Sábado, Abril 23

Drinking while driving

It's August and I have not
Read a book in six months
except something called The Retreat from Moscow
by Caulaincourt
Nevertheless, I am happy
Riding in a car with my brother
and drinking from a pint of Old Crow.
We do not have any place in mind to go,
we are just driving.
If I closed my eyes for a minute
I would be lost, yet
I could gladly lie down and sleep forever
beside this road
My brother nudges me.
Any minute now, something will happen.

Raymond Carver

Sobre Drinking while driving

Não sou um poeta «nato». Muitos dos poemas que escrevo escrevo-os porque nem sempre tenho tempo para escrever ficção, o meu primeiro amor. Uma sequela deste meu interesse pela ficção leva a que, estando eu interessado numa linha ficcional, suponho que muitos dos meus poemas têm propensão narrativa. Gosto de poemas que me digam alguma coisa logo à primeira vista, embora haja poemas de que gosto muito e leio segunda, terceira e quarta vez para ver o que os faz funcionar. Em todos os meus poemas, o que procuro é determinado estado ou ambiente. Uso constantemente o pronome pessoal, embora muitos dos poemas que escrevo sejam pura invenção. É muito frequente, porém, os poemas terem pelo menos uma base falseada de realidade, que é o caso de «Drinking while driving».

O poema foi escrito há um par de anos. Creio que contém uma certa dose de tensão e agrada-me pensar que consegue apresentar uma sensação de perda e de débil desespero por parte de um narrador que parece — pelo menos a mim — perigosamente perdido. Quando escrevi o poema, estava num emprego das oito-às-cinco, numa posição de quadro mais ou menos decente. Mas, como sempre acontece com um emprego a tempo inteiro, não andava a escrever nem a ler nada. Era um exagero dizer «há seis meses que não leio um livro», mas na altura senti que não andava longe da verdade. Algum tempo antes de o poema surgir tinha lido The Retreat from Moscow [A Retirada de Moscovo] de Caulaincourt, um dos generais de Napoleão, e uma ou duas vezes durante esse período tinha dado umas voltas à noite com o meu irmão, no seu carro, sentindo-nos ambos sem objectivos e atados, e aplicámo-nos a uma garrafa grande Old Crow. Pelo menos, quando me sentei a escrever o poema, era uma vaga recordação destes factos que tinha na cabeça, a par dos meus próprios sentimentos muito reais da frustação dessa época. Acho que parte disto está lá.

Realmente, não sei dizer mais sobre o poema ou o processo. Não sei se o poema é bom, mas penso que tem o seu mérito. Posso dizer que é dos meus favoritos.

Raymond Carver, "Heroísmos não, por favor", Teorema, Lisboa, 1993

J'aime bien les Pommes de Terre

Ontem, enquanto descascava as ervilhas e as batatas novas para o jantar, lembrei-me do segundo tema para as minhas teses irrevelantes sobre cinema*. Nada mais nada menos do que: "A Influência das Batatas no Cinema Francês". Não estou a brincar, o tema é arrojado mas dá para mais de quinhentas páginas de análise profunda. Cem para "Os Respigadores e a Respigadora" de Agnès Varda, cem para "Les Enfants" de Marguerite Duras, cem para "L'Argent" de Robert Bresson (três filmes que muito estimo) e ainda uma introdução para explicar que as batatas vieram da América (estão as ver as possibilidades ideológicas?), entre outros considerandos científicos e poéticos. Tudo isto porque não me sai da cabeça a cena do último filme de Bresson em que a senhora de cabelos grisalhos vai ao quintal, pega numa pá, abre uns buracos na terra e retira algumas batatas para o avental. Não há diálogos nem música, só as imagens e os sons reais (neste filme o som é, digamos, "hiperreal", sempre mais intenso do que na realidade) e no entanto creio que está por aí a chave do filme.
Talvez substitua a palavra batata, demasiado vulgar, por tubérculo que é bastante feia mas garante (ou pelo menos assim parece) mais seriedade ao trabalho.
Cheguei ao fim da tarefa com as mãos um bocado esfaceladas, por causa da pele, tão fina e tão difícil de raspar, das batatas novas.

_______
*a primeira — "Sobre a Gastronomia em João César Monteiro, um relato" — aguarda a disposição necessária (e talvez um subsídio).

Sexta-feira, Abril 22

Gosto do tom

Ouvir é não pensar

Seguir um percurso: Peter Ablinger, no Decompor.

4'33''

Depois do cinema mudo, a música.

