Terça-feira, Maio 31
new car, caviar
Decidi criar um movimento social. Como não tenho prática neste tipo de actividades resolvi começar por uma ideia simples do género: "Para a introdução do código morse nas comunicações da sociedade civil — casualidades e interrupções". A ver se pega.
Assim de repente creio que o código pode ser utilizado a partir deste momento em: reuniões de trabalho; todos os discursos do presidente da república; declaração do IRS; engates complicados via sms; pedidos de desculpa envergonhados; posts ridículos; panfletos revolucionários e sarcásticos; comunicados do presidente da câmara do Porto;...
Assim de repente creio que o código pode ser utilizado a partir deste momento em: reuniões de trabalho; todos os discursos do presidente da república; declaração do IRS; engates complicados via sms; pedidos de desculpa envergonhados; posts ridículos; panfletos revolucionários e sarcásticos; comunicados do presidente da câmara do Porto;...
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Domingo, Maio 29
letra "a"
anjos, Andreas, Anthony*:
In youth's spring, it was my lot / To haunt of the wide earth a spot / To which I could not love the less / So lovely was the loneliness / Of a wild lake, with black rock bound / And the tall trees that towered around / ...
_______
*às 23h00 na maravilhosa Sala 1 da Casa da Música
In youth's spring, it was my lot / To haunt of the wide earth a spot / To which I could not love the less / So lovely was the loneliness / Of a wild lake, with black rock bound / And the tall trees that towered around / ...
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*às 23h00 na maravilhosa Sala 1 da Casa da Música
e o prémio é
Temo que Jakob chegue ao fim do livro obediente; é isso que ele quer e talvez o consiga. Transformado num mordomo dedicado e submisso (aqui Walser acrescentaria encantador?). Por isso resolvi voltar atrás, à página quinze e apanhá-lo no quarto a fumar com Schacht, portanto a infringir os regulamentos, ainda por cima com gosto. E pensei que talvez fosse uma boa ideia convidá-lo para uma matinée.
[A pergunta é para ti Nuno: qual é o único filme do mundo que por se situar no ponto completamente oposto ao Instituto Benjamenta, é o único que é tão Walseriano que vale a pena ir ver?]
[A pergunta é para ti Nuno: qual é o único filme do mundo que por se situar no ponto completamente oposto ao Instituto Benjamenta, é o único que é tão Walseriano que vale a pena ir ver?]
Diz-me, sabes o que é sonhar?*
Esta noite sonhei que estava nos Açores. Não sei em que ilha, sei porém que era lá e isso basta. A determinada altura olhei pela janela e vi ao longe um vulcão em erupção. Não era lava o que ele expelia mas pedacinhos de chocolate.
*"Jakob von Gunten - um diário", de Robert Walser, tradução de Isabel Castro Silva, Relógio d'Água, página 67
*"Jakob von Gunten - um diário", de Robert Walser, tradução de Isabel Castro Silva, Relógio d'Água, página 67
Sábado, Maio 28
O maior escritor do mundo

Ontem descobri que para eleger o maior escritor do mundo são precisas apenas duas pessoas. Por isso já está. Os pormenores sobre a cerimónia serão anunciados logo que possível.
É encantador prestar um serviço a quem não conhecemos
ou a quem não tenha nada a ver connosco, permite-nos vislumbrar paraísos divinos e velados. Além disso: no fundo, todas as pessoas, ou pelo menos quase todas as pessoas têm alguma coisa a ver connosco. As pessoas que passam por mim têm alguma coisa a ver comigo, isso é claro. É uma questão privada. Vou por aí, o sol brilha, vejo de repente um cão que gane aos meus pés. Noto logo a seguir que o animalzinho de luxo ficou com a pata presa no açaime. Já não consegue andar. E eu baixo-me e logo remedeio o grande, grande infortúnio. Aproxima-se agora marchando a dona do cão. Compreende o que se passou e agradece-me. Tiro veloz o chapéu à senhora e sigo o meu caminho. Ah, e ela pensa agora que ainda há jovens bem educados no mundo. Pois bem, neste caso prestei um serviço a todos os jovens em geral. E como a mulher, de resto nada bonita, então sorriu. «Obrigada, meu senhor.» Ah, promoveu-me a senhor. Quando sabemos comportar-nos somos promovidos a senhores. E quando agradecemos a alguém, respeitamos essa pessoa. Quem sorri é belo. Todas as mulheres merecem ser cortejadas. Todas as mulheres têm qualquer coisa de refinado. Tenho já visto lavadeiras com o porte de raínhas. Tudo isto é tão estranho, oh, tão estranho. Mas como brilhava o sol então, e como eu fugi dali! – Para o armazém, para ser concreto. Vou lá tirar o meu retrato, Herr Benjamenta quer uma fotografia minha. E depois tenho ainda de escrever um curriculum vitae abreviado e fiel à verdade. Para isso preciso de papel. E assim tenho o prazer acrescentado de entrar numa papelaria.
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"Jakob von Gunten - um diário", de Robert Walser, tradução de Isabel Castro Silva, Relógio d'Água, páginas 24 e 25
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"Jakob von Gunten - um diário", de Robert Walser, tradução de Isabel Castro Silva, Relógio d'Água, páginas 24 e 25
Sexta-feira, Maio 27
o movimento ascendente e descendente
Contamos grandes histórias um ao outro, enquanto estamos assim deitados, histórias da vida, ou seja, reais, mas sobretudo histórias inventadas com acontecimentos que apanhamos do ar. E então à nossa volta tudo parece levemente ressoar num movimento ascendente e descendente ao longo das paredes. O quarto estreito e escuro estende-se, surgem estradas, salões, cidades, palácios, pessoas e paisagens desconhecidas, trovões e sussurros, prantos e conversas, e assim por diante.
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"Jakob von Gunten - um diário", de Robert Walser, tradução de Isabel Castro Silva, Relógio d'Água, página 15
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"Jakob von Gunten - um diário", de Robert Walser, tradução de Isabel Castro Silva, Relógio d'Água, página 15
Quinta-feira, Maio 26
Jakob von Gunten — um diário*
Que me perdoem todos os outros mas ele é o único a quem entrego o meu coração. Não há no mundo ninguém como Robert Walser, não há. A declaração está feita, agora vou ler.
* Relógio d'Água, Abril de 2005, colecção Ficções # 104
* Relógio d'Água, Abril de 2005, colecção Ficções # 104
mais um ano
Porque é que a Feira do Livro não passa para os jardins? É muito complicado?
p.s. Luís, acrescenta mais um: Frankie e o Casamento (The member of the wedding, 1946), Cotovia, 1995
p.s. Luís, acrescenta mais um: Frankie e o Casamento (The member of the wedding, 1946), Cotovia, 1995
o segundo dia de verão
[Acordei tarde, o meu plano de ir a Viana ver as dunas, comprar bolas de berlim, beber limonadas e, quem sabe, cruzar-me com Kaurismaki falhou. Ainda não é desta que lhe ofereço os meus serviços de consultadoria em jukeboxes. Ultimamente teimo em falhar, devo estar a chegar a um ponto interessante, aliás deve haver uma palavra científica para o descrever, hei-de procurá-la no dicionário.]
Ao final da manhã havia uma neblina amagentada e encantadora sobre a foz. A maré estava muito vaza e cheirava a algas. As minhas melhores memórias de verão passam por cheiros. Apesar do mar ser o mar, continuo a preferir o perfume das figueiras. Por causa das histórias?
