Oito pessoas na sala. Sete ficaram a ouvir o Tom Waits até ao fim, até à última palavra do genérico
Sábado, Julho 16
New York Mood (A New Haircut And A Busted Lip)
Oito pessoas na sala. Sete ficaram a ouvir o Tom Waits até ao fim, até à última palavra do genérico
Oito pessoas na sala. Sete ficaram a ouvir o Tom Waits até ao fim, até à última palavra do genérico
Nove Contos, de J. D. Salinger*
Um dos meus escritores escondidos preferidos é J. D. Salinger. Ainda só li quatro destas histórias. São curtas, entramos a sorrir e depois, sem dar conta, quando estamos apenas a uma ou duas páginas do fim, começamos a sentir um calafrio. E isso não se explica.
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* tradução de José Lima, Difel, Junho de 2005, recém chegado às livrarias
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* tradução de José Lima, Difel, Junho de 2005, recém chegado às livrarias
livros perdidos
Pregar pregos, e sobretudo ganchos, era para ele uma delícia, e quase uma necessidade física.
Na fnac do NorteShopping há um "Trinca-Pregos" de Albert Cohen perdido. A editora (Contexto, Outubro de 1999, tradução de Pedro Tamen) já acabou, os últimos exemplares andam por aí. O livro é uma pérolazinha mas ninguém lhe pega; há meses que está arrumado alfabeticamente naquela prateleira, junto a Leonard Cohen. Quando lá vou, abro-o e faço-lhe festas.
Na fnac do NorteShopping há um "Trinca-Pregos" de Albert Cohen perdido. A editora (Contexto, Outubro de 1999, tradução de Pedro Tamen) já acabou, os últimos exemplares andam por aí. O livro é uma pérolazinha mas ninguém lhe pega; há meses que está arrumado alfabeticamente naquela prateleira, junto a Leonard Cohen. Quando lá vou, abro-o e faço-lhe festas.
CENA 22
Cenário: Campo coberto de gesso, junto de uma fábrica de produtos químicos, visto através de um aparelho de televisão com a imagem a preto e branco. Exterior. Dia.
Personagens: Jornalista da têvê, Ariane, João de Deus, Lúcio, aliás Luciano.
Durante a duração da cena, a câmara aproxima-se muito lentamente do televisor, até que, graças ao cinema, o pequeno écran se transforme em grande, isto é, maior do que o objecto. Um jornalista da têvê, equipado com sobretudo de astracã e chapka siberiana, garante a cobertura do evento, de microfone em riste, como um caralho um tanto triste.
JORNALISTA: E porquê o Pólo Norte?
ARIANE: Era um velho sonho do João: encontrar uma alma gémea com a qual pudesse mexer maravilhosamente a bacia no Pólo Norte. Não foi Deus... foi a bacia de John Wayne que o inspirou durante a vida inteira.
JORNALISTA: A bacia de John Wayne? Não estou a ver...
ARIANE: No sonho do meu marido, John Wayne mexia maravilhosamente a bacia no Pólo Norte.
JORNALISTA: Há sem dúvida sonhos mais extravagantes. E, se me é permitido, podemos saber que estranho mistério envolve a bacia de John Wayne?
Panorâmica descendente e ascendente sobre Ariane, com paragem na região pélvica.
ARIANE: Não há mistério nenhum. É muito simples: o John Wayne arrasta ligeiramente a perna esquerda, porque é mais pesada do que a direita. Os velhos alfaiates sabiam-no e, por isso, provavam as calças sempre à medida. Na perna esquerda, junto aos órgãos genitais, desenhavam a giz uma bolsinha e perguntavam escrupolosamente aos clientes: "Está bem assim, ou quer um nadinha mais folgada?". Ora aí tem!
(continua)
(continuação)
JOÃO DE DEUS: (off) Não havia que enganar. Estavam sempre no sítio e à mão de semear.
JORNALISTA: E, tendo chegado a essa conclusão, decidiram casar-se...
ARIANE: Casámos porque estávamos famintos. Famintos de amor, se quiser, que o amor é filho da fome. Já para os gregos, Eros era filho de Pénia, da Pobreza.
