Sábado, Abril 16

Mon nom est Jeanne

Quando perguntam a Florence Delay porque é que Bresson a escolheu para ser Jeanne d'Arc, ela hesita. A primeira coisa que lhe ocorre é "pela inocência" e tem razão, mas reflete e prefere explicar que foi "pela sua doçura" e tem ainda mais razão.

Passados estes anos todos é tocante ouvi-la falar sobre a rodagem do filme e sobre Bresson como se tudo tivesse acabado de acontecer. Florence Delay descreve Jeanne como um verdadeiro poeta, "e por poeta quero dizer um homem de acção, ou uma rapariga de acção, como quiserem".

Numa entrevista, citada nas "Folhas da Cinemateca, Robert Bresson diz mais ou menos a mesma coisa: "O aspecto particular deste filme é que o ritmo das palavras arrastou o ritmo das imagens. Pode dizer-se muito justamente que, sem saber escrever, Joana de Arc escreveu um livro e que esse livro é uma obra-prima da literatura".

je veux le toucher par le coeur, sans explication

Jeanne illustre une loi humaine, celle du qui perd gagne. Pour gagner il faut perdre jusqu'au bout, pour accéder au royaume des grandes choses, même terrestres. Mon idée, c'est que Jeanne est tout à fait à part dans la famille des mystiques. Elle avait les pieds sur terre et parlait tout naturellement des choses de là-haut, de ses apparitions, comme des choses les plus ordinaires du monde... Quant à moi, j'ai confiance dans le coeur du public; je veux le toucher par le coeur, sans explication.

Robert Bresson, Les Lettres françaises, 24 mai 1962


[flash-back:] Estamos no restaurante, enquanto como o arroz e bebo o vinho vou contando as minhas pequenas desgraças, um jantar é bom para isso. Depois arrumo o assunto triste e começo a explicar a arquitectura-lego que ando a construir: o átrio que Bernhard percorre de um lado para o outro, com Austerlitz e Glenn Gould no encalço. "É no edifício da Alfândega?", pergunta ele. Não, não é, não existe, é na minha cabeça. O átrio é um corredor, com trinta e tal metros, as paredes altas, despido, frio, sem nenhuma decoração... Em seguida descrevo o quarto em ruínas, sem tecto, onde a chuva entra, onde estão Tarkovski e Bach, "os dois são iguais, compreendes?". Não, mas mesmo assim ele continua "isso é uma casa?" e eu nem sei que responder, quase caio numa redundância, "não, não é bem uma casa, são vários espaços, às vezes com paredes, nem todos estão ligados". Resolvo divertir-me: "se fosse uma casa, a piscina seria governada pelo comandante Zissou e o quarto de banho, enorme, com várias janelas e uma banheira também enorme colocada exactamente no centro, pelo professor de natação, João César Monteiro". Rimo-nos. Ele diz que entende, que "João César Monteiro tem a ver com azulejos". A conversa já não faz sentido, nem nunca fez, aliás. É então que ele avança para a pergunta-chave da noite: "E onde é que está Bresson , na tua construção?" Ele não conhece Bresson, está apenas a acompanhar as deixas, fá-lo tão bem que sou obrigada a responder: "Não sei, ainda não sei, creio que na cela de Jeanne, sozinho".

Quinta-feira, Abril 14

Incertitude

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O primeiro titulo de Pickpocket foi Incertitude.

Alguém disse que Pickpocket era o filme mais "branco" da história do cinema.

Robert Bresson descreveu-o como um filme de mãos, objectos, olhares. Nada para além disso e no entanto quanta metafísica nos olhares. Há um movimento repetido, os modelos (sigo a denominação de Bresson e, na verdade, não os posso classificar como actores, porque o não são) baixam e depois erguem os olhos e é aí que nos agarram, de uma forma irreversível. É mais do que a beleza de que fala Susan Sontag, é mais. É aquela luz que Michel vê em Jeanne, na última cena, através das grades?

Num documentário que acompanha o filme (Les Modèles de Pickpocket, de Babette Mangolte, 2003), os três actores de Pickpocket explicam que em 1959 eram muito novos e estavam subjugados por Bresson, faziam tudo o que ele queria, sem motivos, sem explicações, como autómatos. Um estado muito perto da paixão.

