quinta-feira, Junho 30

Livro das Orações #1

A natação é um exercício musical; deve ser conduzida por um maestro. Ou por Deus.

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J'étais une parole qui tentait de suivre la vitesse de la pensée.

Les camarades de la pensée assistaient.
Pas une n'osa sur moi tenir le moindre pari, et elles étaient bien là six cent mille qui me regardaient en riant.


HENRY MICHAUX, Le Disque Vert, 4ème Série - N°1, Janvier 1925

quarta-feira, Junho 29

The most striking aspect of Arbus's work is

that she seems to have enrolled in one of art photography's most vigorous enterprises — concentrating on victims, on the unfortunate — but without the compassionate purpose that such a project is expected to serve. Her work shows people who are pathetic, pitiable, as well as repulsive, but it does not arouse any compassionate feelings. For what would be more correctly described as their dissociated point of view, the photographs have been praised for their candor and for an unsentimental empathy with their subjects. What is actually their aggressiveness toward the public has been treated as a moral accomplishment: that the photographs don't allow the viewer to be distant from the subject. More plausibly, Arbus's photographs — with their acceptance os the appalling — suggest a naiveté which is both coy and sinister, for it is based on distance, on privilege, on a feelig that what the viewer is asked to look at is really other. Buñuel, when asked once why he made movies, said that it was "to show that this is not the best of all possible worlds." Arbus took photographs to show something simpler — that there is another world.


Susan Sontag, On Photography, Penguim Classics

We play such funny games

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Though most viewers are ready to imagine

that these people, the citizens of the sexual underworld as well as the genetic freaks, are unhappy, few of the pictures actually show emotional distress. The photographs of deviates and real freaks do not accent their pain but, rather, their detachment and autonomy. The female impersonators in their dressing rooms, the Mexican dwarf in his Manhattan hotel room, the russian midgets in a livings room on 100th Street, and their kin are mostly shown as cheerful, self-accepting, matter-of-fact. Pain is more legible in the portraits of the normals: the quarreling elderly couple on a park bench, the New Orleans lady bartender at home with a souvenir dog, the boy in Central Park clenching his toy hand grenade.

Susan Sontag, On Photography, Penguim Classics

terça-feira, Junho 28

do you want to play with me?

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na natureza

strangers talk only about the weather #20

Scherzo and Trio / Lifeboat (Lovers Rock) / Nothing Really Blue / Cage Dead / Vega / Yodel 3 / Organum /Another One from Porlock / Thorn Tree Wind / Silver Star of Bologna / Discover America / Pythagoras on the Line / Kora Kora / Lie Back and Think of England / Red Shorts / Passing Through

por falar em sapos...

Não são apenas os cretenses que mentem. Também os fabulistas.
Na história do senhor de La Fontaine, a formiga responde à cigarra: «Cantaste, agora dança»; mas não foi uma formiga que respondeu — foram batalhões, regimentos de formigas.
Depois ficaram por ali, à espera que a cigarra entregasse a alma ao criador, para lhe roerem os ossos.

do maravilhoso "Bestiário" de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, Março 2004

segunda-feira, Junho 27

Kleist do lado errado do espelho

Funcionava tudo ao contrário. Até o príncipe, quando ela o beijou, virou sapo. Bonito, mas sapo. "Assim não", nem pensar!", disse Alice "num mundo tão injusto eu não quero viver." E deixou-se adormecer.

desejos simples:

acordar dentro de um quadro de Bonnard.

sábado, Junho 25

Mama, was sind das moderne menschen?

De Bresson até Jean-Marie Straub, Danièle Huillet e Pedro Costa.

Jean-Marie Straub:...
Aqui, acho que devemos cortar... com a acção, mais uma vez como o Chaplin, Essanay.
E, aqui, a acção não é difícil de encontrar, embora seja contida.
E há mais uma razão.
Ele bebe como um sonâmbulo, ou seja, como alguém que faz um daqueles gestos com que o Bresson sonhava, uma pessoas entra em casa, acende a luz sem dar conta, sem fazer nada, como um mau actor, para parecer que anda à procura do interruptor, etc.
Faz gestos inconscientes e automáticos.
E é mais ou menos o que ele faz, aqui... vai beber, mas, ao mesmo tempo... como é sonâmbulo e não tem consciência, ainda tem a atitude pensativa de alguém que olha para as borras do café, para o fundo do copo.
Portanto, não serviria de nada juntar mais uma respiração, só ia aguar o molho.

"Onde jaz o teu sorriso?" diálogos, livros de cinema da Assírio & Alvim, páginas 68 e 69
Jean-Marie Straub: No Diário de um Pároco de Aldeia, diz-se: «disseram adeus, cada um do seu lado de uma estrada invisível.»
...

"Onde jaz o teu sorriso?" diálogos, livros de cinema da Assírio & Alvim, página 93
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MODELOS:

Movimentos de fora para dentro. (Actores: movimento de dentro para fora.)

O importante não é o que me mostram mas o que me escondem, e sobretudo o que não suspeitam que existe neles.

Entre eles e eu: ligações telepáticas, adivinhação


Robert Bresson, em Notas sobre o Cinematógrafo, tradução de Pedro Mexia, página 16, Elementos Sudoeste, Novembro 2003

sexta-feira, Junho 24

Je reste

Deve-se franzir os olhos, fazer um esforço visual para substituir o palerma do Paul Bernard por Jean Marais (ou Alain Cuny — os dois actores que Bresson e Cocteau queriam para o papel de Jean mas a produção não deixou). Recorrer a Orpheu, se for caso disso. E depois ver Les dames du bois de Boulogne como o mais verdadeiro film noir já realizado. Descobrir a palavra fatal.

MAR DA MANHÃ

Que eu me detenha aqui. E que também eu veja um pouco a natureza.
De um mar da manhã e de um céu sem nuvens
roxas cores brilhantes e margem amarela; tudo
belo e grande iluminado.

Que eu me detenha aqui. E que me engane para ver isto
(vi de verdade isto por um instante quando primeiro me detive);
e não aqui também os meus devaneios,
as minhas recordações, os modelos da volúpia.