Ao final da manhã havia uma neblina amagentada e encantadora sobre a foz. A maré estava muito vaza e cheirava a algas. As minhas melhores memórias de verão passam por cheiros. Apesar do mar ser o mar, continuo a preferir o perfume das figueiras. Por causa das histórias?
Quarta-feira, Maio 25
As Cores da infâmia
Não há nada de bonito em envelhecer. Dizem-nos que sim, a maturidade e outras tretas, mas é tudo mentira. A única coisa que me parece digna é aquela imagem de Albert Cossery, já velho, sentado numa esplanada como se fosse um princípe de vinte anos.
Terça-feira, Maio 24
نام شعر : نشاني
"خانه دوست كجاست؟" در فلق بود كه پرسيد سوار
"خانه دوست كجاست؟" در فلق بود كه پرسيد سوار.
آسمان مكثي كرد.
رهگذر شاخه نوري كه به لب داشت به تاريكي شنها بخشيد
و به انگشت نشان داد سپيداري و گفت:
"نرسيده به درخت،
كوچه باغي است كه از خواب خدا سبزتر است
و در آن عشق به اندازه پرهاي صداقت آبي است
ميروي تا ته آن كوچه كه از پشت بلوغ، سر به در ميآرد،
پس به سمت گل تنهايي ميپيچي،
دو قدم مانده به گل،
پاي فواره جاويد اساطير زمين ميماني
و تو را ترسي شفاف فرا ميگيرد.
در صميميت سيال فضا، خشخشي ميشنوي:
كودكي ميبيني
رفته از كاج بلندي بالا، جوجه بردارد از لانه نور
و از او ميپرسي
خانه دوست كجاست."
خانه دوست كجاست
_________________
poema "A Morada" (onde fica a casa do Amigo) de Sohrab Sepehri, em farsi
"خانه دوست كجاست؟" در فلق بود كه پرسيد سوار.
آسمان مكثي كرد.
رهگذر شاخه نوري كه به لب داشت به تاريكي شنها بخشيد
و به انگشت نشان داد سپيداري و گفت:
"نرسيده به درخت،
كوچه باغي است كه از خواب خدا سبزتر است
و در آن عشق به اندازه پرهاي صداقت آبي است
ميروي تا ته آن كوچه كه از پشت بلوغ، سر به در ميآرد،
پس به سمت گل تنهايي ميپيچي،
دو قدم مانده به گل،
پاي فواره جاويد اساطير زمين ميماني
و تو را ترسي شفاف فرا ميگيرد.
در صميميت سيال فضا، خشخشي ميشنوي:
كودكي ميبيني
رفته از كاج بلندي بالا، جوجه بردارد از لانه نور
و از او ميپرسي
خانه دوست كجاست."
خانه دوست كجاست
_________________
poema "A Morada" (onde fica a casa do Amigo) de Sohrab Sepehri, em farsi
isto não é um filme de Kiarostami
Muitos iranianos sonham um dia vir a ser Presidente da Repúbica. Hadj Abdollahi Sefid Kasse é um deles. Como já fez outras vezes, esta semana percorreu o longo caminho entre Khorassan, no Nordeste do Irão, até à rua Fatemi, em Teerão, onde fica situado o imponente edifício do Ministério do Interior, local onde são apresentadas as candidaturas.
Abdollahi Kasse tem ideias e um programa político. Quer ensinar aos americanos a poesia iraniana e, quando um dia se sentar à mesa com o Presidente dos EUA, George W. Bush, dir-lhe-á: "Somos todos irmãos". "Acho que devemos ensinar a nossa arte aos outros, e aprender a deles. A minha arte é a poesia", explicou o candidato, de 72 anos, ao jornalista da AFP.
Mas como a idade e a longa viagem já o deixam um pouco cansado, não se sente com forças para preencher o questionário que o funcionário do Ministério lhe entrega "Preenche-o tu, eu venho de longe, estou cansado".
O funcionário suspira. "O problema", queixa-se, "é que, na prática, não podemos impedir que ninguém se inscreva".
...
Alexandra Lucas Coelho, Público, 15 Maio 2005, página 21
Abdollahi Kasse tem ideias e um programa político. Quer ensinar aos americanos a poesia iraniana e, quando um dia se sentar à mesa com o Presidente dos EUA, George W. Bush, dir-lhe-á: "Somos todos irmãos". "Acho que devemos ensinar a nossa arte aos outros, e aprender a deles. A minha arte é a poesia", explicou o candidato, de 72 anos, ao jornalista da AFP.
Mas como a idade e a longa viagem já o deixam um pouco cansado, não se sente com forças para preencher o questionário que o funcionário do Ministério lhe entrega "Preenche-o tu, eu venho de longe, estou cansado".
O funcionário suspira. "O problema", queixa-se, "é que, na prática, não podemos impedir que ninguém se inscreva".
...
Alexandra Lucas Coelho, Público, 15 Maio 2005, página 21
reflexos condicionados
Sempre que vejo os anúncios de Tommy Hilfiger — oito páginas em papel couché mate, na Vogue italiana — lembro-me de Elephant e arrepio-me.
o primeiro dia de verão
Quando era miúda a televisão passava uns desenhos animados com um rapaz que tinha um lápis especial; tudo o que ele desenhava tornava-se real. Sempre quis ter um lápis assim, continuo a querer, preciso de desenhar aqui uma porta, uma janela, uma escada, ou um comboio...

Ilustração de Mário Botas para o livro "O Senhor Custódio", de Raul Brandão, Quetzal Editores, 1987

Ilustração de Mário Botas para o livro "O Senhor Custódio", de Raul Brandão, Quetzal Editores, 1987
comme des abeilles dans une ruche de verre*
No filme de Jean Cocteau, Jean Marais, transformado em Orfeu/poeta, atravessa os espelhos para tentar anular a morte da sua mulher, Eurídice. Do outro lado, o mundo não é lúdico como em Alice, pelo contrário é aborrecido e burocrata; há agentes e juízes suficientes para o provar. María Casares — que encarna a morte de Orfeu — decidiu, por sua iniciativa e por ciúmes, em vez de Orfeu, matar Euridice. Está a ser julgada por desobediência quando Orfeu surge inesperadamente na sala. Segue-se o seguinte diálogo entre o poeta e um dos juízes:
— Aproxime-me. Você, você.
— Eu?
— Sim.
— O seu nome?
— Orfeu.
— A sua profissão?
— Poeta.
— Aqui diz escritor.
— É quase a mesma coisa.
— Aqui não existe "quase". O que quer dizer com poeta?
— Escrever sem ser escritor.
— Aproxime-me. Você, você.
— Eu?
— Sim.
— O seu nome?
— Orfeu.
— A sua profissão?
— Poeta.
— Aqui diz escritor.
— É quase a mesma coisa.
— Aqui não existe "quase". O que quer dizer com poeta?
— Escrever sem ser escritor.
Segunda-feira, Maio 23
Clouds Gathering
It seemed the kind of life we wanted.
Wild strawberries and cream in the morning.
Sunlight in every room.
The two of us walking by the sea naked.
Some evenings, however, we found ourselves
Unsure of what comes next.
Like tragic actors in a theater on fire,
With birds circling over our heads,
The dark pines strangely still,
Each rock we stepped on bloodied by the sunset.