O amor é fome de outra vida, desejo de transitar. Quando dois amantes se abraçam e beijam, entredevoram-se, morrem um no outro, de algum modo, e transitam para um novo ser. A vida não pode ficar, em nós, a repetir-se, que repetir é estar parado, é ocupar o mesmo lugar.
O amor compensa a morte, dá o que ela tira. O homem perpetua-se, amando e alimentando-se: Comei! este é o meu corpo! O corpo é fruto assimilado; e o fruto é húmus, água e sol. E o fruto assimilado se transformará em espírito, alcançando assim a Divindade.
JOÃO DE DEUS: (off) E dizia-se ainda mais. dizia-se, por exemplo: O que é que o cu tem a ver com as calças? A minha mulher é que sabe tudo mas, para dizer a verdade, não há grande coisa para saber. A primeira vez que vi a Ariane, olhei-a nos olhos, de alto a baixo, ai minha rica bacia, calei-me muito bem caladinho, e disse de mim para mim: É esta!
Um homem, se for homem, aguenta a penada: Tem-te, não caias, Joãozinho!
Não sou homem de muitas falas. Na primeira aberta, só lhe disse o que o professor Salazar terá dito à governanta: "Mariazinha, não estamos aqui para nos divertirmos".
JORNALISTA: E podemos saber o que, à semelhança de tantos dos nossos compatriotas espalhados pelos quatro cantos do mundo, vos leva a emigrar?
JOÃO DE DEUS: Pode. estamos fartos desta caca.
JORNALISTA: Mas não têm condições de trabalho no nosso país?
JOÃO DE DEUS: Nem de trabalho, nem de coisíssima nenhuma, embora me desagrade ver trabalhar.
JORNALISTA: Mas nunca exerceu nenhuma actividade profissional?
JOÃO DE DEUS: Ponha artista saltibanco ou não ponha nada. É-me igual, mas quando era miúdo, passou-me pela cabeça ser marinheiro. Queria andar no mar alto, com um papagaio empoleirado no ombro. Ver outras terras, outras gentes.
ARIANE: Não sejas modesto, meu amor. Agora anda com a mania que foi marinheiro de água-doce.
JOÃO DE DEUS: Je vou salue, viel Océan! Il était un petite navire, qui n'avait jamais navigué...
JORNALISTA: E como pensam sobreviver no Pólo Norte? A comer carne de burro?
JOÃO DE DEUS: A fazer buraquinhos no gelo com a nossa varinha mágica. A minha mulher e eu não gostamos de carne de burro. temos umas boquinhas muito esquisitas e não somos democratas.
JORNALISTA: E como pensam resistir à inclemência das neves eternas?
JOÃO DE DEUS: Estás a ouvir Ariane? O gajo diz que a gente não vai resistir.
ARIANE: Deixa-o falar. pareces que não conheces a corja da têvê.
JOÃO DE DEUS: Quem conseguiu sobreviver nesta piolheira, também consegue sobreviver no Pólo Norte. Não se preocupe connosco. Se nos chatearmos, partimos para a lua...
JORNALISTA: Podemos, então, concluir que é o mesmo desejo de aventura que levou os portugueses de antanho à maravilhosa descoberta de novos mundos, que vos motiva ainda hoje?
JOÃO DE DEUS: Oiça, meu simpático senhor: digamos que é o mal-estar do mundo contemporâneo. Sou apenas um pobre emigrante polar. Polar ártico. Sou velho como o cagar e chamo-me João de Deus.
T'en en train de me regarder, Jean? Excuse-moi le sale coup, mai chat échaudé craint l'eau froide. Ariane va te tricoter une paire de chaussettes en laine et moi je t'enverrai un petit cachalot, pour tes descentes dans le fleuve. Tiens bon, mon vieux français... Encore un effort... Je ne suis pas merdiatique du tout, n'est-ce pas?
JORNALISTA: Mas...
João de Deus volta as costas ao jornalista e acaricia a cabeça do burro.
JOÃO DE DEUS: Anda, Luciano, que já enganámos mais um!
