
«A sua (de Luis) alimentação quotidiana era comparável à dum esquilo e, com temperaturas abaixo de zero, apesar da neve, usava muito pouca roupa e andava com os pés nus numas sandálias de monge. O meu pai ficava zangadíssimo. Orgulhoso, no fundo, de ter um filho capaz de tais coisas, não o mostrava e zangava-se quando o via levantar uma perna e depois a outra para lavar os pés na água gelada dum lavatório, operação que repetia com a mesma frequência com as mãos. Tinhamos nessa altura (ou talvez mais cedo, nunca me entendi bem com datas) uma enorme ratazana do tamanho de uma lebre, sujíssima e de rabo áspero, que tratávamos como se fosse da família. Levávamo-la connosco, em todas as viagens, numa gaiola de papagaio e durante muito tempo complicou-nos bastante a vida. A pobrezinha morreu como uma santa, com sintomas mais que evidentes de envenenamento. Tínhamos cinco criadas e nunca conseguimos descobrir qual delas foi a assassina. Esquecêmo-la em menos tempo do que o cheiro dela levou a desaparecer.
Sempre tivemos animais: macacos, papagaios, falcões, sapos, rãs, uma ou duas cobras, e um grande lagarto africano que a cozinheira, apavorada, esmagou sadicamente em cima do fogão com um ferro da cozinha.
Nunca mais me esqueci do carneiro Gregorio que me ia partindo o fémur e a bacia quando eu tinha dez anos. Creio que tinha vindo de Itália, muito novo. Foi sempre falsíssimo e gostava muito mais de Néné, o cavalo.
Tínhamos uma grande caixa de chapéus, de cartão, cheia de ratos cinzentos. O Luis era o dono deles e só me deixava vê-los uma vez por dia. Tinha escolhido alguns casais que, bem alimentados e estupidificados, procriavam incessantemente. Antes de partir, levava-os para o sótão e com grande escândalo do caseiro, restituía-lhes a liberdade e recomendava-lhes que "crescessem e se multiplicassem".
Sempre amámos e respeitámos tudo o que vive, mesmo de vida vegetal. Penso que todos eles, também, nos amavam e respeitavam. Podíamos atravessar uma selva cheia de feras, como as dos livros de Salgari, sem correr qualquer risco. Única excepção: AS ARANHAS.
Horrendos e horríveis monstros esses, que a qualquer minuto nos podem privar da alegria de viver. Uma estranha morbidez buñuelesca fez sempre delas o tema principal das nossas conversas em família. As nossas histórias acerca das aranhas são fabulosas (...)
(...) Durante um dos verões que passámos em Calanda, tivemos a "grande aventura" da nossa infância. O Luis devia ter nessa altura 13 ou 14 anos. Decidimos ir a uma aldeia das redondezas, sem licença dos nossos pais. Estávamos com uns primos da nossa idade e saímos de casa, nem sem bem porquê, vestidos como se fôssemos para uma festa. A aldeia, a cinco quilómetros dali, chamava-se Foz. Tínhamos lá terras e caseiros. Visitamo-los todos e ofereceram-nos vinho doce e bolos de azeite. O vinho deu-nos uma tal euforia e uma tal coragem que resolvemos ir ao cemitério. Pela primeira vez na minha vida, visitei um sítio desses, sem medo nem espanto. Lembro-me do Luis estendido na mesa das autópsias a pedir que lhe tirassem as vísceras. Também me lembro da força que tivemos que fazer para tirar a cabeça duma das nossas irmãs dum buraco que o tempo tinha feito numa sepultura. Tinha-a metido lá tão bem ou tão mal que o Luis teve de arrancar pedaços de gesso com as unhas para a libertar.
(...) Depois da nossa visita inconscientemente sacrílega ao cemitério, decidimos voltar para casa por montes e vales, sem uma árvore e com um calor de rachar, à procura da para nós fabulosa gruta "Morena". O vinho doce continuava a ajudar-nos e por isso fomos capazes de fazer o que as pessoas crescidas não são: saltar para dento dum buraco fundo e estreito, subir por outro, horizontal, e chegar à primeira caverna. O nosso único equipamento de espeleólogos era um bocado de vela, que tinha ficado de algum enterro, e que tínhamos trazido do cemitério. Enquanto deu luz, andámos. De repente, acabou-se tudo: luz, coragem e alegria. Ouvíamos bater as asas dos morcegos que o Luis nos dizia serem pré-históricos, mas que sabia defender-nos deles. Algum tempo depois, um de nós disse que tinha fome. O Luis ofereceu-se, heroicamente, para ser comido. Já nessa altura, ele era o meu ídolo e desatei a choorar, pedindo para me comerem antes a mim, que era a mais nova, a mais tenra e a mais estúpida da primeira série de irmãos e irmãs.
Esqueci-me da angústia daquelas horas, como nos esquecemos das dores físicas. Mas lembro-me muito bem da alegria que tivemos quando nos encontraram e do medo do castigo. Não o houve, devido à nossa lamentável situação. Voltámos "ao doce lar" numa carroça puxada por Néné. O meu irmão desmaiara, não sei se com a bebedeira, a insolação, ou por táctica.
(...)
«Recuerdos» de Conchita Buñuel, citados por João Bénard da Costa no Catálogo da Cinemateca, Lisboa, 1982