Sábado, Junho 25

Mama, was sind das moderne menschen?

De Bresson até Jean-Marie Straub, Danièle Huillet e Pedro Costa.

Jean-Marie Straub:...
Aqui, acho que devemos cortar... com a acção, mais uma vez como o Chaplin, Essanay.
E, aqui, a acção não é difícil de encontrar, embora seja contida.
E há mais uma razão.
Ele bebe como um sonâmbulo, ou seja, como alguém que faz um daqueles gestos com que o Bresson sonhava, uma pessoas entra em casa, acende a luz sem dar conta, sem fazer nada, como um mau actor, para parecer que anda à procura do interruptor, etc.
Faz gestos inconscientes e automáticos.
E é mais ou menos o que ele faz, aqui... vai beber, mas, ao mesmo tempo... como é sonâmbulo e não tem consciência, ainda tem a atitude pensativa de alguém que olha para as borras do café, para o fundo do copo.
Portanto, não serviria de nada juntar mais uma respiração, só ia aguar o molho.

"Onde jaz o teu sorriso?" diálogos, livros de cinema da Assírio & Alvim, páginas 68 e 69
Jean-Marie Straub: No Diário de um Pároco de Aldeia, diz-se: «disseram adeus, cada um do seu lado de uma estrada invisível.»
...

"Onde jaz o teu sorriso?" diálogos, livros de cinema da Assírio & Alvim, página 93
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MODELOS:

Movimentos de fora para dentro. (Actores: movimento de dentro para fora.)

O importante não é o que me mostram mas o que me escondem, e sobretudo o que não suspeitam que existe neles.

Entre eles e eu: ligações telepáticas, adivinhação


Robert Bresson, em Notas sobre o Cinematógrafo, tradução de Pedro Mexia, página 16, Elementos Sudoeste, Novembro 2003

Sexta-feira, Junho 24

Je reste

Deve-se franzir os olhos, fazer um esforço visual para substituir o palerma do Paul Bernard por Jean Marais (ou Alain Cuny — os dois actores que Bresson e Cocteau queriam para o papel de Jean mas a produção não deixou). Recorrer a Orpheu, se for caso disso. E depois ver Les dames du bois de Boulogne como o mais verdadeiro film noir já realizado. Descobrir a palavra fatal.

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MAR DA MANHÃ

Que eu me detenha aqui. E que também eu veja um pouco a natureza.
De um mar da manhã e de um céu sem nuvens
roxas cores brilhantes e margem amarela; tudo
belo e grande iluminado.

Que eu me detenha aqui. E que me engane para ver isto
(vi de verdade isto por um instante quando primeiro me detive);
e não aqui também os meus devaneios,
as minhas recordações, os modelos da volúpia.


Konstandinos Kavafis, "Poemas e Prosas", tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Relógio d'Água, 1994

Quinta-feira, Junho 23

Tão quieto como nos céus da ilha o voo do milhafre

i
Desapareceu o banco de pedra ao fim do terreno
nas traseiras da casa, mas no parque a árvore continua a
rasar a água do lago; e os patos desenham os mesmos círculos,
serão outros os patos de pescoço verde, tal como a ilha
já não são exactamente as mesmas pessoas tecendo círculos ao
redor; a ilusão da quietude permanece. Tenho saudades do
café das Velas, da rua larga de casas em S. Roque do Pico, da
rua da Praia da Graciosa voltada para o ilhéu. Nas Furnas
esqueci-me de comprar bolo lêvedo. Dois alemães nadam no
espelho de água queimada da piscina do Terra Nostra; no
palacete situou Agustina alguns dos personagens do Concerto
dos Flamengos
.

ii
Os barcos estão no cais. Não se vê nenhum pescador. Uma velha
e uma criança passaram duante o tempo em que estive no
pontão. No mercado quase me obrigaram a comprar inhames, que
ninguém vai saber cozinhar. Havia moinhos de água nesta rua
agora só vejo uma oficina.

iii
O metrossídero permanece, cobre parte do terreiro fronteiro
à casa. O outono vai adiantado, das beladonas restam hastes
secas nos canteiros. Numa das paredes da sala está a
fotografia que sempre encontrei dentro de um armário. Todos vestidos
para a imagem. Pesadas as mulheres, grossos os homens. O
rapaz não esconde o ar de herdeiro, espera tempos próximos
sobre os quais já passaram muitos anos, em breve um século
terá também passado sobre esses dias que lhe foram futuros: como
tudo é de novo distantíssimo! Rodeia-os uma luz, uma paz insular,
tão quieta, tão parada, mais valera guerra. (Não fui eu quem o
disse, foi o rapaz quem o pensou no seu rosto claro sob
os céus da ilha, sob o voo planado do milhafre.)