We were back on our terrace sipping wine.
Why always this hint of an unhappy ending?
Clouds of almost human appearance
Gathering on the horizon, but the rest lovely
With the air so mild and the sea untroubled.
The night suddenly upon us, a starless night.
You lighting a candle, carrying it naked
Into our bedroom and blowing it out quickly.
The dark pines and grasses strangely still.
Charles Simic, o poeta metereológico
Wild strawberries and cream in the morning.
Sunlight in every room.
The two of us walking by the sea naked.
Some evenings, however, we found ourselves
Unsure of what comes next.
Like tragic actors in a theater on fire,
With birds circling over our heads,
The dark pines strangely still,
Each rock we stepped on bloodied by the sunset.
We were back on our terrace sipping wine.
Why always this hint of an unhappy ending?
Clouds of almost human appearance
Gathering on the horizon, but the rest lovely
With the air so mild and the sea untroubled.
The night suddenly upon us, a starless night.
You lighting a candle, carrying it naked
Into our bedroom and blowing it out quickly.
The dark pines and grasses strangely still.
Charles Simic, o poeta metereológico
interbloguismo à hora do almoço
Hoje vesti-me com as cores do blogue, no entanto continuo a parecer eu. Talvez deva acrescentar: apenas eu? Que chatice, era mais fácil quando era pequena e calçava os sapatos da minha mãe.
Domingo, Maio 22
We're so small compared to a lullaby*
[de tarde] A cidade está excitada. Sente-se isso na rua, na forma como as pessoas se deslocam, na coreografia.
[22h00] Junto à Casa da Música há holofotes e câmaras de filmar viradas para a avenida. Nós estamos lá dentro, "perderam, não foi?" pergunta Mark Eitzel, "então é para vocês que vamos tocar". E ele não estava a falar de futebol. Tocaram mais ou menos uma hora e um quarto (15 minutos para três encores); não sei porquê mas Vudi estava com pressa. Também não percebi porque é que a sala não estava cheia. Tim Mooney, o baterista, parece uma personagem de um filme de Jarmusch . Mark fez o papel de desajeitado, às voltas com os cabos que se soltavam e com as calças que caíam. Como seria de esperar ofereceu-nos boas introduções ("é para isso que me pagam, não é?") e uma mágoa sem fim. Canções para loosers ou desesperados, é mais ou menos isso?

[desenvolvimentos apaixonados nas Ruínas Circulares]
[22h00] Junto à Casa da Música há holofotes e câmaras de filmar viradas para a avenida. Nós estamos lá dentro, "perderam, não foi?" pergunta Mark Eitzel, "então é para vocês que vamos tocar". E ele não estava a falar de futebol. Tocaram mais ou menos uma hora e um quarto (15 minutos para três encores); não sei porquê mas Vudi estava com pressa. Também não percebi porque é que a sala não estava cheia. Tim Mooney, o baterista, parece uma personagem de um filme de Jarmusch . Mark fez o papel de desajeitado, às voltas com os cabos que se soltavam e com as calças que caíam. Como seria de esperar ofereceu-nos boas introduções ("é para isso que me pagam, não é?") e uma mágoa sem fim. Canções para loosers ou desesperados, é mais ou menos isso?

[desenvolvimentos apaixonados nas Ruínas Circulares]
Os choupos
Em Maio os choupos lembram um filme de Tarkovsky. Pensando melhor não é bem isso, os choupos lembram o próprio Tarkovsky, não os filmes.
Rastos de condensação e de dissipação
O traço que o avião desenhou no céu desfazia-se devagar por causa da humidade.
— Parece o esqueleto de um animal que nunca existiu.
Foi então que ele se lembrou do dragão chinês.
— Parece o esqueleto de um animal que nunca existiu.
Foi então que ele se lembrou do dragão chinês.
Sexta-feira, Maio 20
Ladies and gentlemen, it's time...
...
"O nosso guitarrista, o Vudi, tem um emprego a guiar um autocarro em L.A. e é raro poder vir a São Francisco, por isso ensaiar torna-se muito difícil. Apesar disso lá vai adiantando que vão "tocar temas de todos os discos", mas aceder aos previsíveis pedidos de temas obscuros por parte da audiência será difícil porque têm "pouca coisa preparada. Mesmo assim, se nos deixarem e não nos acharem maus, podemos tocar umas duas horas".
...
Mark Eitzel em conversa com João Bonifácio, na pág 30 do Y
"O nosso guitarrista, o Vudi, tem um emprego a guiar um autocarro em L.A. e é raro poder vir a São Francisco, por isso ensaiar torna-se muito difícil. Apesar disso lá vai adiantando que vão "tocar temas de todos os discos", mas aceder aos previsíveis pedidos de temas obscuros por parte da audiência será difícil porque têm "pouca coisa preparada. Mesmo assim, se nos deixarem e não nos acharem maus, podemos tocar umas duas horas".
...
Mark Eitzel em conversa com João Bonifácio, na pág 30 do Y
Quarta-feira, Maio 18
traçar linhas
Não me posso esquecer disto: ver um filme de Shohei Imamura e outro de Paulo Rocha com um intervalo de apenas quatro dias é um privilégio raro.
queste ciliege, che mango da solo
Ontem à noite, ao pegar no livro de poemas de Cesare Pavese para ler "Desenraizados" (um dos meus preferidos), reparei num marcador em determinada página. Um marcador pequeno, rectangular, perfumado com "Contradiction" de Calvin Klein; na frente uma fotografia a preto e branco de uma mulher muito bonita, creio que é Christy Turlington. Não me lembro quando nem porquê marquei este poema mas posso assegurar que não quis ser má para Pavese
"Mania da solidão"
Como um jantar frugal junto à clara janela.
Na sala já está escuro mas ainda se vê o céu.
Se saísse, as ruas tranquilas deixar-me-iam
ao fim de pouco tempo em pleno campo.
Como e observo o céu — quem sabe quantas mulheres
estão a comer a esta hora — o meu corpo está tranquilo;
o trabalho atordoa o meu corpo e também as mulheres.
Lá fora, depois do jantar, as estrelas virão tocar
a terra na ancha planura. As estrelas são vivas,
mas não valem estas cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sei que entre os tectos de ferrugem
brilha já alguma luz e que, por baixo, há ruídos.
Um grande golo e o meu corpo saboreia a vida
das árvores e dos rios e sente-se desprendido de tudo.
Basta um pouco de silêncio e as coisas imobilizam-se
no seu verdadeiro sítio, como o meu corpo imóvel.
Cada coisa está isolada ante os meus sentido,
que a aceita impassível: um cicio de silêncio.
Cada coisa na escuridão posso sabê-la,
como sei que o meu sangue circula nas veias.
A planura é água que escorre entre a erva,
um jantar de todas as coisas. Cada planta e cada pedra
vivem imóveis. Escuto os alimentos e eles alimentam-me as veias
com todas as coisas que vivem nesta planura.
A noite importa pouco. O rectângulo do céu
sussura-me todos os fragores e uma estrela miúda
debate-se no vazio, longe dos alimentos,
das casas, distinta. Não se basta a si mesma
e precisa de muitas companheiras. Aqui, no escuro, sozinho,
o meu corpo está tranquilo e sente-se soberano.
Cesare Pavese, Trabalhar Cansa, tradução de Carlos Leite, Cotovia, 1997, página 71
"Mania da solidão"
Como um jantar frugal junto à clara janela.
