Sábado, Junho 4

J'ai rêvé que John Wayne jouait merveilleusement du bassin au Pôle Nord

e agora vou ver o Rio Bravo (16h30, Hollywood).



Enquanto estava a ver o filme lembrei-me que o Tom Waits nunca entrou num western. Mas devia e não me refiro (apenas) à banda sonora; ele dava um excelente falhado.

As dioptrias de Elisa

é um pequeno (61 páginas em corpo generoso e bastante espaçado) e voluptuoso texto de António Gancho. Foi escrito em 1990 na Casa de Saude do Telhal e editado seis anos depois pela Assírio & Alvim (colecção A Phala #9) com um desenho de Álvaro Lapa na capa. Lê-se numa tarde de sol na esplanada na companhia de um bom gin tónico. No stand da feira custa apenas três euros. A acção decorre em Évora e começa assim:

Elisa não podia casar. As dioptrias de Elisa eram muito grandes. Na vista esquerda tinha 16 dioptrias e na direita 13. Não via bem. Tinha miopia e astigmatismo. Era míope. Mas esbelta, gorda, forte, no entanto engraçada.
Luís é que a pretendeu, andou atrás dela e casou com ela. Mas toda a gente dizia que Elisa não podia casar, era muito míope. Só Luís conhecia os seus sentimentos, a sua esbelteza em mulher gorda e forte, a levou para a cama e casou com ela. Luís dizia enquanto namoravam — «Eu quero-te Elisa porque te amo muito.» Elisa aceitava e respondia. — «Luís mas sou muito míope.»
M'as-tu vue

[À atenção da Lídia] Ao final da manhã encontrei este livro de Sophie Calle na fnac do norteshopping. Três exemplares disponíveis: caros, macios, surpreendentes e lindíssimos. Sentei-me a folhear um deles; perdesse eu mais cinco minutos e comprá-lo-ia. Fugi. E agora?

J'espere que vous n'avez pas l'intention de me suivre

As suas almas caminham com passinhos pequenos nos saltos altos dos botins delicados...*

O livro não acaba na página 161. Ainda hoje ao passar por uma sapataria parei para tentar descobrir os modelos que mais agradariam a Walser.

Todas as tentativas de descrever Robert Walser são vãs pois a cada característica apontada deverá ser acrescentado o seu oposto.

Descobri também que ninguém pode/deve entrar nos seus livros armado em psicanalista (banir desde o início Freud), semiótico, estruturalista e por aí fora. Prefiro Walser ignorado do que deitado numa mesa de dissecação.


*"Jakob von Gunten - um diário", de Robert Walser, tradução de Isabel Castro Silva, Relógio d'Água, página 61

Sexta-feira, Junho 3

She comes in colors ev'rywhere

Juro: quando escrevi que Walser era psicadélico (sem o ser, claro) ainda não tinha chegado à cena em que Fräulein Benjamenta leva Jakob von Gunten pela mão, por caminhos movediços, sabe-se lá para onde.

Georg Büchner

Há uns meses lamentei a falta de um livro digno de Büchner em português. Pois bem, encontrei-o num dos stands da feira. Para além das peças, da novela Lenz, de "O Mensageiro de Essen", o livro oferece-nos ainda algumas cartas escritas por Büchner, bons textos de apoio e até fotografias e desenhos:
"Büchner — na pena e na cena", organização, tradução e notas de J. Guinsburg e Ingrid Dormien Koudela, Editora Perspectiva, São Paulo, Brasil (estavam à espera de quê?)

et maintenant

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Ontem ao ver o concerto das Triplettes com os seus instrumentos improvisados (a grelha do frigorífico, as folhas do jornal, o aspirador e a roda da bicicleta) lembrei-me de um programa que apanhei por acaso o ano passado na televisão. Foi em Agosto no canal arte aí pelo fim da tarde e resumia-se a isto: um grupo (já não me lembro quantos eram) sai de um carro entra num apartamento e põe-se a tocar com o que está à mâo (varinha mágica, máquina de barbear, coisas desse tipo); a cada divisão da casa corresponde uma composição: sala, quarto, cozinha e quarto de banho. A música soava muito bem e era divertida.

Ofereço um doce a quem me der mais informações sobre os ilustres desconhecidos.

