Terça-feira, Julho 19

fui ao mar buscar laranjas

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O título é de Pedro Silveira; o mar é de Gerhard Richter; volto em Setembro, com as laranjas.




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p.s. já me esquecia das recomendações sonoras: O Verão, por conta do Francisco,
AQUI
Após um tempo, nadar embriaga um pouco. A respiração, o ritmo, os movimentos repetidos são a relojoaria de um tempo alheio ao pulso de quem se encontra no seco. O nadador sabe, a cada minuto, que depende de uma disciplina para não ir ao fundo. Com o tempo, isso não assusta mais, não peocupa tanto. Com o tempo, a disciplina fabrica um torpor agradável, destila um sentimento egoísta de liberdade, uma sensação que se mostra tão coerente, tão merecida que, na hora, nem sei se algum outro tipo de liberdade poderia mesmo existir.

Rubens Figueiredo, "Barco a seco", Cotovia, 2001, página 10

Segunda-feira, Julho 18

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>— Não. Vamos viajar.
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— Vamos brincar aos legos?

Domingo, Julho 17

The film you have just seen was an improvisation

— E o Cassavetes?
— Vai ter que esperar. Hoje é dia de ir buscar as passagens.

Incondicional

Um dia cruzei-me com Jim Jarmusch. Acontecimento discreto numa rua da Figueira da Foz: eu com quinze insignificantes anos e ele com aquele cabelo hirto. Desde então gosto dos seus filmes, mesmo quando não são tão bons assim. E tudo começou como deveria sempre começar: Permanent vacation, Stranger Than Paradise...

Um dia ideal para o peixe-banana

Seymour ofereceu um livro alemão a Muriel, de poemas, escritos pelo único grande poeta do século. Mais tarde, naquele hotel na Florida perguntou-lhe pelo livro, queria saber se ela o tinha lido. Disse que ela devia ter comprado uma tradução ou aprendido alemão.

Isso ficou a remoer cá por dentro e hoje de manhã, quando descia a rua Pero de Alenquer percebi que no fundo ele, Seymour, sem saber, estava a falar comigo. Não bastam palavras de amor, é preciso chegar aos gestos. Vou aprender alemão, nem mais nem menos.

Sábado, Julho 16

Nove Contos, de J. D. Salinger*

Um dos meus escritores escondidos preferidos é J. D. Salinger. Ainda só li quatro destas histórias. São curtas, entramos a sorrir e depois, sem dar conta, quando estamos apenas a uma ou duas páginas do fim, começamos a sentir um calafrio. E isso não se explica.

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* tradução de José Lima, Difel, Junho de 2005, recém chegado às livrarias

livros perdidos

Pregar pregos, e sobretudo ganchos, era para ele uma delícia, e quase uma necessidade física.

Na fnac do NorteShopping há um "Trinca-Pregos" de Albert Cohen perdido. A editora (Contexto, Outubro de 1999, tradução de Pedro Tamen) já acabou, os últimos exemplares andam por aí. O livro é uma pérolazinha mas ninguém lhe pega; há meses que está arrumado alfabeticamente naquela prateleira, junto a Leonard Cohen. Quando lá vou, abro-o e faço-lhe festas.

CENA 22




Cenário: Campo coberto de gesso, junto de uma fábrica de produtos químicos, visto através de um aparelho de televisão com a imagem a preto e branco. Exterior. Dia.
Personagens: Jornalista da têvê, Ariane, João de Deus, Lúcio, aliás Luciano.

Durante a duração da cena, a câmara aproxima-se muito lentamente do televisor, até que, graças ao cinema, o pequeno écran se transforme em grande, isto é, maior do que o objecto. Um jornalista da têvê, equipado com sobretudo de astracã e chapka siberiana, garante a cobertura do evento, de microfone em riste, como um caralho um tanto triste.


JORNALISTA: E porquê o Pólo Norte?

ARIANE: Era um velho sonho do João: encontrar uma alma gémea com a qual pudesse mexer maravilhosamente a bacia no Pólo Norte. Não foi Deus... foi a bacia de John Wayne que o inspirou durante a vida inteira.

JORNALISTA: A bacia de John Wayne? Não estou a ver...

ARIANE: No sonho do meu marido, John Wayne mexia maravilhosamente a bacia no Pólo Norte.

JORNALISTA: Há sem dúvida sonhos mais extravagantes. E, se me é permitido, podemos saber que estranho mistério envolve a bacia de John Wayne?

Panorâmica descendente e ascendente sobre Ariane, com paragem na região pélvica.

ARIANE: Não há mistério nenhum. É muito simples: o John Wayne arrasta ligeiramente a perna esquerda, porque é mais pesada do que a direita. Os velhos alfaiates sabiam-no e, por isso, provavam as calças sempre à medida. Na perna esquerda, junto aos órgãos genitais, desenhavam a giz uma bolsinha e perguntavam escrupolosamente aos clientes: "Está bem assim, ou quer um nadinha mais folgada?". Ora aí tem!



(continua)
(continuação)



JOÃO DE DEUS: (off) Não havia que enganar. Estavam sempre no sítio e à mão de semear.

JORNALISTA: E, tendo chegado a essa conclusão, decidiram casar-se...

ARIANE: Casámos porque estávamos famintos. Famintos de amor, se quiser, que o amor é filho da fome. Já para os gregos, Eros era filho de Pénia, da Pobreza.
O amor é fome de outra vida, desejo de transitar. Quando dois amantes se abraçam e beijam, entredevoram-se, morrem um no outro, de algum modo, e transitam para um novo ser. A vida não pode ficar, em nós, a repetir-se, que repetir é estar parado, é ocupar o mesmo lugar.
O amor compensa a morte, dá o que ela tira. O homem perpetua-se, amando e alimentando-se: Comei! este é o meu corpo! O corpo é fruto assimilado; e o fruto é húmus, água e sol. E o fruto assimilado se transformará em espírito, alcançando assim a Divindade.