Agora devia ouvir-se a música de Jean-Baptiste Lulli.

o que eles são


...cada plano é como uma palavra, que em si mesma não significa nada, ou antes significa tantas coisas que no fundo não tem significado nenhum. Mas uma palavra num poema é transformada, o seu significado torna-se preciso e único, ao ser posta em relação com as palavras que a rodeiam: do mesmo modo, um plano num filme ganha significado graças ao contexto, e cada plano modifica o significado do anterior até que com o plano final se atinge um sentido total, que não se pode parafrasear. Representar não tem nada a ver com isto, não pode ser mais do que um obstáculo. Os filmes só se podem fazer ultrapassando a vontade daqueles que neles aparecem; servindo-se não do que eles fazem, mas do que eles são.

Robert Bresson, citado por Susan Sontag em "O estilo espiritual nos filmes de Robert Bresson" in Contra a Interpretação (e outros ensaios), Gótica, Março de 2004
1934 > Les Affaires Publiques
Inédito comercialmente em Portugal
Primeira apresentação em Portugal: Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, a 1 de Junho de 1990

1944 > Les Anges du Péché
Estreia mundial: 23 de Junho de 1944
Inédito comercialmente em Portugal
Primeira apresentação em Portugal: Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, integrado no Ciclo Robert Bresson, a 5 de Abril de 1978

1945 > Les Dames du Bois de Boulogne
Estreia mundial: Paris, 21 de setembro de 1945
Inédito comercialmente em Portugal
Primeira apresentação em Portugal: Cine Clube do Porto, Cinemas Batalha e Águia de Ouro, a 21 de Novembro de 1954

1951 > Journal d'un Curé de Campagne
Estreia mundial: Festival de Veneza, 1951
Inédito comercialmente em Portugal
Frequentes exibições, em cine-clubes, nos anos 50, em cópia jamais distribuída
Primeira apresentação em Portugal: Iniciativa do Centro Cultural de Cinema (Cine-clube de universitários para uma cultura cristã) a 30 de Maio de 1957, no Jardim Cinema

1956 > Un Condamné à Mort s'est Echappé (ou Le Vent Souffle ou Il Veut)
Estreia Mundial: Paris, 4 de Dezembro de 1956
Estreia em Portugal: Cinema Império, a 14 de Abril de 1959

1959 > Pickpocket
Estreia Mundial: Paris, 12 de janeiro de 1960
Estreia em Portugal: Cinema Tivoli, 26 de Junho de 1961

1962 > Procès de Jeanne d'Arc
Estreia Mundial: Festival de Cannes, 30 de Maio de 1962
Inédito comercialmente em Portugal
Primeira apresentação em Portugal: nos anos 60, em sessão privada no São Luiz

1966 > Au Hasard Balthazar
Estreia Mundial: Paris, 6 de Maio de 1966
Ante-Estreia em Portugal: Cinema Londres, a 26 de Novembro de 1972
Estreia em Portugal: Cinema Satélite, a 12 de Julho de 1974

1967 > Mouchette
Estreia Mundial: Paris, 28 de Maio de 1967
Estreia em Portugal: Cinema Vox, a 3 de Julho de 1972

1969 > Une Femme Douce
Estreia Mundial: Paris, 28 de agosto de 1969
Estreia em Portugal: Cinema Estúdio (Porto), a 21 de Julho de 1970

1971 > Quatre Nuits d'un Rêveur
Estreia em Portugal: Lisboa (cinema Estúdio), 5 de Janeiro de 1972

1974 > Lancelot du Lac
Estreia Mundial: Festival de Cannes, Maio de 1974
Estreia em Portugal: Cinema Ávila, em 29 de Maio de 1998

1977 > Le Diable Probablement
Estreia Mundial: Paris, 14 de Junho de 1997
Inédito comercialmente em Portugal
Primeira apresentação em Portugal: Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, integrado no Ciclo Robert Bresson, em Abril de 1978

1983 > L'Argent
Estreia Mundial: Paris, 18 de Maio de 1983, depois de exibido no Festival de Cannes, Maio de 1983
Inédito comecialmente em Portugal
Primeira apresentação em Portugal: Cinemateca Portuguesa, a 19 de Setembro de 1983

retirado de "Folhas da Cinemateca", Cinemateca Portuguesa, Setembro de 2001

Quarta-feira, Abril 13

recebe o sal da sabedoria


… Bresson a introduit la plus grande nouveauté que l’on pouvait, à cette époque, introduire dans le cinéma, à savoir la pensée. Et cette pensée n’était pas immédiatement apparente (…) Ce que les hommes seuls faisaient jusqu’ici, de la poésie, de la littérature, Bresson l’a fait avec le cinéma. On peut penser que jusqu’alors le cinéma était parasitaire, il procédait d’autres Arts et qu’avec Bresson on est entré avec lui dans le cinéma pur et d’un seul. "Au Hasard Balthazar", c’est peut-être le film que j’ai vu qui correspond le plus à une création solitaire donc à la création proprement dite.