Quinta-feira, Junho 2

Les Triplettes de Belleville

e depois, se apanhar o jeito, um ciclo integral de Jacques Tati. É permitido comer cerejas na sala.

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Ubiquidade: Walser em Belo Horizonte

Nas traseiras da nossa casa há um velho jardim abandonado.



Quando, manhã cedo, o vejo pela janela do escritório (manhã sim, manhã não, eu e Kraus temos de o arrumar), fico com pena por ele estar tão negligente, e de cada vez tenho vontade de descer e de cuidar dele. Sentimentalismos, é claro Para o diabo com estas sensibilidades mórbidas e enganadoras. No Instituto Benjamenta há ainda outros jardins. É proibido ir ao jardim real. Nenhum pupilo pode aí entrar, não sei por que razão. Mas, como já disse, temos um outro jardim que é talvez mais belo do que o jardim real. Na nossa cartilha: «Quais os Objectivos da Escola para Rapazes», encontramos na página oito: «O bom comportamento é um jardim florido.» — E nestes jardins espirituais e sensíveis nós alunos podemos saltar à vontade. Nada mau. Se um de nós não sabe comportar-se, ele próprio se empurra para um inferno terrível e tenebroso. Mas quando se porta bem, é recompensado com um passeio por entre aquela vegetação protegida pela sombra, apenas muito ao de leve iluminada pelo sol. Como isto é sedutor! E na minha pobre opinião de rapaz, há alguma verdade naquela máxima simpática.
...


"Jakob von Gunten - um diário", de Robert Walser, tradução de Isabel Castro Silva, Relógio d'Água, páginas 22 e 83

Quarta-feira, Junho 1

Walser's Voice

Robert Walser is one of the important German-language writers of the twentieth century - a major writer, both of his four novels that have survived (my favourite is the third, written in 1908, Jakob Von Gunten) and for his short prose, where the musicality and free fall of his writing are less impleded by plot. Anyone seeking to bring Walser to a public that hase yet to discover him has as hand a whole arsenal of glorious comparasions. A Paul Klee in prose - as delicated, as sly, as haunted. A cross between Stevie Smith and Beckett: a good-humored, sweet Beckett. And, as literature's present inevitably remakes its past, so we cannot help but see Walser as the missing link between Kleist and Kafka, who admired him greatly. (At the time, it was more likely to be Kafka who was seen thorugh the prism of Walser. Robert Musil, other admirer among Walser's contemporaries, after first reading Kafka pronounced him "a peculiar case of the Walser type.") I get a similiar rush of pleasure from Walser's single-voiced short prose as I do from Leopardi's dialogue's and playets, the great weather in Walser's stories and sketches, their elegance and their unpredictable lenghts remind me of the free, first-person forms that abound in all classical literature: pillow book, poetic diary, "essays in ideleness." But any true lover of Walser will want to disregard the net of comparisons that one can throw over his work.

In long as in short prose Walser is minituraist, promulgating the claims of the anti-heroic, the limited, the humble, the small - as if in response to his acute feeling for the interminable. Walser's life illustrates the restleness of one kind of depressive temperament; he had the depressive's fascination with stasis, and with the way time distends, is consumed, and spent much of his life obsessively turning time into space: his walks. His work plays with the depressive's appalled vision of endleness: it is all voice - musing, conversing, rambling, running on. The important is redeemed as a species of the unimportant, wisdom as a kind of shy, valiant loquacity.

