Sexta-feira, Maio 20

Ladies and gentlemen, it's time...

...
"O nosso guitarrista, o Vudi, tem um emprego a guiar um autocarro em L.A. e é raro poder vir a São Francisco, por isso ensaiar torna-se muito difícil. Apesar disso lá vai adiantando que vão "tocar temas de todos os discos", mas aceder aos previsíveis pedidos de temas obscuros por parte da audiência será difícil porque têm "pouca coisa preparada. Mesmo assim, se nos deixarem e não nos acharem maus, podemos tocar umas duas horas".
...

Mark Eitzel em conversa com João Bonifácio, na pág 30 do Y

as manobras já começaram:

Quarta-feira, Maio 18

traçar linhas

Não me posso esquecer disto: ver um filme de Shohei Imamura e outro de Paulo Rocha com um intervalo de apenas quatro dias é um privilégio raro.

as vantagens das câmaras digitais

Image hosted by Photobucket.com

queste ciliege, che mango da solo

Ontem à noite, ao pegar no livro de poemas de Cesare Pavese para ler "Desenraizados" (um dos meus preferidos), reparei num marcador em determinada página. Um marcador pequeno, rectangular, perfumado com "Contradiction" de Calvin Klein; na frente uma fotografia a preto e branco de uma mulher muito bonita, creio que é Christy Turlington. Não me lembro quando nem porquê marquei este poema mas posso assegurar que não quis ser má para Pavese

"Mania da solidão"

Como um jantar frugal junto à clara janela.
Na sala já está escuro mas ainda se vê o céu.
Se saísse, as ruas tranquilas deixar-me-iam
ao fim de pouco tempo em pleno campo.
Como e observo o céu — quem sabe quantas mulheres
estão a comer a esta hora — o meu corpo está tranquilo;
o trabalho atordoa o meu corpo e também as mulheres.

Lá fora, depois do jantar, as estrelas virão tocar
a terra na ancha planura. As estrelas são vivas,
mas não valem estas cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sei que entre os tectos de ferrugem
brilha já alguma luz e que, por baixo, há ruídos.
Um grande golo e o meu corpo saboreia a vida
das árvores e dos rios e sente-se desprendido de tudo.
Basta um pouco de silêncio e as coisas imobilizam-se
no seu verdadeiro sítio, como o meu corpo imóvel.

Cada coisa está isolada ante os meus sentido,
que a aceita impassível: um cicio de silêncio.
Cada coisa na escuridão posso sabê-la,
como sei que o meu sangue circula nas veias.
A planura é água que escorre entre a erva,
um jantar de todas as coisas. Cada planta e cada pedra
vivem imóveis. Escuto os alimentos e eles alimentam-me as veias
com todas as coisas que vivem nesta planura.

A noite importa pouco. O rectângulo do céu
sussura-me todos os fragores e uma estrela miúda
debate-se no vazio, longe dos alimentos,
das casas, distinta. Não se basta a si mesma
e precisa de muitas companheiras. Aqui, no escuro, sozinho,
o meu corpo está tranquilo e sente-se soberano.

Cesare Pavese, Trabalhar Cansa, tradução de Carlos Leite, Cotovia, 1997, página 71

o jornal, um desejo e uma dúvida

Espero que ganhe Broken Flowers (Jim Jarmusch e Bill Murray). Se amanhã comprar o guia da LisboaPhoto 2005, obrigo-me a ir?

Terça-feira, Maio 17

o rapaz que gosta de cerejas

Os meus amigos não escrevem em blogues. Essa é a regra. O Francisco escreve e é uma belíssima excepção.

L'Homme qui aimait le cinema

Logo à noite, na Rua Barata Salgueiro, 39, na Sala Dr. Félix Ribeiro, Antoine Doinel e o seu amigo vão trocar uma tarde na escola por uma matiné. E quando sairem do cinema vão roubar uma fotografia de Monika, a de Bergman, a do verão. Tenho a certeza.
Image hosted by Photobucket.com
Image hosted by Photobucket.com[ — C'est pour Balzac...]

strangers talk only about the weather #18

Image hosted by Photobucket.com

Não, não é por o filme ser a preto e branco, não é isso. Em Lisboa, nos anos sessenta, o céu era mesmo cinzento. O cinzento mais triste que podemos imaginar.

João Canijo disse que quando viu "Os verdes anos" pela primeira vez percebeu que era possível fazer cinema em Portugal e disse também que o céu continua a ser cinzento, muito escuro — talvez tenha dito preto, como os sapatos — , não só em Lisboa (ao lado do Colombo por exemplo) mas por todo o país, até nas aldeias mais esquecidas.

