Sábado, Julho 2

CENA 16

Cenário: Átrio do Casal dos Crocodilos. Interior. Dia
Personagens: Paul, Catarina, Jean de Dieux, Vox.

Paul lê


PAUL. Ariane, Jean de Dieu et moi même, poursuivons notre périple jusqu'à l'entrée du Bar Maxhimself.
Notre trio entre dans la salle, prend place à une table et observe sans rien dire.

Jean de Dieu e Catarina entram em campo. Catarina senta-se em cima da mesa, a fumar e de perna traçada. Jean de Dieu inspecciona o lugar.

L'atmosphère est bruyante et enfumée. Henrique commande des bières. Il y a parmi les clients, un groupe de skinheads.
Ça sent la terre brulée! On aurait dû apporter des masques anti-toxiques.

JEAN DE DIEU: Tu exagères, c'est quando même pas Austerlitz.

PAUL: Oui, bien sûr. C'est après Auschwitz!

CATARINA: Arbeit, arbeit, arbeit...

Jean de Dieu faz a saudação nazi e, com fita negra colada a dois dedos, imita o bigodinho do Führer.

JEAN DE DIEU: ... macht Frei.

PAUL: Le groupe de skinheads entonne un hymne.

Começa a ouvir-se uma gravação histórica e genuína do hino da Mocidade Portuguesa. Paul pega numa espada e, de um só golpe, mata-os a todos. de facto, é bem verdade que, dos invisíveis, não escapa um, feita a prova cinematográfica. Paul ajoelha-se como um cavaleiro, a espada transformada em cruz, e faz solene promessa:

PAUL: Le meilleur fasciste est le fasciste mort.

VOX: No pasarán!

PAUL: No pasarán!

Paul ergue o punho serrado, no que é seguido por Jean de Dieu e Catarina.


João César Monteiro, Le Bassin de John Wayne, & etc, 1997


I

Eu, naquele inverno, estava tomado de furores abstratos. Não direi quais, não é isso que me proponho contar. Mas é preciso dizer que eram abstratos, nada heróicos, nem vivos; de qualquer maneira, furores pelo gênero humano perdido. Vinha assim há muito tempo, e andava cabisbaixo. Via manchetes nos jornais sensacionalistas e abaixava a cabeça; estava com os amigos, uma hora, duas horas, e ficava com eles sem abrir a boca; abaixava a cabeça; e tinha uma moça ou mulher que me esperava, mas nem com ela eu trocava uma palavra, mesmo com ela eu abaixava a cabeça. Chovia o tempo todo, passavam-se os dias, os meses, e eu tinha os sapatos furados, a água me entrando nos sapatos, e não era mais nada que isso: a chuva, carnificinas nas manchetes dos jornais, e água nos meus sapatos furados, amigos mudos, a vida em mim como um sonho surdo, e não-esperança, calmaria.
Isso era terrível: a calmaria na não-esperança. Dar o gênero humano como perdido e não ter vontade de fazer coisa alguma quanto a isso, nem vontade de me perder, por exemplo, com ele. Eu estava perturbado por furores abstratos, não no sangue, e ficava quieto, sem vontade de nada. Não importava que minha namorada estivesse me esperando, estar com ela ou não, ou folhear um dicionário, era para mim a mesma coisa; e sair para ver os amigos, ou ficar em casa, era o mesmo para mim. Estava quieto; como se nunca tivesse tido um dia de vida, nem jamais soubesse o que é ser feliz, como se nada tivesse a dizer, a afirmar, a negar, nada de meu para pôr em jogo, nada a escutar, a dar, e nenhuma disposição de ganhar, como se em todos os anos de minha vida nunca tivesse comido pão, bebido vinho, ou tomado café, nunca tivesse estado na cama com uma mulher, nunca tivesse tido filhos, nunca tivesse brigado a socos com alguém, ou não achasse tudo isso possível, como se eu nunca tivesse tido uma infância na Sicilia, entre os figos-da-índia e o enxofre das minas, nas montanhas; mas, dentro de mim, eu me agitava com os furores abstratos, e pensava sobre o gênero humano perdido, abaixava a cabeça, e chovia, não dizia uma só palavra aos amigos, e a água me entrava nos sapatos.