iv
Os melros quase se não vêem. Das outras vezes era
verão e havia o canto acrescido das crias novas. Na fotografia
os motociclistas na praça Gonçalo Velho, junto ao arco
esperam que lhes dêem o sinal de partida. Passaram mais de
cinquenta anos. A
reprodução da pintura holandesa da velha e do gato que se
apressa a roubar-lhe a comida enquanto a mulher murmura
orações ainda está sobre um dos aparadores.

iv
O que é a monotonia? Coloquem em sucessão, azul, amarelo,
vermelho. O amarelo que foi concebido como encadeamento estará
ensimesmado com a sua actividade individual
assim o azul e o vermelho. Cada uma destas forças procura
a graduação pela qual poderia entrar no campo do seu
vizinho; o conflito aumenta e permanece a desarmonia.
Choveu imenso durante a noite e a manhã. Durante a viagem fez
muito nevoeiro. As lagoas não se viam da Vista do Rei.

v
Assim está bem. Uma vez tentei escrever um poema sob o
equilíbrio destas margens das lagoas, sobre o flutuar da pedra-
-pomes, sobre a geometria das casas: sótão, barras quase sempre
verdes, arrecadação para os utensílios agrícolas. Os versos
seriam sobre alguém que nunca vi e que, por certo, nunca
existiu. Uma paisagem tem que apresentar vários planos
completos e nunca consegui registar o contraste do corpo.
Desta vez havia um calor húmido, senti frio enquanto
bebi uma cerveja numa taberna da aldeia por entre operários
de construção civil, dois ou três lavradores.
(Como gostava que estas palavras se parecessem com o diário
da viagem de Kavafis à Grécia. Faltam as temperaturas que
indicava todos os dias. Aqui, a máxima nunca passou os
vinte graus.)

vi
O símbolo é uma existência externa. Um dia no claustro
de um convento nos cimos do Cais do Pico convidaram-me para
um almoço do Espírito Santo. Assustei-me como
se me tivessem perguntado se queria ser maçónico e logo
caiu sobre mim a inumerável quantidade de imagens,
símbolos para representar deus e o
número de lados e ângulos que resultam da ideia de deus. Era
um homem simpático, com astúcia
que não lhe davam a igreja, a cair
nem a reparavam.

vii
A cidade aproximou-se do mar. Comprei dois Camilos no antiquário
da matriz. Ou melhor, um único Camilo, comprei os dois
volumes de O Demónio do Ouro. «A virtude deve desaparecer
de novo e converter-se em inocência.» É de Novalis e disse-
-o acerca da prosa. É a única coisa que sei de cor.

ix
Comprei doces: pudim de feijão e pastéis de Vila Franca.
Cogiva e Princesas Extra. Hoje subi a uma
falsa: dois ou três quartos e dois desvões; arcas
guarda-fatos, cadeiras velhas, o interesse dos sentidos.
Um oratório, um pássaro empalhado, poeira. É tão difícil
ir além do tempo e do lugar a que se pertence.
Está luar. Ouvem-se os cães ao fim da Galera.

x
Vi uma entrevista a um prático graciosense. Apareceu
numa sequência de falas com barbeiros. Um velho que
falou da sua revelação sobre o mundo a partir da leitura
d' A Rosa do Adro,
ouviu-a à sua mãe quando tinha dezoito anos
por causa dessa leitura quis aprender a ler. Disse coisas
sobre a poesia e os poetas que nem Schlegel. Hei-de
procurá-lo se voltar um dia à Graciosa. Mas nem sequer fixei
o seu nome. Descobrir-mo-á a Maria de Fátima Borges
apesar de ser um sábio de outra ilha?

xi
Amanhã regresso ao continente.
Mas ainda dá para tomar um café na esplanada em frente à Matriz.

Já só o vi vestir o peito de reforço
por sobre a saia de malha de aço
na cabeça o chapéu de ferro
com ligeira cauda de apertado arame, o suficiente para que
deixasse de lhe ver a nuca, orelhas e pala;
não lhe ficavam mal as ferradas vestes.

Para trás ficaram os formosos dias e a época dourada da baixa idade média.


João Miguel Fernandes Jorge, Bellis Azorica, Relógio d'Água

f for fake

Quarta-feira, Junho 22

— Há muito tempo que o não me repugna.

Há cartazes espalhados pela cidade com o rosto de Branca de Neve. São falsos, toda a gente sabe que Branca de Neve é apenas uma voz doce que diz sim.

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— pois e eu sou o Robert Walser,

disse ele quando acabou de ler o post.
Olhei-o nos olhos: não era. Por isso comi o gelado de chocolate sozinha enquanto dava a volta ao quarteirão. O Mário-Henrique Leiria que me desculpe o atrevimento.