JOÃO DE DEUS: (off) E dizia-se ainda mais. dizia-se, por exemplo: O que é que o cu tem a ver com as calças? A minha mulher é que sabe tudo mas, para dizer a verdade, não há grande coisa para saber. A primeira vez que vi a Ariane, olhei-a nos olhos, de alto a baixo, ai minha rica bacia, calei-me muito bem caladinho, e disse de mim para mim: É esta!
Um homem, se for homem, aguenta a penada: Tem-te, não caias, Joãozinho!
Não sou homem de muitas falas. Na primeira aberta, só lhe disse o que o professor Salazar terá dito à governanta: "Mariazinha, não estamos aqui para nos divertirmos".

JORNALISTA: E podemos saber o que, à semelhança de tantos dos nossos compatriotas espalhados pelos quatro cantos do mundo, vos leva a emigrar?

JOÃO DE DEUS: Pode. estamos fartos desta caca.

JORNALISTA: Mas não têm condições de trabalho no nosso país?

JOÃO DE DEUS: Nem de trabalho, nem de coisíssima nenhuma, embora me desagrade ver trabalhar.

JORNALISTA: Mas nunca exerceu nenhuma actividade profissional?

JOÃO DE DEUS: Ponha artista saltibanco ou não ponha nada. É-me igual, mas quando era miúdo, passou-me pela cabeça ser marinheiro. Queria andar no mar alto, com um papagaio empoleirado no ombro. Ver outras terras, outras gentes.

ARIANE: Não sejas modesto, meu amor. Agora anda com a mania que foi marinheiro de água-doce.

JOÃO DE DEUS: Je vou salue, viel Océan! Il était un petite navire, qui n'avait jamais navigué...

JORNALISTA: E como pensam sobreviver no Pólo Norte? A comer carne de burro?

JOÃO DE DEUS: A fazer buraquinhos no gelo com a nossa varinha mágica. A minha mulher e eu não gostamos de carne de burro. temos umas boquinhas muito esquisitas e não somos democratas.

JORNALISTA: E como pensam resistir à inclemência das neves eternas?

JOÃO DE DEUS: Estás a ouvir Ariane? O gajo diz que a gente não vai resistir.

ARIANE: Deixa-o falar. pareces que não conheces a corja da têvê.

JOÃO DE DEUS: Quem conseguiu sobreviver nesta piolheira, também consegue sobreviver no Pólo Norte. Não se preocupe connosco. Se nos chatearmos, partimos para a lua...

JORNALISTA: Podemos, então, concluir que é o mesmo desejo de aventura que levou os portugueses de antanho à maravilhosa descoberta de novos mundos, que vos motiva ainda hoje?

JOÃO DE DEUS: Oiça, meu simpático senhor: digamos que é o mal-estar do mundo contemporâneo. Sou apenas um pobre emigrante polar. Polar ártico. Sou velho como o cagar e chamo-me João de Deus.
T'en en train de me regarder, Jean? Excuse-moi le sale coup, mai chat échaudé craint l'eau froide. Ariane va te tricoter une paire de chaussettes en laine et moi je t'enverrai un petit cachalot, pour tes descentes dans le fleuve. Tiens bon, mon vieux français... Encore un effort... Je ne suis pas merdiatique du tout, n'est-ce pas?

JORNALISTA: Mas...

João de Deus volta as costas ao jornalista e acaricia a cabeça do burro.

JOÃO DE DEUS: Anda, Luciano, que já enganámos mais um!

João de Deus ajuda Ariane a montar o burro. O jornalista estende, em vão, a mão a João de Deus, tira o gorro, limpa o suor da testa e sai de campo. João de Deus, descalço, conduz o burro pela arreata. Estuga o passo, vai veloz, mas não segura: Ariane estatela-se. Pequeno bate-cu sem consequências de maior. Desistirão os destemidos emigrantes, tão polares e merdiárticos?



João César Monteiro, Le Bassin de John Wayne, & etc, 1997

Sexta-feira, Julho 15

aerobic goes western

Bom dia, hoje vamos aprender a mexer maravilhosamente a bacia no Pólo Norte, como John Wayne faz em sonhos. O primeiro exercício é simples, basta uma porta, boas ancas e — valha-nos Godard — um não sei o quê.


The Searchers (John Ford), John Wayne brings the girl home

três links

da literatura: João Paulo Sousa e Os alunos do Instituto Benjamenta.


O Mário abriu uma galeria. Até aí nada de estranho, ele é fotógrafo. Mas esta é uma galeria diferente, mal entramos ouvimos música. Ora experimentem: The song remains the same.


Ai ou ai? As tabelas de excel da Lídia.

Quinta-feira, Julho 14

um sistema

Ofereceram-me um lápis. Aliás, para ser precisa, é apenas meio lápis e já está um bocado roído. "Mas o grafite é muito suave, vais gostar."
E não é que se transformou na melhor prenda dos últimos tempos?

— E o João César Monteiro?

— Não está. Foi à mercearia comprar leite. Levou o carrinho de mão vermelho. Vai demorar.
Hal Hartley playing Godard to the sound of "Kool Thing" by Sonic Youth
Do you wanna try?


Ned: I want adventure. I want romance.
Bill: Ned, there is no such thing as adventure. There's no such thing as romance. There's only trouble and desire.
Ned: Trouble and desire.
Bill: That's right. And the funny thing is, when you desire something you immediately get into trouble. And when you're in trouble you don't desire anything at all.
Ned: I see.
Bill: It's impossible.
Ned: It's ironic.
Bill: It's a fucking tragedy is what it is, Ned.
efeito-clash-stereo: London Calling, por vias travessas
103 — Tens inteira liberdade de te absteres dos sofrimentos do mundo, isso corresponde à tua natureza; mas talvez o facto de te absteres seja o único sofrimento que possas evitar.