II

Então chegou uma carta de meu pai.
...


Conversa na Sicilia, de Elio Vittorini, Cosac & Naify, São Paulo, 2002
[cabina de projecção]

Jean-Marie Straub: Os camponeses não têm história.
Os operários... também não têm história.
Um escritor como o Pavese que lutou como um... até se suicidar, e como Vittorini...

Danièle Huillet: E o Fortini.

Jean-Marie Straub: Aliás, havia uma pessoa em França, uma pessoa de quem eu gosto muito, chamava-se Charles Péguy, que disse: «Fazer a revolução seria... também é repor no seu lugar coisas antigas...»

Danièle Huillet: «Muito antigas...»

Jean-Marie Straub: «... muito antigas, mas esquecidas.»
Ele era prudente, dizia «também» e era esse o sonho de Pavese.
O mito, ou seja, a história não escrita, a história dos camponeses... pesava tanto na balança como a história contemporânea e a história das lutas ditas contemporâneas.
E quando percebeu que era o caos, que o seu partido não era capaz de juntar as duas coisas e equilibrar a balança, o Pavese suicidou-se, no quarto de um hotel, em Julho de 1950, em Turim, e, nesse momento, o Vittorini, que pertencia à mesma editora, a Einaudi, senta-se nas escadas da editora e desata a chorar.
Continua a viver e a escrever e há uma relação entre os dois. Eram velhos amigos.

[sala de cinema]

Jean-Marie Straub: O Pavese foi importante para nós porque era um intelectual, pequeno burguês, italiano, que não se comprazia na sua própria complacência e que, sem ser nada masoquista, reagia constantemente contra... contra a corrente, como nós dizemos.
E isso é importante porque se chega a um ponto em que não se aguenta mais.


"Onde jaz o teu sorriso?" diálogos, livros de cinema da Assírio & Alvim, páginas 47 e 49

Livro das Orações #2

FILÓSOFO: Deus está morto. Nietzsche.

PAUL: Nietzsche est mort. Dieu.


João César Monteiro, Le Bassin de John Wayne (fim do V acto da I cena), & etc, 1997

Sexta-feira, Julho 1

Sortez de la paille les fusils, la mitraille, les grenades...

Straub, Huillet e César Monteiro

ou então: um fim-de-semana revolucionário?


também pode ser assim: Bien sûr! Toutes les filles rêvent de ça.

Ninguém as quer

Estas comem-se na salada.
Na América?
Não, cá na terra.
Cá na terra?
Na salada, com azeite?
Sim, com azeite. E um dente de alho e sal.
E com pão?
Claro, com pão.
Em criança, só comia disto.
Ah! Sim?
Também vivia bem, naquele tempo?
Assim, assim.
Nunca comia laranjas na salada?
Às vezes, comia.
Mas nem sempre há azeite.
Nem sempre a safra é boa.
O azeite pode ser caro
e nem sempre há pão.
Se as laranjas não se vendem, não há pão.
Mas porquê?
É assim tão difícil vender as laranjas?
Não se consegue vendê-las.
Ninguém as quer.
No estrangeiro, não as querem.
E é assim que o patrão nos paga,
com laranjas.
Vimos a Messina a pé
e ninguém as quer.
Vamos ver se as querem em Reggio,
em Vila San Giovanni,
E ninguém as quer.
Ninguém as quer.
Andamos de um lado para o outro,
pagamos a viagem, não comemos pão,
ninguém as quer,
Como se tivessem veneno.
Malditas laranjas.


