Sábado, Setembro 3

(agosto) na esplanada da Filarmónica:

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Uma esplanada. As duas raparigas conversam. Lívio, sentado entre elas, alheado da conversa que, aliás, não ouvimos, certamente por não interessar por aí além. Começa a ouvir-se Lívio em voz off:

Lívio (off): Naquele tempo, o mundo dos espelhos e o mundo dos homens não se encontravam, como agora, incomunicáveis. Eram, além do mais, muito diferentes: nem coincidiam os seres, nem coincidiam as formas. Os dois reinos, o especular e o humano, viviam em paz; entrava-se e saía-se pelos espelhos. Uma noite, as gentes dos espelhos invadiram a terra. Era muito grande a sua força, mas ao cabo de sangrentas batalhas, as artes mágicas do Imperador Amarelo prevaleceram. Este repeliu os invasores, aprisionou-os nos espelhos e impôs-lhes a tarefa de repetir, como se fora em sonho, todos os actos dos homens.
Privou-os da força e da figura e reduziu-os a meros reflexos servis. Um dia, porém, sacudirão esse letargo mágico. O primeiro a acordar será o Peixe. No fundo do espelho aperceber-se-á uma linha muito ténue e a cor dessa linha não se parecerá com nenhuma outra. Comecarão, depois, a acordar as outras formas. Pouco a pouco, diferenciar-se-ão de nós, pouco a pouco deixarão de nos imitar. Quebrarão as barreiras de vidro e de metal e desta vez não serão vencidas. Com as criaturas dos espelhos as criaturas das águas. Antes da invasão, ouvir-se-á, vindo do fundo dos espelhos, o rumor das armas.

...


Jorge Luis Borges, "Manual de Zoologia Fantástica", tradução de Luiza Neto Jorge, citado na planificação de "Quem espera por sapatos de defunto morre descalço", páginas 163 e 164 de Morituri te Salutant de João César Monteiro, mais um livro da & etc esgotado

Sexta-feira, Setembro 2

Literatura avariada em Port Actif

Passei horas e horas em espreguiçadeiras a tentar transformar-me numa máquina shandy. Não consegui, levantava-me muitas vezes para mergulhar e isso incendiava os odradeks. Não, não foi assim. Mergulhar nas profundezas do porto de Dinard é uma viagem para baixo, disse Michaux. Segui com cautela o princípio, sempre para baixo, para além dos peixes e das pedras, mas nada aconteceu. Fiquei, no entanto, com alguns vícios, o que não é mau se não explicar quais são. Desenhar o mapa? Talvez, se houvesse um submarino ou um guarda-chuva. A verdade é que Raymond Roussel nunca saiu do barco e mesmo assim deixou-se impressionar. Não encontrei a Rita Malú.

2 fotografias de Nobuyoshi Araki (em braile)

Para o alívio rápido das dores

A caminho do escritório, entro num café da Baixa e sento-me. Dez minutos. Bebo becket e apanho as migalhas. Ah! Vai ser mais um dia feliz! À sombra dos plátanos de tabaco.

Quinta-feira, Setembro 1

ISTANBUL, Aug. 31

An acclaimed Turkish novelist, Orhan Pamuk, has been charged with the "public denigrating of Turkish identity" and faces a possible prison sentence of three years, his publisher said Wednesday.

The charge stems from an interview that Pamuk gave to a Swiss newspaper in February in which he said certain topics were regarded as off-limits in Turkey. As examples, he listed the massacre of Armenians in 1915 and the ongoing war between Turkish security forces and Kurdish guerrillas.
Continua...

Euromilhões



Hoje, durante a hora de almoço, ganhei uma fortuna ao descobrir os textos de Rogelio Guedea, publicados no último número da revista Periférica. Obviamente tirei uma fotocópia e depositei no banco.

lei das compensações



Comecei a trabalhar hoje, estou lenta e sem vontade de estar aqui fechada. Por outro lado, logo à noite há um coelho gigante à solta na cidade.