Na sala já está escuro mas ainda se vê o céu.
Se saísse, as ruas tranquilas deixar-me-iam
ao fim de pouco tempo em pleno campo.
Como e observo o céu — quem sabe quantas mulheres
estão a comer a esta hora — o meu corpo está tranquilo;
o trabalho atordoa o meu corpo e também as mulheres.
Lá fora, depois do jantar, as estrelas virão tocar
a terra na ancha planura. As estrelas são vivas,
mas não valem estas cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sei que entre os tectos de ferrugem
brilha já alguma luz e que, por baixo, há ruídos.
Um grande golo e o meu corpo saboreia a vida
das árvores e dos rios e sente-se desprendido de tudo.
Basta um pouco de silêncio e as coisas imobilizam-se
no seu verdadeiro sítio, como o meu corpo imóvel.
Cada coisa está isolada ante os meus sentido,
que a aceita impassível: um cicio de silêncio.
Cada coisa na escuridão posso sabê-la,
como sei que o meu sangue circula nas veias.
A planura é água que escorre entre a erva,
um jantar de todas as coisas. Cada planta e cada pedra
vivem imóveis. Escuto os alimentos e eles alimentam-me as veias
com todas as coisas que vivem nesta planura.
A noite importa pouco. O rectângulo do céu
sussura-me todos os fragores e uma estrela miúda
debate-se no vazio, longe dos alimentos,
das casas, distinta. Não se basta a si mesma
e precisa de muitas companheiras. Aqui, no escuro, sozinho,
o meu corpo está tranquilo e sente-se soberano.
Cesare Pavese, Trabalhar Cansa, tradução de Carlos Leite, Cotovia, 1997, página 71
o jornal, um desejo e uma dúvida
Espero que ganhe Broken Flowers (Jim Jarmusch e Bill Murray). Se amanhã comprar o guia da LisboaPhoto 2005, obrigo-me a ir?
Terça-feira, Maio 17
o rapaz que gosta de cerejas
Os meus amigos não escrevem em blogues. Essa é a regra. O Francisco escreve e é uma belíssima excepção.
L'Homme qui aimait le cinema
Logo à noite, na Rua Barata Salgueiro, 39, na Sala Dr. Félix Ribeiro, Antoine Doinel e o seu amigo vão trocar uma tarde na escola por uma matiné. E quando sairem do cinema vão roubar uma fotografia de Monika, a de Bergman, a do verão. Tenho a certeza.

[ — C'est pour Balzac...]

[ — C'est pour Balzac...]
strangers talk only about the weather #18

Não, não é por o filme ser a preto e branco, não é isso. Em Lisboa, nos anos sessenta, o céu era mesmo cinzento. O cinzento mais triste que podemos imaginar.
João Canijo disse que quando viu "Os verdes anos" pela primeira vez percebeu que era possível fazer cinema em Portugal e disse também que o céu continua a ser cinzento, muito escuro — talvez tenha dito preto, como os sapatos — , não só em Lisboa (ao lado do Colombo por exemplo) mas por todo o país, até nas aldeias mais esquecidas.
os verdes anos*

O Paulo viu-me em qualquer lado, eu tinha feito umas coisas na televisão e no Centro Nacional de Cultura. Telefonou-me, contou-me o projecto do filme e perguntou se me podia ver. Foi a minha casa e pediu para eu me mexer um bocado, improvisar uma passagem de modelos, por causa da cena do filme, e acho que foi amor à primeira vista, eu fiquei escolhida para o papel.
Enquanto se preparavam as luzes, refugiava-se no quarto a fazer não sei o quê. Eu ficava com a mãe dele que nos apaparicava muito, fazia um cházinho... No campo, enquanto esperávamos, ele não podia refugiar-se no quarto, lembro-me muito bem dos nossos passeios. Contava-me imensas histórias japonesas. Era bastante introvertido, mas comigo... Acho que era do amor que ele tinha pela personagem e, possivelmente, também pela actriz a despontar... Embora, nessa altura, ele estivesse apaixonado por uma japonesa qualquer.
Tínhamos um texto, não ensaiávamos, aquilo foi logo ali... directo. Eu era muito refilona. Ele dava indicações, eu improvisava e ajudava, gostava muito de meter a minha colherada.. Muitas vezes não queria mesmo fazer as coisas que ele me propunha.
Durante muitos anos detestei o filme, sobretudo o meu papel. Aliás, ainda acho que podia ter sido muito mais valorizada, mas ele também não tinha grande experiência... Podia ter-me apanhado em ângulos muito melhores, mas o filme estava assim e assim ficou. Nessa altura, apareciam os filmes de Godard com a Anna Karina e do Antonioni com a Monica Vitti. Eles tinham muito mais cuidado com as actrizes, eram mulheres deles, já conheciam todos os ângulos...
Só embirrei com o Luc Mirot porque ele achou que eu tinha o queixo muito comprido e resolveu mandar-mo pintar de vermelho. Se calhar não se nota, mas há lá uma sombra escura que eu sempre detestei. Eu tenho o queixo comprido, é o meu perfil.
Isabel Ruth, Estação do Cais do Sodré, 28.4.1996, Catálogo da Cinemateca dedicado a Paulo Rocha, 1996
___________
16 de Maio, 21h30, pequeno auditório do Rivoli. Sala quase cheia
Segunda-feira, Maio 16
East/Jinx 9:59
(se for muito devagar, se parar para comprar pão), é o tempo que demoro a chegar a casa.
Domingo, Maio 15
A transformação que se operou na minha fotografia,
de uma narrativa cinemática para uma aglomeração de imagens que contam uma pequena historia, permite-me juntar peças do "puzzle" de uma maneira muito mais eficaz. Estou a andar em Bucareste, em 2003, quando vejo uns miúdos a marcar uma estrela de David, que, quando me viram, desataram a correr. Não sei o que ia ser escrito ou se seria um insulto racista. E acabei por fotografá-la junto a um caixote do lixo. Mais tarde, em Madrid, num apartamento de um amigo onde costumo ficar, reparei, como sempre tinha reparado, na maneira como ele pendura os fatos no seu quarto e na maneira como ele deixa a casa ser invadida pela decadência. Quando mais tarde pus, lado a lado, as duas imagens, uma terceira, tirada em 1994, em Auschwitz, veio-me ao pensamento. Tinha construído um tríptico; novo aviso de que o que se passou há 60 anos se pode voltar a repetir...
Paulo Nozolino, no Mil | Folhas de 7 Maio 2005 (pág 19)
Paulo Nozolino, no Mil | Folhas de 7 Maio 2005 (pág 19)
Não há fuga*
Não posso salvar uma época.
Limito-me a constatar a sua perda, sem nostalgia, resistindo à desmemória, à frivolidade e ao ressentimento.
Sinto-me a viver um pós-guerra qualquer, onde alguns homens tentam reencontrar a sua dignidade, escutando o grito profundo que há dentro deles.
A tempo de comprender a vida, antes de a perder.
Paulo Nozolino



Malditos / Bucarest 2003 | Espoliados / Madrid 2003 | Assassinados / Auschwitz 1994
Conheci Paulo Nozolino em Coimbra, no Edifício das Caldeiras. A exposição chamava-se "Tuga", a palavra servo-croata para tristeza. Foi uma das melhores exposições que já vi; nunca mais esqueci o corpo do rapaz envolto numa mortalha*, em Sarajevo. Lembro-me de tocar nas paredes que pareciam molhadas e da sensação de frio e humidade.