Franz Kafka, "Meditações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho", in Antologia de Páginas Íntimas, tradução de Alfredo Margarido, Guimarães Editores

Quarta-feira, Julho 13

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E eis o príncipe e a jovem, tão pura quanto o seu nome indica, — o qual evoca para nós a morte de Walser na neve — aterrorizados por uma cena bestial entre a rainha e o caçador. O homem está deitado sobre a mulher e as suas atitudes parecem aos dois inocentes uma brutalidade espantosa. O amor será isto? Uma luta encarniçada?

Beijos envenenados, amor e crime intimamente imbricados, é absolutamente imprescindível corrigir o conto de Grimm. A mãe, madrasta, não pode ser tão malvada, seria insuportável. Mas Branca de Neve deve aprender que amor e ódio não estão nunca muito afastados. Ela compreende. Julgava-se — como Robert — "ferida, expulsa, perseguida, odiada". Era apenas tonta e agora tudo acaba em bem. Branca de Neve escolheu ser feliz.


Marie-Louise Audiberti/João César Monteiro, sinopse de Branca de Neve

Terça-feira, Julho 12

Livro das Orações #5

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Somos poeira, mas poeira enamorada!


João César Monteiro, As Bodas de Deus

250 grs de sortido húngaro

24 picadelas por segundo: Quando acordei verifiquei que o conde húngaro era apenas um mosquito insolente e miserável. Que desperdício! Que infelicidade!


Recolhimento: Não esperem mais nada deste blogue, por aqui reza-se a Deus, com muita devoção. Até ir a banhos vai ser assim: A César o que é de César, a Deus o que é de Deus. Bom, mais ou menos, as orações nem sempre serão fiéis mas, se conseguir um patrocínio, oferecerei gelados a todos quando chegar ao fim. A bem da moral e da prática desportiva.


Ilhas: (upa, upa) E a harpa lá chegou às Flores, a bordo de um Casa C-212 da Força Aérea.

Livro das Orações #4

Novo sermão aos Peixes (para um Robalo e quatro comensais):

— Por mim não punha mais nada. Nem presunto nos lombos, nem nada. Gordo já ele é. Levava-o ao forno assim, quase de seu natural. Umas pedrinhas poucas de sal, não digo que não. Um fiozinho de azeite do melhor, um pézinho de salsa fresquinho, e disseste, Amélia, "temperos a mais, matam-lhe o gosto a mar". De resto, o lume é que manda


João César Monteiro, À Flor do Mar

Segunda-feira, Julho 11

eu supero, tu superas, somos todos vigaristas, eles dão-nos cabo da vida

Foi junto a esta árvore no Príncipe Real que o ciclo começou, em 1971. (Uma cidade fechada, um país fechado.) "Quem espera por sapatos de defunto" é o segundo filme de João César Monteiro: trinta minutos a preto & branco, custou 200 contos. Antes de chegarem ao jardim, os dois rapazes estão sentados à mesa de um café, conversam sobre engates. O mais prático diz ao outro (que se chama Lívio/Luís Miguel Cintra/ e há-de ser enviado de deus): "Já era tempo de deixares de ser parvo e romancista russo. Vocês... já coiso?"
A barata que caiu do tecto no copo de água acaba por morrer.
Quase no fim, Lívio escreve num caderno. "O cinema é uma vigarice (Godard) mas essa vigarice deve pode ser superada". Deve.

Autocarro nº 100

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pausa para o almoço (sem telejornal): à sombra das nossas árvores * e dos nossos heróis, enquanto a merda do país arde.

Livro das Orações #3

(Psicanalisando com Dona Violeta:)

— É debaixo das camas que a porcaria se amontoa. Aquele cotão que até se entranha nas vassouras.


João César Monteiro, Recordações da Casa Amarela

tom waits meets büchner (técnica mista com colagem e aldrabice)

Faça este teste e veja realmente quem você é!

Opção 1. All_The_World_Is_Green

Opção 2. God's_Away_On_Business


As pessoas que escolherem a opção 1 têm tendência para serem sombrias, pessimistas, desiludidas com a vida, infelizes, e às avessas com o mundo. As pessoas que escolherem a opção 2 são felizes e optimistas com uma sensação contínua de bem-estar. Estão contentes com a vida e acham-na compensadora.

Domingo, Julho 10

(fim da terceira cena do terceiro acto. No grande salão. Leonce, Lena, Valério e a Governanta)

Leonce: E então Lena, está vendo agora como temos os bolsos cheios, cheios de bonecos e de brinquedos? O que vamos fazer com eles? Vamos pintar bigodes e pendurar espadas neles? Ou vamos vesti-los com casacas e deixar que façam infusória política e diplomacia, sentando-nos ao seu lado com o microscópio? Ou você deseja um realejo, sobre o qual ficam correndo estéticos musaranhos brancos como leite? Vamos construir um teatro? (Lena encosta-se nele e sacode a cabeça.) Mas eu sei muito bem o que você quer, vamos quebrar todos os relógios, proibir todos os calendários e contar as horas e as luas pelo relógio das flores, apenas pela floração e pelo fruto. E depois cercaremos nosso reinozinho com espelhos solares para que não haja mais inverno e, no verão, nós nos volatilizaremos para ir até Ischia e Capri, ficando o ano inteiro entre rosas e violetas, entre laranjas e loureiros.

Valério: E eu serei ministro de Estado e será baixado um decreto, segundo o qual aquele que criar calos nas mãos ficará sob custódia, aquele que trabalhar até ficar doente será passível de condenação por crime, todo aquele que se gabar de ganhar o pão com o suor do seu rosto será declarado louco e considerado um elemento perigoso para a sociedade humana, e depois deitaremos à sombra e pediremos a Deus macarrão, melão e figos, e gargantas musicais, corpos clássicos e uma religião cómoda!