Sim, encontrei as laranjas *

Não as laranjas da Graciosa que crescem no Inverno. São saborosas, asseguram-me mas nunca as provei em Agosto. Nem as laranjas que comi a meio da tarde na casa encostada ao Monte da Ajuda: frescas, com alguns caroços e pintas na casca, muito sumarentas, não demasiado doces. Mas A LARANJA de Francis Ponge (La parti pris des choses). Tradução de João Bénard da Costa na planificação de "A Sagrada Família", página 192 de Morituri te salutant de João César Monteiro, & etc, Novembro de 1974, terceiro livro requisitado na Biblioteca Municipal de Santa Cruz da Graciosa. As laranjas existem no mar.

Respirem fundo, a descrição provoca vertigens:

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Dia. Exterior. Travelling óptico, muito rápido, sobre uma laranja colocada em cima do tampo escuro e semi-circular de uma mesa. Fundo de Mar. Coincidindo com o final do movimento óptico (grande plano), começa a ouvir-se, em off, o seguinte texto:

VOZ (off): Como na esponja, há na laranja uma aspiração para se reter, contendo-se, depois de ter passado a prova da expressão. Mas se a esponja consegue sempre, a laranja não o consegue nunca, porque as suas células estalaram, porque os seus tecidos se rasgaram. Enquanto a casca é o único elemento a revestir-se molemente da sua forma, graças à sua elasticidade, vai-se espalhando um líquido de âmbar acompanhado, é certo, de frescura e de perfumes suaves, mas muitas vezes também da consciência amarga de uma expulsão prematura de caroços. Será preciso tomar partido entre estas duas maneiras de mal suportar a opressão? Toda a esponja é apenas músculo, e se enche de vento, e ora de água limpa e ora de água suja: esta ginástica é ignóbil. A laranja tem um sabor melhor, mas é excessivamente passiva, e esse sacrifício odorante é tratar demasiado bem o opressor. Mas não se disse tudo da laranja se se falou apenas da sua particular maneira de perfumar o ar e de dar prazer ao carrasco. É preciso acentuar a coloração gloriosa do líquido que daí resulta e que melhor que o sumo de limão obriga a laringe a abrir-se largamente, tanto para pronunciar a palavra como para ingerir o líquido, sem qualquer movimento de apreensão da boca anterior, cujas papilas não faz crispar. Para além disto, não há palavras para falar da admiração que merece o invólucro da terna, frágil e rósea bola oval, nesse espesso tampão mata-borrão húmido cuja epiderme, extremamente ténue, mas muito pigmentada, acerbamente sápida, só tem a aspereza exactamente necessária para unir dignamente a luz à forma perfeita do fruto. Agora, no termo deste estudo demasiado breve e demasiado genérico, é preciso regressar ao caroço. Esse grão, com a forma de um minúsculo limão, apresenta, visto de fora, a cor do tronco branco do limoeiro e, visto de dentro, um verde de ervilha ou de rebento tenro. É nele que se reencontram, depois da explosão sensacional da lanterna veneziana de sabores, cores e perfumes, que constitui a própria bola-fruto, a dureza relativa e a verdura, aliás nunca inteiramente insípida, do tronco, do ramo, da folha. Não é muito, mas é concerteza a razão de ser do fruto.

Agora, Tchekhov

TCHEBUTÍKIN - (cantando baixinho) Tá-rá-rá búmbia… sijú ná tumbe iá… (Lendo o jornal.) Isto tudo, que importância tem? Que importância tem isto?

OLGA – Se nós soubéssemos, se nós soubéssemos!

PANO

Anton Tchekhov, Três Irmãs.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

Isto não é um post

A meio da noite, pegou num martelo e desatou a bater nas paredes do quarto. A princípio com meticulosa cadência. Depois, tomado pelo desespero, de forma desordenada. Abriu buracos por toda a parte. Tentou tudo. Mas não conseguiu pregar olho.

