Sábado, Julho 9

PRIMEIRO ACTO

Ó, fosse eu um bobo da corte!
Minha ambição estaria num casaco colorido.

"Como Gostais", Shakespeare



Primeira cena: Um jardim


Leonce meio recostado sobre um banco. O Preceptor.

Leonce: Meu senhor, o que quer de mim? Preparar-me para a minha profissão? Minhas mãos não chegam para o que preciso fazer, não sei como dar conta de tanto trabalho. Veja, primeiro devo cuspir trezentos e sessenta e cinco vezes seguidas, aqui sobre essa pedra. O senhor nunca experimentou fazer isso? Pois então experimente, é um divertimento muito peculiar. E depois... está vendo esta mão cheia de areia? (Pega areia, joga-a para o alto e a apara de novo com o dorso da mão.) Agora jogo-a para o alto. Vamos apostar? Quantos grãozinhos tenho agora no dorso da minha mão? Par ou ímpar?... Como? O senhor não quer apostar? O senhor é ateu? Acredita em Deus? Costumo apostar comigo mesmo e sou capaz de passar dias e dias nisso. Se o senhor souber de alguém que tenha prazer de apostar comigo às vezes, eu lhe ficaria muito agradecido. Depois... preciso refletir como se poderia conseguir um jeito para que eu veja uma vez o topo da minha cabeça... como seria se eu pudesse me ver de pernas para o ar. Ó, pudesse alguém enxergar o topo de sua cabeça! Este é um dos meus ideais. Faria tão bem para mim. E depois... e depois uma quantidade infinita de coisas dessa espécie. Será que sou um vadio? Será que não tenho ocupação?... Sim, isso é triste...

Preceptor: Muito triste, Sua Alteza!

Leonce: Que as nuvens estejam há três semanas passando do oeste para o leste. Isso me deixa profundamente melancólico!

Preceptor: Uma melancolia muito bem fundamentada.

Leonce: Homem, por que não me contradiz? O senhor está com pressa, não é verdade? Sinto tê-lo retido por tanto tempo. (O Preceptor afasta-se, com uma profunda mesura.) Meu senhor, felicito-o pelos belos parênteses que suas pernas formam quando o senhor se inclina.

Leonce: (Sozinho, estica-se sobre o banco.) As abelhas pousam tão preguiçosas sobre as flores, e a luz do sol deita tão indolente seus raios pelo chão. Grassa uma ociosidade medonha. O ócio é a origem de todos os vícios. O que as pessoas não fazem por causa do tédio! Estudam por tédio, se apaixonam, casam, multiplicam-se por tédio e, finalmente, morrem de tédio e – aí está o engraçado – fazem tudo com a cara mais séria do mundo, sem saber por que e, nisso, pensam Deus sabe o quê. Todos esses heróis, esses gênios, esses idiotas, esses santos, esses pecadores, esses pais de família não passam, no fundo, de refinados vadios. Mas por que logo eu tenho de saber disso? Por que não posso eu levar-me a sério e vestir o pobre boneco com um fraque e colocar-lhe um guarda-chuva na mão, para que ele se torne muito correcto, muito útil e cheio de moral? Aquele homem que há pouco saiu daqui, eu o invejo, eu seria capaz surrá-lo de tanta inveja. Oh, se alguma vez a gente pudesse ser alguém outro! Só por um minuto!

Valério entra correndo, meio bêbado.

Leonce: (Segura-o pelo braço) Como corre o sujeito! Meu Deus, soubesse eu de algo sob o sol que ainda me fizesse correr assim!

Valério: (Posta-se diante do Príncipe, coloca o dedo sobre o nariz e olha fixamente para ele) Sim!

Leonce: (Do mesmo modo) Certo!

Valério: O senhor me compreendeu?

Leonce: Perfeitamente!

Valério: Bem, então falemos de outra coisa. (Ele se deita na grama)
Vou deitar-me na grama e deixar que meu nariz floresça por sobre os talos e inale sensações românticas quando as abelhas e borboletas se balouçarem nele como se fosse uma rosa.