"Büchner — Na Pena e na Cena", tradução de J. Guinsburg e Ingrid D. Koudela, Editora Perspectiva, São Paulo, 2004

do Leôncio e da Lena

O que está no meio não interessa, escreveu José Mário Silva há uns dias.

Esta frase serve na perfeição os meus propósitos, isto é, omitir tudo o que se passa desde a primeira cena do primeiro acto até ao fim da peça. É verdade que Lena ainda não apareceu e sem ela o "era uma vez" fica manco. Também é verdade que a felicidade do fim (ver próximo post) é quase indigna, de irreal e falsa. Mas aceitemos o impossível. Era uma vez Lena, princesa do reino de Pipi e Leôncio, príncipe do reino de Pupu que não queriam casar por contrato ou conveniência política. Fogem — corrijo: pensam que fogem — mas a teia do acaso (devo dizer inexorável destino?) apanha-os e casa-os, um com o outro. Por amor? Se quiserem. Felizes para sempre, pois. Sim.
Palmas para Büchner.

Sábado, Julho 9

PRIMEIRO ACTO

Ó, fosse eu um bobo da corte!
Minha ambição estaria num casaco colorido.

"Como Gostais", Shakespeare



Primeira cena: Um jardim


Leonce meio recostado sobre um banco. O Preceptor.

Leonce: Meu senhor, o que quer de mim? Preparar-me para a minha profissão? Minhas mãos não chegam para o que preciso fazer, não sei como dar conta de tanto trabalho. Veja, primeiro devo cuspir trezentos e sessenta e cinco vezes seguidas, aqui sobre essa pedra. O senhor nunca experimentou fazer isso? Pois então experimente, é um divertimento muito peculiar. E depois... está vendo esta mão cheia de areia? (Pega areia, joga-a para o alto e a apara de novo com o dorso da mão.) Agora jogo-a para o alto. Vamos apostar? Quantos grãozinhos tenho agora no dorso da minha mão? Par ou ímpar?... Como? O senhor não quer apostar? O senhor é ateu? Acredita em Deus? Costumo apostar comigo mesmo e sou capaz de passar dias e dias nisso. Se o senhor souber de alguém que tenha prazer de apostar comigo às vezes, eu lhe ficaria muito agradecido. Depois... preciso refletir como se poderia conseguir um jeito para que eu veja uma vez o topo da minha cabeça... como seria se eu pudesse me ver de pernas para o ar. Ó, pudesse alguém enxergar o topo de sua cabeça! Este é um dos meus ideais. Faria tão bem para mim. E depois... e depois uma quantidade infinita de coisas dessa espécie. Será que sou um vadio? Será que não tenho ocupação?... Sim, isso é triste...

Preceptor: Muito triste, Sua Alteza!

Leonce: Que as nuvens estejam há três semanas passando do oeste para o leste. Isso me deixa profundamente melancólico!

Preceptor: Uma melancolia muito bem fundamentada.

Leonce: Homem, por que não me contradiz? O senhor está com pressa, não é verdade? Sinto tê-lo retido por tanto tempo. (O Preceptor afasta-se, com uma profunda mesura.) Meu senhor, felicito-o pelos belos parênteses que suas pernas formam quando o senhor se inclina.

Leonce: (Sozinho, estica-se sobre o banco.) As abelhas pousam tão preguiçosas sobre as flores, e a luz do sol deita tão indolente seus raios pelo chão. Grassa uma ociosidade medonha. O ócio é a origem de todos os vícios. O que as pessoas não fazem por causa do tédio! Estudam por tédio, se apaixonam, casam, multiplicam-se por tédio e, finalmente, morrem de tédio e – aí está o engraçado – fazem tudo com a cara mais séria do mundo, sem saber por que e, nisso, pensam Deus sabe o quê. Todos esses heróis, esses gênios, esses idiotas, esses santos, esses pecadores, esses pais de família não passam, no fundo, de refinados vadios. Mas por que logo eu tenho de saber disso? Por que não posso eu levar-me a sério e vestir o pobre boneco com um fraque e colocar-lhe um guarda-chuva na mão, para que ele se torne muito correcto, muito útil e cheio de moral? Aquele homem que há pouco saiu daqui, eu o invejo, eu seria capaz surrá-lo de tanta inveja. Oh, se alguma vez a gente pudesse ser alguém outro! Só por um minuto!

Valério entra correndo, meio bêbado.

Leonce: (Segura-o pelo braço) Como corre o sujeito! Meu Deus, soubesse eu de algo sob o sol que ainda me fizesse correr assim!

Valério: (Posta-se diante do Príncipe, coloca o dedo sobre o nariz e olha fixamente para ele) Sim!

Leonce: (Do mesmo modo) Certo!

Valério: O senhor me compreendeu?

Leonce: Perfeitamente!

Valério: Bem, então falemos de outra coisa. (Ele se deita na grama)
Vou deitar-me na grama e deixar que meu nariz floresça por sobre os talos e inale sensações românticas quando as abelhas e borboletas se balouçarem nele como se fosse uma rosa.

Leonce: Mas cuidado, meu caro, não aspire com tanta força, senão as abelhas e borboletas hão de morrer de fome devido às enormes pitadas que o senhor extrai das flores.

Valério: Ah, senhor, não imagina que sentimentos eu tenho pela natureza! A grama está tão bonita que a gente gostaria de ser um boi para comê-la, e depois voltar a ser homem e comer o boi que comeu semelhante grama.

Leonce: Infeliz, você também parece afligir-se por ideais.

