J'adore répondre. Je réponds même quand on ne me demande rien.

"Je ne vous aime pas", peça de Marcel Achard, escrita em 1926.
O que interessa é só prestar atenção aos sobressaltos
@ cristina//@ Rui Manuel Amaral


SÁBADO
O novo ser come demasiada fruta. O mais provável é que nos vá fazer falta. NÓS de novo! Essa palavra era do ser... é também minha, agora, de a ouvir tantas vezes. Muito nevoeiro esta manhã. Eu não saio para o nevoeiro. O novo ser sai. Sai com todo o tipo de tempo e regressa com os pés enlameados. E fala. Costumava ser tão prazenteiro e sossegado por aqui...
DOMINGO
Aguentei-me. este dia está a ser cada vez mais desgastante. Tinha sido seleccionado e posto de parte em Novembro passado como dia de descanso. Esta manhã fui dar com o novo ser a tentar deitar ao chão maçãs daquela nova árvore proibida.
SEGUNDA-FEIRA
O novo ser diz que se chama Eva. Tudo bem. Não tenho objecções. Diz que é para o chamar quando queira que ele venha. Eu disse que, nesse caso, era supérfluo. esta palavra fez-me subir na sua consideração e é, de facto, uma longa e boa palavra capaz de suportar a repetição. O novo ser diz que não é um ser, mas uma Ela. Dúvido, mas tanto me faz. O que Ela seja não me faria diferença se Ela se metesse na sua vida e não falasse.

Straub: O nosso método, onde é que o descobrimos? Não sei. Talvez em Hitchcock, digamos entre Bresson e Hitchcock...Só conheço dois filmes de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet: a curta-metragem En rachâchant* e o belíssimo "Sicília!". Nos últimos tempos, porém, tudo me leva até estes cineastas inacessíveis. Primeiro foi o documentário de Pedro Costa "Onde jaz o teu sorriso?", tão dedicado e cativante; depois o polémico texto de João César Monteiro (artigo publicado na revista Cinéfilo e reproduzido em Morituti te Salutant); e por fim o catálogo da Cinemateca, encontrado por acaso na Biblioteca Almeida Garrett.

Entram no palco dois homens, de grão na asa, sorriem com simpatia um para o outro, alisam os penteados, aproximam-se do microfone.
Assessor de Imprensa: Queridos eleitores! Está aqui, para conversar convosco, o nosso candidato. Hoje é o último dia da campanha, ainda podemos falar com os eleitores do nosso programa, os senhores eleitores ainda podem ver-nos assim, informalmente... como pessoas normais, por isso vamos aproveitar esta boa ocasião e passar de imediato ao que interessa. Passo a palavra ao nosso candidato! (Bate palmas, cede o microfone ao CANDIDATO.)
Candidato: Se ainda persistirem dúvidas quanto ao destino que os queridos eleitores darão ao seu voto, pois bem, dêem-mo, a mim. Não vão lamentar e, se lamentarem, eu devolverei esse voto aos senhores. Prometo que não acontecerá nada ao voto dos eleitores. Dentro de quatro anos vou devolvê-lo aos senhores eleitores, são e salvo. Isto no caso de me elegerem, é claro! Para já, o principal: o meu plano, se me elegerem, é eliminar o trabalho!
Assessor de Imprensa: Sim?
Candidato: Sim!... Ultimamente tenho andado a pensar!
Assessor de Imprensa: Sim?
Candidato: Sim! Tenho andado a pensar... e passou-me pela cabeça, aliás, surgiu-me definitivamente na cabeça no preciso momento em que me dirigia para este encontro com os meus queridos...
Assessor de Imprensa: ... eleitores!
...

Por exemplo, este ciclo poderia ter sido intitulado: Da nuvem à resistência
ou Os olhos não querem estar sempre fechados
ou Não reconciliados
ou Demasidado cedo, demasiado tarde
ou, de modo menos óbvio, Algo deve queimar em cada plano
ou Quando a terra voltar a brilhar verde para ti
ou É preciso? É preciso!
ou Mas no deserto, vós sois invencíveis
ou Destrói, estraga, engole, despedaça com uma fúria súbita o falso traidor, o sangue assassino
ou Mas se isto não é aquilo a que se chama cinema, que raio é então?
ou talvez En rachâchant
ou até Lições de história




Mathieu Carrière em Der junge Törless, de Volker Schlöndorff, 1966«E nisto reparou — como se fosse a primeira vez — como o céu era alto.
Foi como um sobressalto. Mesmo por cima dele brilhava no azul uma pequena abertura incrivelmente funda entre as nuvens.
Sentiu que tinha de ser possível subir até lá com uma escada comprida, muito comprida. Mas quanto mais ele aí penetrava, subindo com o olhar, tanto mais o fundo azul brilhante se retirava. E no entanto parecia que era possível alcançá-lo e fazê-lo parar com o olhar. Este desejo tornou-se torturantemente intenso.
Era como se a visão, extremamente tensa, disparasse olhares como flechas por entre as nuvens, e como se ela, por mais longe que apontasse, falhasse sempre por pouco o alvo.»
«Há qualquer coisa de obscuro em mim, sob os pensamentos, e que eu não posso avaliar com o pensamento, uma vida que não se deixa traduzir em palavras e que, apesar disso, é a minha vida...»





— Não lhe parece que o seu filme possa constituir uma mudança na vida do documentarismo português?
— Não faço ideia. Acabei o filme em Dezembro e de então para cá tenho feito publicidade e comprado camisolas de gola alta. Não se muda nada a comprar camisolas de gola alta. Nem sequer o carácter.
...
— Que critério adopta na selecção dos textos escolhidos para o filme?
— Escolhi o final de "A Menina do Mar" porque gosto de ouvir ler contos infantis e porque desconfio que aquele bocadinho dá prazer aos meus amigos milaneses.
...










