Sábado, Maio 28

O maior escritor do mundo

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Ontem descobri que para eleger o maior escritor do mundo são precisas apenas duas pessoas. Por isso já está. Os pormenores sobre a cerimónia serão anunciados logo que possível.

É encantador prestar um serviço a quem não conhecemos

ou a quem não tenha nada a ver connosco, permite-nos vislumbrar paraísos divinos e velados. Além disso: no fundo, todas as pessoas, ou pelo menos quase todas as pessoas têm alguma coisa a ver connosco. As pessoas que passam por mim têm alguma coisa a ver comigo, isso é claro. É uma questão privada. Vou por aí, o sol brilha, vejo de repente um cão que gane aos meus pés. Noto logo a seguir que o animalzinho de luxo ficou com a pata presa no açaime. Já não consegue andar. E eu baixo-me e logo remedeio o grande, grande infortúnio. Aproxima-se agora marchando a dona do cão. Compreende o que se passou e agradece-me. Tiro veloz o chapéu à senhora e sigo o meu caminho. Ah, e ela pensa agora que ainda há jovens bem educados no mundo. Pois bem, neste caso prestei um serviço a todos os jovens em geral. E como a mulher, de resto nada bonita, então sorriu. «Obrigada, meu senhor.» Ah, promoveu-me a senhor. Quando sabemos comportar-nos somos promovidos a senhores. E quando agradecemos a alguém, respeitamos essa pessoa. Quem sorri é belo. Todas as mulheres merecem ser cortejadas. Todas as mulheres têm qualquer coisa de refinado. Tenho já visto lavadeiras com o porte de raínhas. Tudo isto é tão estranho, oh, tão estranho. Mas como brilhava o sol então, e como eu fugi dali! – Para o armazém, para ser concreto. Vou lá tirar o meu retrato, Herr Benjamenta quer uma fotografia minha. E depois tenho ainda de escrever um curriculum vitae abreviado e fiel à verdade. Para isso preciso de papel. E assim tenho o prazer acrescentado de entrar numa papelaria.
...


"Jakob von Gunten - um diário", de Robert Walser, tradução de Isabel Castro Silva, Relógio d'Água, páginas 24 e 25

Sexta-feira, Maio 27

o movimento ascendente e descendente

Contamos grandes histórias um ao outro, enquanto estamos assim deitados, histórias da vida, ou seja, reais, mas sobretudo histórias inventadas com acontecimentos que apanhamos do ar. E então à nossa volta tudo parece levemente ressoar num movimento ascendente e descendente ao longo das paredes. O quarto estreito e escuro estende-se, surgem estradas, salões, cidades, palácios, pessoas e paisagens desconhecidas, trovões e sussurros, prantos e conversas, e assim por diante.
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"Jakob von Gunten - um diário", de Robert Walser, tradução de Isabel Castro Silva, Relógio d'Água, página 15

Quinta-feira, Maio 26

Jakob von Gunten — um diário*

Que me perdoem todos os outros mas ele é o único a quem entrego o meu coração. Não há no mundo ninguém como Robert Walser, não há. A declaração está feita, agora vou ler.

* Relógio d'Água, Abril de 2005, colecção Ficções # 104

Karl no longer exists

mais um ano

Porque é que a Feira do Livro não passa para os jardins? É muito complicado?

p.s. Luís, acrescenta mais um: Frankie e o Casamento (The member of the wedding, 1946), Cotovia, 1995

piropos da classe operária

o segundo dia de verão

[Acordei tarde, o meu plano de ir a Viana ver as dunas, comprar bolas de berlim, beber limonadas e, quem sabe, cruzar-me com Kaurismaki falhou. Ainda não é desta que lhe ofereço os meus serviços de consultadoria em jukeboxes. Ultimamente teimo em falhar, devo estar a chegar a um ponto interessante, aliás deve haver uma palavra científica para o descrever, hei-de procurá-la no dicionário.]

Ao final da manhã havia uma neblina amagentada e encantadora sobre a foz. A maré estava muito vaza e cheirava a algas. As minhas melhores memórias de verão passam por cheiros. Apesar do mar ser o mar, continuo a preferir o perfume das figueiras. Por causa das histórias?

Quarta-feira, Maio 25

— Como é que se escreve Lagerfeld em farsi?

As obras completas de Albert Cossery*

As Cores da infâmia

Não há nada de bonito em envelhecer. Dizem-nos que sim, a maturidade e outras tretas, mas é tudo mentira. A única coisa que me parece digna é aquela imagem de Albert Cossery, já velho, sentado numa esplanada como se fosse um princípe de vinte anos.

Terça-feira, Maio 24

نام شعر : نشاني

"خانه دوست كجاست؟" در فلق بود كه پرسيد سوار
"خانه دوست كجاست؟" در فلق بود كه پرسيد سوار.
آسمان مكثي كرد.
رهگذر شاخه نوري كه به لب داشت به تاريكي شن‌ها بخشيد
و به انگشت نشان داد سپيداري و گفت:

"نرسيده به درخت،
كوچه باغي است كه از خواب خدا سبزتر است
و در آن عشق به اندازه پرهاي صداقت آبي است
مي‌روي تا ته آن كوچه كه از پشت بلوغ، سر به در مي‌آرد،
پس به سمت گل تنهايي مي‌پيچي،
دو قدم مانده به گل،
پاي فواره جاويد اساطير زمين مي‌ماني
و تو را ترسي شفاف فرا مي‌گيرد.
در صميميت سيال فضا، خش‌خشي مي‌شنوي:
كودكي مي‌بيني
رفته از كاج بلندي بالا، جوجه بردارد از لانه نور
و از او مي‌پرسي
خانه دوست كجاست."