Valério: É uma lástima. Não se pode pular de uma torre de igreja sem quebrar o pescoço. Não se pode comer quatro quilos de cerejas com caroço sem ficar com dor de barriga. Veja, meu senhor, eu poderia me sentar em um canto qualquer e cantar desde cedo pela manhã até o anoitecer: "Ei, aí está uma mosca na parede! Uma mosca na parede! Uma mosca na parede!" e assim por diante, até o fim da minha vida.

Leonce: Cala a boca! Para com essa sua canção, ela pode deixar qualquer um louco!

Valério: Já é ser alguma coisa! Um louco! Um louco! Quem quer barganhar a troca de sua loucura pela minha razão! Ah! Eu sou Alexandre, o Grande! Veja como o sol faz brilhar uma coroa dourada nos meus cabelos, como refulge o meu uniforme! Senhor Generalíssimo Gafanhoto, mande avançar as tropas! Senhor Ministro das Finanças Aranha Cruzeira, eu preciso de dinheiro! Querida dama de Honor Libélula, como vai minha querida esposa Talo de Feijão? Ah! Meu caro Senhor Medicus Cantéride, eu estou precisado de um príncipe herdeiro. E por essas deliciosas fantasias, recebe-se uma boa sopa, uma boa carne, um bom pão, uma boa cama e o corte de cabelo é gratuito — quer dizer, no hospício — enquanto eu, com a minha saudável razão, poderia no maximo empregar-me apenas para fomentar o amadurecimento de uma cerejeira, para...

Leonce: Para que as cerejas, pelos buracos que você tem nas calças, fiquem rubras de vergonha! Mas meu ilustríssimo, e o seu ofício, a sua profissão, o seu negócio, a sua posição e a sua arte?

Valério: (Com dignidade) Meu senhor, eu tenho a grande ocupação de andar ocioso, eu tenho uma incomum habilidade de não fazer nada, eu possuo uma imensa perseverança na preguiça. Veja, nenhum calo envergonha minhas mãos, o solo ainda não bebeu uma só gota de suor da minha fronte, ainda sou virgem no trabalho, e se não fosse por demais trabalhoso, eu me daria ao trabalho de lhe explicar melhor todos os meus méritos.

Leonce: (Com entusiasmo cómico) Venha me dar um abraço! É você um desses seres divinos que caminham sem esforço, com a testa limpa de suor e de poeira, pela estrada real da vida, qual desses bem-aventurados? venha! Venha!

Valério: (Canta ao sair) Ei! Aí está uma mosca na parede! Uma mosca na parede! Uma mosca na parede! (Saem ambos de braços dados)


"Büchner — Na Pena e na Cena", tradução de J. Guinsburg e Ingrid D. Koudela, Editora Perspectiva, São Paulo, 2004

Volta Minna, estás perdoada!

A primeira vez que ouvi falar de Minna torci o nariz*. Porque é que ela decidiu destruir a última obra de Büchner? A peça sobre Pietro Aretino não estava terminada, e daí? Woyzech é ou não é um quebra-cabeças? Um maravilhoso quebra-cabeças!

Entretanto recolhi mais dados e mudei de opinião. Ao contrário de Max Brod — que prometeu mas não cumpriu —, Minna manteve-se fiel. É certo que o caso é ligeiramente diferente, no fundo nem o noivo pediu nem ela jurou. Mesmo assim, tinha as suas razões. "A lembrança de Büchner me é cara demais para que eu desejasse entregar algo incompleto à crítica e aos resenhadores", foi deste modo que Minna Jägle enxutou Karl Emil Franzos, editor da obra completa de Georg Büchner.
Li várias vezes a frase e li também algumas das extraordinárias cartas que Büchner lhe escreveu. Só posso tolerar o gesto e perdoar; creio que no seu lugar faria a mesma coisa – que se lixe a humanidade mais a literatura e as obras-primas, o amor ou é isto ou não é nada.

Agora não me resta outra alternativa senão procurar o único livro de Büchner que me falta: "Memória sobre o Sistema Nervoso do Barbo". O barbo é um peixe.


p.s. felizmente Max Brod não era uma mulher.

esperar o inesperado, diz o mestre



1. Encontrar Viaggio in Italia de Roberto Rossellini quatro dias depois do primeiro episódio de My Voyage to Italy de Scorsese (às terças-feiras, 22h30, na 2:) não é inesperado mas sim um dos meus golpes de sorte. Estava na fnac de Santa Catarina (a secção de importados está muito apetecível, logo perigosa). Mandei guardar, tenho uns vales aqui em casa para aflições deste tipo. 2. Também não é inesperado que o livro de Sophie Calle voltasse às minhas mãos (infelizmente não me decido a comprá-lo). Sophie é muito divertida, cada vez gosto mais dela. 3. Inesperado é comprar umas sandálias azuis com florzinhas. A culpa é do Walser, quero dizer, da minha leitura deturpada de Walser. 4. Por falar em Walser lembro-me que prometi voltar a "Leôncio e Lena" aliás, o tema era: porque é que a comédia de Büchner liga tão bem com Walser. Vou fazer assim, não explico nada, apresento apenas as provas. Primeiro perdoo a Minna (dívidas antigas) e depois avanço para a festa. Tenho duas edições de "Leôncio e Lena", uma portuguesa (tradução de Renato Correia para o Grupo de Teatro Cena, Novembro de 1982) e outra mais recente, brasileira; prefiro a brasileira até porque — se se recordam — o Príncipe laparoto da Branca de Neve (Robert Walser & João César Monteiro) também tem sotaque e por tudo isso imaginei a peça do outro lado do Equador. Tomem os vossos lugares. Acabará tudo em bem, se assim se pode dizer.