Essa imagem faz parte da exposição que está em Serralves. Far Cry é uma espécie de viagem pelo trabalho de Paulo Nozolino. Pintaram as paredes do museu de cinzento. Fecharam as janelas. As fotografias são identificadas apenas pelo local e o ano mas as legendas podiam ser trocadas porque o que ele fotografa é igual em todo o mundo, Cairo é em Lisboa e Porto em Bucareste. As fotografias de Nozolino ultrapassam o espaço e o tempo. Não sei explicar bem mas é como se ele tivesse um dom para captar a tristeza, a desolação, a solidão, a nossa imensa solidão.
Vi a exposição de uma ponta à outra duas vezes e, para além da escuridão que domina as imagens, do grão que lhes dá um ar simultaneamente etéreo e sombrio, encontrei coisas que nunca me passaram pela cabeça. Numa das fotografias vi a filha de Stalker; noutra, a sua casa; no homem que bebe chá descobri algo que não sei o que é, só sei que me atrai; nos casacos pendurados vi os mortos; no rapaz de Sarajevo, um certo tipo de luz. Hei-de voltar e voltar.
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* a frase de Rui Nunes que encerra a exposição
Limito-me a constatar a sua perda, sem nostalgia, resistindo à desmemória, à frivolidade e ao ressentimento.
Sinto-me a viver um pós-guerra qualquer, onde alguns homens tentam reencontrar a sua dignidade, escutando o grito profundo que há dentro deles.
A tempo de comprender a vida, antes de a perder.
Paulo Nozolino



Malditos / Bucarest 2003 | Espoliados / Madrid 2003 | Assassinados / Auschwitz 1994
Conheci Paulo Nozolino em Coimbra, no Edifício das Caldeiras. A exposição chamava-se "Tuga", a palavra servo-croata para tristeza. Foi uma das melhores exposições que já vi; nunca mais esqueci o corpo do rapaz envolto numa mortalha*, em Sarajevo. Lembro-me de tocar nas paredes que pareciam molhadas e da sensação de frio e humidade.
Essa imagem faz parte da exposição que está em Serralves. Far Cry é uma espécie de viagem pelo trabalho de Paulo Nozolino. Pintaram as paredes do museu de cinzento. Fecharam as janelas. As fotografias são identificadas apenas pelo local e o ano mas as legendas podiam ser trocadas porque o que ele fotografa é igual em todo o mundo, Cairo é em Lisboa e Porto em Bucareste. As fotografias de Nozolino ultrapassam o espaço e o tempo. Não sei explicar bem mas é como se ele tivesse um dom para captar a tristeza, a desolação, a solidão, a nossa imensa solidão.
Vi a exposição de uma ponta à outra duas vezes e, para além da escuridão que domina as imagens, do grão que lhes dá um ar simultaneamente etéreo e sombrio, encontrei coisas que nunca me passaram pela cabeça. Numa das fotografias vi a filha de Stalker; noutra, a sua casa; no homem que bebe chá descobri algo que não sei o que é, só sei que me atrai; nos casacos pendurados vi os mortos; no rapaz de Sarajevo, um certo tipo de luz. Hei-de voltar e voltar.
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* a frase de Rui Nunes que encerra a exposição
Sábado, Maio 14
When Thomas brought the news that the house I was born in no longer exists — neither the name, nor the park sloping to the river — nothing — I had a dream of return. Multicoloured. Joyous. I was able to fly. And the trees were even higher than in childhood, because they had been growing during all the years since they had been cut down.
[texto de Franz Kafka (Blue Octavo notebook), voz de Tilda Swinton, música de Max Richter (The Blue Notebooks)]
[texto de Franz Kafka (Blue Octavo notebook), voz de Tilda Swinton, música de Max Richter (The Blue Notebooks)]
TA'ME GUILASS
Hoje de manhã vi um homem a vender cerejas na Circunvalação. Estava sentado num banco, ao lado vários caixotes cheios de cerejas vermelhas escuras e dois cartazes que diziam: "vendem-se cerejas".
Sexta-feira, Maio 13
Outra vez a lebre e a tartaruga?
A tartaruga é uma criatura reservada. Olha para a lebre e parece que diz, — mas não diz porque como já expliquei, é reservada — "Não é por correres que chegas mais depressa, minha safada". A lebre para além de expedita tem outros poderes, por exemplo ouve tudo o que é apenas pensado. Então a lebre responde em voz alta: "Eu deixo-te ganhar, querida tartaruga".
O desfecho é conhecido. Agora, se esquecermos a moral (que só serve para ensinar os costumes às crianças) o que fica? Em quem acreditar? A que velocidade nos devemos deslocar?
O desfecho é conhecido. Agora, se esquecermos a moral (que só serve para ensinar os costumes às crianças) o que fica? Em quem acreditar? A que velocidade nos devemos deslocar?
It Tango
She said: It looks. Don't you think it looks a lot like rain?
He said: Isn't it. Isn't it just. Isn't it just like a woman?
She said: It's hard. It's just hard. It's just kind of hard to say.
He said: Isn't it. Isn't it just. Isn't it just like a woman?
She said: It goes. That's the way it goes. It goes that way.
He said: Isn't it. Isn't it just like a woman?
She said: It takes. It takes one. It takes one to. It takes one to know one.
He said: Isn't it just like a woman?
She said. She said it. She said it to no. She said it to no one.
Isn't it. Isn't it just? Isn't it just like a woman?
Your eyes. It's a day's work to look into them.
Your eyes. It's a day's work just lookin into them.
Laurie Anderson
He said: Isn't it. Isn't it just. Isn't it just like a woman?
She said: It's hard. It's just hard. It's just kind of hard to say.
He said: Isn't it. Isn't it just. Isn't it just like a woman?
She said: It goes. That's the way it goes. It goes that way.
He said: Isn't it. Isn't it just like a woman?
She said: It takes. It takes one. It takes one to. It takes one to know one.
He said: Isn't it just like a woman?
She said. She said it. She said it to no. She said it to no one.
Isn't it. Isn't it just? Isn't it just like a woman?
Your eyes. It's a day's work to look into them.
Your eyes. It's a day's work just lookin into them.
Laurie Anderson
This is the time. And this is the record of the time
E se hoje, por uma anormalia qualquer do sistema temporal do universo, voltasse a ser dia 6 de Maio de 2005? E se depois entrassemos em redundância, como naquele filme "O dia da marmota"? E se...
Quinta-feira, Maio 12
Les dames du Bois de Boulogne
Troquei o almoço por uma ida à baixa. Na Praça D. João I parei para ver uma instalação de restos: electrodomésticos estragados, colchões velhos, móveis partidos. Muito interessante, parece que o pelouro do ambiente anda a fazer inveja ao da cultura. Fui à fnac à procura de Walser mas Walser ainda não chegou. De repente vi um tapete estendido à minha frente; apesar de não calçar sapatos vermelhos segui-o. Ao fundo de uma prateleira lá estavam Robert Bresson, Jean Cocteau e Maria Casarès, juntos. Quero dizer: completamente juntos! Não era isso que eu procurava? Não resisti, não se pode resistir a uma probabilidade tão rara. Um dia o meu coração ainda se parte.