Konstandinos Kavafis, "Poemas e Prosas", tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Relógio d'Água, 1994

quinta-feira, Junho 23

Tão quieto como nos céus da ilha o voo do milhafre

i
Desapareceu o banco de pedra ao fim do terreno
nas traseiras da casa, mas no parque a árvore continua a
rasar a água do lago; e os patos desenham os mesmos círculos,
serão outros os patos de pescoço verde, tal como a ilha
já não são exactamente as mesmas pessoas tecendo círculos ao
redor; a ilusão da quietude permanece. Tenho saudades do
café das Velas, da rua larga de casas em S. Roque do Pico, da
rua da Praia da Graciosa voltada para o ilhéu. Nas Furnas
esqueci-me de comprar bolo lêvedo. Dois alemães nadam no
espelho de água queimada da piscina do Terra Nostra; no
palacete situou Agustina alguns dos personagens do Concerto
dos Flamengos
.

ii
Os barcos estão no cais. Não se vê nenhum pescador. Uma velha
e uma criança passaram duante o tempo em que estive no
pontão. No mercado quase me obrigaram a comprar inhames, que
ninguém vai saber cozinhar. Havia moinhos de água nesta rua
agora só vejo uma oficina.

iii
O metrossídero permanece, cobre parte do terreiro fronteiro
à casa. O outono vai adiantado, das beladonas restam hastes
secas nos canteiros. Numa das paredes da sala está a
fotografia que sempre encontrei dentro de um armário. Todos vestidos
para a imagem. Pesadas as mulheres, grossos os homens. O
rapaz não esconde o ar de herdeiro, espera tempos próximos
sobre os quais já passaram muitos anos, em breve um século
terá também passado sobre esses dias que lhe foram futuros: como
tudo é de novo distantíssimo! Rodeia-os uma luz, uma paz insular,
tão quieta, tão parada, mais valera guerra. (Não fui eu quem o
disse, foi o rapaz quem o pensou no seu rosto claro sob
os céus da ilha, sob o voo planado do milhafre.)

iv
Os melros quase se não vêem. Das outras vezes era
verão e havia o canto acrescido das crias novas. Na fotografia
os motociclistas na praça Gonçalo Velho, junto ao arco
esperam que lhes dêem o sinal de partida. Passaram mais de
cinquenta anos. A
reprodução da pintura holandesa da velha e do gato que se
apressa a roubar-lhe a comida enquanto a mulher murmura
orações ainda está sobre um dos aparadores.

iv
O que é a monotonia? Coloquem em sucessão, azul, amarelo,
vermelho. O amarelo que foi concebido como encadeamento estará
ensimesmado com a sua actividade individual
assim o azul e o vermelho. Cada uma destas forças procura
a graduação pela qual poderia entrar no campo do seu
vizinho; o conflito aumenta e permanece a desarmonia.
Choveu imenso durante a noite e a manhã. Durante a viagem fez
muito nevoeiro. As lagoas não se viam da Vista do Rei.

v
Assim está bem. Uma vez tentei escrever um poema sob o
equilíbrio destas margens das lagoas, sobre o flutuar da pedra-
-pomes, sobre a geometria das casas: sótão, barras quase sempre
verdes, arrecadação para os utensílios agrícolas. Os versos
seriam sobre alguém que nunca vi e que, por certo, nunca
existiu. Uma paisagem tem que apresentar vários planos
completos e nunca consegui registar o contraste do corpo.
Desta vez havia um calor húmido, senti frio enquanto
bebi uma cerveja numa taberna da aldeia por entre operários
de construção civil, dois ou três lavradores.
(Como gostava que estas palavras se parecessem com o diário
da viagem de Kavafis à Grécia. Faltam as temperaturas que
indicava todos os dias. Aqui, a máxima nunca passou os
vinte graus.)

vi
O símbolo é uma existência externa. Um dia no claustro
de um convento nos cimos do Cais do Pico convidaram-me para
um almoço do Espírito Santo. Assustei-me como
se me tivessem perguntado se queria ser maçónico e logo
caiu sobre mim a inumerável quantidade de imagens,
símbolos para representar deus e o
número de lados e ângulos que resultam da ideia de deus. Era
um homem simpático, com astúcia
que não lhe davam a igreja, a cair
nem a reparavam.

vii
A cidade aproximou-se do mar. Comprei dois Camilos no antiquário
da matriz. Ou melhor, um único Camilo, comprei os dois
volumes de O Demónio do Ouro. «A virtude deve desaparecer
de novo e converter-se em inocência.» É de Novalis e disse-
-o acerca da prosa. É a única coisa que sei de cor.

ix
Comprei doces: pudim de feijão e pastéis de Vila Franca.
Cogiva e Princesas Extra. Hoje subi a uma
falsa: dois ou três quartos e dois desvões; arcas
guarda-fatos, cadeiras velhas, o interesse dos sentidos.
Um oratório, um pássaro empalhado, poeira. É tão difícil
ir além do tempo e do lugar a que se pertence.
Está luar. Ouvem-se os cães ao fim da Galera.

x
Vi uma entrevista a um prático graciosense. Apareceu
numa sequência de falas com barbeiros. Um velho que
falou da sua revelação sobre o mundo a partir da leitura
d' A Rosa do Adro,
ouviu-a à sua mãe quando tinha dezoito anos
por causa dessa leitura quis aprender a ler. Disse coisas
sobre a poesia e os poetas que nem Schlegel. Hei-de
procurá-lo se voltar um dia à Graciosa. Mas nem sequer fixei
o seu nome. Descobrir-mo-á a Maria de Fátima Borges
apesar de ser um sábio de outra ilha?

xi
Amanhã regresso ao continente.
Mas ainda dá para tomar um café na esplanada em frente à Matriz.

Já só o vi vestir o peito de reforço
por sobre a saia de malha de aço
na cabeça o chapéu de ferro
com ligeira cauda de apertado arame, o suficiente para que
deixasse de lhe ver a nuca, orelhas e pala;
não lhe ficavam mal as ferradas vestes.

Para trás ficaram os formosos dias e a época dourada da baixa idade média.


João Miguel Fernandes Jorge, Bellis Azorica, Relógio d'Água

f for fake

quarta-feira, Junho 22

— Há muito tempo que o não me repugna.