Marguerite Duras

Robert Bresson nasce a 25 de Setembro de 1901,

no solar de uma antiga família em Bromont-Lamothe (Puy-de-Dôme). Frequenta o Liceu Lakanal (Sceaux), onde termina o bacharelato em Latim, Grego e Filosofia antes de se dedicar à Pintura, que estuda e pratica numa altura em que também colecciona pintura contemporânea, sobretudo obras de Max Ernst, de quem é amigo.

Sobre este período da sua vida, confidencia em entrevista ao Le Monde, em 1971: "aos 17 anos não tinha lido nada e nem sequer compreendia como tinha conseguido passar os exames de bacharel. Aquilo que recebia da vida não eram ideias traduzidas em palavras, eram sensações. Música e Pintura — formas, cores — eram para mim mais verdadeiras que todos os livros conhecidos. Nessa época, um romance parecia-me uma farsa. Mais tarde, e com que apetite (!), tal era a necessidade que sentia, lancei-me sobre Stendhal, sobre Dickens, sobre Dostoievski, e ao mesmo tempo sobre Mallarmé, Apollinaire, Max Jacob, Valéry. Montaigne e Proust — pensamento, língua — impressionaram-me prodigiosamente".

A atracção pelo cinema, a que chega depois da pintura e da fotografia, remonta ao fim dos anos 20, sobretudo a partir da "descoberta" de Charles Chaplin, Robert Flaherty e Jean Cocteau. Na década de 30, adquire o essencial da sua formação intelectual e artística, bem como o cristianismo rigoroso (que normalmente se associa ao jansenismo, tão referido a propósito da sua obra), a tendência para o isolamento e também para a investigação em torno das artes visuais.

...

João Bénard da Costa, "Folhas da Cinemateca", Cinemateca Portuguesa, Setembro de 2001

Comemorar

Desde o ano passado que os sites dedicados (por exemplo, este) prometiam a edição, em DVD, de vários filmes de Robert Bresson. A operação já está em curso, on dit: l' événement Bresson.

(Mon coeur reste toujours le même)

Terça-feira, Abril 12

o coração de Michel estremeceu duas vezes



Foi um dos primeiros filmes que gravei no aparelho enorme e pesado que os meus pais tinham acabado de comprar, há mais de vinte anos. Vi-o vezes sem conta, já não me lembro o que é que me atraía. Ontem à noite decidi que foi aquela frase que Michel diz, depois do primeiro roubo, nas corridas, e antes de ser preso: "Os meus pés já não tocavam o chão. Dominava o mundo". Eu tinha a idade em que se compreende, como nunca mais depois, essa levitação. Mas a memória é traiçoeira, talvez tenham sido as semelhanças com o herói de Crime e Castigo (vejo agora que nem são assim tão profundas) ou, sabe-se lá, outro pormenor (é dos pormenores que mais gosto). Com o tempo a fita foi-se gastando e um dia ficou completamente estragada. Ontem vi o filme com o coração aos saltos, como Michel antes do roubo, ou no fim, quando percebe tudo que vale a pena perceber.

da beleza (take #2)

Além de recusarem o visual, os últimos filmes de Bresson renunciam também ao «bonito». Nenhum dos seus actores não-profissionais são bonitos num sentido exterior. A primeira reacção, ao ver Claude Laydu (o padre de Journal d’un curé de campagne), François Leterrier (Fontaine de Un condamné à mort s’est échappé), Martin Lassalle (Michel, em Pickpocket), e Florence Carrez (Jeanne, em Le procès de Jeanne d’Arc), é achá-los feios. Depois, a partir de um certo ponto qualquer, começamos a ver os rostos como extraordinariamente belos.

