Sábado, Junho 18

Prato do dia

Segui o conselho do Henrique e, na primeira oportunidade, lancei a mão a Edward Lear:

PARA PREPARAR PASTÉIS GOSKY

Arranje um porco de três ou quatro anos de idade, e prenda-lhe uma pata traseira a um poste. Coloque 5 libras de passas, 3 de açúcar, 2 celamins de ervilhas, 18 castanhas assadas, uma vela e seis alqueires de nabos ao seu alcance; se ele comer isto, forneça-lhe mais, constantemente.
Depois arranje um pouco de natas, algumas fatias de queijo Cheshire, quatro cadernos de papel almaço e um pacote de alfinetes pretos. Molde tudo numa pasta e estenda-a a secar sobre um lençol lavadao de linho castanho imperveável.
Quando a pasta estiver completamente seca, mas não antes comece a bater violentamente no porco com o cabo de uma vassoura grande. Se ele guinchar, volte a bater-lhe.
Vá ver a pasta e bata no porco alternadamente durante alguns dias, e verifique se no fim desse período tudo começa a transformar-se em pastéis Gosky.
Se até então não se transformar, nunca se transformará; nesse caso pode soltar o porco, e deverá considerar todo o processo terminado.

Learicks, de Edward Lear, tradução livre de Célia Henriques. mais uma edição preciosa da & etc

The reshaping of the human body by modern technology

Quando o filme acabou e entrei no carro, tudo parecia diferente. Demorei alguns minutos até meter a chave na ignição (coloco o cinto?), e acender as luzes. Não diria doença, mas obsessão; Cronenberg é obsessivo. Vá-se lá saber porque gosto dele.

It's a dangerous film in many ways. It does violence to people's understanding of human relationships, it does violence to people's understanding of eroticism. If people find it disturbing, I think that's where the disturbing element is. David Cronenberg

Sexta-feira, Junho 17

Who needs cars anyway?

Maybe the next one, darling... Maybe the next one...

Por falar em carros, hoje é dia de: CRASH



um carro assim?

Passaram diante de muitos campos de nabos, mas, como estavam na época errada, não viram nenhuns nabos.*

— Vai-me desculpar mas os Tiger Lilies estão em falta.
— Deixe lá, traga então Edward Gorey. O próprio, numa travessa, quero dizer: numa bicicleta!
— Lamento imenso mas o senhor Gorey já morreu... só se for aquele hóspede suspeito... com molho de melaço?


* retirado de "A Bicicleta Epiléptica", tradução de Margarida Vale de Gato para a Errata

Quinta-feira, Junho 16

They're building the gallows outside my cell / I got twenty-five minutes to go...

—Então o que é que vai ser?
— Para começar: The Tiger Lilies. Na Sala 1 da Casa da Música. Com uma pedrinha de gelo, por favor.
— Quem?

Otto e Mezzo

the party is over

Numa reportagem sobre o funeral de Álvaro Cunhal uma mulher disse que o partido comunista é o partido da dor. Utilizou precisamente estas palavras: partido da dor. Não era historiadora nem analista, apenas uma pessoa vulgar. Acho que acertou mais do que ela própria pensa.

memórias póstumas

O Casmurro é muito bom (para completar o clube dos sete falta referir: Pedro Serra, Oswaldo M. Silvestre, Fernando Matos Oliveira e Gustavo Rubim), já quase todos o disseram, mas não é só isso. Sinto por Machado de Assis uma afeição especial — no fundo foi com ele que alcancei a minha glória literária, há alguns anos, quando me mudei para o quinto andar da Rua Brás Cubas. Desde então vivo à sua sombra.

enfim juntos.

Quarta-feira, Junho 15

e Groucho Marx...

descobrir Machado de Assis...

la dolce vita

Steiner parece ter uma vida perfeita, uma espécie de natureza morta de Morandi; objectos simples dispostos segundo determinada ordem sobre uma mesa (Gli oggetti sembrano immersi nella luce della memoria, eppure sono dipinti con tale solidità e emozione reale che sembra di poterli quasi toccare. Si potrebbe dire che l'arte non ha lasciato nulla al caso.). No entanto mata os filhos e suicida-se. Porquê?, pergunta um polícia a Marcello.
Marcello Rubini é um pobre diabo, jornalista de notícias rascas, sem tempo para escrever o livro sempre adiado. Ou talvez sem nada para dizer?
Marcello chegou a invejar Steiner, as certezas, a casa, a família, os amigos tão inteligentes, o quadro na parede. Agora balbucia que talvez ele tenha feito o que fez por medo. Steiner tinha medo?