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Si les fleurs étaient en verre

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Creio que foi o ano passado que descobri o poema de Robert Desnos; há dias a Lídia levou-me aos arquivos da UBU, estava lá o filme de Man Ray; ontem, ao procurar um papel, dei com um programa da Odisseia das Imagens, repesquei o texto de Luís Miguel Oliveira:

O filme de Man Ray é de uma beleza assombrosa. Man Ray, dadaísta convertido ao surrealismo, trabalhou sobretudo na área da fotografia, dentro desta, dedicando uma particular atenção à "superfície" da imagem. E é precisamente com a "superfície" que tem que ver um dos efeitos mais belos de "L'Étoile de Mer": a colocação de um vidro à frente da objectiva, que enche a imagem de formas difusas e arredondadas, contribuindo para a criação de uma atmosfera de algum modo "líquida" não deixando ao mesmo tempo de evocar as pinceladas características de Van Gogh. Para além destes aspectos o filme patenteia um erotismo marcadamente surrealista, ou seja, sempre com qualquer coisa de "letal". De todas as maneiras, o filme de Man Ray é uma pequena obra-prima.

Robert Desnos | Man Ray | L'Étoile de Mer

Quinta-feira, Abril 21

A voz verdadeira

No filme de João César Monteiro sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, logo no início, vemos e ouvimos Sophia ler "A Menina do Mar" ao seu filho Xavier. Ele escuta com atenção mas depois queixa-se: "essa não é a tua voz verdadeira, foi inventada". Ora aí está o meu problema com a poesia, quero dizer, com a leitura em voz alta de poesia, a declamação: as vozes soam falsas.
A verdade é que prefiro ouvir os poemas de forma mais monocórdica, em surdina, na cabeça. Apesar dos acontecimentos mais recentes, creio que isto não tem nada a ver com Bresson.

take a walk on the wild side

Um amigo mandou-me este link. Entrei nas galerias, I thought I knew the forests:

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Schwarzwald: the fabled forest living a fairytale, fotografada por Yasunobu Kobayashi

A casa enche?

[No sábado à tarde quando o projeccionista apagou as luzes só estava eu na sala. "Adeus, Dragon Inn" era quase um reflexo. Passados dez ou quinze minutos entrou alguém, sentou-se na fila à minha frente, numa cadeira de canto. Saiu antes do fim. Depois do genérico levantei-me, o projeccionista ficou a arrumar as bobinas. Cá fora chuvia.]

O INDIELISBOA começa hoje em Lisboa. Nem tudo está perdido, o Passos Manuel promete uma extensão em Maio.

Locking Yourself Out, Then Trying to Get Back In

You simply go out and shut the door
without thinking. And when you look back
at what you've done
it's too late. If this sounds
like the story of a life, okay.

It was raining. The neighbours who had
a key were away. I tried and tried
the lower windows. Stared
inside at the sofa, plants, the table
and chairs, the stereo set-up.
My coffee cup and ashtray waited for me
on the glass-topped table, and my heart
went out to them. I said, Hello, friends,
or something like that. After all,
this wasn't so bad.
Worse things had happened. This
was even a little funny. I found the ladder.
Took that and leaned it against the house.
Then climbed in the rain to the deck,
swung myself over the railing
and tried the door. Which was locked,
of course. But I looked in just the same
at my desk, some papers, and my chair.
This was the window on the other side
of the desk where I'd raise my eyes
and stare out when I sat at that desk.
This is not like downstairs, I thought.
This is something else.

And it was something to look in like that, unseen,
from the deck. To be there, inside, and not be there.
I don't even think I can talk about it.
I brought my face close to the glass
and imagined myself inside,
sitting at the desk. Looking up
from my work now and again.
Thinking about some other place
and some other time.
The people I had loved then.

I stood there for a minute in the rain.
Considering myself to be the luckiest of men.
Even though a wave of grief passed through me.
Even though I felt violently ashamed
of the injury I'd done back then.
I bashed that beautiful window.
And stepped back in.

Raymond Carver, Where Water Comes Together With Other Water (Vintage Books)

Quarta-feira, Abril 20

Modelo 294/C (entregar no guichet nº3)

— Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Um manual de guerrilha escrito por Ray Bradbury. Na capa, uma fotografia da Julie Christie (que achas Rui, a moça deve aparecer nua? para despistar?)

— Já alguma vez ficaste apanhadinha por um personagem de ficção?
Ainda estou. Por quase todos.