João de Deus ajuda Ariane a montar o burro. O jornalista estende, em vão, a mão a João de Deus, tira o gorro, limpa o suor da testa e sai de campo. João de Deus, descalço, conduz o burro pela arreata. Estuga o passo, vai veloz, mas não segura: Ariane estatela-se. Pequeno bate-cu sem consequências de maior. Desistirão os destemidos emigrantes, tão polares e merdiárticos?
João César Monteiro, Le Bassin de John Wayne, & etc, 1997
JOÃO DE DEUS: (off) Não havia que enganar. Estavam sempre no sítio e à mão de semear.
JORNALISTA: E, tendo chegado a essa conclusão, decidiram casar-se...
ARIANE: Casámos porque estávamos famintos. Famintos de amor, se quiser, que o amor é filho da fome. Já para os gregos, Eros era filho de Pénia, da Pobreza.
O amor é fome de outra vida, desejo de transitar. Quando dois amantes se abraçam e beijam, entredevoram-se, morrem um no outro, de algum modo, e transitam para um novo ser. A vida não pode ficar, em nós, a repetir-se, que repetir é estar parado, é ocupar o mesmo lugar.
O amor compensa a morte, dá o que ela tira. O homem perpetua-se, amando e alimentando-se: Comei! este é o meu corpo! O corpo é fruto assimilado; e o fruto é húmus, água e sol. E o fruto assimilado se transformará em espírito, alcançando assim a Divindade.
JOÃO DE DEUS: (off) E dizia-se ainda mais. dizia-se, por exemplo: O que é que o cu tem a ver com as calças? A minha mulher é que sabe tudo mas, para dizer a verdade, não há grande coisa para saber. A primeira vez que vi a Ariane, olhei-a nos olhos, de alto a baixo, ai minha rica bacia, calei-me muito bem caladinho, e disse de mim para mim: É esta!
Um homem, se for homem, aguenta a penada: Tem-te, não caias, Joãozinho!
Não sou homem de muitas falas. Na primeira aberta, só lhe disse o que o professor Salazar terá dito à governanta: "Mariazinha, não estamos aqui para nos divertirmos".
JORNALISTA: E podemos saber o que, à semelhança de tantos dos nossos compatriotas espalhados pelos quatro cantos do mundo, vos leva a emigrar?
JOÃO DE DEUS: Pode. estamos fartos desta caca.
JORNALISTA: Mas não têm condições de trabalho no nosso país?
JOÃO DE DEUS: Nem de trabalho, nem de coisíssima nenhuma, embora me desagrade ver trabalhar.
JORNALISTA: Mas nunca exerceu nenhuma actividade profissional?
JOÃO DE DEUS: Ponha artista saltibanco ou não ponha nada. É-me igual, mas quando era miúdo, passou-me pela cabeça ser marinheiro. Queria andar no mar alto, com um papagaio empoleirado no ombro. Ver outras terras, outras gentes.
ARIANE: Não sejas modesto, meu amor. Agora anda com a mania que foi marinheiro de água-doce.
JOÃO DE DEUS: Je vou salue, viel Océan! Il était un petite navire, qui n'avait jamais navigué...
JORNALISTA: E como pensam sobreviver no Pólo Norte? A comer carne de burro?
JOÃO DE DEUS: A fazer buraquinhos no gelo com a nossa varinha mágica. A minha mulher e eu não gostamos de carne de burro. temos umas boquinhas muito esquisitas e não somos democratas.
JORNALISTA: E como pensam resistir à inclemência das neves eternas?
JOÃO DE DEUS: Estás a ouvir Ariane? O gajo diz que a gente não vai resistir.
ARIANE: Deixa-o falar. pareces que não conheces a corja da têvê.
JOÃO DE DEUS: Quem conseguiu sobreviver nesta piolheira, também consegue sobreviver no Pólo Norte. Não se preocupe connosco. Se nos chatearmos, partimos para a lua...
JORNALISTA: Podemos, então, concluir que é o mesmo desejo de aventura que levou os portugueses de antanho à maravilhosa descoberta de novos mundos, que vos motiva ainda hoje?
JOÃO DE DEUS: Oiça, meu simpático senhor: digamos que é o mal-estar do mundo contemporâneo. Sou apenas um pobre emigrante polar. Polar ártico. Sou velho como o cagar e chamo-me João de Deus.
