambon rose et blanc parfumé d'une gousse
D'ail, — et m'emplit la chope immense, avec sa mousse
Que dorait un rayon de soleil arriéré.


Arthur Rimbaud, 1870

Past perfect

regresso às aulas

UMA PEQUENA estação no troço da linha de caminho-de-ferro que leva à Rússia.

O rapaz despede-se dos pais; a cabeça e o corpo em voltas desconhecidas e perturbadoras. Chama-se Törless*...

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As Setas de João Barrento #2

"Casamento da Virgem" (Mestre do retábulo de Rieden, cerca de 1450): na escultura, a Virgem parece que já vai prenha! Código de época e escola, ou ironia do escultor?

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

Mas ainda que mal pergunte: a que propósito vem isto?

Se eu percebesse alguma coisa de decoração de interiores, mudava o coração de sítio.

Os ensinamentos do senhor Vidraça

Perguntaram certa vez [ao licenciado Vidraça] a razão pela qual os poetas, na sua maioria, eram pobres. Respondeu que eles assim o queriam, pois em suas mãos estava serem ricos, se soubessem aproveitar as ocasiões, que constituíam para eles as suas damas, todas elas extremamente ricas, pois tinham os cabelos de ouro, o rosto de prata brunida, os olhos de esmeraldas, os dentes de marfim, os lábios de coral, o pescoço de cristal, e os seus olhos só choravam pérolas das mais puras; mais ainda: a terra que pisavam seus pés, por mais dura e estéril, logo floria em rosas e jasmins, o seu hálito era de puro âmbar, almiscar e algália. Ora tudo isto era sinal e mostra da sua muita riqueza. Estas e outras coisas dizia dos maus poetas, que dos bons disse sempre bem pondo-os nos cornos da lua.

Cervantes, Novelas Exemplares (O licenciado Vidraça).

Já é muito tarde para me pôr com desculpas

Toda a gente se queixa de todo o género de males. Dores aqui, dores ali, os horários dos autocarros, o preço do pão, o défice, o governo, o fim das árvores. E a gramática? E a gramática, senhores? Como podemos nós continuar a viver com a gramática às costas e mantermo-nos passivos? Devíamos era pegar numa navalha e cortar umas quantas fatias daquela suculenta respeitabilidade. Mais do que isso: matá-la. Uma pancada certeira no meio da sintaxe e pronto. Acabavam de vez as más vírgulas e os pontos finais imaginários que nos dão cabo do fígado e dos nervos.

Segunda-feira, Setembro 5

Oh stop stop! Here are some lovely blackberries!*

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"Tem cuidado com as palavras. Breves ou compridas, azuis ou cor-de-rosa, todas elas podem explodir, minha querida", disse o chapeleiro. Mas Alice, cansada de tanto brincar, adormecera há muito e por isso não ouviu o conselho. O senhor Lewis Carrol (que estava distraído a olhar para Alice) também não. Perdeu-se deste modo tão banal a única frase inteligente (mas bastante maçadora, convenhamos) do chapeleiro maluco. "Antes assim", pensou a Lebre e serviu-se de mais uma chávena de chá.

(chá é como quem diz... quando foram ver, era gin tÓnico)

_
*

em vez de la rentrée

vamos ensaiar uma expressão diferente, mais corporal, tipo... La Jetée?



(continua, ou melhor, COMEÇA em breve)

As Setas de João Barrento #1

No fim-de-semana apanhei por sorte (e com mais de um mês de atraso) uma crónica escrita a lápis por João Barrento na qual ele conta como passou uma manhã "sem fazer nada" no Musée des Beaux-Arts de Bruxelas, quer dizer, a olhar para os quadros e a deixar-se apanhar pelas setas mais surpreendentes e belas ou "Puncti" (de "punctum", via "A Câmara Clara" de Roland Barthes). Como ele tão bem explica: uma bela manhã de Verão deixando-nos olhar pelos quadros que vemos, nem mais. Aconselho a leitura integral a quem puder aceder ao jornal. Aos outros reservo as setas propriamente ditas; uma por dia, como as maçãs:

"A Missa de S. Gregório" (Mestre de Flemalle, primeira metade do séclo XV): o frade que ajuda à missa mete a mão debaixo da casula do santo! Parece que lhe apalpa o traseiro — e o ar seráfico de S. Gregório!

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

Quadro de Roy Lichtenstein é alvo de ataque com um canivete suiço

O quadro “Nude in Mirror”, do pintor norte-americano Roy Lichtenstein, foi barbaramente esfaqueado por uma alemã de 35 anos, no museu Kunsthaus, em Bregenz, Áustria, informou hoje a polícia.
De acordo com a mesma fonte, a agressora, com residência em Munique, visitava na tarde de sábado a exposição "Roy Lichtenstein - O clássico do novo", patente naquele museu, quando vandalizou o quadro com quatro golpes, cada um com cerca de 30 centímetros, feitos com um canivete suiço que trazia na carteira. O quadro ainda terá tentado reagir mas sem sucesso. A vítima foi prontamente assistida no principal hospital local. Nas últimas horas, o estado de saúde de "Nude in Mirror" terá registado uma ligeira melhoria, mas o prognóstico é ainda reservado.

Domingo, Setembro 4

Remédio santo

As coisas começam a piorar a meio da tarde de domingo. Ao fim do dia iniciam-se uma série de manifestações que não posso explicar sem recorrer à intervenção de poderes desconhecidos. À noite, milhares de pessoas queixam-se de dores abdominais, angústias peitorais, males de coração, falta de ar e suores frios. Trata-se de um problema terrível que afecta uma parte muito significativa da população portuguesa activa e cujos sintomas manifestam-se exclusivamente aos domingos à noite, prolongando-se geralmente pela segunda-feira seguinte.
Ora, atenta a este estranho fenómeno de angústia colectiva, a Antena 2 ofereceu aos seus ouvintes, nesta noite crítica de domingo, uma festiva e alegre patuscada: a oratória “Saul”, para vozes solistas, coro e orquestra (HWV 53), de G. F. Häendel, com o Coro de Câmara da RIAS e o Concerto de Colónia, sob a direcção de René Jacobs. Ainda estou a lamber os dedos. Um exemplo a seguir em termos de serviço público.

P.S.: Entretanto, e já depois de terminado este post, leio num jornal que o Governo está a ponderar uma distribuição massiva de pastéis de nata nas noites de domingo, “de maneira a travar as consequências altamente negativas do ‘síndrome de domingo à noite’ na nossa produtividade”. O Governo ainda não decidiu se esta medida é opcional ou acumulável com as ofertas da Antena 2.

Ouvidos cheios de algodão

Primeiro tapo os ouvidos
com ambas as mãos
para não mais ouvir
o eterno sussurro.

Depois começo a encher
os ouvidos de algodão,
grandes pedaços de esquecimento.
Poderei assim escapar?

Para ficar convencido
de ter achado a solução
corto as orelhas
segundo um método experimentado.

Ei-las diante de mim
como duas conchas de mar,
cheias de eterno sussurro
e de anestesiante algodão.

Lasse Söderberg

Retrato do artista

Enquanto jovem, Joyce passava horas em frente ao espelho a tirar pontos finais da cara.