— Qual foi o último livro que compraste?
On Photography, de Susan Sontag.

— Qual o último livro que leste?
Extinção, de Thomas Bernhard.

— Que livros estás a ler?
Entro e saio em várias pilhas de livros, os anos passam e isto não me serve para nada.

— Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Esta pergunta não está correcta, faltam informações mais precisas sobre o clima da ilha. Se for no norte e fizer frio levo cinco dicionários, por exemplo: português-russo; russo-alemão; alemão-italiano; italiano-grego; grego-português. Como vou estar entretida a traduzir em cadeia (para esquecer a minha triste situação), conto morrer ao fim de poucas páginas.
Se o clima for moderado, em vez dos livros (que — desculpem a repetição — não servem para nada), levo um escritor: Robert Walser, ele próprio. De manhã apanho amoras para o pequeno-almoço, à tarde passeamos junto ao vulcão e à noite ele adormece-me com histórias infantis. Acredito que seremos muito felizes.

— A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
Não vou passar. Sempre me vi como um beco sem saída, percebem o que isso quer dizer, não é?

conversa dos pintores sobre a cascata em Au Hasard Balhtazar


Gustave Courbet | Bonjour Monsieur Courbet | 1854 | óleo em tela | Musee Fabre, Montpellier

Não sei se Bresson se lembrou de Courbet, a Zazie sim, lembrou-se, e por causa disso eu fui rever o filme. Há um plano de Arnold, ou melhor, dos pés e das pernas de Arnold. Calça umas sandálias, puxa Balthazar e um outro burro. Em cima dos burros dois pintores conversam. Em fundo a cascata. O chão é difícil de percorrer, cheio de pedras. Isto é o que eles dizem:

o primeiro pintor: E das minhas telas sai uma multitude de estruturas que não domino, cada uma com a sua dialéctica. Não é a cascata que pretendo focar, mas o que ela me disser. Aliás, sem nenhuma relação lógica com ela. A queda de água é que me porá em movimento.

o segundo pintor: Uma pintura cerebral, uma pintura do pensamento?

o primeiro pintor: Uma pintura de acção, action painting.

Bresson, o mergulho

Filmagens: palavra que os homens da sétima arte sabem o que de batalha encerra. O Bresson seguro e determinado de que fala Leterrier, escreve para si mesmo: «Filmagens: só muito mais tarde saberás se o teu filme vale a cordilheira de montanhas-esforços que elas te estão custando.» Porque ele tem também consciência de que «quando um erro grave é aceite nas filmagens, a falha é irreparável.» E volta à carga: «Filmagens: o teu filme deve assemelhar-se ao que tu vês fechando os olhos [deves ser capaz, a todo o instante, do ver-ouvir, inteiro].» Contudo, estamos longe do prefabricado: «Os meus filmes sobem de jacto sempre que improviso, baixam de nível quando apenas executo.» Estado de constante agilidade inventiva, mas musculado de rigor: «Creio muito no trabalho intuitivo, mas naquele que foi precedido de uma longa reflexão.» O cinematógrafo de Bresson percorre as seguintes etapas: «O meu filme nasce pela primeira vez com a ideia inicial e morre no papel; é ressuscitado pelas pessoas vivas e os objectos que utilizo, os quais são mortos na película; mas uma vez colocados segundo uma determinada ordem e projectados no écran, reanimam-se como flores na água.»

Qual a maneira de encontrar essa «determinada ordem»? A que tiver a ver com a pessoa toda do autor: «Não escolhas [para assunto] nada que não tenha a ver com a tua experiência; que não esteja amalgamado com o teu viver.» Só esta fidelidade arrasta o poeta à invenção da sua linguagem, para com ela «fazer sentir» o que ele traz daquele perigoso mergulhar nas profundezas a que Rimbaud se referiu; mergulho para ir buscar o fogo que está no centro da Terra e no de cada humano. Porque o avanço do poeta leva-o cada vez mais longe no desconhecido de si próprio e cada vez mais perto do coração da Terra, ao qual o liga um cordão umbilical que lhe demarca as rotas de mergulho. Para avançar nessa linha — única condutora à chave dos enigmas — ele tem de escolher, no quotidiano da sua época [a superfície do Oceano energético que e a matéria-prima e demais seres] um ponto de mergulho. Depois, descer. Com fôlego para voltar à superfície e dar conta da viagem para bem comum. «Quanto mais fundo se mergulha,» adverte Rilke, «mais pessoal e única se torna a vida do mergulhador. A obra de arte é a expressão necessária, irrefutável e definitiva dessa realidade única. E nisso reside o prodigioso auxílio que a arte produzida traz ao que se vê forçado a produzi-la.» Intermediário, o poeta tem de aceitar que há coisas que só ele pode dar a conhecer. A angústia dessa descoberta é totalmente incompreensível para quem ignora o peso da obra por parir, as dores implícitas nesta advertência de Bresson a si próprio: «Faz com que apareça o que, sem ti, talvez nunca venha a ser visto.»