Quarta-feira, Agosto 31

Limpar os seus óculos,

pentear-se, escovar os dentes, pôr o chapéu, tirá-lo, ajustá-lo e, sobretudo, remexer na sua mala para, amorosamente, fazer o inventário do que ela contém, tudo isso ajuda Winnie a prolongar o seu dia.

Samuel Beckett

1+1

Como disse o Jean-Luc, que nunca se engana, o cinema moderno é, pois, o cinema do one plus one.

João César Monteiro, Morituri te Satulant, & etc, 1974

Entre terça e quarta-feira

De algum tempo a esta parte, dir-se-ia que os autocarros me tomaram de ponta. Quando estou numa paragem, aceleram ou passam ao largo. Ando a ler o “Inferno” de Strindberg nas minhas viagens entre casa e o escritório. Já ouvi as pessoas dizerem que os autocarros são muito perspicazes. E que, tal como certos animais, são capazes de prever toda a espécie de acontecimentos funestos. Amanhã vou tentar enganá-los com um livro muito lindo do Paulo Coelho.

Guerrilha urbana (Berlim Leste, 1975)

A altas horas da noite está o centro da cidade
fortemente iluminado como uma sala de interrogatório.
Venho de Greifswalderstrasse.
Nem vivalma. Então algo se ouve subitamente
como se umas botas vazias de borracha
corressem sobre a relva.
Do canteiro erguem-se longas orelhas.
Um coelho salta-nos à frente! Mais um!
E mais um! Um bando de agitadores!
Tropel atrevido, tarados sexuais de olhos congestionados
saltitando como num passe de mágica
tirados das almas adormecidas dos funcionários.
Todas as noites aparecem à luz
sorrindo com desdém de tudo o que lhes mete medo.

Lasse Söderberg

Terça-feira, Agosto 30

Primeiro post depois dos últimos

Depois de tanto roubar e roubar amigos e conhecidos, ricos e remediados da literatura, génios universais e escritores falhados, grandes mestres e aprendizes de feiticeiro, ainda não roubei o suficiente. De resto, eu acredito que roubar para comer não é crime.

Another heavenly day

Winnie: That is what I find so wonderful. The way man adapts himself. To changing conditions.




The music box song,

“The Merry Widow Waltz” from Franz Lehar’s opera The Merry Widow, 1905, was chosen by Alan Schneider



over Beckett’s other option, “When Irish Eyes are Smiling.”

natureza morta

Um campo de erva queimada; ao centro, uma pequena elevação de terreno. Declives moderados à esquerda, à direita e à frente. Do lado de trás, declive abrupto. O máximo de simplicidade e simetria.
Luz crua.
O pano de fundo, em estilo berrante e pretensioso, representa a fuga e o encontro, ao longe, de um céu sem nuvens com uma planície nua.
Enterrada até à cintura na pequena elevação e exactamente no centro desta, está WINNIE. Cerca de cinquenta anos, restos de beleza. De preferência loura. Um tudo nada gorducha. Braços e espáduas nuas. Decotada. Colar de pérolas. WINNIE dorme, os braços repousando na elevação do terreno e a cabeça apoiada nos braços. À esquerda de WINNIE, uma carteira de senhora, género saco, negro e grande; à sua direita uma sombrinha fechada, da qual apenas se vê o cabo.
À direita e por detrás de WINNIE, deitado no chão e escondido pela elevação do terreno, WILLIE, também a dormir.


Samuel Beckett, indicações para o primeiro acto de "Dias Felizes", tradução de Jaime Salazar Sampaio, Estampa, 1973

REGIME DE COMUNHÃO UNIVERSAL DE BENS

Pisquei-lhe o olho. "Queres vir para a minha beira? Empresto-te os meus lápis..."
Ele veio. Fomos ao tabelião de Notas lavrar o pacto: para o bem e para o mal, na saúde e na doença, patati, patatá.

Este blogue agora chama-se Dias Felizes. Oh! Les beaux jours.