os verdes anos*



O Paulo viu-me em qualquer lado, eu tinha feito umas coisas na televisão e no Centro Nacional de Cultura. Telefonou-me, contou-me o projecto do filme e perguntou se me podia ver. Foi a minha casa e pediu para eu me mexer um bocado, improvisar uma passagem de modelos, por causa da cena do filme, e acho que foi amor à primeira vista, eu fiquei escolhida para o papel.
Enquanto se preparavam as luzes, refugiava-se no quarto a fazer não sei o quê. Eu ficava com a mãe dele que nos apaparicava muito, fazia um cházinho... No campo, enquanto esperávamos, ele não podia refugiar-se no quarto, lembro-me muito bem dos nossos passeios. Contava-me imensas histórias japonesas. Era bastante introvertido, mas comigo... Acho que era do amor que ele tinha pela personagem e, possivelmente, também pela actriz a despontar... Embora, nessa altura, ele estivesse apaixonado por uma japonesa qualquer.
Tínhamos um texto, não ensaiávamos, aquilo foi logo ali... directo. Eu era muito refilona. Ele dava indicações, eu improvisava e ajudava, gostava muito de meter a minha colherada.. Muitas vezes não queria mesmo fazer as coisas que ele me propunha.
Durante muitos anos detestei o filme, sobretudo o meu papel. Aliás, ainda acho que podia ter sido muito mais valorizada, mas ele também não tinha grande experiência... Podia ter-me apanhado em ângulos muito melhores, mas o filme estava assim e assim ficou. Nessa altura, apareciam os filmes de Godard com a Anna Karina e do Antonioni com a Monica Vitti. Eles tinham muito mais cuidado com as actrizes, eram mulheres deles, já conheciam todos os ângulos...
Só embirrei com o Luc Mirot porque ele achou que eu tinha o queixo muito comprido e resolveu mandar-mo pintar de vermelho. Se calhar não se nota, mas há lá uma sombra escura que eu sempre detestei. Eu tenho o queixo comprido, é o meu perfil.

Isabel Ruth, Estação do Cais do Sodré, 28.4.1996, Catálogo da Cinemateca dedicado a Paulo Rocha, 1996

___________
16 de Maio, 21h30, pequeno auditório do Rivoli. Sala quase cheia

Segunda-feira, Maio 16

East/Jinx 9:59

(se for muito devagar, se parar para comprar pão), é o tempo que demoro a chegar a casa.

Domingo, Maio 15

A transformação que se operou na minha fotografia,

de uma narrativa cinemática para uma aglomeração de imagens que contam uma pequena historia, permite-me juntar peças do "puzzle" de uma maneira muito mais eficaz. Estou a andar em Bucareste, em 2003, quando vejo uns miúdos a marcar uma estrela de David, que, quando me viram, desataram a correr. Não sei o que ia ser escrito ou se seria um insulto racista. E acabei por fotografá-la junto a um caixote do lixo. Mais tarde, em Madrid, num apartamento de um amigo onde costumo ficar, reparei, como sempre tinha reparado, na maneira como ele pendura os fatos no seu quarto e na maneira como ele deixa a casa ser invadida pela decadência. Quando mais tarde pus, lado a lado, as duas imagens, uma terceira, tirada em 1994, em Auschwitz, veio-me ao pensamento. Tinha construído um tríptico; novo aviso de que o que se passou há 60 anos se pode voltar a repetir...

Paulo Nozolino, no Mil | Folhas de 7 Maio 2005 (pág 19)

Não há fuga*

Não posso salvar uma época.
Limito-me a constatar a sua perda, sem nostalgia, resistindo à desmemória, à frivolidade e ao ressentimento.
Sinto-me a viver um pós-guerra qualquer, onde alguns homens tentam reencontrar a sua dignidade, escutando o grito profundo que há dentro deles.
A tempo de comprender a vida, antes de a perder.

Paulo Nozolino


Malditos / Bucarest 2003 | Espoliados / Madrid 2003 | Assassinados / Auschwitz 1994

Conheci Paulo Nozolino em Coimbra, no Edifício das Caldeiras. A exposição chamava-se "Tuga", a palavra servo-croata para tristeza. Foi uma das melhores exposições que já vi; nunca mais esqueci o corpo do rapaz envolto numa mortalha*, em Sarajevo. Lembro-me de tocar nas paredes que pareciam molhadas e da sensação de frio e humidade.
Essa imagem faz parte da exposição que está em Serralves. Far Cry é uma espécie de viagem pelo trabalho de Paulo Nozolino. Pintaram as paredes do museu de cinzento. Fecharam as janelas. As fotografias são identificadas apenas pelo local e o ano mas as legendas podiam ser trocadas porque o que ele fotografa é igual em todo o mundo, Cairo é em Lisboa e Porto em Bucareste. As fotografias de Nozolino ultrapassam o espaço e o tempo. Não sei explicar bem mas é como se ele tivesse um dom para captar a tristeza, a desolação, a solidão, a nossa imensa solidão.
Vi a exposição de uma ponta à outra duas vezes e, para além da escuridão que domina as imagens, do grão que lhes dá um ar simultaneamente etéreo e sombrio, encontrei coisas que nunca me passaram pela cabeça. Numa das fotografias vi a filha de Stalker; noutra, a sua casa; no homem que bebe chá descobri algo que não sei o que é, só sei que me atrai; nos casacos pendurados vi os mortos; no rapaz de Sarajevo, um certo tipo de luz. Hei-de voltar e voltar.

_____________
* a frase de Rui Nunes que encerra a exposição