Nuno Bragança, 19 de Março de 1978 (excerto do texto publicado por ocasião do Ciclo Robert Bresson, organizado pela Embaixada de França e pela Fundação Calouste Gulbenkian em Abril de 1978, repescado ontem pela Zazie)

Terça-feira, Abril 19

Rectificação: não posso (não quero) esquecer Balthazar



... Figura de Cristo (a paixão, a subida ao Calvário — o que por alguns foi julgado fortemente blasfematório) é figura dum divino sem poder ("quis um burro preto, meio funcionário, meio padre", disse Bresson), de certo modo, figura também do ordenador que o realizador quer ser ("O burro sou eu" — também disse Bresson). É dele que vem a mise-en-ordre, que dispõe as peças soltas desta insólita narrativa (tão soltas que algumas há — como a conversa dos pintores sobre a cascata — que parecem não ter qualquer articulação com o resto). É dele que vem a carga mítica desta obra, polarizando num erotismo latente (referência à mitologia quando Gérard insinua uma relação burro-Marie), que não é dos seus múltiplos e complexos aspectos (inesgotáveis numa folha) nem o menos inquietante nem o menos ambíguo.
...

João Bénard da Costa, "Folhas da Cinemateca", Cinemateca Portuguesa, Setembro de 2001

Bresson foi embora

— Acabaste?
— Sim. Bresson foi embora.
— Estás cada vez pior.
— Esqueci-me de Balthazar...
— Devias ir passear.
— Bresson faz-me chorar.
— Deixa-te disso.

Par la fenêtre on ne sait pas quel est le paysage: une rue, un canal, la vue sur Delf, le port peut-être...

Onde está o dinheiro?


Yvon: Oh dinheiro, Deus invisível, o que é que eu não faria por ti!


a senhora de cabelos grisalhos: Se eu fosse Deus perdoaria a toda a gente.
Sois sûr d’avoir épuisé tout ce qui se communique par l’immobilité et le silence.
J-L Godard

Certaines scènes ont été coupées dans L'Argent

Il y a une scène de banque qui a été retournée trois fois et qui a été, finalement, supprimée. Il y avait beaucoup de choses concernant les distributeurs automatiques de billets qui ont été supprimées. Et comme M. Bresson aimait beaucoup cette séquence: les billets qui sortaient automatiquement, les mains qui les saisissaient, les portes des guichets qui s'ouvraient et qui se fermaient, les doigts qui faisaient des numéros, tout ce côté très visuel, la séquence a été supprimée du film, mais conservée dans le film-annonce.


Jean- François Naudon, responsável pela Montagem de L'Argent, entrevista recolhida em 23 de Agosto de 1986, publicada em "Robert Bresson", de Philippe Arnaud, Petite bibliothèque des cahiers du cinéma, 2003

Les bruits devaient devenir musique

J'ai travaillé à la fois de façon plus acharnée et d'une façon plus dégagée, plus libre, plus impulsive. J'aime que vous sentiez que je me suis attaché à la forme. Naturellement, mes non-acteurs vierges de tout art dramatique, ne parlent pas plus qu'il le faut et la voix humaine, le plus beau des bruits, prend place naturellement dans de monde des bruits qui fait pendant au monde des images. Dans mon prochain film la bande-son aura, je le voudrais, plus d'importance que dans celui-ci. Enfin, en tout cas, aura plus de mon attention et de ma sensibilité. J'ai dit et écrit il n'y a pas tellement longtemps que les bruits devaient devenir musique. Aujourd'hui, je crois qu'un film tout entier doit être musique, une musique, la musique de tous les jours, et je me suis surpris, dans ce film, L'Argent, lorsqu'il était projeté au montage, ne percevant que les sons, ne percevant pas les images qui défilaient devant mes yeux (...). C'est vrai je fais exprès d'ignorer la veille ce que je ferai le lendemain, afin d'avoir une impression spontanée très forte. Si travail égale trouvailles, on m'en fait aucune si on prépare tout à l'avance. Je crois à cette instantanéité.