Há cartazes espalhados pela cidade com o rosto de Branca de Neve. São falsos, toda a gente sabe que Branca de Neve é apenas uma voz doce que diz sim.

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— pois e eu sou o Robert Walser,

disse ele quando acabou de ler o post.
Olhei-o nos olhos: não era. Por isso comi o gelado de chocolate sozinha enquanto dava a volta ao quarteirão. O Mário-Henrique Leiria que me desculpe o atrevimento.

Esta noite sonhei que era o meu último dia de férias.

Regressava de São Miguel (o subconsciente baralhou-se, esta não é a minha ilha) e estava triste porque durante todos aqueles dias só tinha tomado um banho no mar, um único. Não sei porquê. O sonho incluía pessoas conhecidas, situações bizarras e assustadoras, um autocarro anfíbio e um hotel asséptico, mas a questão dos banhos foi a pior parte. Aliás, a manhã já passou e ainda não me refiz. Night falls on Hoboken (mais ou menos a partir dos cinco minutos) seria a banda sonora perfeita. Se os sonhos tivessem som.


Frank Grisdale | Grassi Lake #2 | © photo eye

O negócio das farturas vai de vento em popa,

domingo, Junho 19

La bóna stasòun la à arivàta

Sandra, isto é para ti: dia 25, no cinema King.Vou? Vamos?

Hoje o chefe recomenda: recetas de Remedios Varo

PARA PROVOCAR SUEÑOS EROTICOS

Ingredientes: un kilo de razón fuerte; tres gallinas blancas; una cabeza de ajos; cuatro kilos de miel; un espejo; dos hígados de ternera; un ladrillo; dos pinzas para ropa; un corsé con ballenas; dos bigotes postizos; sobreros al gusto

Se despluman las gallinas, conservando cuidadosamente las plumas. Se ponen a hervir en los litros de agua destilada o de lluvia sin sal con la cabeza de ajos pelados y molidos. Se deja hervir a fuego lento. Mientras hierven las aves, colóquese la cama oriental de noroeste a sudeste y deje reposar con la ventana abierta. Ciérrese la ventana media hora después y colóquese el ladrillo rojo bajo la pata izquierda de la cabecera de la cama, que debe estar al noroeste. Déjese reposar. Mientras reposa la cama, rállese directamente sobre el caldo la raíz fuerte, teniendo cuidado de que las manos estén constantemente impregnadas por el vapor. Resuélvase y déjese hervir. Se toman los cuatro kilos de miel y se extienden con una espátula sobre las sábanas de la cama. Tómense las plumas de las gallinas y espárzanse sobre las sábanas embadurnadas de miel. Tiéndanse la cama con cuidado.

No es indispensable que las plumas sean blancas, pueden también usarse de color, pero hay que enviar las llamadas gallinas de Guinea, pues éstas producen a veces un estado ninfomaníaco de larga duración o graves casos de priapismo. Póngase el corsé bastante apretado. Siéntese ante el espejo, afloje su tensión nerviosa, sonríase, pruébese los bigotes y los sombreros según sus gustos (tricornio, napoleónico, capelo cardenalicio, cofia con encajes, boina vasca, etcétera). Ponga en un platito las dos pinzas para ropa y déjelo junto a la cama. Entíbiense al baño María los hígados de ternera, teniendo mucho cuidado de que no lleguen a hervir. Colóquense los hígados tibios en lugar de la almohada (en casos de masoquismo ) o en ambos lados de la cama, al alcance de las manos (en casos de sadismo). A partir de ese momento, todo debe terminar de hacerse a gran velocidad, APRA impedir que los hígados se enfríen. Corra y vierta velozmente el caldo (que debe estar muy reducido) en una taza. Regrese con ella apresuradamente ante el espejo, sonría, beba un sorbo del caldo, pruébese un bigote, beba otro sorbo, pruébese un sombrero, beba, pruébese todo, tome sorbitos entre prueba y prueba y hágalo todo tan velozmente como sea capaz. Ya ingerido el caldo, corra a la cama, acuéstese entre las sabanas preparadas, tome rápidamente las pinzas para ropa e introduzca en cada una de ellas el dedo pulgar del pie. Estas pinzas deben conservarse toda la noche y colocarse en un ángulo de 45 grados en relación con el dedo, oprimiendo firmemente la uña.

Esta sencilla receta da siempre buenos resultado si las personas normales pueden ir placenteramente del beso a la estrangulación, de la violación al incesto, etcétera, etcétera. Las recetas para casos mas complicados, como son los de necrofilia, autofagia, tauromaquia, alpinismo y otros, se encuentran en un volumen especial de nuestra colección: Consejos discretamente sanos.

Remedios Varo, "Cartas sueños y otros textos", introducción y notas de Isabel Castell, México Universidad Autónoma de Tlaxcala/INBA, 1994

acesulfame de potássio

Junto ao Castelo de S. João da Foz, mesmo em frente aos bombeiros, a roulotte Mário vende farturas feitas com Canderel. De certeza que não foram homologadas por São João. O santo não alinha em produtos dietéticos, pois não? Continua guloso, não é?

sábado, Junho 18

Prato do dia

Segui o conselho do Henrique e, na primeira oportunidade, lancei a mão a Edward Lear:

PARA PREPARAR PASTÉIS GOSKY

Arranje um porco de três ou quatro anos de idade, e prenda-lhe uma pata traseira a um poste. Coloque 5 libras de passas, 3 de açúcar, 2 celamins de ervilhas, 18 castanhas assadas, uma vela e seis alqueires de nabos ao seu alcance; se ele comer isto, forneça-lhe mais, constantemente.
Depois arranje um pouco de natas, algumas fatias de queijo Cheshire, quatro cadernos de papel almaço e um pacote de alfinetes pretos. Molde tudo numa pasta e estenda-a a secar sobre um lençol lavadao de linho castanho imperveável.
Quando a pasta estiver completamente seca, mas não antes comece a bater violentamente no porco com o cabo de uma vassoura grande. Se ele guinchar, volte a bater-lhe.
Vá ver a pasta e bata no porco alternadamente durante alguns dias, e verifique se no fim desse período tudo começa a transformar-se em pastéis Gosky.
Se até então não se transformar, nunca se transformará; nesse caso pode soltar o porco, e deverá considerar todo o processo terminado.

