Ontem à noite, ao pegar no livro de poemas de Cesare Pavese para ler "Desenraizados" (um dos meus preferidos), reparei num marcador em determinada página. Um marcador pequeno, rectangular, perfumado com "Contradiction" de Calvin Klein; na frente uma fotografia a preto e branco de uma mulher muito bonita, creio que é Christy Turlington. Não me lembro quando nem porquê marquei este poema mas posso assegurar que não quis ser má para Pavese"Mania da solidão"Como um jantar frugal junto à clara janela.
Na sala já está escuro mas ainda se vê o céu.
Se saísse, as ruas tranquilas deixar-me-iam
ao fim de pouco tempo em pleno campo.
Como e observo o céu — quem sabe quantas mulheres
estão a comer a esta hora — o meu corpo está tranquilo;
o trabalho atordoa o meu corpo e também as mulheres.
Lá fora, depois do jantar, as estrelas virão tocar
a terra na ancha planura. As estrelas são vivas,
mas não valem estas cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sei que entre os tectos de ferrugem
brilha já alguma luz e que, por baixo, há ruídos.
Um grande golo e o meu corpo saboreia a vida
das árvores e dos rios e sente-se desprendido de tudo.
Basta um pouco de silêncio e as coisas imobilizam-se
no seu verdadeiro sítio, como o meu corpo imóvel.
Cada coisa está isolada ante os meus sentido,
que a aceita impassível: um cicio de silêncio.
Cada coisa na escuridão posso sabê-la,
como sei que o meu sangue circula nas veias.
A planura é água que escorre entre a erva,
um jantar de todas as coisas. Cada planta e cada pedra
vivem imóveis. Escuto os alimentos e eles alimentam-me as veias
com todas as coisas que vivem nesta planura.
A noite importa pouco. O rectângulo do céu
sussura-me todos os fragores e uma estrela miúda
debate-se no vazio, longe dos alimentos,
das casas, distinta. Não se basta a si mesma
e precisa de muitas companheiras. Aqui, no escuro, sozinho,
o meu corpo está tranquilo e sente-se soberano.
Cesare Pavese, Trabalhar Cansa, tradução de Carlos Leite, Cotovia, 1997, página 71