Robert Bresson, em conversa com Serge Daney e Serge Toubiana, Cahiers du cinéma nº 348-349, Junho-Julho de 1983

Segunda-feira, Abril 18

O vento sopra onde quer

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Nas entrevistas que acompanham os filmes de Robert Bresson encontrei um homem reservado, quase tímido, muito cauteloso ou, melhor dito, atencioso com as palavras. Ele fala pouco, no entanto tudo o que diz é — não sei se posso classificar assim, mas é assim que sinto — extremamente puro. Por exemplo, numa conversa com Alain Bévérini (para a TFI, em 1983, por ocasião da apresentação de L'Argent em Cannes*), a um dado momento Bresson afirma: "Procuro a verdade". Faz uma pausa e corrige "ou a impressão da verdade". Esta correcção pode parecer insignificante mas não é, como tudo nos seus filmes.

__________
* refira-se, já agora, que esta entrevista foi, mais ou menos, realizada pelo próprio Bresson, daí um plano único e fixo, um enquadramento que evita o campo/contra-campo e outros pormenores estranhos à linguagem televisiva.

For Your Eyes Only

Numa outra entrevista, para a Télévision Suisse Romande, Christian Defaye pergunta a Bresson, quase a medo, se é mesmo verdade que ele foi ver um filme de James Bond. Bresson responde que sim, foi ver "For Your Eyes Only", de John Glen, com as netas e gostou muito. Ficou maravilhado, é precisamente isso que ele diz: maravilhado. A justificação é simples, o filme do agente secreto utiliza a verdadeira linguagem do cinematógrafo*, explica Bresson.


_________
* Duas breves explicações retiradas de Notas sobre o Cinematógrafo, de Robert Bresson (mais pormenores sobre o livro, nos arquivos):
Filme de cinematógrafo, onde a expressão se obtém por relações de imagens e de sons — e não por uma mímica, gestos e entoações de voz (de actores ou de não actores). Que não analisa nem explica. Que recompõe.( página 20)
Lembro-me de um velho filme : TRINTA SEGUNDOS SOBRE TÓQUIO. A vida ficava suspensa durante trinta segundos admiráveis, em que não se passava nada. Na realidade, passava-se tudo. Cinematógrafo, arte de, com imagens, não representar nada. (página 102)


Robert Bresson: Dans un film c'est l'homme qu'il faut. Un regard, pris à l'improvise, peut être sublime.

Domingo, Abril 17

Sobre Mouchette



— Se eu não estivesse próximo de Bernanos, não teria filmado Mouchette.

— Não conhecia Bernanos. O que lamento.

— A ausência de psicologia e de análise nos seus livros coincide com a ausência de psicologia e de análise nos meus filmes.

— A sua óptica, as suas perspectivas em relação ao sobrenatural são sublimes. Pela minha parte, sempre considerei o sobrenatural como real preciso.

— O que me afasta dele? A ênfase, por vezes o pitoresco.

— O que aproxima? É o pensamento da morte? Sem dúvida.

— A angústia? Admiro-me muitas vezes de ver pessoas tranquilas.

— O sentimento da solidão dos seres e o que subitamente os une? A incomunicabilidade, justamente, é ela que torna possíveis a união, a comunhão.

— As dificuldades que encontrei na escrita do filme? A pior: tornar Mouchette suportável sem o suavizar, nem sequer pensei nisso.
As outras... Fazer um filme é encontrar-se sempre perante uma montanha de dificuldades e vencê-las

— O que na personagem de Mouchette me atraiu e comoveu particularmente: além do seu heroísmo, a sua resistência ao atroz, a revelação que essa criança espera da morte, mil aspectos extraordinariamente justos

Robert Bresson (responde à maneira de prefácio), retirado do programa que acompanhou a estreia de Mouchette no cinema Vox, editado por Animatógrafo e Filmes Lusomundo e organizado por Lauro António


... now I'll tell you something about Mouchette. It starts with a friend who sees the girl sitting and crying, and Mouchette says to the camera, how shall people go on living without me, that's all. Then you see the main titles. The whole picture is about that. She's a saint and she takes everything upon herself, inside her, everything that happens around her. That makes such an enormous difference that such people live among us. I don't believe in another life, but I do think that some people are more holy than others and make life a little bit easier to endure, more bearable. And she is one, a very, very simple one, and when she has assumed the difficulties of other human beings, she drowns herself in a stream.

Ingmar Bergman