Sexta-feira, Julho 8

Indicações Eventuais

Depois de ler cinco romances de Thomas Bernhard,especializou-se em títulos. Não escrevia apenas os títulos, não, não era nenhum Bartleby, ele empolgava-se e escrevia mesmo; duzentas, trezentas e uma vez chegou às quatrocentas e cinquenta e sete páginas. Utilizava todos os recursos disponíveis: descrições secas, impressões delirantes, diálogos directos ou indirectos, monólogos intermináveis, citações e aforismos. Quando chegava ao fim do livro começava a apagar as palavras — uma a uma, com volúpia, até ficar só o título. E era disso que ele mais gostava.
Publicou 17 títulos numa editora clandestina suiça. Nunca foi descoberto pelo Eduardo Prado Coelho, felizmente.

13. Fish & Bird

They bought a round for the sailor
And they heard his tale
Of a world that was so far away
And a song that we'd never heard
A song of a little bird
That fell in love with a whale

...

9. We're all mad here

(epílogo) O jardineiro não percebe nada de leitores mas sabe o nome das árvores. A minha árvore é um tulipeiro e as suas flores parecem as chávenas de chá do chapeleiro louco. Se atravessar o espelho perco-me na floresta. Assim espero.

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Fotografias de: FORESTS FOREVER

o fogo, os fogos



Abri a porta de casa e apanhei com o cheiro nauseabundo do incêndio. É aqui perto ou então é um fogo enorme (ou vários?). Há cinzas no ar, o céu está envolto numa nuvem de fumo amarelo e doentio. Para além da revolta sinto vergonha. A mesma história, ano após ano.

A primeira notícia que eu quero ler hoje é esta:

Londrinos regressam ao trabalho com metro reaberto
08.07.2005 - 08h47 PUBLICO.PT


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Londres vai continuar: “Ontem fugimos desta grande cidade, mas hoje regressamos a uma cidade ainda mais forte e grandiosa. As pessoas que fizeram isto devem saber que falharam. Meteram-se com a cidade errada. Londres vai continuar”, lê-se numa das mensagens que repousa junto ao local onde uma das bombas do ataque terrorista de quarta-feira fez explodir um autocarro, matando 13 pessoas. Foto: Geoff Caddick/AP /PUBLICO.PT (publicado a 9.7.2005)

Quinta-feira, Julho 7

...


V


What we call the beginning is often the end
And to make and end is to make a beginning.
The end is where we start from. And every phrase
And sentence that is right (where every word is at home,
Taking its place to support the others,
The word neither diffident nor ostentations,
An easy commerce of the old and the new,
The common word exact without vulgarity,
The formal word precise but not pedantic,
The complete consort dancing together)
Every phrase and every sentence is an end and a beginning,
Every poem an epitaph. And any action
Is a step to the block, to the fire, down the sea's throat
Or to an illegible stone: and that is where we start.
We die with the dying:
See, they depart, and we go with them.
We are born with the dead:
See, they return, and bring us with them.
The moment of the rose and the moment of the yew-tree
Are of equal duration. A people without history
Is not redeemed from time, for history is a pattern
Of timeless moments. So, while the light fails
On a winter's afternoon, in a secluded chapel
History is now and England.

With the drawing of this Love and the voice of this Calling

We shall not cease from exploration
And the end of all our exploring
Will be to arrive where we started
And know the place for the first time.
Through the unknown, unremembered gate
When the last of earth left to discover
Is that which was the beginning;
At the source of the longest river
The voice of the hidden waterfall
And the children in the apple-tree
Not known, because not looked for
But heard, half-heard, in the stillness
Between two waves of the sea.
Quick now, here, now, always-
A condition of complete simplicity
(Costing not less than everything)
And all shall be well and
All manner of thing shall be well
When the tongues of flames are in-folded
Into the crowned knot of fire
And the fire and the rose are one.


T. S. Eliot, Little Gidding

Hoje foi em Londres

Quarta-feira, Julho 6


Sophie Calle, Les Dormeurs (detalhe), 1979

"Dormem o tempo todo", disse o detective quando me entregou os relatórios e as fotografias. "Talvez a culpa seja sua, aborrece-os", acrescentou. E preparava-se para continuar o discurso mas eu arrumei logo o caso, quer dizer, fechei-lhe a porta na cara. Não gosto de detectives palavrosos; amanhã vou contratar um jardineiro. Ele sim, há-de descobrir todo o vosso esplendor.

noir sur noir

Inspirada em Sophie Calle, resolvi contratar um detective para seguir todos os leitores deste blogue. Neste exacto momento: olhem para trás, vêem aquele tipo com uma gabardine cinzenta e olhos descaídos? É ele.

Príncipes, coelhos e outros bichos azuis:

Terça-feira, Julho 5

a ordem do universo (à minha escala)

depois dos morangos, as cerejas; depois das cerejas, as uvas...

rua das Estrelas, s/n

Polícia sem lei, Abel Ferrara (7 e 8 Julho) > Estrada perdida, David Lynch (9 e 10) > Barton Fink, Joel e Ethan Cohen (11 e 12) > Homens simples, Hal Hartley (14) > Noite na terra, Jim Jarmusch (15 e 16) > Sombras, John Cassavetes (17 e 18) > Tarnation, Jonathan Cauette (19 e 20) > Ghost world, Terry Zwigof (21 e 22) > Happiness, Todd Solondz (23 e 24) > Bufalo' 66, Vincent Gallo (25 e 26) > Elephant, Gus Van Sant (27, 28 e 29) > Antes do anoitecer, Richard Linklater (30 e 31)

[sessões às 18h30 e 22h00, bilhetes a 3 euros]

strangers talk only about the weather #21

Está calor; o ceú azul, sem nuvens; o vento sopra com força. É assim que imagino as piores desgraças.