Learicks, de Edward Lear, tradução livre de Célia Henriques. mais uma edição preciosa da & etc

The reshaping of the human body by modern technology

Quando o filme acabou e entrei no carro, tudo parecia diferente. Demorei alguns minutos até meter a chave na ignição (coloco o cinto?), e acender as luzes. Não diria doença, mas obsessão; Cronenberg é obsessivo. Vá-se lá saber porque gosto dele.

It's a dangerous film in many ways. It does violence to people's understanding of human relationships, it does violence to people's understanding of eroticism. If people find it disturbing, I think that's where the disturbing element is. David Cronenberg

sexta-feira, Junho 17

Who needs cars anyway?

Maybe the next one, darling... Maybe the next one...

Por falar em carros, hoje é dia de: CRASH



um carro assim?

Passaram diante de muitos campos de nabos, mas, como estavam na época errada, não viram nenhuns nabos.*

— Vai-me desculpar mas os Tiger Lilies estão em falta.
— Deixe lá, traga então Edward Gorey. O próprio, numa travessa, quero dizer: numa bicicleta!
— Lamento imenso mas o senhor Gorey já morreu... só se for aquele hóspede suspeito... com molho de melaço?


* retirado de "A Bicicleta Epiléptica", tradução de Margarida Vale de Gato para a Errata

quinta-feira, Junho 16

They're building the gallows outside my cell / I got twenty-five minutes to go...

—Então o que é que vai ser?
— Para começar: The Tiger Lilies. Na Sala 1 da Casa da Música. Com uma pedrinha de gelo, por favor.
— Quem?

Otto e Mezzo

the party is over

Numa reportagem sobre o funeral de Álvaro Cunhal uma mulher disse que o partido comunista é o partido da dor. Utilizou precisamente estas palavras: partido da dor. Não era historiadora nem analista, apenas uma pessoa vulgar. Acho que acertou mais do que ela própria pensa.

memórias póstumas

O Casmurro é muito bom (para completar o clube dos sete falta referir: Pedro Serra, Oswaldo M. Silvestre, Fernando Matos Oliveira e Gustavo Rubim), já quase todos o disseram, mas não é só isso. Sinto por Machado de Assis uma afeição especial — no fundo foi com ele que alcancei a minha glória literária, há alguns anos, quando me mudei para o quinto andar da Rua Brás Cubas. Desde então vivo à sua sombra.

enfim juntos.

quarta-feira, Junho 15

e Groucho Marx...

descobrir Machado de Assis...

la dolce vita

Steiner parece ter uma vida perfeita, uma espécie de natureza morta de Morandi; objectos simples dispostos segundo determinada ordem sobre uma mesa (Gli oggetti sembrano immersi nella luce della memoria, eppure sono dipinti con tale solidità e emozione reale che sembra di poterli quasi toccare. Si potrebbe dire che l'arte non ha lasciato nulla al caso.). No entanto mata os filhos e suicida-se. Porquê?, pergunta um polícia a Marcello.
Marcello Rubini é um pobre diabo, jornalista de notícias rascas, sem tempo para escrever o livro sempre adiado. Ou talvez sem nada para dizer?
Marcello chegou a invejar Steiner, as certezas, a casa, a família, os amigos tão inteligentes, o quadro na parede. Agora balbucia que talvez ele tenha feito o que fez por medo. Steiner tinha medo?

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terça-feira, Junho 14

Anyone for tennis?

Não resisti à peça de Beckett. A história de "À espera de Godot" é conhecida e simples: Estragon e Vladimir esperam Godot. Às tantas surgem em cena Pozzo e Lucky. Nenhum deles é Godot. Pozzo é mais ou menos o dono de Lucky e Lucky é mais ou menos o escravo de Pozzo. Para além disso Lucky também sabe dançar e pensar. Dança como se estivesse preso nas malhas de uma rede e pensa assim:

LUCKY — Confirmada a existência como adiantam os estudos de Puncher e Wattmann de um Deus pessoal quaquaquaqua com barba branca quaquaquaqua fora do tempo sem extensão que das alturas da sua divina apatia divina atambia divina afasia nos ama a todos com algumas excepções por razões desconhecidas mas que o tempo dirá e sofre como a divina Miranda com aqueles que por razões desconhecidas mas que o tempo dirá estão mergulhados em tormentos mergulhados num fogo sendo que as chamas do fogo se isto assim continuar e quem pode duvidar que vai continuar queimam o firmamento ou seja rebentam com o inferno para o céu tão azul suave e calmo tão calmo com uma calma que apesar de intermitente é melhor que nada mas mais devagar e considerando aquilo que é mais do que o simples resultado dos trabalhos inacabados de Testu e Conard premiados pela Acacacacademia de Antropopopopometria de Essy-em-Possy fica estabelecido sem qualquer dúvida exceptuando a dúvida sempre inerente a qualquer trabalho que seja humano que como resultado dos trabalhos inacabados de Testu e Conard fica estabelecido daqui em diante mas mais devagar por razões desconhecidas que como resultado dos trabalhos de Puncher e Wattmann fica estabelecido sem qualquer dúvida que tendo em conta os trabalhos de Fartov e Belcher inacabados por razões desconhecidas para Testu e Conard inacabados também eles fica estabelecido o que para muitos é inaceitável que o homem em Possy de Testu e Conard que o homem em Essy que o homem em resumo que o homem em síntese apesar dos progressos na alimentação e na defecação é ainda visto a diminuir e a definhar a diminuir e a definhar e concomitantemente simultaneamente ainda para mais por razões desconhecidas apesar dos progressos da cultura física a prática de desportos tais como ténis futebol atletismo ciclismo natação aviação flutuação equitação planação conação remação patinação ténis de todos os tipos morrer voar desportos de todas as espécies outono verão inverno ténis de inverno de todos os tipos hóquei de todas as espécies penicilina e sucedâneos numa palavra eu repito e concomitantemente simultaneamente por razões desconhecidas a encolher e a decrescer apesar do ténis eu repito voar planar golf acima de nove e dezoito buracos ténis de todos os tipos numa palavra por razões desconhecidas em Feckham Peckham Fulham Clapham nomeadamente concomitantemente simultaneamente ainda para mais por razões desconhecidas mas que o tempo dirá a encolher e a decrescer eu repito Fulham Clapham numa palavra andando a perda por morte per capita desde a morte de Voltaire à volta de números de uma onça e meia per capita aproximadamente isto mais ou menos tirando aqui pondo ali arredondando para números redondos correctos totais nus nas meias nos pés na Normandia numa palavra por razões desconhecidas não interessa o que interessa é que os factos existem e considerando o que é mais muito mais grave que à luz dos trabalhos perdidos de Steinweg e Petermann parece que o que é mais muito mais grave que à luz à luz à luz dos trabalhos perdidos de Steinweg e Petermann que nas planícies nas montanhas à beira-mar à beira-rio água que corre fogo que corre o ar é o mesmo e então a terra ou seja o ar e então a terra naquele grande frio naquela grande escuridão o ar e a terra domicílio de pedras no grande frio enfim enfim no ano do Senhor seiscentos e qualquer coisa o ar a terra o mar a terra domicílio de pedras nas grandes profundezas o grande frio no mar na terra e no ar eu repito por razões desconhecidas apesar do ténis os factos existem mas o tempo o dirá eu repito enfim enfim adiante adiante em resumo em suma adiante adiante domicílio de pedras quem pode duvidar eu repito mas mais devagar eu repito o crânio a encolher e a diminuir e concomitantemente simultaneamente ainda para mais por razões desconhecidas apesar do ténis adiante adiante a barba as chamas as lágrimas as pedras tão azuis tão calmas enfim enfim adiante adiante o crânio o crânio o crânio o crânio na Normandia apesar do ténis dos trabalhos abandonados inacabados mais grave ainda domicíliod e pedras numa palavra eu repito enfim enfim abandonados inacabados o crânio o crânio na Normandia apesar do ténis o o crânio enfim as pedras Conard (luta, gritos finais) ténis... as pedras... tão calmas... Conard... inacabados.

A tradução de João Maria Vieira Mendes é magnífica, o livro nem se lê, ouve-se (experimentei aqui em casa e esta fala de Lucky funciona ainda melhor lida a duas vozes). A edição é da Cotovia e já vai na segunda tiragem

A estrada mais bonita que conheço

vai de Serpa ao Pulo do Lobo. O que eu queria agora era estar em Serpa.

segunda-feira, Junho 13

PLAZA DEL VIENTO

Penso na pequena Praça de Tarifa onde o vento chega sempre antes de mim. Tem a minha medida: três muros de cal voltados ao mar. Aí queria encontrar-me com Melville, e com mais ninguém. Um dia direi porquê.

Eugénio de Andrade, "Memória de outro rio"

este não é

o cão de Francis Bacon entre uma esquadria vermelha. Este cão parece que não está sozinho mas é um engano: está tão sozinho como o outro. Bacon sabe muito sobre cães. E grades.

Houve um tempo em que viajava muito

Era pequena, tão pequena que cabia debaixo da cama da minha mãe ou atrás da máquina de costura da minha avó. Fazia longas viagens com o meu irmão, de gatas. Ora levava um carro, ora um camião, variava com a distância. Ou seria por causa da carga? E o que é que transportávamos? Os percursos eram complicados — isso sei — e, às vezes, perigosos. Percorríamos montanhas e planícies; parávamos para comer e para dormir. Havia mais algumas regras mas já as esqueci. Depois cresci e deixei de viajar.

Hoje o meu irmão apareceu à hora do almoço para falar comigo. Assuntos sérios, não mencionamos os camiões. Mas era sobre eles que me apetecia conversar.
Tenho vinte e muitos anos estou a meio da minha vida
e nada sei sobre o Guadalquivir.
Não sei das inundações arruinando searas
dos seus rápidos do infindável tráfego
que vai remando para jusante.
Histórico traiçoeiro rio
(será do Guadalquivir que falo?) muito dele tenho a aprender.
Uma manhã acordei sob estreita mão no meu ombro.
Que me queres? Queria conversar.
Que espécie de vida levas? Faço o que tenho a fazer.
Então fala-me do Guadalquivir.

Olhei apenas para as águas do rio (porque
me sentia tão só assim o cão de Francis Bacon
entre uma esquadria vermelha).
tenho muitos muitos anos e nunca estarei a meio da minha vida.

João Miguel Fernandes Jorge, “Turvos dizeres”, 1973

domingo, Junho 12

E tu perguntas
fechando o corpo e a casa
o que fazemos aqui?
como saímos daqui?

João Miguel Fernandes Jorge, "À beira do mar de Junho", Na regra do Jogo, 1982, página 13

kosuthiano, de Kosuth?


‘Titled (Art as Idea as Idea) [Water],’, 1966. Photostat mounted on board, 48 x 48 inches. Solomon R. Guggenheim Museum, Gift, Leo Castelli, New York. 73.2066. © 2003 Joseph Kosuth/Artists Rights Society (ARS), New York

sábado, Junho 11

strangers talk only about the weather #19





Nuvens sobre a República Checa, através dos olhos da Carla.

vermelho, roxo, azul, preto

Ontem comprei as melhores cerejas do ano: de Resende, escuras, gordas e rijas, doces mas com um certo travo silvestre. A três euros e meio o quilo, na Rotunda da Boavista, entre Nossa Senhora de Fátima e a Avenida de França. Creio que a mercearia chama-se São Miguel.

Ali Reza Ghorbani é iraniano e tem uma voz enorme e envolvente. Estava acompanhado por três músicos. Sentaram-se em cima de um tapete vermelho; por trás as cortinas iluminadas de roxo e laranja. Tímidos, sonhadores, com mãos esguias — já vi isto nalgum lado. A sala transformou-se.
Concerto após concerto percebo que estou viciada na Casa da Música.

Um dos dois jacarandás do Campo 24 de Agosto está todo em flor, entre azul e lilás, indiferente às obras e ao pó que o rodeiam. O das Águas Férreas ainda não nem o da Boavista mas é uma questão de dias.