The moreal core of Walser's art is the refusal of power, of domination. I'm ordinay - that is, nobody - declares the characteistic Walser persona. In "Flower Days" (1911), Walser evokes the race of the "odd people, who lack character", who don't want to do anything. The recurrent "I" of Walser's prose is the opposite of the egotist's: it is that of someone "drowning in obedience." One knows about the repugnance Walser felt for sucess - the prodigious spread of failure that was his life. In "Kienast" (1917), Walser describes "a man who wanted nothing to do with anything". this non-doer was, of course, a proud, stupendously productive writer who secreted work, muc of it written in his astonishing micro-script, without pause. What Walser says about inaction, renunciation of effort, effortnless, is a program, an anti-romantic one, of the artist's activity. In "A Little Ramble" (1914) he observes: "We don't need to see anything out of the ordinary. We already see so much."
Walser often writes, from the point of view of acaualty, of the romantic visionary imaginations. "Kleist in Thun" (1913) both self-portrait and authortive tour of the menal landscape of suicide-destined, depicts the precipice on the edge of which Walser lived. The last paragraph, with his excruciating modulations, seals an account of mental ruin as grand as anything I know in literature. But most of his stories and sketches bring consciousness back from the brink. He is just having his "gentle and courteous bit of fun," Walser can assure us, in "Nervous" (1916), speaking in the first person. "Grouches, grouches, one must have them, and one must have the courage to live with them. That's the nicest way to live. Nobody should be afraid of his little bid of weirdenss." The longest of the stories, "The Walk" (1917), identifies walking with a lyrical mobility and detachment of temperament, with the "raptures of freedmon"; darkness arrives only at the end. Walser's art assumes depression and terror, in order (mostly) to accept it - ironize over it, lighten it. These are gleeful as physical and characterological; anti-gravity writing, in praise of movement and sloughing off, weighlessness; portraits of consciousness walking about in the world, enjoying its "morsel of life", radiant with despair.

In Walser's fiction one is (as in so much of modern art) always inside a head, but his universe - and his despair - is anythig but solipsistic. It is charged with compassion: awareness of the creatureliness of life, of the fellowship of sadness. "What kind of people am I thinking of?" Walser's voice asks in "A Sort of Speech" (1925). "Of me, of you, of all our theatrical little dominations, of the freedmons that are none, of never pass up a chance for a joke, of the people who are desolate?" That question mark at the end of the answeer is a typical Walser courtesy. Walser's virtues are those of the most mature, most civilized art. He is a truly wonderful, heartbreaking writer.

Susan Sontag [1982]

Já me encostaram à parede:

— Não se pode dizer "ele é o maior escritor do mundo" e depois mais nada!
Poder até pode. Voltamos ao mesmo: como é que se explica o gosto? Palavras e mais palavras e no fim nada, sempre nada.
Apesar disso resolvi avançar para o pântano com a primeira justificação. Não é bem uma frase é, digamos, quase uma imagem ou (é melhor assim) apenas um golpe de cenografia: como a maior parte dos escritores de que gosto, Walser escreve sobre o nosso lado mais obscuro mas fá-lo de uma forma diferente, como se tudo estivesse iluminado por uma luz/cor psicadélica e doce. E, no entanto, devo acrescentar, não há escritor que se afaste mais do psicadelismo do que Robert Walser.

Monsieur Albert Cossery, La Louisiane, chambre 58

É verdade, invejo toda a gente que vive em hotéis. Bom, dispenso o amigalhaço de Barton Fink e a família shining do Overlook.

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Terça-feira, Maio 31

e no terceiro dia de verão:

new car, caviar

Decidi criar um movimento social. Como não tenho prática neste tipo de actividades resolvi começar por uma ideia simples do género: "Para a introdução do código morse nas comunicações da sociedade civil — casualidades e interrupções". A ver se pega.

Assim de repente creio que o código pode ser utilizado a partir deste momento em: reuniões de trabalho; todos os discursos do presidente da república; declaração do IRS; engates complicados via sms; pedidos de desculpa envergonhados; posts ridículos; panfletos revolucionários e sarcásticos; comunicados do presidente da câmara do Porto;...

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Domingo, Maio 29

letra "a"

e o prémio é

Temo que Jakob chegue ao fim do livro obediente; é isso que ele quer e talvez o consiga. Transformado num mordomo dedicado e submisso (aqui Walser acrescentaria encantador?). Por isso resolvi voltar atrás, à página quinze e apanhá-lo no quarto a fumar com Schacht, portanto a infringir os regulamentos, ainda por cima com gosto. E pensei que talvez fosse uma boa ideia convidá-lo para uma matinée.

[A pergunta é para ti Nuno: qual é o único filme do mundo que por se situar no ponto completamente oposto ao Instituto Benjamenta, é o único que é tão Walseriano que vale a pena ir ver?]

Diz-me, sabes o que é sonhar?*

Esta noite sonhei que estava nos Açores. Não sei em que ilha, sei porém que era lá e isso basta. A determinada altura olhei pela janela e vi ao longe um vulcão em erupção. Não era lava o que ele expelia mas pedacinhos de chocolate.

*"Jakob von Gunten - um diário", de Robert Walser, tradução de Isabel Castro Silva, Relógio d'Água, página 67