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Terça-feira, Junho 14

Anyone for tennis?

Não resisti à peça de Beckett. A história de "À espera de Godot" é conhecida e simples: Estragon e Vladimir esperam Godot. Às tantas surgem em cena Pozzo e Lucky. Nenhum deles é Godot. Pozzo é mais ou menos o dono de Lucky e Lucky é mais ou menos o escravo de Pozzo. Para além disso Lucky também sabe dançar e pensar. Dança como se estivesse preso nas malhas de uma rede e pensa assim:

LUCKY — Confirmada a existência como adiantam os estudos de Puncher e Wattmann de um Deus pessoal quaquaquaqua com barba branca quaquaquaqua fora do tempo sem extensão que das alturas da sua divina apatia divina atambia divina afasia nos ama a todos com algumas excepções por razões desconhecidas mas que o tempo dirá e sofre como a divina Miranda com aqueles que por razões desconhecidas mas que o tempo dirá estão mergulhados em tormentos mergulhados num fogo sendo que as chamas do fogo se isto assim continuar e quem pode duvidar que vai continuar queimam o firmamento ou seja rebentam com o inferno para o céu tão azul suave e calmo tão calmo com uma calma que apesar de intermitente é melhor que nada mas mais devagar e considerando aquilo que é mais do que o simples resultado dos trabalhos inacabados de Testu e Conard premiados pela Acacacacademia de Antropopopopometria de Essy-em-Possy fica estabelecido sem qualquer dúvida exceptuando a dúvida sempre inerente a qualquer trabalho que seja humano que como resultado dos trabalhos inacabados de Testu e Conard fica estabelecido daqui em diante mas mais devagar por razões desconhecidas que como resultado dos trabalhos de Puncher e Wattmann fica estabelecido sem qualquer dúvida que tendo em conta os trabalhos de Fartov e Belcher inacabados por razões desconhecidas para Testu e Conard inacabados também eles fica estabelecido o que para muitos é inaceitável que o homem em Possy de Testu e Conard que o homem em Essy que o homem em resumo que o homem em síntese apesar dos progressos na alimentação e na defecação é ainda visto a diminuir e a definhar a diminuir e a definhar e concomitantemente simultaneamente ainda para mais por razões desconhecidas apesar dos progressos da cultura física a prática de desportos tais como ténis futebol atletismo ciclismo natação aviação flutuação equitação planação conação remação patinação ténis de todos os tipos morrer voar desportos de todas as espécies outono verão inverno ténis de inverno de todos os tipos hóquei de todas as espécies penicilina e sucedâneos numa palavra eu repito e concomitantemente simultaneamente por razões desconhecidas a encolher e a decrescer apesar do ténis eu repito voar planar golf acima de nove e dezoito buracos ténis de todos os tipos numa palavra por razões desconhecidas em Feckham Peckham Fulham Clapham nomeadamente concomitantemente simultaneamente ainda para mais por razões desconhecidas mas que o tempo dirá a encolher e a decrescer eu repito Fulham Clapham numa palavra andando a perda por morte per capita desde a morte de Voltaire à volta de números de uma onça e meia per capita aproximadamente isto mais ou menos tirando aqui pondo ali arredondando para números redondos correctos totais nus nas meias nos pés na Normandia numa palavra por razões desconhecidas não interessa o que interessa é que os factos existem e considerando o que é mais muito mais grave que à luz dos trabalhos perdidos de Steinweg e Petermann parece que o que é mais muito mais grave que à luz à luz à luz dos trabalhos perdidos de Steinweg e Petermann que nas planícies nas montanhas à beira-mar à beira-rio água que corre fogo que corre o ar é o mesmo e então a terra ou seja o ar e então a terra naquele grande frio naquela grande escuridão o ar e a terra domicílio de pedras no grande frio enfim enfim no ano do Senhor seiscentos e qualquer coisa o ar a terra o mar a terra domicílio de pedras nas grandes profundezas o grande frio no mar na terra e no ar eu repito por razões desconhecidas apesar do ténis os factos existem mas o tempo o dirá eu repito enfim enfim adiante adiante em resumo em suma adiante adiante domicílio de pedras quem pode duvidar eu repito mas mais devagar eu repito o crânio a encolher e a diminuir e concomitantemente simultaneamente ainda para mais por razões desconhecidas apesar do ténis adiante adiante a barba as chamas as lágrimas as pedras tão azuis tão calmas enfim enfim adiante adiante o crânio o crânio o crânio o crânio na Normandia apesar do ténis dos trabalhos abandonados inacabados mais grave ainda domicíliod e pedras numa palavra eu repito enfim enfim abandonados inacabados o crânio o crânio na Normandia apesar do ténis o o crânio enfim as pedras Conard (luta, gritos finais) ténis... as pedras... tão calmas... Conard... inacabados.