Nico, Via Veneto, Passos Manuel.

sexta-feira, Junho 10

O que é que se pode ler depois de Walser?

Não é fácil. Quando acabei "A Extinção" de Thomas Bernhard também fiquei desorientada — salvou-me o jovem Jakob. Mas agora é muito mais complicado, não é Nuno?
Estou a pensar dedicar-me a Beckett, é o preço por lhe ter roubado o nome do blogue. Já comprei "Molloy"; "À espera de Godot", "O Inominável", "Malone está a morrer" e "Watt" estão em lista de espera. Como passar da doçura de Walser para a aridez de Beckett? A eito? Ou fazendo um desvio? Por onde?

dorme bem, querido Walser

Tentei escrever alguma coisa de jeito sobre Jakob von Gunten mas não consegui. Isso é um bom sinal, pensei. A primeira frase lá surgiu sem tino: o livro avança a galope. Foi também a última. Depois lembrei-me das cenas de que gostei mais: a conversa sombria com o irmão Johann [Já não há nada de belo, de excelente. Tens de ser tu a sonhar o que é belo e bom e excelente. —página 67]; o invejável Curriculum Vitae ; a viagem com Fräulein Benjamenta [Mas de repente a Fräulein disse: «Vem comigo, levanta-te e vem. Quero mostrar-te uma coisa.» — Saímos juntos. Os nossos olhos, ou pelo menos os meus (os dela talvez não) estavam envoltos numa escuridão impenetrável. «São os aposentos interiores», pensei eu, e não me enganava. Foi assim que aconteceu, e a minha querida professora parecia decidida a mostrar-me um mundo até então oculto. Mas tenho de ganhar fôlego. — página 97]; os sonhos [Não, não sou Creso nenhum. E quanto à vida dupla, bem, todos nós temos uma vida dupla. Para quê o alarido? Ah, todos estes pensamentos, todos estes anseios, esta busca, este estender as mãos a um significado. Antes sonhar, antes dormir. Deixo chegar o sonho e o sono. Possam chegar. — página 139], por exemplo aquele em que Jakob se transforma num soldado de Napoleão, no mais verdadeiro e miserável soldado de Napoleão que já existiu [A disciplina e a paciência militares ter-me-iam transformado num amontoado de carne compacto, impenetrável, quase sem entranhas. E assim continuaríamos, rumo a Moscovo. Não amaldiçoaria a vida porque a vida já há muito que seria demasiado abominável para ser amaldiçoada, não sentiria dor porque a dor já há muito teria sido usada e gasta pelas minhas emoções. — página 135]; ou os encontros — descobrir um adjectivo perfeito para os descrever pode levar quantos anos? — com Herr Benjamenta.

Conclusão: Walser actua em regiões que estão para além do discurso. Não me importava de passar os meus dias a transcrever as suas palavras, aliás, é mais ou menos isso que ando a fazer. Com todas as minhas ideias e tolices poderei fundar dentro em breve uma sociedade anónima para a difusão de ilusões bonitas mas pouco fiáveis. — página 129.

quinta-feira, Junho 9

may a thousand flowers bloom in its wake

Krapp's Last Tape, Part I | Krapp's Last Tape, Part II

Directed by Alan Schenider
Originally produced by THEATER 1960 and
Harry Joe Brown, Jr. at the Provincetown Playhouse From the LP "Krapp's Last Tape" (Spoken Arts, ST 788) | UbuWeb

O silêncio. É muito difícil escutar.

É muito difícil escutar, no silêncio, os outros. Outros pensamentos, outros ruídos, outras sonoridades, outras idéias. (...) Em vez de escutar o silêncio, de escutar os outros, espera-se encontrar ainda uma vez a si mesmo. (...) Escutar a música. É muito difícil. Creio que hoje é um fenômeno raro. Escuta-se alguma coisa de literário, escuta-se o que foi escrito, escuta-se o que foi escrito, escuta-se a si mesmo ... (...) Despertar o ouvido, os olhos, o pensamento, a inteligência, o máximo de interiorização exteriorizada: eis o essencial hoje.

Luigi Nono, L'errore como necessità, 1983, apud Augusto de Campos, Pós-música: ouvir as pedras, jornal diário Folha de São Paulo, 02/Fev/1997, caderno Mais!, p. 9, (encontrado por acaso na net, já não sei em que sítio)

— Porque é que gosto tanto da Relógio d'Água?

Nem vou falar de Walser (pelo menos agora). No entanto, reparei ontem que o primeiro livro da colecção Ficções da Relógio d'Água é "Trinta Anos" de Ingeborg Bachmann e o segundo... "O Náufrago" de Thomas Bernhard. Percebem?

— Porque é que gosto tanto da Assírio & Alvim?

Em conversa com THOMAS BERNHARD, Kurt Hofmann
tradução e apresentação de José A. Palma Caetano
fotografias de Sepp Dreissinger e Emil Fabjan

077022- 9789723710175

quarta-feira, Junho 8

more bad news

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UbuWeb | 1996-2005
The UbuWeb Project — a decade-long experiment in radical distribution of avant-garde materials — has finished...

Here's Room five four six

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Chelsea Girls, Nico, no MBLOG. Cortesia do Rui.

começar bem um dia complicado:

Ouvir logo pela manhã a Ostra de Pedro Coelho na Antena 2: A vida não corre de feição a Fulvia Voluspina.

É evidente que Antena 2 devia editar estas pérolas. Porque é que não o faz?

terça-feira, Junho 7

os incêndios

Às vezes páro e vou ao terraço: há três fogos a escurecer o céu.

classificados

Troco um aparelho de ar condicionado por um gorro vermelho. — Steve, depois de vestir o fato azul podemos filmar os disfarces dos polvos?

Liquidação Total. Motivo: cessação de actividade

yes I accept the site terms and conditions

SAPHIRE & TONIC [para a zazie]

2 parts BOMBAY SAPPHIRE gin
tonic to preferred tastes

glass// collins
garnish// wedge of lime
method// in a tall glass filled with ice, add BOMBAY SAPPHIRE and fill with tonic. Add a squeeze of lime.

domingo, Junho 5

sai mais um gin tónico para a mesa três:

NOIVADO

Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.
— És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.
É o que faz a miopia.