T'en en train de me regarder, Jean? Excuse-moi le sale coup, mai chat échaudé craint l'eau froide. Ariane va te tricoter une paire de chaussettes en laine et moi je t'enverrai un petit cachalot, pour tes descentes dans le fleuve. Tiens bon, mon vieux français... Encore un effort... Je ne suis pas merdiatique du tout, n'est-ce pas?
JORNALISTA: Mas...
João de Deus volta as costas ao jornalista e acaricia a cabeça do burro.
JOÃO DE DEUS: Anda, Luciano, que já enganámos mais um!
João de Deus ajuda Ariane a montar o burro. O jornalista estende, em vão, a mão a João de Deus, tira o gorro, limpa o suor da testa e sai de campo. João de Deus, descalço, conduz o burro pela arreata. Estuga o passo, vai veloz, mas não segura: Ariane estatela-se. Pequeno bate-cu sem consequências de maior. Desistirão os destemidos emigrantes, tão polares e merdiárticos?
João César Monteiro, Le Bassin de John Wayne, & etc, 1997
Sexta-feira, Julho 15
aerobic goes western
Bom dia, hoje vamos aprender a mexer maravilhosamente a bacia no Pólo Norte, como John Wayne faz em sonhos. O primeiro exercício é simples, basta uma porta, boas ancas e — valha-nos Godard — um não sei o quê.

The Searchers (John Ford), John Wayne brings the girl home

The Searchers (John Ford), John Wayne brings the girl home
três links
da literatura: João Paulo Sousa e Os alunos do Instituto Benjamenta.
O Mário abriu uma galeria. Até aí nada de estranho, ele é fotógrafo. Mas esta é uma galeria diferente, mal entramos ouvimos música. Ora experimentem: The song remains the same.
Ai ou ai? As tabelas de excel da Lídia.
O Mário abriu uma galeria. Até aí nada de estranho, ele é fotógrafo. Mas esta é uma galeria diferente, mal entramos ouvimos música. Ora experimentem: The song remains the same.
Ai ou ai? As tabelas de excel da Lídia.
Quinta-feira, Julho 14
um sistema
Ofereceram-me um lápis. Aliás, para ser precisa, é apenas meio lápis e já está um bocado roído. "Mas o grafite é muito suave, vais gostar."
E não é que se transformou na melhor prenda dos últimos tempos?
E não é que se transformou na melhor prenda dos últimos tempos?
— E o João César Monteiro?
— Não está. Foi à mercearia comprar leite. Levou o carrinho de mão vermelho. Vai demorar.

Hal Hartley playing Godard to the sound of "Kool Thing" by Sonic Youth
Do you wanna try?
Ned: I want adventure. I want romance. Bill: Ned, there is no such thing as adventure. There's no such thing as romance. There's only trouble and desire. Ned: Trouble and desire. Bill: That's right. And the funny thing is, when you desire something you immediately get into trouble. And when you're in trouble you don't desire anything at all. Ned: I see. Bill: It's impossible. Ned: It's ironic. Bill: It's a fucking tragedy is what it is, Ned.
103 — Tens inteira liberdade de te absteres dos sofrimentos do mundo, isso corresponde à tua natureza; mas talvez o facto de te absteres seja o único sofrimento que possas evitar.
Franz Kafka, "Meditações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho", in Antologia de Páginas Íntimas, tradução de Alfredo Margarido, Guimarães Editores
Franz Kafka, "Meditações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho", in Antologia de Páginas Íntimas, tradução de Alfredo Margarido, Guimarães Editores
Quarta-feira, Julho 13

E eis o príncipe e a jovem, tão pura quanto o seu nome indica, — o qual evoca para nós a morte de Walser na neve — aterrorizados por uma cena bestial entre a rainha e o caçador. O homem está deitado sobre a mulher e as suas atitudes parecem aos dois inocentes uma brutalidade espantosa. O amor será isto? Uma luta encarniçada?
Beijos envenenados, amor e crime intimamente imbricados, é absolutamente imprescindível corrigir o conto de Grimm. A mãe, madrasta, não pode ser tão malvada, seria insuportável. Mas Branca de Neve deve aprender que amor e ódio não estão nunca muito afastados. Ela compreende. Julgava-se — como Robert — "ferida, expulsa, perseguida, odiada". Era apenas tonta e agora tudo acaba em bem. Branca de Neve escolheu ser feliz.
