(agosto) na esplanada da Filarmónica:

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Uma esplanada. As duas raparigas conversam. Lívio, sentado entre elas, alheado da conversa que, aliás, não ouvimos, certamente por não interessar por aí além. Começa a ouvir-se Lívio em voz off:
Lívio (off): Naquele tempo, o mundo dos espelhos e o mundo dos homens não se encontravam, como agora, incomunicáveis. Eram, além do mais, muito diferentes: nem coincidiam os seres, nem coincidiam as formas. Os dois reinos, o especular e o humano, viviam em paz; entrava-se e saía-se pelos espelhos. Uma noite, as gentes dos espelhos invadiram a terra. Era muito grande a sua força, mas ao cabo de sangrentas batalhas, as artes mágicas do Imperador Amarelo prevaleceram. Este repeliu os invasores, aprisionou-os nos espelhos e impôs-lhes a tarefa de repetir, como se fora em sonho, todos os actos dos homens.
Privou-os da força e da figura e reduziu-os a meros reflexos servis. Um dia, porém, sacudirão esse letargo mágico. O primeiro a acordar será o Peixe. No fundo do espelho aperceber-se-á uma linha muito ténue e a cor dessa linha não se parecerá com nenhuma outra. Comecarão, depois, a acordar as outras formas. Pouco a pouco, diferenciar-se-ão de nós, pouco a pouco deixarão de nos imitar. Quebrarão as barreiras de vidro e de metal e desta vez não serão vencidas. Com as criaturas dos espelhos as criaturas das águas. Antes da invasão, ouvir-se-á, vindo do fundo dos espelhos, o rumor das armas.
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Jorge Luis Borges, "Manual de Zoologia Fantástica", tradução de Luiza Neto Jorge, citado na planificação de "Quem espera por sapatos de defunto morre descalço", páginas 163 e 164 de Morituri te Salutant de João César Monteiro, mais um livro da & etc esgotado