Susan Sontag, "O estilo espiritual nos filmes de Robert Bresson" in Contra a Interpretação (e outros ensaios), Gótica, Março de 2004

pickpocket



Ce film n'est pas du style policier.
L'auteur s'efforce d'exprimer, par des images et des sons, le cauchemar d'un jeune homme poussé par sa faiblesse dans une aventure de vol à la tire pour laquelle il n'était pas fait.
Seulement cette aventure, par des chemins étranges, réunira deux âmes qui, sans elle, ne se seraient peut-être jamais connus.

Segunda-feira, Abril 11

Il ne faut pas chercher, il faut attendre

Acabou-se a Casa da Música, a Extinção de Bernhard, os outros filmes, os concertos, o diário da Alejandra Pizarnik, o boletim metereológico. Está tudo suspenso neste blogue; a partir de agora só existe Robert Bresson.

agenda mínima

"Toca segredos mudos que só o cinema pode descobrir", disse Bergman sobre Persona

Hoje: o Príncipe Míchkin faz 43 anos. So, happy birthday dear boy!

Fui buscar os filmes de Robert Bresson aos correios. São três, estão aqui ao meu lado. Sinto o coração aos pulos e as mãos a tremer, não reuno as condições necessárias para trabalhar. O que é que a lei laboral prevê para este tipo de situação?

Amanhã: perder os Tuxedomoon, pela segunda vez, é crime premeditado?

Domingo, Abril 10

O desejo de respirar dentro de água*

Quando era miúda queria, entre outras coisas, fazer parte das "equipas que filmam documentários sobre animais, em África". Mais tarde tornei-me precisa: "só me interessam os documentários subaquáticos, ao largo dos continentes". Hoje percebi, finalmente e sem qualquer dúvida, que o que eu desejava, desde sempre, era ser um elemento da tripulação de Zissou. Nem mais, nem menos. Quero lá saber se é o melhor (ou pior) filme de Wes Anderson. Nem me interessa apurar se combina bem com Buñuel. De zero a cinco, dou seis estrelas (mais uma, só para o Bill Murray). É um dos meus filmes, para rever (e voltar a rever).

Confesso, afinal havia um motivo:

Escolhi o meu lugar, que é o do mistério

«O ateísmo — pelo menos o meu — conduz necessariamente a aceitar o inexplicável. Todo o nosso universo é mistério.

Uma vez que me recuso a fazer intervir uma divindade organizadora, cuja acção me parece ainda mais misteriosa do que o mistério, só me resta viver numa certa treva. Aceito-a. Nenhuma explicação, mesmo a mais simples, vale para todos. Entre dois mistérios, escolho o meu, porque preserva ao menos a minha liberdade moral.

Objectar-me-ão: e a ciência? Não me tenta ela, por outras vias, reduzir o mistério que nos cerca?
Talvez. Mas a ciência não me interessa. Parece-me pretenciosa, analítica e superficial. Ignora o sonho, o acaso, o riso, o sentimento, a contradição, tudo coisas que me são preciosas. Uma personagem de Via Láctea dizia: "O meu ódio pela ciência e o meu desprezo pela tecnologia ainda acabarão por me levar a essa absurda crença em Deus". Não acabam. No que me diz respeito, é mesmo completamente impossível. Escolhi o meu lugar, que é o do mistério. Só me resta respeitá-lo».

excerto de "O Meu Último Suspiro", de Luis Buñuel, citado no Catálogo da Cinemateca, Lisboa, 1982

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Projecto de Conto

É uma soirée que dou em minha casa e que acaba catastroficamente. Sou obrigado a ir a casa de um cientista, amigo meu, onde se passam coisas gradas. De ali, vou cair ao Hospital de Fora, de Toledo, que também tem muito que se lhe diga. Finalmente, morro, não sem fazer testamento - verás que testamento! - e, por fim...

Meu dito, meu feito, só me sobrou o tempo de morrer com decência. Quatro gatos pingados apoderam-se do meu corpo, levando-o para a igreja do lado a fim de procederem ao enterro. Retiram a laje infecta do sepulcro do cardeal Tavera e, expulsando a imunda carcaça, que tiveram de atirar a um cemitério de mulas porque já nem os pobres a queriam, meteram-me ali para sempre.

DESCANSEM EM PAZ OS TAPA-SARDAS!!!


Luis Buñuel, tradução de Mário Cesariny, Assírio & Alvim