Leonce: Mas cuidado, meu caro, não aspire com tanta força, senão as abelhas e borboletas hão de morrer de fome devido às enormes pitadas que o senhor extrai das flores.

Valério: Ah, senhor, não imagina que sentimentos eu tenho pela natureza! A grama está tão bonita que a gente gostaria de ser um boi para comê-la, e depois voltar a ser homem e comer o boi que comeu semelhante grama.

Leonce: Infeliz, você também parece afligir-se por ideais.

Valério: É uma lástima. Não se pode pular de uma torre de igreja sem quebrar o pescoço. Não se pode comer quatro quilos de cerejas com caroço sem ficar com dor de barriga. Veja, meu senhor, eu poderia me sentar em um canto qualquer e cantar desde cedo pela manhã até o anoitecer: "Ei, aí está uma mosca na parede! Uma mosca na parede! Uma mosca na parede!" e assim por diante, até o fim da minha vida.

Leonce: Cala a boca! Para com essa sua canção, ela pode deixar qualquer um louco!

Valério: Já é ser alguma coisa! Um louco! Um louco! Quem quer barganhar a troca de sua loucura pela minha razão! Ah! Eu sou Alexandre, o Grande! Veja como o sol faz brilhar uma coroa dourada nos meus cabelos, como refulge o meu uniforme! Senhor Generalíssimo Gafanhoto, mande avançar as tropas! Senhor Ministro das Finanças Aranha Cruzeira, eu preciso de dinheiro! Querida dama de Honor Libélula, como vai minha querida esposa Talo de Feijão? Ah! Meu caro Senhor Medicus Cantéride, eu estou precisado de um príncipe herdeiro. E por essas deliciosas fantasias, recebe-se uma boa sopa, uma boa carne, um bom pão, uma boa cama e o corte de cabelo é gratuito — quer dizer, no hospício — enquanto eu, com a minha saudável razão, poderia no maximo empregar-me apenas para fomentar o amadurecimento de uma cerejeira, para...

Leonce: Para que as cerejas, pelos buracos que você tem nas calças, fiquem rubras de vergonha! Mas meu ilustríssimo, e o seu ofício, a sua profissão, o seu negócio, a sua posição e a sua arte?

Valério: (Com dignidade) Meu senhor, eu tenho a grande ocupação de andar ocioso, eu tenho uma incomum habilidade de não fazer nada, eu possuo uma imensa perseverança na preguiça. Veja, nenhum calo envergonha minhas mãos, o solo ainda não bebeu uma só gota de suor da minha fronte, ainda sou virgem no trabalho, e se não fosse por demais trabalhoso, eu me daria ao trabalho de lhe explicar melhor todos os meus méritos.

Leonce: (Com entusiasmo cómico) Venha me dar um abraço! É você um desses seres divinos que caminham sem esforço, com a testa limpa de suor e de poeira, pela estrada real da vida, qual desses bem-aventurados? venha! Venha!

Valério: (Canta ao sair) Ei! Aí está uma mosca na parede! Uma mosca na parede! Uma mosca na parede! (Saem ambos de braços dados)


"Büchner — Na Pena e na Cena", tradução de J. Guinsburg e Ingrid D. Koudela, Editora Perspectiva, São Paulo, 2004

Volta Minna, estás perdoada!

A primeira vez que ouvi falar de Minna torci o nariz*. Porque é que ela decidiu destruir a última obra de Büchner? A peça sobre Pietro Aretino não estava terminada, e daí? Woyzech é ou não é um quebra-cabeças? Um maravilhoso quebra-cabeças!