Das blaue Licht
Queria escrever sobre Jean Cocteau, mais precisamente sobre Orpheus/Marais. Será que Alejandra Pizarnik viu o filme? Ela devia gostar: os espelhos que se atravessam como água, do outro lado as trevas e um vento que não se sabe de onde vem; os poemas transmitidos por uma estação de rádio falsa "Os pássaros escrevem com os dedos, repito...".
Tenho de ler de novo o artigo de Susan Sontag onde Cocteau aparece ao lado de Bresson. Falta-me tempo, os dias adivinham-se demasiado cheios. Fica a intenção de voltar.
E também gostava de ver "A Luz Azul", ainda não sei onde.
Tenho de ler de novo o artigo de Susan Sontag onde Cocteau aparece ao lado de Bresson. Falta-me tempo, os dias adivinham-se demasiado cheios. Fica a intenção de voltar.
E também gostava de ver "A Luz Azul", ainda não sei onde.
Quarta-feira, Maio 11
Por falar em Illinois (relatório preliminar)
O que é que o Tom Waits tem a ver com a Laurie Anderson? Não sei, diria que muito pouco. São músicos. São americanos: ele nasceu em Pomona, California, ela em Glen Ellyn, Illinois. Isso não chega para estabelecer uma relação séria e duradoura. Como prova incriminatória posso acrescentar esta resposta de Laurie Anderson ao Washington Post em 20 de Outubro de 2004: " I'm 57. I live in New York City downtown and three of my favorite musicians are Tom Waits, Brian Eno and Arvo Pärt".
Na sexta-feira à noite, antes do espectáculo começar o Paulo falava de concertos e lá surgiu à baila Tom Waits. Porque é que ele nunca cá veio? É um mistério. "Talvez a culpa seja daquela maldita mosca", pensei. Entretanto as luzes apagaram-se, Laurie Anderson entrou, sentou-se no sofá e logo na primeira história citou Tom Waits. Here we go again.
Ainda não apurei a origem da frase mas talvez venha daqui: Solo Monk lets you not only see these melodies without clothes, but without skin. This is astronaut music from Bedlam.
Durante alguns anos Swordfishtrombones foi o meu disco preferido de Tom Waits. Mais tarde desisti da classificação no entanto, quando regresso ao álbum, páro sempre em Johnsburg, Illinois.
Distorção óptica (ou prova não aceitável em casos práticos): desde Real Gone (ouvir Green Grass) penso em Tom Waits como um comboio que se aproxima. Here he comes
Terça-feira, Maio 10
It looks. Don't you think it looks a lot like Edward Hopper?
Como é que chama o tipo de Illinois? Gordy? Aquele que sobe às árvores para compor os fios dos telefones. Quando os homens regressam a casa, depois do trabalho, agradecem-lhe: "Agora o telefone funciona mesmo bem Gordy, já não faz ruídos esquisitos". É o fim do dia. Gordy vai para a sua casa, uma casa pequena com uma mãe pequena e um cão pequeno lá dentro. Os homens demoram-se nos quintais a fumar, adiando o sexo com as suas mulheres, e perguntam-se: "Como é que eu vim aqui parar?"
[triplo mortal: a minha historia preferida da Laurie Anderson, incompleta, deturpada, de memória]
[triplo mortal: a minha historia preferida da Laurie Anderson, incompleta, deturpada, de memória]
Segunda-feira, Maio 9
— Género?
— Musical!
— Musical!
Domingo, Maio 8
a vida não é doce
Esta semana abriram sete salas de cinema perto da minha casa. Resolvi comemorar e atravessar a cidade até ao Campo Alegre: fui ver Mondovino (Nun´Álvares). O filme é sobre vinho, não digo que não, mas no fundo a história é a velha política, ou melhor, o poder, a substituição de uns príncipes por outros, Il Gattopardo, estão a ver? O registo é muito interessante (não cai em maniqueirismos) no entanto preferia que a câmara não abanasse tanto e aquele tique zoom/focagem/zoom também me aborreceu. No regresso comprei uma garrafa de Alvarinho para o jantar, antes que os americanos cheguem ao minho, pois claro. A Laurie Anderson já nos tinha avisado que a Lua acabou; Robert Mondavi deseja plantar vinhas em Marte; os centros comerciais enchem aos domingos. É tudo demasiado previsível.Entretanto, uma boa notícia: o ciclo Palmas de Ouro no Festival de Cannes a decorrer no cine-estúdio do Teatro do Campo Alegre de 12 de Maio a 1 de Junho. Dos doze filmes destaco logo o primeiro "A Enguia" de Shohei Imamura, "O Sabor da Cereja" de Abbas Kiarostami (13 e 14), "Barton Fink"(18) de Joel e Ethan Cohen e "Rosetta"(19 e 20) de Jean-Pierre e Luc Dardenne. Bilhetes a três euros, duas sessões por dia.
Por vezes acho que consigo sentir o cheiro da luz
A última frase de Laurie Anderson em "The end of the Moon"
Sábado, Maio 7
Todas as minhas histórias são verídicas, mesmo as que eu sonho ou imagino
Laurie Anderson, na pág 22 do Y
Sexta-feira, Maio 6
The day you realize you will never tell your own story, that's the day your life begins
Não me lembro quando é que ouvi Laurie Anderson pela primeira vez, mas lembro-me de uma cassete, gravada da rádio*, que rodou vezes sem conta no meu quarto. Depois surgiram os discos, ainda em vivil. Depois apareceu um tipo com a caixinha que me fazia brilhar os olhos, mais o livro — uma espécie de storyboard de United States — e You're the Guy I Want to Share My Money With, o álbum raro. Casei-me com ele, é óbvio.
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*"Musonautas" um programa de Rui Neves e Jorge Lima Barreto na Rádio Comercial. 1983 ou 1984?
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*"Musonautas" um programa de Rui Neves e Jorge Lima Barreto na Rádio Comercial. 1983 ou 1984?
valorização positiva dos termos de uma estrutura semântica
O dicionário tem razão, encontro-me algures entre a primeira e a última definição:
euforia s. f. sensação de bem-estar produzida normalmente pela boa saúde, ou anormalmente por estupefacientes; [fig.] exaltação; enstusiasmo; GRAMÁTICA valorização positiva dos termos de uma estrutura semântica (do gr. euphoria, «força para aguentar»).
euforia s. f. sensação de bem-estar produzida normalmente pela boa saúde, ou anormalmente por estupefacientes; [fig.] exaltação; enstusiasmo; GRAMÁTICA valorização positiva dos termos de uma estrutura semântica (do gr. euphoria, «força para aguentar»).
She's in town!
Fotografia de Kevin Kennefick...
"Tecnologicamente, é a produçao mais complicada que jamais fiz", diz Laurie Anderson do simples, elegante, ultra-discreto "The End of the Moon" que apresenta hoje e amanhã no Teatro Nacional de S. João, no Porto, no festival Codex. O espectáculo tem um guião rígido, assente em 22 histórias que falam do espanto, do entusiasmo, da surpresa, do terror, do belo, do tempo, do sonho. "O ênfase é nas histórias", frisa Laurie, justificando o despojamento monástico da apresentação, literalmente arrancada de duas pequenas malas de viagem. "Estou farta das coisas grandes. Espero um dia conseguir fazer um espectáculo a partir do meu bolso".