Segunda-feira, Julho 4

Prémio mr. Hulot

Para o executivo dos STCP que teve a ideia brilhante de pintar cinco pegadas cor-de-laranja fluorescente junto às paragens dos autocarros.

os sapatos do senhor Godard

A caminho de Sarajevo, Rosette diz a Jérôme que percebe Musset ("Não se brinca com o amor" é a peça que eles ensaiam) mas não compreende a filosofia de Camille. Ele explica-lhe que a filosofia é algo entre quase nada e um não sei o quê. A frase resulta muito bem em francês — un je ne sais quoi — parece profunda e até misteriosa. No entanto já ouvi definições melhores. Contaram-me há uns dias que, numa reportagem do Público, um rapaz explicava à irmã mais nova: "a filosofia é tu pensares em calçar os sapatos mas não os calçares". Ora aí está!

Ainda um pormenor (o cinema de Godard é feito destas citações, não é?) na claquete do filme que está a ser rodado, o homem da câmara chama-se B. Kaufman Jr.

Para além disso Forever Mozart é um bocado desengonçado.
p.s. Era suposto terminar o fim-de-semana com a CENA 22 de Le Bassin de John Wayne. Não tive tempo, por isso adio a publicação para dias mais prósperos. À bientôt !

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Domingo, Julho 3

Erwartet die Form nicht vor dem Gedanken! Aber gleichzeitig wir da sein

Não sei exactamente porque gosto tanto de Sicilia! Podia dizer que é a mestria de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet: o modo como chegam à forma, a um plano; como retiram o que está a mais e deixam apenas o essencial (tão pouco, às vezes apenas a promessa de um sorriso); como tudo isso nos comove.
Ou então: a fotografia de William Lubtchansky. O branco, o preto e todas as outras cores que juro ter visto no filme.
Os actores, claro. Trabalhavam e depois iam para as filmagens. Desconheciam Straub e Huillet, desconheciam Vittorini. Foram entrando aos poucos no texto, com a alma. São musicais e sublimes; acreditamos neles, em todos os seus gestos.
A conversa de Vittorini? A miséria e a dignidade, ambas tão agrestes quanto imagino a terra da Sicilia, como a vi nas suas fotografias.

Se o cinema ainda pode ser revolucionário é assim que o pressinto. Talvez a palavra não seja essa, talvez não seja nenhuma revolução mas resistência. Não sei bem o que vai de uma palavra à outra, o dicionário afasta-as, eu teimo em juntá-las. Um dia hei-de aprender o que querem dizer?

[Para ler: Les gens disent: "Straub travaille avec les mots", c'est faux. Il cherche les images...]
[cabina de projecção]

Danièle Huillet: Sicilia!... se nos apaixonámos e nos apeteceu fazer o filme foi porque, em 1972, quando andávamos por Itália, à procura de lugares para filmar Moisés e Aarão, que rodámos em 1974, fizemos 30 000 quilómetros a passo de caracol e, um dia, em cima de uma ponte, dissemos um para o outro: «que cheiro tão estranho, não é desagradável, mas é muito intenso, que será?»
E vimos quintais de laranjas despejadas num rio.
Isso ficou-nos cá dentro e quando lemos o início de Conversazione in Sicilia, veio-nos à ideia, como uma recordação muito forte.
Dito isto, como é que um homem e uma mulher fazem para aguentar... é a palavra certa — AGUENTAR — juntos?
Também tem a ver com as laranjas no rio...


"Onde jaz o teu sorriso?" diálogos, livros de cinema da Assírio & Alvim, páginas 99 e 101
[ aqui devia ouvir-se: Concerto Brandeburguês n.º5, Allegro de J. S. Bach, Ensemble für alte musik, Viena Gustav Leonhardt (cravo)]

Sábado, Julho 2

CENA 16

Cenário: Átrio do Casal dos Crocodilos. Interior. Dia
Personagens: Paul, Catarina, Jean de Dieux, Vox.

Paul lê


PAUL. Ariane, Jean de Dieu et moi même, poursuivons notre périple jusqu'à l'entrée du Bar Maxhimself.
Notre trio entre dans la salle, prend place à une table et observe sans rien dire.

Jean de Dieu e Catarina entram em campo. Catarina senta-se em cima da mesa, a fumar e de perna traçada. Jean de Dieu inspecciona o lugar.

L'atmosphère est bruyante et enfumée. Henrique commande des bières. Il y a parmi les clients, un groupe de skinheads.
Ça sent la terre brulée! On aurait dû apporter des masques anti-toxiques.

JEAN DE DIEU: Tu exagères, c'est quando même pas Austerlitz.

PAUL: Oui, bien sûr. C'est après Auschwitz!

CATARINA: Arbeit, arbeit, arbeit...

Jean de Dieu faz a saudação nazi e, com fita negra colada a dois dedos, imita o bigodinho do Führer.

JEAN DE DIEU: ... macht Frei.

PAUL: Le groupe de skinheads entonne un hymne.

Começa a ouvir-se uma gravação histórica e genuína do hino da Mocidade Portuguesa. Paul pega numa espada e, de um só golpe, mata-os a todos. de facto, é bem verdade que, dos invisíveis, não escapa um, feita a prova cinematográfica. Paul ajoelha-se como um cavaleiro, a espada transformada em cruz, e faz solene promessa:

PAUL: Le meilleur fasciste est le fasciste mort.

VOX: No pasarán!

PAUL: No pasarán!

Paul ergue o punho serrado, no que é seguido por Jean de Dieu e Catarina.