Marie-Louise Audiberti/João César Monteiro, sinopse de Branca de Neve
Terça-feira, Julho 12
250 grs de sortido húngaro
24 picadelas por segundo: Quando acordei verifiquei que o conde húngaro era apenas um mosquito insolente e miserável. Que desperdício! Que infelicidade!
Recolhimento: Não esperem mais nada deste blogue, por aqui reza-se a Deus, com muita devoção. Até ir a banhos vai ser assim: A César o que é de César, a Deus o que é de Deus. Bom, mais ou menos, as orações nem sempre serão fiéis mas, se conseguir um patrocínio, oferecerei gelados a todos quando chegar ao fim. A bem da moral e da prática desportiva.
Ilhas: (upa, upa) E a harpa lá chegou às Flores, a bordo de um Casa C-212 da Força Aérea.
Recolhimento: Não esperem mais nada deste blogue, por aqui reza-se a Deus, com muita devoção. Até ir a banhos vai ser assim: A César o que é de César, a Deus o que é de Deus. Bom, mais ou menos, as orações nem sempre serão fiéis mas, se conseguir um patrocínio, oferecerei gelados a todos quando chegar ao fim. A bem da moral e da prática desportiva.
Ilhas: (upa, upa) E a harpa lá chegou às Flores, a bordo de um Casa C-212 da Força Aérea.
Livro das Orações #4
Novo sermão aos Peixes (para um Robalo e quatro comensais):
— Por mim não punha mais nada. Nem presunto nos lombos, nem nada. Gordo já ele é. Levava-o ao forno assim, quase de seu natural. Umas pedrinhas poucas de sal, não digo que não. Um fiozinho de azeite do melhor, um pézinho de salsa fresquinho, e disseste, Amélia, "temperos a mais, matam-lhe o gosto a mar". De resto, o lume é que manda
João César Monteiro, À Flor do Mar
— Por mim não punha mais nada. Nem presunto nos lombos, nem nada. Gordo já ele é. Levava-o ao forno assim, quase de seu natural. Umas pedrinhas poucas de sal, não digo que não. Um fiozinho de azeite do melhor, um pézinho de salsa fresquinho, e disseste, Amélia, "temperos a mais, matam-lhe o gosto a mar". De resto, o lume é que manda
João César Monteiro, À Flor do Mar
Segunda-feira, Julho 11
eu supero, tu superas, somos todos vigaristas, eles dão-nos cabo da vida
Foi junto a esta árvore no Príncipe Real que o ciclo começou, em 1971. (Uma cidade fechada, um país fechado.) "Quem espera por sapatos de defunto" é o segundo filme de João César Monteiro: trinta minutos a preto & branco, custou 200 contos. Antes de chegarem ao jardim, os dois rapazes estão sentados à mesa de um café, conversam sobre engates. O mais prático diz ao outro (que se chama Lívio/Luís Miguel Cintra/ e há-de ser enviado de deus): "Já era tempo de deixares de ser parvo e romancista russo. Vocês... já coiso?"
A barata que caiu do tecto no copo de água acaba por morrer.
Quase no fim, Lívio escreve num caderno. "O cinema é uma vigarice (Godard) mas essa vigaricedeve pode ser superada". Deve.
A barata que caiu do tecto no copo de água acaba por morrer.
Quase no fim, Lívio escreve num caderno. "O cinema é uma vigarice (Godard) mas essa vigarice
Autocarro nº 100

pausa para o almoço (sem telejornal): à sombra das nossas árvores * e dos nossos heróis, enquanto a merda do país arde.
Livro das Orações #3
(Psicanalisando com Dona Violeta:)
— É debaixo das camas que a porcaria se amontoa. Aquele cotão que até se entranha nas vassouras.
João César Monteiro, Recordações da Casa Amarela
— É debaixo das camas que a porcaria se amontoa. Aquele cotão que até se entranha nas vassouras.
João César Monteiro, Recordações da Casa Amarela
tom waits meets büchner (técnica mista com colagem e aldrabice)
Faça este teste e veja realmente quem você é!