...
Apaguem as luzes. Chega aqui, meu amor. As lágrimas do meu olho esquerdo correm porque te amo e as lágrimas do meu olho direito correm porque não te suporto.
© Artigo de Rita Siza no Público | Y | pág. 21
p.s. — Há alguma estrada perto do Porto que se possa fazer em dois dias?, pergunta Laurie Anderson à jornalista, na página 23.
Quinta-feira, Maio 5
Taking Tiger Mountain *
O novo sistema da Apple está a transformar o nosso local de trabalho numa sala de entretenimento. Muito engraçado, mas o que eu queria mesmo era sair mais cedo e ir para a esplanada conversar com o Cossery. Posso?
Music
Music is the sweetest thing in the world. I absolutely adore notes. I'll run a thousand paces just to hear one. Often when I'm walking throught the hot streets in summer and hear the sound of a piano from an unknown house, I stop in my tracks, ready to die on the spot. I'd like to die listening to a piece of music. I imagine this as so easy, so natural, but naturally it's quite impossible. Notes stab too softly. The wounds they leave behind may smart, but they don't fester. Melancholy and pain trickle out instead of blood. When the notes cease, all is peaceful again within me. Then I go to do my homework, to eat or play, and forget about ir. A piano, I find, sounds most enchanting of all. Even beneath the hand of an amateur. It's not the playing I hear, just the sound. I could never be a musician. For music-making would never be sweet enough, intoxicating enough for me. Listening to music is far holier. Music always puts me in a sad mood, but sad in the way a sad smile is sad. A friendly sadness is what I mean. The happiest music isn't happy to me, and the most melancholy music fails to strike me as particularly melancholy or disheartening. Listening to music, I always have exactly the same feeling: something's missing. Never will I learn the cause of this gentle sadness, never will I wish to investigate it. I've no desire to know what it is. I've no desire to know everything. As intelligent as I think myself, I possess, generally speaking, very little thirst for knowledge. I suppose that's because by nature I'm just the opposite of curious. I'm perfectly happy to let all sorts of things go on around me without bothering my head about how they happen. Certainly this is deplorable and unlikely to help me make a career for myself. Perhaps. I'm not afraid of death, so I'm not afraid of life either. I see I'm starting to philosophize. Music is the most thoughtless and thus the sweetest of the arts. Purely intellectual people will never appreciate it, but they are the ones it benefits most deeply when they hear it. You can't want to understand and appreciate an art. Art wants to snuggle up to us. She's so terribly pure and self-satisfied a creature that she takes offense when someone tries to win her over. She punishes anyone who approaches with the intention of laying hold of her. Artists soon find this out. They see it as their profession to deal with her, the one who won't let anyone touch her. That's why I never want to be a musician. I'm afraid of the punishment so fair a creature would administer. It's fine to love an art, but you must be careful not to admit it to yourself. Your love is always warmest when you don't know it's there. — Music hurts me. I don't know whether I truly love it. It finds me wherever it happens to. I don't go looking for it. I let it caress me. But these caresses are injurious. How should I say it? Music is a weeping in melodies, a remembrance in notes, a paiting in sounds. I can't rightly say. Just so no one takes my statements about art up there too seriously. They're certain to miss the mark somewhat as not a single note has yet struck me today. There's something missing when I don't hear music, and when I do, then there's really something missing. That's the best I can say about music.
Robert Walser, in "Masquerade" and other Stories
Robert Walser, in "Masquerade" and other Stories
Quarta-feira, Maio 4
Bresson está numa cela, sozinho
Não há muito a dizer, os filmes de Bresson fazem-me estremecer e chorar. Qualquer um. Acontece a primeira vez que os vejo, como ontem à noite com "Fugiu um condenado à morte". Mas acontece também quando os vejo pela segunda, terceira vez, por aí fora. Não são filmes cerebrais nem frios como a crítica e o público na altura os classificou, não são nada disso, são obras-primas arrebatadoras, veêm-se com o coração e não precisam de qualquer explicação nem introdução. Robert Bresson ensina-nos a olhar e a ouvir, leva-nos pela mão, sabe-se lá onde.
Jakob von Gunten
Aquí se aprende muy poco, falta personal docente y nosotros, los muchachos del Instituto Benjamenta, jamás llegaremos a nada, es decir que el día de mañana seremos todos gente muy modesta y subordinada. La enseñanza que nos imparten consiste básicamente en inculcarnos paciencia y obediencia, dos cualidades que prometen escaso o ningún éxito. Éxitos interiores, eso sí. Pero ¿qué ventaja se obtiene de ellos? ¿A quién dan de comer las conquistas interiores? A mí me encantaría ser rico, pasear en berlina y malgastar dinero. Una vez comenté esto con mi condiscípulo Kraus, pero él se limitó a encogerse de hombros despectivamente, sin concederme una sola palabra. Kraus tiene principios, va bien sujeto a su silla, montado sobre la satisfacción, y es éste un rocín al que los amantes del galope prefieren no subirse. Desde que estoy aquí, en el Instituto Benjamenta, he conseguido volverme un enigma para mí mismo. También yo me he visto contagiado por un extraño sentimiento de satisfacción, desconocido hasta ahora. Soy bastante obediente; no tanto como Kraus, que es un maestro en ejecutar celosamente y al instante cualquier tipo de órdenes. Hay un punto en el que nosotros, los alumnos (Kraus, Schacht, Schilinski, Fuchs, Peter el Larguirucho, yo, etc.), nos parecemos todos: el de nuestra pobreza y dependencia absoluta. Somos hnumildes, humildes hasta la indignidad total. Quien recibe un marco de propina pasa por ser un príncipe privilegiado. Quien, como yo, fuma cigarrillos, despierta preocupación por sus hábitos de despilfarro. Vamos uniformados. Pues bien, este hecho de llevar uniforme nos humilla y nos encumbra al mismo tiempo: tenemos aspecto de gente no libre, lo que posiblemente sea una ignominia, pero también nos vemos muy guapos, y eso nos ahorra la profunda vergüenza de quienes se pasean en ropas personalísimas y, sin embargo, sucias y ajadas. A mí, por ejemplo, vestir el uniforme me resulta bastante agradable, pues nunca he sabido muy bien qué ropa ponerme. Pero incluso a este respecto sigo siendo, por ahora, un enigma para mí mismo. Acaso en mi interior resida un ser vulgar, totalmente vulgar. O tal vez por mis venas corra sangre azul. No lo sé. Pero de algo estoy seguro: el día de mañana seré un encantador cero a la izquierda, redondo como una bola. De viejo me veré obligado a servir a jóvenes palurdos jactanciosos y maleducados, o bien pediré limosna, o sucumbiré.
...
Robert Walser, Jakob von Gunten, 1909, tradução de Juan José del Solar, Ediciones Alfaguara, 1984
...
Robert Walser, Jakob von Gunten, 1909, tradução de Juan José del Solar, Ediciones Alfaguara, 1984
This Might Be Real
How long in a cold room will the tea stay hot?
What about reality interests you?
How long can you live?
Were you there when I said this might be real?
How much do you love?
Sixty percent?
Things that are gone?
Do you love what’s real?
Is real a partial form?
Is it a nascent form?
What is it before it’s real?
Is it a switch that moves and then is ever still?
Is it a spectrum of cross-fades?
What am I waiting for?
Is what’s next real?
When it comes will everything turn real?
