Sábado, Junho 11

strangers talk only about the weather #19





Nuvens sobre a República Checa, através dos olhos da Carla.

vermelho, roxo, azul, preto

Ontem comprei as melhores cerejas do ano: de Resende, escuras, gordas e rijas, doces mas com um certo travo silvestre. A três euros e meio o quilo, na Rotunda da Boavista, entre Nossa Senhora de Fátima e a Avenida de França. Creio que a mercearia chama-se São Miguel.

Ali Reza Ghorbani é iraniano e tem uma voz enorme e envolvente. Estava acompanhado por três músicos. Sentaram-se em cima de um tapete vermelho; por trás as cortinas iluminadas de roxo e laranja. Tímidos, sonhadores, com mãos esguias — já vi isto nalgum lado. A sala transformou-se.
Concerto após concerto percebo que estou viciada na Casa da Música.

Um dos dois jacarandás do Campo 24 de Agosto está todo em flor, entre azul e lilás, indiferente às obras e ao pó que o rodeiam. O das Águas Férreas ainda não nem o da Boavista mas é uma questão de dias.

Nico, Via Veneto, Passos Manuel.

Sexta-feira, Junho 10

O que é que se pode ler depois de Walser?

Não é fácil. Quando acabei "A Extinção" de Thomas Bernhard também fiquei desorientada — salvou-me o jovem Jakob. Mas agora é muito mais complicado, não é Nuno?
Estou a pensar dedicar-me a Beckett, é o preço por lhe ter roubado o nome do blogue. Já comprei "Molloy"; "À espera de Godot", "O Inominável", "Malone está a morrer" e "Watt" estão em lista de espera. Como passar da doçura de Walser para a aridez de Beckett? A eito? Ou fazendo um desvio? Por onde?

dorme bem, querido Walser

Tentei escrever alguma coisa de jeito sobre Jakob von Gunten mas não consegui. Isso é um bom sinal, pensei. A primeira frase lá surgiu sem tino: o livro avança a galope. Foi também a última. Depois lembrei-me das cenas de que gostei mais: a conversa sombria com o irmão Johann [Já não há nada de belo, de excelente. Tens de ser tu a sonhar o que é belo e bom e excelente. —página 67]; o invejável Curriculum Vitae ; a viagem com Fräulein Benjamenta [Mas de repente a Fräulein disse: «Vem comigo, levanta-te e vem. Quero mostrar-te uma coisa.» — Saímos juntos. Os nossos olhos, ou pelo menos os meus (os dela talvez não) estavam envoltos numa escuridão impenetrável. «São os aposentos interiores», pensei eu, e não me enganava. Foi assim que aconteceu, e a minha querida professora parecia decidida a mostrar-me um mundo até então oculto. Mas tenho de ganhar fôlego. — página 97]; os sonhos [Não, não sou Creso nenhum. E quanto à vida dupla, bem, todos nós temos uma vida dupla. Para quê o alarido? Ah, todos estes pensamentos, todos estes anseios, esta busca, este estender as mãos a um significado. Antes sonhar, antes dormir. Deixo chegar o sonho e o sono. Possam chegar. — página 139], por exemplo aquele em que Jakob se transforma num soldado de Napoleão, no mais verdadeiro e miserável soldado de Napoleão que já existiu [A disciplina e a paciência militares ter-me-iam transformado num amontoado de carne compacto, impenetrável, quase sem entranhas. E assim continuaríamos, rumo a Moscovo. Não amaldiçoaria a vida porque a vida já há muito que seria demasiado abominável para ser amaldiçoada, não sentiria dor porque a dor já há muito teria sido usada e gasta pelas minhas emoções. — página 135]; ou os encontros — descobrir um adjectivo perfeito para os descrever pode levar quantos anos? — com Herr Benjamenta.

Conclusão: Walser actua em regiões que estão para além do discurso. Não me importava de passar os meus dias a transcrever as suas palavras, aliás, é mais ou menos isso que ando a fazer. Com todas as minhas ideias e tolices poderei fundar dentro em breve uma sociedade anónima para a difusão de ilusões bonitas mas pouco fiáveis. — página 129.