Opção 1. All_The_World_Is_Green
Opção 2. God's_Away_On_Business
As pessoas que escolherem a opção 1 têm tendência para serem sombrias, pessimistas, desiludidas com a vida, infelizes, e às avessas com o mundo. As pessoas que escolherem a opção 2 são felizes e optimistas com uma sensação contínua de bem-estar. Estão contentes com a vida e acham-na compensadora.
Opção 1. All_The_World_Is_Green
Opção 2. God's_Away_On_Business
As pessoas que escolherem a opção 1 têm tendência para serem sombrias, pessimistas, desiludidas com a vida, infelizes, e às avessas com o mundo. As pessoas que escolherem a opção 2 são felizes e optimistas com uma sensação contínua de bem-estar. Estão contentes com a vida e acham-na compensadora.
Domingo, Julho 10





(fim da terceira cena do terceiro acto. No grande salão. Leonce, Lena, Valério e a Governanta)
Leonce: E então Lena, está vendo agora como temos os bolsos cheios, cheios de bonecos e de brinquedos? O que vamos fazer com eles? Vamos pintar bigodes e pendurar espadas neles? Ou vamos vesti-los com casacas e deixar que façam infusória política e diplomacia, sentando-nos ao seu lado com o microscópio? Ou você deseja um realejo, sobre o qual ficam correndo estéticos musaranhos brancos como leite? Vamos construir um teatro? (Lena encosta-se nele e sacode a cabeça.) Mas eu sei muito bem o que você quer, vamos quebrar todos os relógios, proibir todos os calendários e contar as horas e as luas pelo relógio das flores, apenas pela floração e pelo fruto. E depois cercaremos nosso reinozinho com espelhos solares para que não haja mais inverno e, no verão, nós nos volatilizaremos para ir até Ischia e Capri, ficando o ano inteiro entre rosas e violetas, entre laranjas e loureiros.
Valério: E eu serei ministro de Estado e será baixado um decreto, segundo o qual aquele que criar calos nas mãos ficará sob custódia, aquele que trabalhar até ficar doente será passível de condenação por crime, todo aquele que se gabar de ganhar o pão com o suor do seu rosto será declarado louco e considerado um elemento perigoso para a sociedade humana, e depois deitaremos à sombra e pediremos a Deus macarrão, melão e figos, e gargantas musicais, corpos clássicos e uma religião cómoda!
"Büchner — Na Pena e na Cena", tradução de J. Guinsburg e Ingrid D. Koudela, Editora Perspectiva, São Paulo, 2004
do Leôncio e da Lena
O que está no meio não interessa, escreveu José Mário Silva há uns dias.
Esta frase serve na perfeição os meus propósitos, isto é, omitir tudo o que se passa desde a primeira cena do primeiro acto até ao fim da peça. É verdade que Lena ainda não apareceu e sem ela o "era uma vez" fica manco. Também é verdade que a felicidade do fim (ver próximo post) é quase indigna, de irreal e falsa. Mas aceitemos o impossível. Era uma vez Lena, princesa do reino de Pipi e Leôncio, príncipe do reino de Pupu que não queriam casar por contrato ou conveniência política. Fogem — corrijo: pensam que fogem — mas a teia do acaso (devo dizer inexorável destino?) apanha-os e casa-os, um com o outro. Por amor? Se quiserem. Felizes para sempre, pois. Sim.
Palmas para Büchner.
Esta frase serve na perfeição os meus propósitos, isto é, omitir tudo o que se passa desde a primeira cena do primeiro acto até ao fim da peça. É verdade que Lena ainda não apareceu e sem ela o "era uma vez" fica manco. Também é verdade que a felicidade do fim (ver próximo post) é quase indigna, de irreal e falsa. Mas aceitemos o impossível. Era uma vez Lena, princesa do reino de Pipi e Leôncio, príncipe do reino de Pupu que não queriam casar por contrato ou conveniência política. Fogem — corrijo: pensam que fogem — mas a teia do acaso (devo dizer inexorável destino?) apanha-os e casa-os, um com o outro. Por amor? Se quiserem. Felizes para sempre, pois. Sim.
Palmas para Büchner.