خانه دوست كجاست


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poema "A Morada" (onde fica a casa do Amigo) de Sohrab Sepehri, em farsi

isto não é um filme de Kiarostami

Muitos iranianos sonham um dia vir a ser Presidente da Repúbica. Hadj Abdollahi Sefid Kasse é um deles. Como já fez outras vezes, esta semana percorreu o longo caminho entre Khorassan, no Nordeste do Irão, até à rua Fatemi, em Teerão, onde fica situado o imponente edifício do Ministério do Interior, local onde são apresentadas as candidaturas.
Abdollahi Kasse tem ideias e um programa político. Quer ensinar aos americanos a poesia iraniana e, quando um dia se sentar à mesa com o Presidente dos EUA, George W. Bush, dir-lhe-á: "Somos todos irmãos". "Acho que devemos ensinar a nossa arte aos outros, e aprender a deles. A minha arte é a poesia", explicou o candidato, de 72 anos, ao jornalista da AFP.

Mas como a idade e a longa viagem já o deixam um pouco cansado, não se sente com forças para preencher o questionário que o funcionário do Ministério lhe entrega "Preenche-o tu, eu venho de longe, estou cansado".

O funcionário suspira. "O problema", queixa-se, "é que, na prática, não podemos impedir que ninguém se inscreva".

...


Alexandra Lucas Coelho, Público, 15 Maio 2005, página 21

reflexos condicionados

Sempre que vejo os anúncios de Tommy Hilfiger — oito páginas em papel couché mate, na Vogue italiana — lembro-me de Elephant e arrepio-me.

o primeiro dia de verão

Quando era miúda a televisão passava uns desenhos animados com um rapaz que tinha um lápis especial; tudo o que ele desenhava tornava-se real. Sempre quis ter um lápis assim, continuo a querer, preciso de desenhar aqui uma porta, uma janela, uma escada, ou um comboio...

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Ilustração de Mário Botas para o livro "O Senhor Custódio", de Raul Brandão, Quetzal Editores, 1987

comme des abeilles dans une ruche de verre*

No filme de Jean Cocteau, Jean Marais, transformado em Orfeu/poeta, atravessa os espelhos para tentar anular a morte da sua mulher, Eurídice. Do outro lado, o mundo não é lúdico como em Alice, pelo contrário é aborrecido e burocrata; há agentes e juízes suficientes para o provar. María Casares — que encarna a morte de Orfeu — decidiu, por sua iniciativa e por ciúmes, em vez de Orfeu, matar Euridice. Está a ser julgada por desobediência quando Orfeu surge inesperadamente na sala. Segue-se o seguinte diálogo entre o poeta e um dos juízes:

— Aproxime-me. Você, você.
— Eu?
— Sim.
— O seu nome?
— Orfeu.
— A sua profissão?
— Poeta.
— Aqui diz escritor.
— É quase a mesma coisa.
— Aqui não existe "quase". O que quer dizer com poeta?
Escrever sem ser escritor.

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Segunda-feira, Maio 23

Clouds Gathering

It seemed the kind of life we wanted.
Wild strawberries and cream in the morning.
Sunlight in every room.
The two of us walking by the sea naked.

Some evenings, however, we found ourselves
Unsure of what comes next.
Like tragic actors in a theater on fire,
With birds circling over our heads,
The dark pines strangely still,
Each rock we stepped on bloodied by the sunset.

We were back on our terrace sipping wine.
Why always this hint of an unhappy ending?
Clouds of almost human appearance
Gathering on the horizon, but the rest lovely
With the air so mild and the sea untroubled.

The night suddenly upon us, a starless night.
You lighting a candle, carrying it naked
Into our bedroom and blowing it out quickly.
The dark pines and grasses strangely still.

Charles Simic, o poeta metereológico

interbloguismo à hora do almoço

Hoje vesti-me com as cores do blogue, no entanto continuo a parecer eu. Talvez deva acrescentar: apenas eu? Que chatice, era mais fácil quando era pequena e calçava os sapatos da minha mãe.

Domingo, Maio 22

We're so small compared to a lullaby*

[de tarde] A cidade está excitada. Sente-se isso na rua, na forma como as pessoas se deslocam, na coreografia.

[22h00] Junto à Casa da Música há holofotes e câmaras de filmar viradas para a avenida. Nós estamos lá dentro, "perderam, não foi?" pergunta Mark Eitzel, "então é para vocês que vamos tocar". E ele não estava a falar de futebol. Tocaram mais ou menos uma hora e um quarto (15 minutos para três encores); não sei porquê mas Vudi estava com pressa. Também não percebi porque é que a sala não estava cheia. Tim Mooney, o baterista, parece uma personagem de um filme de Jarmusch . Mark fez o papel de desajeitado, às voltas com os cabos que se soltavam e com as calças que caíam. Como seria de esperar ofereceu-nos boas introduções ("é para isso que me pagam, não é?") e uma mágoa sem fim. Canções para loosers ou desesperados, é mais ou menos isso?

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[desenvolvimentos apaixonados nas Ruínas Circulares]

Os choupos

Em Maio os choupos lembram um filme de Tarkovsky. Pensando melhor não é bem isso, os choupos lembram o próprio Tarkovsky, não os filmes.