Entretanto recolhi mais dados e mudei de opinião. Ao contrário de Max Brod — que prometeu mas não cumpriu —, Minna manteve-se fiel. É certo que o caso é ligeiramente diferente, no fundo nem o noivo pediu nem ela jurou. Mesmo assim, tinha as suas razões. "A lembrança de Büchner me é cara demais para que eu desejasse entregar algo incompleto à crítica e aos resenhadores", foi deste modo que Minna Jägle enxutou Karl Emil Franzos, editor da obra completa de Georg Büchner.
Li várias vezes a frase e li também algumas das extraordinárias cartas que Büchner lhe escreveu. Só posso tolerar o gesto e perdoar; creio que no seu lugar faria a mesma coisa – que se lixe a humanidade mais a literatura e as obras-primas, o amor ou é isto ou não é nada.

Agora não me resta outra alternativa senão procurar o único livro de Büchner que me falta: "Memória sobre o Sistema Nervoso do Barbo". O barbo é um peixe.


p.s. felizmente Max Brod não era uma mulher.

esperar o inesperado, diz o mestre



1. Encontrar Viaggio in Italia de Roberto Rossellini quatro dias depois do primeiro episódio de My Voyage to Italy de Scorsese (às terças-feiras, 22h30, na 2:) não é inesperado mas sim um dos meus golpes de sorte. Estava na fnac de Santa Catarina (a secção de importados está muito apetecível, logo perigosa). Mandei guardar, tenho uns vales aqui em casa para aflições deste tipo. 2. Também não é inesperado que o livro de Sophie Calle voltasse às minhas mãos (infelizmente não me decido a comprá-lo). Sophie é muito divertida, cada vez gosto mais dela. 3. Inesperado é comprar umas sandálias azuis com florzinhas. A culpa é do Walser, quero dizer, da minha leitura deturpada de Walser. 4. Por falar em Walser lembro-me que prometi voltar a "Leôncio e Lena" aliás, o tema era: porque é que a comédia de Büchner liga tão bem com Walser. Vou fazer assim, não explico nada, apresento apenas as provas. Primeiro perdoo a Minna (dívidas antigas) e depois avanço para a festa. Tenho duas edições de "Leôncio e Lena", uma portuguesa (tradução de Renato Correia para o Grupo de Teatro Cena, Novembro de 1982) e outra mais recente, brasileira; prefiro a brasileira até porque — se se recordam — o Príncipe laparoto da Branca de Neve (Robert Walser & João César Monteiro) também tem sotaque e por tudo isso imaginei a peça do outro lado do Equador. Tomem os vossos lugares. Acabará tudo em bem, se assim se pode dizer.

Sexta-feira, Julho 8

Indicações Eventuais

Depois de ler cinco romances de Thomas Bernhard,especializou-se em títulos. Não escrevia apenas os títulos, não, não era nenhum Bartleby, ele empolgava-se e escrevia mesmo; duzentas, trezentas e uma vez chegou às quatrocentas e cinquenta e sete páginas. Utilizava todos os recursos disponíveis: descrições secas, impressões delirantes, diálogos directos ou indirectos, monólogos intermináveis, citações e aforismos. Quando chegava ao fim do livro começava a apagar as palavras — uma a uma, com volúpia, até ficar só o título. E era disso que ele mais gostava.
Publicou 17 títulos numa editora clandestina suiça. Nunca foi descoberto pelo Eduardo Prado Coelho, felizmente.

13. Fish & Bird

They bought a round for the sailor
And they heard his tale
Of a world that was so far away
And a song that we'd never heard
A song of a little bird
That fell in love with a whale

...

9. We're all mad here

(epílogo) O jardineiro não percebe nada de leitores mas sabe o nome das árvores. A minha árvore é um tulipeiro e as suas flores parecem as chávenas de chá do chapeleiro louco. Se atravessar o espelho perco-me na floresta. Assim espero.

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Fotografias de: FORESTS FOREVER

o fogo, os fogos



Abri a porta de casa e apanhei com o cheiro nauseabundo do incêndio. É aqui perto ou então é um fogo enorme (ou vários?). Há cinzas no ar, o céu está envolto numa nuvem de fumo amarelo e doentio. Para além da revolta sinto vergonha. A mesma história, ano após ano.

