Sábado, Maio 14

TA'ME GUILASS

Hoje de manhã vi um homem a vender cerejas na Circunvalação. Estava sentado num banco, ao lado vários caixotes cheios de cerejas vermelhas escuras e dois cartazes que diziam: "vendem-se cerejas".

Sexta-feira, Maio 13

Outra vez a lebre e a tartaruga?

A tartaruga é uma criatura reservada. Olha para a lebre e parece que diz, — mas não diz porque como já expliquei, é reservada — "Não é por correres que chegas mais depressa, minha safada". A lebre para além de expedita tem outros poderes, por exemplo ouve tudo o que é apenas pensado. Então a lebre responde em voz alta: "Eu deixo-te ganhar, querida tartaruga".
O desfecho é conhecido. Agora, se esquecermos a moral (que só serve para ensinar os costumes às crianças) o que fica? Em quem acreditar? A que velocidade nos devemos deslocar?

It Tango

She said: It looks. Don't you think it looks a lot like rain?
He said: Isn't it. Isn't it just. Isn't it just like a woman?
She said: It's hard. It's just hard. It's just kind of hard to say.
He said: Isn't it. Isn't it just. Isn't it just like a woman?
She said: It goes. That's the way it goes. It goes that way.
He said: Isn't it. Isn't it just like a woman?
She said: It takes. It takes one. It takes one to. It takes one to know one.
He said: Isn't it just like a woman?
She said. She said it. She said it to no. She said it to no one.
Isn't it. Isn't it just? Isn't it just like a woman?

Your eyes. It's a day's work to look into them.
Your eyes. It's a day's work just lookin into them.


Laurie Anderson

This is the time. And this is the record of the time

E se hoje, por uma anormalia qualquer do sistema temporal do universo, voltasse a ser dia 6 de Maio de 2005? E se depois entrassemos em redundância, como naquele filme "O dia da marmota"? E se...

Quinta-feira, Maio 12

Les dames du Bois de Boulogne

Troquei o almoço por uma ida à baixa. Na Praça D. João I parei para ver uma instalação de restos: electrodomésticos estragados, colchões velhos, móveis partidos. Muito interessante, parece que o pelouro do ambiente anda a fazer inveja ao da cultura. Fui à fnac à procura de Walser mas Walser ainda não chegou. De repente vi um tapete estendido à minha frente; apesar de não calçar sapatos vermelhos segui-o. Ao fundo de uma prateleira lá estavam Robert Bresson, Jean Cocteau e Maria Casarès, juntos. Quero dizer: completamente juntos! Não era isso que eu procurava? Não resisti, não se pode resistir a uma probabilidade tão rara. Um dia o meu coração ainda se parte.

Das blaue Licht

Queria escrever sobre Jean Cocteau, mais precisamente sobre Orpheus/Marais. Será que Alejandra Pizarnik viu o filme? Ela devia gostar: os espelhos que se atravessam como água, do outro lado as trevas e um vento que não se sabe de onde vem; os poemas transmitidos por uma estação de rádio falsa "Os pássaros escrevem com os dedos, repito...".

Tenho de ler de novo o artigo de Susan Sontag onde Cocteau aparece ao lado de Bresson. Falta-me tempo, os dias adivinham-se demasiado cheios. Fica a intenção de voltar.

E também gostava de ver "A Luz Azul", ainda não sei onde.

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Quarta-feira, Maio 11

Por falar em Illinois (relatório preliminar)



O que é que o Tom Waits tem a ver com a Laurie Anderson? Não sei, diria que muito pouco. São músicos. São americanos: ele nasceu em Pomona, California, ela em Glen Ellyn, Illinois. Isso não chega para estabelecer uma relação séria e duradoura.

Como prova incriminatória posso acrescentar esta resposta de Laurie Anderson ao Washington Post em 20 de Outubro de 2004: " I'm 57. I live in New York City downtown and three of my favorite musicians are Tom Waits, Brian Eno and Arvo Pärt".

Na sexta-feira à noite, antes do espectáculo começar o Paulo falava de concertos e lá surgiu à baila Tom Waits. Porque é que ele nunca cá veio? É um mistério. "Talvez a culpa seja daquela maldita mosca", pensei. Entretanto as luzes apagaram-se, Laurie Anderson entrou, sentou-se no sofá e logo na primeira história citou Tom Waits. Here we go again.

Ainda não apurei a origem da frase mas talvez venha daqui: Solo Monk lets you not only see these melodies without clothes, but without skin. This is astronaut music from Bedlam.

Durante alguns anos Swordfishtrombones foi o meu disco preferido de Tom Waits. Mais tarde desisti da classificação no entanto, quando regresso ao álbum, páro sempre em Johnsburg, Illinois.

Distorção óptica (ou prova não aceitável em casos práticos): desde Real Gone (ouvir Green Grass) penso em Tom Waits como um comboio que se aproxima. Here he comes

Terça-feira, Maio 10

It looks. Don't you think it looks a lot like Edward Hopper?

Como é que chama o tipo de Illinois? Gordy? Aquele que sobe às árvores para compor os fios dos telefones. Quando os homens regressam a casa, depois do trabalho, agradecem-lhe: "Agora o telefone funciona mesmo bem Gordy, já não faz ruídos esquisitos". É o fim do dia. Gordy vai para a sua casa, uma casa pequena com uma mãe pequena e um cão pequeno lá dentro. Os homens demoram-se nos quintais a fumar, adiando o sexo com as suas mulheres, e perguntam-se: "Como é que eu vim aqui parar?"

[triplo mortal: a minha historia preferida da Laurie Anderson, incompleta, deturpada, de memória]
on ne meurt d'amour qu'au cinéma!

Segunda-feira, Maio 9

— Género?
— Musical!

Domingo, Maio 8

a vida não é doce

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Esta semana abriram sete salas de cinema perto da minha casa. Resolvi comemorar e atravessar a cidade até ao Campo Alegre: fui ver Mondovino (Nun´Álvares). O filme é sobre vinho, não digo que não, mas no fundo a história é a velha política, ou melhor, o poder, a substituição de uns príncipes por outros, Il Gattopardo, estão a ver? O registo é muito interessante (não cai em maniqueirismos) no entanto preferia que a câmara não abanasse tanto e aquele tique zoom/focagem/zoom também me aborreceu. No regresso comprei uma garrafa de Alvarinho para o jantar, antes que os americanos cheguem ao minho, pois claro. A Laurie Anderson já nos tinha avisado que a Lua acabou; Robert Mondavi deseja plantar vinhas em Marte; os centros comerciais enchem aos domingos. É tudo demasiado previsível.


Entretanto, uma boa notícia: o ciclo Palmas de Ouro no Festival de Cannes a decorrer no cine-estúdio do Teatro do Campo Alegre de 12 de Maio a 1 de Junho. Dos doze filmes destaco logo o primeiro "A Enguia" de Shohei Imamura, "O Sabor da Cereja" de Abbas Kiarostami (13 e 14), "Barton Fink"(18) de Joel e Ethan Cohen e "Rosetta"(19 e 20) de Jean-Pierre e Luc Dardenne. Bilhetes a três euros, duas sessões por dia.

Por vezes acho que consigo sentir o cheiro da luz

A última frase de Laurie Anderson em "The end of the Moon"