Ó, fosse eu um bobo da corte!
Minha ambição estaria num casaco colorido.
"Como Gostais", ShakespearePrimeira cena: Um jardimLeonce meio recostado sobre um banco. O Preceptor.Leonce: Meu senhor, o que quer de mim? Preparar-me para a minha profissão? Minhas mãos não chegam para o que preciso fazer, não sei como dar conta de tanto trabalho. Veja, primeiro devo cuspir trezentos e sessenta e cinco vezes seguidas, aqui sobre essa pedra. O senhor nunca experimentou fazer isso? Pois então experimente, é um divertimento muito peculiar. E depois... está vendo esta mão cheia de areia?
(Pega areia, joga-a para o alto e a apara de novo com o dorso da mão.) Agora jogo-a para o alto. Vamos apostar? Quantos grãozinhos tenho agora no dorso da minha mão? Par ou ímpar?... Como? O senhor não quer apostar? O senhor é ateu? Acredita em Deus? Costumo apostar comigo mesmo e sou capaz de passar dias e dias nisso. Se o senhor souber de alguém que tenha prazer de apostar comigo às vezes, eu lhe ficaria muito agradecido. Depois... preciso refletir como se poderia conseguir um jeito para que eu veja uma vez o topo da minha cabeça... como seria se eu pudesse me ver de pernas para o ar. Ó, pudesse alguém enxergar o topo de sua cabeça! Este é um dos meus ideais. Faria tão bem para mim. E depois... e depois uma quantidade infinita de coisas dessa espécie. Será que sou um vadio? Será que não tenho ocupação?... Sim, isso é triste...
Preceptor: Muito triste, Sua Alteza!
Leonce: Que as nuvens estejam há três semanas passando do oeste para o leste. Isso me deixa profundamente melancólico!
Preceptor: Uma melancolia muito bem fundamentada.
Leonce: Homem, por que não me contradiz? O senhor está com pressa, não é verdade? Sinto tê-lo retido por tanto tempo.
(O Preceptor afasta-se, com uma profunda mesura.) Meu senhor, felicito-o pelos belos parênteses que suas pernas formam quando o senhor se inclina.
Leonce: (Sozinho, estica-se sobre o banco.) As abelhas pousam tão preguiçosas sobre as flores, e a luz do sol deita tão indolente seus raios pelo chão. Grassa uma ociosidade medonha. O ócio é a origem de todos os vícios. O que as pessoas não fazem por causa do tédio! Estudam por tédio, se apaixonam, casam, multiplicam-se por tédio e, finalmente, morrem de tédio e – aí está o engraçado – fazem tudo com a cara mais séria do mundo, sem saber por que e, nisso, pensam Deus sabe o quê. Todos esses heróis, esses gênios, esses idiotas, esses santos, esses pecadores, esses pais de família não passam, no fundo, de refinados vadios. Mas por que logo eu tenho de saber disso? Por que não posso eu levar-me a sério e vestir o pobre boneco com um fraque e colocar-lhe um guarda-chuva na mão, para que ele se torne muito correcto, muito útil e cheio de moral? Aquele homem que há pouco saiu daqui, eu o invejo, eu seria capaz surrá-lo de tanta inveja. Oh, se alguma vez a gente pudesse ser alguém outro! Só por um minuto!
Valério entra correndo, meio bêbado.Leonce: (Segura-o pelo braço) Como corre o sujeito! Meu Deus, soubesse eu de algo sob o sol que ainda me fizesse correr assim!
Valério: (Posta-se diante do Príncipe, coloca o dedo sobre o nariz e olha fixamente para ele) Sim!
Leonce: (Do mesmo modo) Certo!
Valério: O senhor me compreendeu?
Leonce: Perfeitamente!
Valério: Bem, então falemos de outra coisa.
(Ele se deita na grama)Vou deitar-me na grama e deixar que meu nariz floresça por sobre os talos e inale sensações românticas quando as abelhas e borboletas se balouçarem nele como se fosse uma rosa.
Leonce: Mas cuidado, meu caro, não aspire com tanta força, senão as abelhas e borboletas hão de morrer de fome devido às enormes pitadas que o senhor extrai das flores.
Valério: Ah, senhor, não imagina que sentimentos eu tenho pela natureza! A grama está tão bonita que a gente gostaria de ser um boi para comê-la, e depois voltar a ser homem e comer o boi que comeu semelhante grama.
Leonce: Infeliz, você também parece afligir-se por ideais.
Valério: É uma lástima. Não se pode pular de uma torre de igreja sem quebrar o pescoço. Não se pode comer quatro quilos de cerejas com caroço sem ficar com dor de barriga. Veja, meu senhor, eu poderia me sentar em um canto qualquer e cantar desde cedo pela manhã até o anoitecer: "Ei, aí está uma mosca na parede! Uma mosca na parede! Uma mosca na parede!" e assim por diante, até o fim da minha vida.
Leonce: Cala a boca! Para com essa sua canção, ela pode deixar qualquer um louco!
Valério: Já é ser alguma coisa! Um louco! Um louco! Quem quer barganhar a troca de sua loucura pela minha razão! Ah! Eu sou Alexandre, o Grande! Veja como o sol faz brilhar uma coroa dourada nos meus cabelos, como refulge o meu uniforme! Senhor Generalíssimo Gafanhoto, mande avançar as tropas! Senhor Ministro das Finanças Aranha Cruzeira, eu preciso de dinheiro! Querida dama de Honor Libélula, como vai minha querida esposa Talo de Feijão? Ah! Meu caro Senhor Medicus Cantéride, eu estou precisado de um príncipe herdeiro. E por essas deliciosas fantasias, recebe-se uma boa sopa, uma boa carne, um bom pão, uma boa cama e o corte de cabelo é gratuito — quer dizer, no hospício — enquanto eu, com a minha saudável razão, poderia no maximo empregar-me apenas para fomentar o amadurecimento de uma cerejeira, para...
Leonce: Para que as cerejas, pelos buracos que você tem nas calças, fiquem rubras de vergonha! Mas meu ilustríssimo, e o seu ofício, a sua profissão, o seu negócio, a sua posição e a sua arte?
Valério: (Com dignidade) Meu senhor, eu tenho a grande ocupação de andar ocioso, eu tenho uma incomum habilidade de não fazer nada, eu possuo uma imensa perseverança na preguiça. Veja, nenhum calo envergonha minhas mãos, o solo ainda não bebeu uma só gota de suor da minha fronte, ainda sou virgem no trabalho, e se não fosse por demais trabalhoso, eu me daria ao trabalho de lhe explicar melhor todos os meus méritos.
Leonce: (Com entusiasmo cómico) Venha me dar um abraço! É você um desses seres divinos que caminham sem esforço, com a testa limpa de suor e de poeira, pela estrada real da vida, qual desses bem-aventurados? venha! Venha!
Valério: (Canta ao sair) Ei! Aí está uma mosca na parede! Uma mosca na parede! Uma mosca na parede!
(Saem ambos de braços dados)"Büchner — Na Pena e na Cena", tradução de J. Guinsburg e Ingrid D. Koudela, Editora Perspectiva, São Paulo, 2004