A primeira notícia que eu quero ler hoje é esta:

Londrinos regressam ao trabalho com metro reaberto
08.07.2005 - 08h47 PUBLICO.PT


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Londres vai continuar: “Ontem fugimos desta grande cidade, mas hoje regressamos a uma cidade ainda mais forte e grandiosa. As pessoas que fizeram isto devem saber que falharam. Meteram-se com a cidade errada. Londres vai continuar”, lê-se numa das mensagens que repousa junto ao local onde uma das bombas do ataque terrorista de quarta-feira fez explodir um autocarro, matando 13 pessoas. Foto: Geoff Caddick/AP /PUBLICO.PT (publicado a 9.7.2005)

Quinta-feira, Julho 7

...


V


What we call the beginning is often the end
And to make and end is to make a beginning.
The end is where we start from. And every phrase
And sentence that is right (where every word is at home,
Taking its place to support the others,
The word neither diffident nor ostentations,
An easy commerce of the old and the new,
The common word exact without vulgarity,
The formal word precise but not pedantic,
The complete consort dancing together)
Every phrase and every sentence is an end and a beginning,
Every poem an epitaph. And any action
Is a step to the block, to the fire, down the sea's throat
Or to an illegible stone: and that is where we start.
We die with the dying:
See, they depart, and we go with them.
We are born with the dead:
See, they return, and bring us with them.
The moment of the rose and the moment of the yew-tree
Are of equal duration. A people without history
Is not redeemed from time, for history is a pattern
Of timeless moments. So, while the light fails
On a winter's afternoon, in a secluded chapel
History is now and England.

With the drawing of this Love and the voice of this Calling

We shall not cease from exploration
And the end of all our exploring
Will be to arrive where we started
And know the place for the first time.
Through the unknown, unremembered gate
When the last of earth left to discover
Is that which was the beginning;
At the source of the longest river
The voice of the hidden waterfall
And the children in the apple-tree
Not known, because not looked for
But heard, half-heard, in the stillness
Between two waves of the sea.
Quick now, here, now, always-
A condition of complete simplicity
(Costing not less than everything)
And all shall be well and
All manner of thing shall be well
When the tongues of flames are in-folded
Into the crowned knot of fire
And the fire and the rose are one.


T. S. Eliot, Little Gidding

Hoje foi em Londres

Quarta-feira, Julho 6


Sophie Calle, Les Dormeurs (detalhe), 1979

"Dormem o tempo todo", disse o detective quando me entregou os relatórios e as fotografias. "Talvez a culpa seja sua, aborrece-os", acrescentou. E preparava-se para continuar o discurso mas eu arrumei logo o caso, quer dizer, fechei-lhe a porta na cara. Não gosto de detectives palavrosos; amanhã vou contratar um jardineiro. Ele sim, há-de descobrir todo o vosso esplendor.

noir sur noir

Inspirada em Sophie Calle, resolvi contratar um detective para seguir todos os leitores deste blogue. Neste exacto momento: olhem para trás, vêem aquele tipo com uma gabardine cinzenta e olhos descaídos? É ele.

Príncipes, coelhos e outros bichos azuis:

Terça-feira, Julho 5

a ordem do universo (à minha escala)

depois dos morangos, as cerejas; depois das cerejas, as uvas...

rua das Estrelas, s/n

Polícia sem lei, Abel Ferrara (7 e 8 Julho) > Estrada perdida, David Lynch (9 e 10) > Barton Fink, Joel e Ethan Cohen (11 e 12) > Homens simples, Hal Hartley (14) > Noite na terra, Jim Jarmusch (15 e 16) > Sombras, John Cassavetes (17 e 18) > Tarnation, Jonathan Cauette (19 e 20) > Ghost world, Terry Zwigof (21 e 22) > Happiness, Todd Solondz (23 e 24) > Bufalo' 66, Vincent Gallo (25 e 26) > Elephant, Gus Van Sant (27, 28 e 29) > Antes do anoitecer, Richard Linklater (30 e 31)

[sessões às 18h30 e 22h00, bilhetes a 3 euros]

strangers talk only about the weather #21

Está calor; o ceú azul, sem nuvens; o vento sopra com força. É assim que imagino as piores desgraças.