Quinta-feira, Junho 9

may a thousand flowers bloom in its wake




Krapp's Last Tape, Part I | Krapp's Last Tape, Part II

Directed by Alan Schenider
Originally produced by THEATER 1960 and
Harry Joe Brown, Jr. at the Provincetown Playhouse From the LP "Krapp's Last Tape" (Spoken Arts, ST 788) | UbuWeb

O silêncio. É muito difícil escutar.

É muito difícil escutar, no silêncio, os outros. Outros pensamentos, outros ruídos, outras sonoridades, outras idéias. (...) Em vez de escutar o silêncio, de escutar os outros, espera-se encontrar ainda uma vez a si mesmo. (...) Escutar a música. É muito difícil. Creio que hoje é um fenômeno raro. Escuta-se alguma coisa de literário, escuta-se o que foi escrito, escuta-se o que foi escrito, escuta-se a si mesmo ... (...) Despertar o ouvido, os olhos, o pensamento, a inteligência, o máximo de interiorização exteriorizada: eis o essencial hoje.

Luigi Nono, L'errore como necessità, 1983, apud Augusto de Campos, Pós-música: ouvir as pedras, jornal diário Folha de São Paulo, 02/Fev/1997, caderno Mais!, p. 9, (encontrado por acaso na net, já não sei em que sítio)

— Porque é que gosto tanto da Relógio d'Água?

Nem vou falar de Walser (pelo menos agora). No entanto, reparei ontem que o primeiro livro da colecção Ficções da Relógio d'Água é "Trinta Anos" de Ingeborg Bachmann e o segundo... "O Náufrago" de Thomas Bernhard. Percebem?

— Porque é que gosto tanto da Assírio & Alvim?

Em conversa com THOMAS BERNHARD, Kurt Hofmann
tradução e apresentação de José A. Palma Caetano
fotografias de Sepp Dreissinger e Emil Fabjan

077022- 9789723710175

Quarta-feira, Junho 8

more bad news

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UbuWeb | 1996-2005
The UbuWeb Project — a decade-long experiment in radical distribution of avant-garde materials — has finished...

Here's Room five four six

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Chelsea Girls, Nico, no MBLOG. Cortesia do Rui.

começar bem um dia complicado:

Ouvir logo pela manhã a Ostra de Pedro Coelho na Antena 2: A vida não corre de feição a Fulvia Voluspina.

É evidente que Antena 2 devia editar estas pérolas. Porque é que não o faz?

Terça-feira, Junho 7

os incêndios

Às vezes páro e vou ao terraço: há três fogos a escurecer o céu.

classificados

Troco um aparelho de ar condicionado por um gorro vermelho. — Steve, depois de vestir o fato azul podemos filmar os disfarces dos polvos?

Liquidação Total. Motivo: cessação de actividade

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SAPHIRE & TONIC [para a zazie]

2 parts BOMBAY SAPPHIRE gin
tonic to preferred tastes

glass// collins
garnish// wedge of lime
method// in a tall glass filled with ice, add BOMBAY SAPPHIRE and fill with tonic. Add a squeeze of lime.

Domingo, Junho 5

sai mais um gin tónico para a mesa três:

NOIVADO

Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.
— És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.
É o que faz a miopia.

Mário-Henrique Leiria, Contos do Gin-Tonic, Editorial Estampa

Magnetic Fields Forever

— Movies are entertaining enough for the masses, but the personalities on the screen just don't impress me...

Começou mais um ciclo de Cinema Fora do Sítio. Ontem às 22h30 nos jardins do Palácio de Cristal os pavões cantaram e dançaram com Gene Kelly. Só choveu na tela, a sessão foi óptima.

11 Junho Buena Vista Social Club Parque Desportivo do INATEL : 12 Junho É Sempre a Mesma Cantiga Quartel General no Largo da Lapa : 18 Junho O Estrangeiro Louco Castelo de S. João da Foz : 19 Junho Velvet Goldmine Jardim de Arca d'Água : 25 Junho O Destino Museu Militar do Porto : 26 Junho Topsy-Turvy Museu do Carro Eléctrico : 2 Julho Para Sempre Mozart Casa das Artes : 3 Julho Farinelli Conservatório de Música do Porto

Entretanto o jacarandá do Largo Viriato começou a florir.