João César Monteiro, Le Bassin de John Wayne, & etc, 1997


I

Eu, naquele inverno, estava tomado de furores abstratos. Não direi quais, não é isso que me proponho contar. Mas é preciso dizer que eram abstratos, nada heróicos, nem vivos; de qualquer maneira, furores pelo gênero humano perdido. Vinha assim há muito tempo, e andava cabisbaixo. Via manchetes nos jornais sensacionalistas e abaixava a cabeça; estava com os amigos, uma hora, duas horas, e ficava com eles sem abrir a boca; abaixava a cabeça; e tinha uma moça ou mulher que me esperava, mas nem com ela eu trocava uma palavra, mesmo com ela eu abaixava a cabeça. Chovia o tempo todo, passavam-se os dias, os meses, e eu tinha os sapatos furados, a água me entrando nos sapatos, e não era mais nada que isso: a chuva, carnificinas nas manchetes dos jornais, e água nos meus sapatos furados, amigos mudos, a vida em mim como um sonho surdo, e não-esperança, calmaria.
Isso era terrível: a calmaria na não-esperança. Dar o gênero humano como perdido e não ter vontade de fazer coisa alguma quanto a isso, nem vontade de me perder, por exemplo, com ele. Eu estava perturbado por furores abstratos, não no sangue, e ficava quieto, sem vontade de nada. Não importava que minha namorada estivesse me esperando, estar com ela ou não, ou folhear um dicionário, era para mim a mesma coisa; e sair para ver os amigos, ou ficar em casa, era o mesmo para mim. Estava quieto; como se nunca tivesse tido um dia de vida, nem jamais soubesse o que é ser feliz, como se nada tivesse a dizer, a afirmar, a negar, nada de meu para pôr em jogo, nada a escutar, a dar, e nenhuma disposição de ganhar, como se em todos os anos de minha vida nunca tivesse comido pão, bebido vinho, ou tomado café, nunca tivesse estado na cama com uma mulher, nunca tivesse tido filhos, nunca tivesse brigado a socos com alguém, ou não achasse tudo isso possível, como se eu nunca tivesse tido uma infância na Sicilia, entre os figos-da-índia e o enxofre das minas, nas montanhas; mas, dentro de mim, eu me agitava com os furores abstratos, e pensava sobre o gênero humano perdido, abaixava a cabeça, e chovia, não dizia uma só palavra aos amigos, e a água me entrava nos sapatos.

II

Então chegou uma carta de meu pai.
...


Conversa na Sicilia, de Elio Vittorini, Cosac & Naify, São Paulo, 2002
[cabina de projecção]

Jean-Marie Straub: Os camponeses não têm história.
Os operários... também não têm história.
Um escritor como o Pavese que lutou como um... até se suicidar, e como Vittorini...

Danièle Huillet: E o Fortini.

Jean-Marie Straub: Aliás, havia uma pessoa em França, uma pessoa de quem eu gosto muito, chamava-se Charles Péguy, que disse: «Fazer a revolução seria... também é repor no seu lugar coisas antigas...»

Danièle Huillet: «Muito antigas...»

Jean-Marie Straub: «... muito antigas, mas esquecidas.»
Ele era prudente, dizia «também» e era esse o sonho de Pavese.
O mito, ou seja, a história não escrita, a história dos camponeses... pesava tanto na balança como a história contemporânea e a história das lutas ditas contemporâneas.
E quando percebeu que era o caos, que o seu partido não era capaz de juntar as duas coisas e equilibrar a balança, o Pavese suicidou-se, no quarto de um hotel, em Julho de 1950, em Turim, e, nesse momento, o Vittorini, que pertencia à mesma editora, a Einaudi, senta-se nas escadas da editora e desata a chorar.
Continua a viver e a escrever e há uma relação entre os dois. Eram velhos amigos.

[sala de cinema]

Jean-Marie Straub: O Pavese foi importante para nós porque era um intelectual, pequeno burguês, italiano, que não se comprazia na sua própria complacência e que, sem ser nada masoquista, reagia constantemente contra... contra a corrente, como nós dizemos.
E isso é importante porque se chega a um ponto em que não se aguenta mais.


"Onde jaz o teu sorriso?" diálogos, livros de cinema da Assírio & Alvim, páginas 47 e 49

Livro das Orações #2

FILÓSOFO: Deus está morto. Nietzsche.

PAUL: Nietzsche est mort. Dieu.


João César Monteiro, Le Bassin de John Wayne (fim do V acto da I cena), & etc, 1997

Sexta-feira, Julho 1

Sortez de la paille les fusils, la mitraille, les grenades...

Straub, Huillet e César Monteiro

ou então: um fim-de-semana revolucionário?


também pode ser assim: Bien sûr! Toutes les filles rêvent de ça.

Ninguém as quer

Estas comem-se na salada.
Na América?
Não, cá na terra.
Cá na terra?
Na salada, com azeite?
Sim, com azeite. E um dente de alho e sal.
E com pão?
Claro, com pão.
Em criança, só comia disto.
Ah! Sim?
Também vivia bem, naquele tempo?
Assim, assim.
Nunca comia laranjas na salada?
Às vezes, comia.
Mas nem sempre há azeite.
Nem sempre a safra é boa.
O azeite pode ser caro
e nem sempre há pão.
Se as laranjas não se vendem, não há pão.
Mas porquê?
É assim tão difícil vender as laranjas?
Não se consegue vendê-las.
Ninguém as quer.
No estrangeiro, não as querem.
E é assim que o patrão nos paga,
com laranjas.
Vimos a Messina a pé
e ninguém as quer.
Vamos ver se as querem em Reggio,
em Vila San Giovanni,
E ninguém as quer.
Ninguém as quer.
Andamos de um lado para o outro,
pagamos a viagem, não comemos pão,
ninguém as quer,
Como se tivessem veneno.
Malditas laranjas.


"Onde jaz o teu sorriso?" diálogos, livros de cinema da Assírio & Alvim, páginas 9 a 13

not for all the tea in China (ou: frases que não impõem respeito)

curtas

Se não estivesse a deitar trabalho pelas orelhas, se não andasse a cair de sono, ia até Vila do Conde fotografar a Nan Goldin e ver uns filmes.

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Nan Goldin | Self-portrait with eyes turned inward, Boston, 1989