Segunda-feira, Julho 4

Prémio mr. Hulot

Para o executivo dos STCP que teve a ideia brilhante de pintar cinco pegadas cor-de-laranja fluorescente junto às paragens dos autocarros.

os sapatos do senhor Godard

A caminho de Sarajevo, Rosette diz a Jérôme que percebe Musset ("Não se brinca com o amor" é a peça que eles ensaiam) mas não compreende a filosofia de Camille. Ele explica-lhe que a filosofia é algo entre quase nada e um não sei o quê. A frase resulta muito bem em francês — un je ne sais quoi — parece profunda e até misteriosa. No entanto já ouvi definições melhores. Contaram-me há uns dias que, numa reportagem do Público, um rapaz explicava à irmã mais nova: "a filosofia é tu pensares em calçar os sapatos mas não os calçares". Ora aí está!

Ainda um pormenor (o cinema de Godard é feito destas citações, não é?) na claquete do filme que está a ser rodado, o homem da câmara chama-se B. Kaufman Jr.

Para além disso Forever Mozart é um bocado desengonçado.
p.s. Era suposto terminar o fim-de-semana com a CENA 22 de Le Bassin de John Wayne. Não tive tempo, por isso adio a publicação para dias mais prósperos. À bientôt !

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Domingo, Julho 3

Erwartet die Form nicht vor dem Gedanken! Aber gleichzeitig wir da sein

Não sei exactamente porque gosto tanto de Sicilia! Podia dizer que é a mestria de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet: o modo como chegam à forma, a um plano; como retiram o que está a mais e deixam apenas o essencial (tão pouco, às vezes apenas a promessa de um sorriso); como tudo isso nos comove.
Ou então: a fotografia de William Lubtchansky. O branco, o preto e todas as outras cores que juro ter visto no filme.
Os actores, claro. Trabalhavam e depois iam para as filmagens. Desconheciam Straub e Huillet, desconheciam Vittorini. Foram entrando aos poucos no texto, com a alma. São musicais e sublimes; acreditamos neles, em todos os seus gestos.
A conversa de Vittorini? A miséria e a dignidade, ambas tão agrestes quanto imagino a terra da Sicilia, como a vi nas suas fotografias.

Se o cinema ainda pode ser revolucionário é assim que o pressinto. Talvez a palavra não seja essa, talvez não seja nenhuma revolução mas resistência. Não sei bem o que vai de uma palavra à outra, o dicionário afasta-as, eu teimo em juntá-las. Um dia hei-de aprender o que querem dizer?

[Para ler: Les gens disent: "Straub travaille avec les mots", c'est faux. Il cherche les images...]
[cabina de projecção]

Danièle Huillet: Sicilia!... se nos apaixonámos e nos apeteceu fazer o filme foi porque, em 1972, quando andávamos por Itália, à procura de lugares para filmar Moisés e Aarão, que rodámos em 1974, fizemos 30 000 quilómetros a passo de caracol e, um dia, em cima de uma ponte, dissemos um para o outro: «que cheiro tão estranho, não é desagradável, mas é muito intenso, que será?»
E vimos quintais de laranjas despejadas num rio.
Isso ficou-nos cá dentro e quando lemos o início de Conversazione in Sicilia, veio-nos à ideia, como uma recordação muito forte.
Dito isto, como é que um homem e uma mulher fazem para aguentar... é a palavra certa — AGUENTAR — juntos?
Também tem a ver com as laranjas no rio...


"Onde jaz o teu sorriso?" diálogos, livros de cinema da Assírio & Alvim, páginas 99 e 101
[ aqui devia ouvir-se: Concerto Brandeburguês n.º5, Allegro de J. S. Bach, Ensemble für alte musik, Viena Gustav Leonhardt (cravo)]