Esta noite sonhei que era o meu último dia de férias.

Regressava de São Miguel (o subconsciente baralhou-se, esta não é a minha ilha) e estava triste porque durante todos aqueles dias só tinha tomado um banho no mar, um único. Não sei porquê. O sonho incluía pessoas conhecidas, situações bizarras e assustadoras, um autocarro anfíbio e um hotel asséptico, mas a questão dos banhos foi a pior parte. Aliás, a manhã já passou e ainda não me refiz. Night falls on Hoboken (mais ou menos a partir dos cinco minutos) seria a banda sonora perfeita. Se os sonhos tivessem som.

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Frank Grisdale | Grassi Lake #2 | © photo eye

O negócio das farturas vai de vento em popa,

Domingo, Junho 19

La bóna stasòun la à arivàta

Sandra, isto é para ti: dia 25, no cinema King.Vou? Vamos?

Hoje o chefe recomenda: recetas de Remedios Varo

PARA PROVOCAR SUEÑOS EROTICOS

Ingredientes: un kilo de razón fuerte; tres gallinas blancas; una cabeza de ajos; cuatro kilos de miel; un espejo; dos hígados de ternera; un ladrillo; dos pinzas para ropa; un corsé con ballenas; dos bigotes postizos; sobreros al gusto

Se despluman las gallinas, conservando cuidadosamente las plumas. Se ponen a hervir en los litros de agua destilada o de lluvia sin sal con la cabeza de ajos pelados y molidos. Se deja hervir a fuego lento. Mientras hierven las aves, colóquese la cama oriental de noroeste a sudeste y deje reposar con la ventana abierta. Ciérrese la ventana media hora después y colóquese el ladrillo rojo bajo la pata izquierda de la cabecera de la cama, que debe estar al noroeste. Déjese reposar. Mientras reposa la cama, rállese directamente sobre el caldo la raíz fuerte, teniendo cuidado de que las manos estén constantemente impregnadas por el vapor. Resuélvase y déjese hervir. Se toman los cuatro kilos de miel y se extienden con una espátula sobre las sábanas de la cama. Tómense las plumas de las gallinas y espárzanse sobre las sábanas embadurnadas de miel. Tiéndanse la cama con cuidado.

No es indispensable que las plumas sean blancas, pueden también usarse de color, pero hay que enviar las llamadas gallinas de Guinea, pues éstas producen a veces un estado ninfomaníaco de larga duración o graves casos de priapismo. Póngase el corsé bastante apretado. Siéntese ante el espejo, afloje su tensión nerviosa, sonríase, pruébese los bigotes y los sombreros según sus gustos (tricornio, napoleónico, capelo cardenalicio, cofia con encajes, boina vasca, etcétera). Ponga en un platito las dos pinzas para ropa y déjelo junto a la cama. Entíbiense al baño María los hígados de ternera, teniendo mucho cuidado de que no lleguen a hervir. Colóquense los hígados tibios en lugar de la almohada (en casos de masoquismo ) o en ambos lados de la cama, al alcance de las manos (en casos de sadismo). A partir de ese momento, todo debe terminar de hacerse a gran velocidad, APRA impedir que los hígados se enfríen. Corra y vierta velozmente el caldo (que debe estar muy reducido) en una taza. Regrese con ella apresuradamente ante el espejo, sonría, beba un sorbo del caldo, pruébese un bigote, beba otro sorbo, pruébese un sombrero, beba, pruébese todo, tome sorbitos entre prueba y prueba y hágalo todo tan velozmente como sea capaz. Ya ingerido el caldo, corra a la cama, acuéstese entre las sabanas preparadas, tome rápidamente las pinzas para ropa e introduzca en cada una de ellas el dedo pulgar del pie. Estas pinzas deben conservarse toda la noche y colocarse en un ángulo de 45 grados en relación con el dedo, oprimiendo firmemente la uña.

Esta sencilla receta da siempre buenos resultado si las personas normales pueden ir placenteramente del beso a la estrangulación, de la violación al incesto, etcétera, etcétera. Las recetas para casos mas complicados, como son los de necrofilia, autofagia, tauromaquia, alpinismo y otros, se encuentran en un volumen especial de nuestra colección: Consejos discretamente sanos.

Remedios Varo, "Cartas sueños y otros textos", introducción y notas de Isabel Castell, México Universidad Autónoma de Tlaxcala/INBA, 1994

acesulfame de potássio

Junto ao Castelo de S. João da Foz, mesmo em frente aos bombeiros, a roulotte Mário vende farturas feitas com Canderel. De certeza que não foram homologadas por São João. O santo não alinha em produtos dietéticos, pois não? Continua guloso, não é?