Mário-Henrique Leiria, Contos do Gin-Tonic, Editorial Estampa

Magnetic Fields Forever

— Movies are entertaining enough for the masses, but the personalities on the screen just don't impress me...

Começou mais um ciclo de Cinema Fora do Sítio. Ontem às 22h30 nos jardins do Palácio de Cristal os pavões cantaram e dançaram com Gene Kelly. Só choveu na tela, a sessão foi óptima.

11 Junho Buena Vista Social Club Parque Desportivo do INATEL : 12 Junho É Sempre a Mesma Cantiga Quartel General no Largo da Lapa : 18 Junho O Estrangeiro Louco Castelo de S. João da Foz : 19 Junho Velvet Goldmine Jardim de Arca d'Água : 25 Junho O Destino Museu Militar do Porto : 26 Junho Topsy-Turvy Museu do Carro Eléctrico : 2 Julho Para Sempre Mozart Casa das Artes : 3 Julho Farinelli Conservatório de Música do Porto

Entretanto o jacarandá do Largo Viriato começou a florir.

sábado, Junho 4

J'ai rêvé que John Wayne jouait merveilleusement du bassin au Pôle Nord

e agora vou ver o Rio Bravo (16h30, Hollywood).



Enquanto estava a ver o filme lembrei-me que o Tom Waits nunca entrou num western. Mas devia e não me refiro (apenas) à banda sonora; ele dava um excelente falhado.

As dioptrias de Elisa

é um pequeno (61 páginas em corpo generoso e bastante espaçado) e voluptuoso texto de António Gancho. Foi escrito em 1990 na Casa de Saude do Telhal e editado seis anos depois pela Assírio & Alvim (colecção A Phala #9) com um desenho de Álvaro Lapa na capa. Lê-se numa tarde de sol na esplanada na companhia de um bom gin tónico. No stand da feira custa apenas três euros. A acção decorre em Évora e começa assim:

Elisa não podia casar. As dioptrias de Elisa eram muito grandes. Na vista esquerda tinha 16 dioptrias e na direita 13. Não via bem. Tinha miopia e astigmatismo. Era míope. Mas esbelta, gorda, forte, no entanto engraçada.
Luís é que a pretendeu, andou atrás dela e casou com ela. Mas toda a gente dizia que Elisa não podia casar, era muito míope. Só Luís conhecia os seus sentimentos, a sua esbelteza em mulher gorda e forte, a levou para a cama e casou com ela. Luís dizia enquanto namoravam — «Eu quero-te Elisa porque te amo muito.» Elisa aceitava e respondia. — «Luís mas sou muito míope.»
M'as-tu vue

[À atenção da Lídia] Ao final da manhã encontrei este livro de Sophie Calle na fnac do norteshopping. Três exemplares disponíveis: caros, macios, surpreendentes e lindíssimos. Sentei-me a folhear um deles; perdesse eu mais cinco minutos e comprá-lo-ia. Fugi. E agora?

J'espere que vous n'avez pas l'intention de me suivre

As suas almas caminham com passinhos pequenos nos saltos altos dos botins delicados...*

O livro não acaba na página 161. Ainda hoje ao passar por uma sapataria parei para tentar descobrir os modelos que mais agradariam a Walser.

Todas as tentativas de descrever Robert Walser são vãs pois a cada característica apontada deverá ser acrescentado o seu oposto.

Descobri também que ninguém pode/deve entrar nos seus livros armado em psicanalista (banir desde o início Freud), semiótico, estruturalista e por aí fora. Prefiro Walser ignorado do que deitado numa mesa de dissecação.


*"Jakob von Gunten - um diário", de Robert Walser, tradução de Isabel Castro Silva, Relógio d'Água, página 61

sexta-feira, Junho 3

She comes in colors ev'rywhere

Juro: quando escrevi que Walser era psicadélico (sem o ser, claro) ainda não tinha chegado à cena em que Fräulein Benjamenta leva Jakob von Gunten pela mão, por caminhos movediços, sabe-se lá para onde.

Georg Büchner

Há uns meses lamentei a falta de um livro digno de Büchner em português. Pois bem, encontrei-o num dos stands da feira. Para além das peças, da novela Lenz, de "O Mensageiro de Essen", o livro oferece-nos ainda algumas cartas escritas por Büchner, bons textos de apoio e até fotografias e desenhos:
"Büchner — na pena e na cena", organização, tradução e notas de J. Guinsburg e Ingrid Dormien Koudela, Editora Perspectiva, São Paulo, Brasil (estavam à espera de quê?)

et maintenant

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Ontem ao ver o concerto das Triplettes com os seus instrumentos improvisados (a grelha do frigorífico, as folhas do jornal, o aspirador e a roda da bicicleta) lembrei-me de um programa que apanhei por acaso o ano passado na televisão. Foi em Agosto no canal arte aí pelo fim da tarde e resumia-se a isto: um grupo (já não me lembro quantos eram) sai de um carro entra num apartamento e põe-se a tocar com o que está à mâo (varinha mágica, máquina de barbear, coisas desse tipo); a cada divisão da casa corresponde uma composição: sala, quarto, cozinha e quarto de banho. A música soava muito bem e era divertida.

Ofereço um doce a quem me der mais informações sobre os ilustres desconhecidos.

quinta-feira, Junho 2

Les Triplettes de Belleville

e depois, se apanhar o jeito, um ciclo integral de Jacques Tati. É permitido comer cerejas na sala.

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Ubiquidade: Walser em Belo Horizonte

Nas traseiras da nossa casa há um velho jardim abandonado.