A tradução de João Maria Vieira Mendes é magnífica, o livro nem se lê, ouve-se (experimentei aqui em casa e esta fala de Lucky funciona ainda melhor lida a duas vozes). A edição é da Cotovia e já vai na segunda tiragem

A estrada mais bonita que conheço

vai de Serpa ao Pulo do Lobo. O que eu queria agora era estar em Serpa.

Segunda-feira, Junho 13

PLAZA DEL VIENTO

Penso na pequena Praça de Tarifa onde o vento chega sempre antes de mim. Tem a minha medida: três muros de cal voltados ao mar. Aí queria encontrar-me com Melville, e com mais ninguém. Um dia direi porquê.

Eugénio de Andrade, "Memória de outro rio"

este não é

o cão de Francis Bacon entre uma esquadria vermelha. Este cão parece que não está sozinho mas é um engano: está tão sozinho como o outro. Bacon sabe muito sobre cães. E grades.

Houve um tempo em que viajava muito

Era pequena, tão pequena que cabia debaixo da cama da minha mãe ou atrás da máquina de costura da minha avó. Fazia longas viagens com o meu irmão, de gatas. Ora levava um carro, ora um camião, variava com a distância. Ou seria por causa da carga? E o que é que transportávamos? Os percursos eram complicados — isso sei — e, às vezes, perigosos. Percorríamos montanhas e planícies; parávamos para comer e para dormir. Havia mais algumas regras mas já as esqueci. Depois cresci e deixei de viajar.

Hoje o meu irmão apareceu à hora do almoço para falar comigo. Assuntos sérios, não mencionamos os camiões. Mas era sobre eles que me apetecia conversar.
Tenho vinte e muitos anos estou a meio da minha vida
e nada sei sobre o Guadalquivir.
Não sei das inundações arruinando searas
dos seus rápidos do infindável tráfego
que vai remando para jusante.
Histórico traiçoeiro rio
(será do Guadalquivir que falo?) muito dele tenho a aprender.
Uma manhã acordei sob estreita mão no meu ombro.
Que me queres? Queria conversar.
Que espécie de vida levas? Faço o que tenho a fazer.
Então fala-me do Guadalquivir.

Olhei apenas para as águas do rio (porque
me sentia tão só assim o cão de Francis Bacon
entre uma esquadria vermelha).
tenho muitos muitos anos e nunca estarei a meio da minha vida.

João Miguel Fernandes Jorge, “Turvos dizeres”, 1973

Domingo, Junho 12

E tu perguntas
fechando o corpo e a casa
o que fazemos aqui?
como saímos daqui?

João Miguel Fernandes Jorge, "À beira do mar de Junho", Na regra do Jogo, 1982, página 13

kosuthiano, de Kosuth?


‘Titled (Art as Idea as Idea) [Water],’, 1966. Photostat mounted on board, 48 x 48 inches. Solomon R. Guggenheim Museum, Gift, Leo Castelli, New York. 73.2066. © 2003 Joseph Kosuth/Artists Rights Society (ARS), New York