"Onde jaz o teu sorriso?" diálogos, livros de cinema da Assírio & Alvim, páginas 9 a 13

not for all the tea in China (ou: frases que não impõem respeito)

curtas

Se não estivesse a deitar trabalho pelas orelhas, se não andasse a cair de sono, ia até Vila do Conde fotografar a Nan Goldin e ver uns filmes.

Image hosted by Photobucket.com
Nan Goldin | Self-portrait with eyes turned inward, Boston, 1989

Quinta-feira, Junho 30

Livro das Orações #1

A natação é um exercício musical; deve ser conduzida por um maestro. Ou por Deus.

Image hosted by Photobucket.com
J'étais une parole qui tentait de suivre la vitesse de la pensée.

Les camarades de la pensée assistaient.
Pas une n'osa sur moi tenir le moindre pari, et elles étaient bien là six cent mille qui me regardaient en riant.


HENRY MICHAUX, Le Disque Vert, 4ème Série - N°1, Janvier 1925

Quarta-feira, Junho 29

The most striking aspect of Arbus's work is

that she seems to have enrolled in one of art photography's most vigorous enterprises — concentrating on victims, on the unfortunate — but without the compassionate purpose that such a project is expected to serve. Her work shows people who are pathetic, pitiable, as well as repulsive, but it does not arouse any compassionate feelings. For what would be more correctly described as their dissociated point of view, the photographs have been praised for their candor and for an unsentimental empathy with their subjects. What is actually their aggressiveness toward the public has been treated as a moral accomplishment: that the photographs don't allow the viewer to be distant from the subject. More plausibly, Arbus's photographs — with their acceptance os the appalling — suggest a naiveté which is both coy and sinister, for it is based on distance, on privilege, on a feelig that what the viewer is asked to look at is really other. Buñuel, when asked once why he made movies, said that it was "to show that this is not the best of all possible worlds." Arbus took photographs to show something simpler — that there is another world.


Susan Sontag, On Photography, Penguim Classics

We play such funny games

Image hosted by Photobucket.com

Though most viewers are ready to imagine

that these people, the citizens of the sexual underworld as well as the genetic freaks, are unhappy, few of the pictures actually show emotional distress. The photographs of deviates and real freaks do not accent their pain but, rather, their detachment and autonomy. The female impersonators in their dressing rooms, the Mexican dwarf in his Manhattan hotel room, the russian midgets in a livings room on 100th Street, and their kin are mostly shown as cheerful, self-accepting, matter-of-fact. Pain is more legible in the portraits of the normals: the quarreling elderly couple on a park bench, the New Orleans lady bartender at home with a souvenir dog, the boy in Central Park clenching his toy hand grenade.

Susan Sontag, On Photography, Penguim Classics

Terça-feira, Junho 28

do you want to play with me?

Image hosted by Photobucket.com

na natureza

strangers talk only about the weather #20

Scherzo and Trio / Lifeboat (Lovers Rock) / Nothing Really Blue / Cage Dead / Vega / Yodel 3 / Organum /Another One from Porlock / Thorn Tree Wind / Silver Star of Bologna / Discover America / Pythagoras on the Line / Kora Kora / Lie Back and Think of England / Red Shorts / Passing Through

por falar em sapos...

Não são apenas os cretenses que mentem. Também os fabulistas.
Na história do senhor de La Fontaine, a formiga responde à cigarra: «Cantaste, agora dança»; mas não foi uma formiga que respondeu — foram batalhões, regimentos de formigas.
Depois ficaram por ali, à espera que a cigarra entregasse a alma ao criador, para lhe roerem os ossos.

do maravilhoso "Bestiário" de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, Março 2004

Segunda-feira, Junho 27

Kleist do lado errado do espelho

Funcionava tudo ao contrário. Até o príncipe, quando ela o beijou, virou sapo. Bonito, mas sapo. "Assim não", nem pensar!", disse Alice "num mundo tão injusto eu não quero viver." E deixou-se adormecer.

desejos simples:

acordar dentro de um quadro de Bonnard.