Quando, manhã cedo, o vejo pela janela do escritório (manhã sim, manhã não, eu e Kraus temos de o arrumar), fico com pena por ele estar tão negligente, e de cada vez tenho vontade de descer e de cuidar dele. Sentimentalismos, é claro Para o diabo com estas sensibilidades mórbidas e enganadoras. No Instituto Benjamenta há ainda outros jardins. É proibido ir ao jardim real. Nenhum pupilo pode aí entrar, não sei por que razão. Mas, como já disse, temos um outro jardim que é talvez mais belo do que o jardim real. Na nossa cartilha: «Quais os Objectivos da Escola para Rapazes», encontramos na página oito: «O bom comportamento é um jardim florido.» — E nestes jardins espirituais e sensíveis nós alunos podemos saltar à vontade. Nada mau. Se um de nós não sabe comportar-se, ele próprio se empurra para um inferno terrível e tenebroso. Mas quando se porta bem, é recompensado com um passeio por entre aquela vegetação protegida pela sombra, apenas muito ao de leve iluminada pelo sol. Como isto é sedutor! E na minha pobre opinião de rapaz, há alguma verdade naquela máxima simpática.
...


"Jakob von Gunten - um diário", de Robert Walser, tradução de Isabel Castro Silva, Relógio d'Água, páginas 22 e 83

quarta-feira, Junho 1

Walser's Voice

Robert Walser is one of the important German-language writers of the twentieth century - a major writer, both of his four novels that have survived (my favourite is the third, written in 1908, Jakob Von Gunten) and for his short prose, where the musicality and free fall of his writing are less impleded by plot. Anyone seeking to bring Walser to a public that hase yet to discover him has as hand a whole arsenal of glorious comparasions. A Paul Klee in prose - as delicated, as sly, as haunted. A cross between Stevie Smith and Beckett: a good-humored, sweet Beckett. And, as literature's present inevitably remakes its past, so we cannot help but see Walser as the missing link between Kleist and Kafka, who admired him greatly. (At the time, it was more likely to be Kafka who was seen thorugh the prism of Walser. Robert Musil, other admirer among Walser's contemporaries, after first reading Kafka pronounced him "a peculiar case of the Walser type.") I get a similiar rush of pleasure from Walser's single-voiced short prose as I do from Leopardi's dialogue's and playets, the great weather in Walser's stories and sketches, their elegance and their unpredictable lenghts remind me of the free, first-person forms that abound in all classical literature: pillow book, poetic diary, "essays in ideleness." But any true lover of Walser will want to disregard the net of comparisons that one can throw over his work.

In long as in short prose Walser is minituraist, promulgating the claims of the anti-heroic, the limited, the humble, the small - as if in response to his acute feeling for the interminable. Walser's life illustrates the restleness of one kind of depressive temperament; he had the depressive's fascination with stasis, and with the way time distends, is consumed, and spent much of his life obsessively turning time into space: his walks. His work plays with the depressive's appalled vision of endleness: it is all voice - musing, conversing, rambling, running on. The important is redeemed as a species of the unimportant, wisdom as a kind of shy, valiant loquacity.

The moreal core of Walser's art is the refusal of power, of domination. I'm ordinay - that is, nobody - declares the characteistic Walser persona. In "Flower Days" (1911), Walser evokes the race of the "odd people, who lack character", who don't want to do anything. The recurrent "I" of Walser's prose is the opposite of the egotist's: it is that of someone "drowning in obedience." One knows about the repugnance Walser felt for sucess - the prodigious spread of failure that was his life. In "Kienast" (1917), Walser describes "a man who wanted nothing to do with anything". this non-doer was, of course, a proud, stupendously productive writer who secreted work, muc of it written in his astonishing micro-script, without pause. What Walser says about inaction, renunciation of effort, effortnless, is a program, an anti-romantic one, of the artist's activity. In "A Little Ramble" (1914) he observes: "We don't need to see anything out of the ordinary. We already see so much."
Walser often writes, from the point of view of acaualty, of the romantic visionary imaginations. "Kleist in Thun" (1913) both self-portrait and authortive tour of the menal landscape of suicide-destined, depicts the precipice on the edge of which Walser lived. The last paragraph, with his excruciating modulations, seals an account of mental ruin as grand as anything I know in literature. But most of his stories and sketches bring consciousness back from the brink. He is just having his "gentle and courteous bit of fun," Walser can assure us, in "Nervous" (1916), speaking in the first person. "Grouches, grouches, one must have them, and one must have the courage to live with them. That's the nicest way to live. Nobody should be afraid of his little bid of weirdenss." The longest of the stories, "The Walk" (1917), identifies walking with a lyrical mobility and detachment of temperament, with the "raptures of freedmon"; darkness arrives only at the end. Walser's art assumes depression and terror, in order (mostly) to accept it - ironize over it, lighten it. These are gleeful as physical and characterological; anti-gravity writing, in praise of movement and sloughing off, weighlessness; portraits of consciousness walking about in the world, enjoying its "morsel of life", radiant with despair.

In Walser's fiction one is (as in so much of modern art) always inside a head, but his universe - and his despair - is anythig but solipsistic. It is charged with compassion: awareness of the creatureliness of life, of the fellowship of sadness. "What kind of people am I thinking of?" Walser's voice asks in "A Sort of Speech" (1925). "Of me, of you, of all our theatrical little dominations, of the freedmons that are none, of never pass up a chance for a joke, of the people who are desolate?" That question mark at the end of the answeer is a typical Walser courtesy. Walser's virtues are those of the most mature, most civilized art. He is a truly wonderful, heartbreaking writer.

Susan Sontag [1982]

Já me encostaram à parede:

— Não se pode dizer "ele é o maior escritor do mundo" e depois mais nada!
Poder até pode. Voltamos ao mesmo: como é que se explica o gosto? Palavras e mais palavras e no fim nada, sempre nada.
Apesar disso resolvi avançar para o pântano com a primeira justificação. Não é bem uma frase é, digamos, quase uma imagem ou (é melhor assim) apenas um golpe de cenografia: como a maior parte dos escritores de que gosto, Walser escreve sobre o nosso lado mais obscuro mas fá-lo de uma forma diferente, como se tudo estivesse iluminado por uma luz/cor psicadélica e doce. E, no entanto, devo acrescentar, não há escritor que se afaste mais do psicadelismo do que Robert Walser.

Monsieur Albert Cossery, La Louisiane, chambre 58

É verdade, invejo toda a gente que vive em hotéis. Bom, dispenso o amigalhaço de Barton Fink e a família shining do Overlook.

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