If I drink enough tea to hallucinate, is that real?
If I know I’m waiting for someone but I don’t know who, is he real?
Is he real when he comes?
Is he real when he’s gone?
Is consequence what’s real?
Is consequence all that’s real?
What turns to consequence?
Is it what’s real?
Is it what turned everything to disbelief, the last form love takes?
Sarah Manguso, Kulture Vulture, EXPERIMENT TWO: 15 POETS
What about reality interests you?
How long can you live?
Were you there when I said this might be real?
How much do you love?
Sixty percent?
Things that are gone?
Do you love what’s real?
Is real a partial form?
Is it a nascent form?
What is it before it’s real?
Is it a switch that moves and then is ever still?
Is it a spectrum of cross-fades?
What am I waiting for?
Is what’s next real?
When it comes will everything turn real?
If I drink enough tea to hallucinate, is that real?
If I know I’m waiting for someone but I don’t know who, is he real?
Is he real when he comes?
Is he real when he’s gone?
Is consequence what’s real?
Is consequence all that’s real?
What turns to consequence?
Is it what’s real?
Is it what turned everything to disbelief, the last form love takes?
Sarah Manguso, Kulture Vulture, EXPERIMENT TWO: 15 POETS
Terça-feira, Maio 3
Laurie Anderson FAQ
Who taught you what beauty is?
Who is Laurie Anderson?
I have recently heard of Laurie Anderson and I want to get more familiar with her work. Where do you recommend I start?
Does she like mushrooming?
What Fassbinder Film is it? / The one-armed man / comes into the flower shop and says, / ":What flower expresses: / Days go by / And they just keep going by? / ........ And the florist says, / "White Lily" ("White Lily" 1986)
What's the name of her dog?
What is the backwards talk saying on ":Example #22" from Big Science?
How can one become NASA's artist-in-residence?
Are Hansel and Gretel still life?
Can you tell me where I am?
Who is Laurie Anderson?
I have recently heard of Laurie Anderson and I want to get more familiar with her work. Where do you recommend I start?
Does she like mushrooming?
What Fassbinder Film is it? / The one-armed man / comes into the flower shop and says, / ":What flower expresses: / Days go by / And they just keep going by? / ........ And the florist says, / "White Lily" ("White Lily" 1986)
What's the name of her dog?
What is the backwards talk saying on ":Example #22" from Big Science?
How can one become NASA's artist-in-residence?
Are Hansel and Gretel still life?
Can you tell me where I am?
Segunda-feira, Maio 2
esperar o inesperado
Encontrei uma vizinha da minha mãe nos correios. Cumprimentei-a, falámos do tempo e da saúde. Ela disse-me que eu precisava de "engordar um bocadinho". Percebi que não se referia ao peso, mas a outra coisa, a algo que me falta. Depois deu-me umas palmadinhas no ombro "pelo menos assim mexe-se melhor, não é?" Sorri, é isso mesmo, mais um passo e levanto voo.
Estava a chover, só abri o envelope em casa.
Estava a chover, só abri o envelope em casa.
curva de ressonância aguda
No rio Douro, entre a Ponte do Freixo e a do Infante, crescem algumas figueiras. Uma delas está carregada de figos. Os pescadores ignoram as árvores e lançam os anzóis aos peixes.
Sábado, enquanto os carros se amontoavam à porta do Mercado Ferreira Borges e da Alfândega para as feiras das viagens e das marcas, resolvi ser do contra e subi as Escadas da Sereia. Esqueci-me de contar os degraus.
Algumas razões para ir ao CPF: a exposição "Experimentação na Colecção de Fotografia do IVAM"; o calendário de 2005 (com fotografias de André Príncipe e José Pedro Cortes); os cartazes (custam 1,19 euros).
A Leitura fecha aos sábados à tarde. É pena.
A secção de DVDs importados da fnac de Santa Catarina é melhor do que a do Norte Shopping. Vi por lá diversos filmes do catálogo da Criterion que — como diz o Francisco — é o melhor do mundo: Down by Law; Hiroshima mon amour; Port of Shadows; e até um filme de Robert Bresson. Portei-me bem e resisti a todos.
Sábado, enquanto os carros se amontoavam à porta do Mercado Ferreira Borges e da Alfândega para as feiras das viagens e das marcas, resolvi ser do contra e subi as Escadas da Sereia. Esqueci-me de contar os degraus.
Algumas razões para ir ao CPF: a exposição "Experimentação na Colecção de Fotografia do IVAM"; o calendário de 2005 (com fotografias de André Príncipe e José Pedro Cortes); os cartazes (custam 1,19 euros).
A Leitura fecha aos sábados à tarde. É pena.
A secção de DVDs importados da fnac de Santa Catarina é melhor do que a do Norte Shopping. Vi por lá diversos filmes do catálogo da Criterion que — como diz o Francisco — é o melhor do mundo: Down by Law; Hiroshima mon amour; Port of Shadows; e até um filme de Robert Bresson. Portei-me bem e resisti a todos.
Uma espécie de perda
Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissémos. Fizémos. E estendemos sempre a mão.
Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,
(— o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um apontamento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.
De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.
Não te perdi a ti,
perdi o mundo.
Ingeborg Bachmann, "O tempo aprazado", tradução de João Barrento e Judite Berkemeier
Assírio & Alvim, Gato Maltês #28
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissémos. Fizémos. E estendemos sempre a mão.
Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,
(— o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um apontamento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.
De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.
Não te perdi a ti,
perdi o mundo.
Ingeborg Bachmann, "O tempo aprazado", tradução de João Barrento e Judite Berkemeier
Assírio & Alvim, Gato Maltês #28
Domingo, Maio 1
Artigo 88: Pré-sinalização de perigo
Depois das bandeiras nacionais, começo a odiar os coletes retrorreflectores.
São belas as Maias
Não sei o que me deu; comprei um molho de Maias e meti-as numa jarra. O cheiro intenso e agreste agrada-me. Mas não as comprei pelo perfume nem para espantar as bruxas ou o diabo.
a primeira noite na ilha
Já não me lembro se foi o ano passado ou no anterior. Cheguei à ilha num sábado ao fim da tarde. No dia seguinte, quando acordei, fiquei assustada com o silêncio. Não estou habituada, em minha casa tenho sempre os barulhos da rua, mesmo aos domingos. Aprendi a ouvir e a gostar dos ruídos do café, dos carros que passam na avenida ou dos homens que varrem a rua à noite. Naquela casa encostada ao Monte da Ajuda, numa manhã de domingo, apesar da janela aberta, não ouvia nada de nada. Levantei-me e fui para a cozinha que dá para o centro da vila e para o mar. Ao fim de um bom bocado lá passou um homem com uma vaca por uma corda: os passos dele e os cascos lentos a bater no chão. Na segunda noite já estou habituada ao silêncio.
Agora, por causa de John Cage, percebi que isto não é silêncio (é talvez a solidão), que o silêncio não existe nem mesmo naquela câmara científica da Universidade de Harvard, quer dizer, o silêncio não existe em nós. Talvez exista no espaço mas quem o poderá escutar?
Agora, por causa de John Cage, percebi que isto não é silêncio (é talvez a solidão), que o silêncio não existe nem mesmo naquela câmara científica da Universidade de Harvard, quer dizer, o silêncio não existe em nós. Talvez exista no espaço mas quem o poderá escutar?




