Sábado, Abril 9

A mim fazia-me jeito

A mim fazia-me jeito
Lágrimas ou salgueiro sobre a margem
de dentes de ouro
de diamantes de pólen
como a boca de uma rapariga
de cujos cabelos brotava o rio
em cada gota um peixe
em cada peixe um dente de ouro
em cada dente de ouro um sorriso de quinze anos
para que se reproduzam as libélulas.
Quando o vento lhe destapa as coxas
é inocente uma donzela?

Luis Buñuel, tradução de Mário Cesariny, Assírio & Alvim

Me gusta Luis Buñuel



He adorado los "Recuerdos entomológicos" de Le Fabre; Me ha gustado Sade; He adorado a Wagner; Me gusta comer temprano, acostarme y levantarme pronto; Me gusta el norte, el frío y la lluvia; Me gusta el ruido de la lluvia; Me gusta verdaderamente el frío; No me gustan los países cálidos; No me gustan el desierto, la arena, la civilización árabe, la india, ni, sobre todo, la japonesa; Adoro los relatos de viajes por España; Me gusta la novela picaresca; Detesto el pedantismo y la jerga; No me gustan mucho los ciegos; Detesto a muerte a Steinbeck; Siento horror a los fotógrafos de prensa; Siento horror a las multitudes; Me gustan "Senderos de Gloria", de Kubrick, "Roma" ,de Fellini, "El acorazado Potemkin", de Eisenstein, "La grande bouffe", de Marco Ferreri, "Goupi, mainsrouges", de Jackes Becker y "Juegos prohibidos", de Rene Clement; Me gustaron mucho las primeras películas de Fritz Lang, Buster Keaton y los hermanos Marx, "El manuscrito encontrado en Zaragoza", novela de Potocky, y película de Has; Me gustan mucho las películas de Renoir hasta la guerra y "Persona", de Bergman; De Fellini me gustan también "La strada", "Las noches de Cabiria", "La dolce vita"; De Vittorio de Sica me gustaron mucho "Sciuscia (El limpiabotas)", "Umberto D" y "El ladrón de bicicletas"; Me han gustado mucho las películas de Eric Von Stroheim y de Sternberg; He detestado "De aquí a la eternidad"; Me gustan mucho Wajda y sus películas; Me gustaron "Manon", de Clouzot y "Atalante", de Jean Vigo; Me entusiasmó "Portrait of Jenny"; Detesté "Roma, ciudad abierta", de Rosellini; De Carlos Saura, aragonés como yo ... me gustaron mucho "La caza" y "La prima Angélica"; Me gustó "El tesoro de sierra madre", de John Huston; Adoro los pasadizos secretos; Me gustan las armas y el tiro; Me gustan los bastones-espada; No me gustan las estadísticas; Me gustan las culebras y sobre todo las ratas; Siento horror a la vivisección; Me gustaba la ópera; Adoro los disfraces; Me gustan el arte románico y el gótico; Detesto mortalmente los banquetes y las entregas de premios; Me gustan los arenques en aceite; Me gusta la observación de los animales; No me gustan los poseedores de la verdad; No me gustan la psicología, el análisis y el psicoanálisis; Me gustan las manías; Amo la soledad; Siento un profundo horror a los sombreros mexicanos; Me gustan los enanos; No me gusta el espectáculo de la muerte; Entre los siete pecados capitales, el único que detesto verdaderamente es la envidia; No me gusta la política; Detesto la publicidad; Me gustan los claustros; Me gustan los pastelazos.

excertos de "O Meu Último Suspiro", de Luis Buñuel

Sexta-feira, Abril 8

Me gustan y no me gustan las arañas



«A sua (de Luis) alimentação quotidiana era comparável à dum esquilo e, com temperaturas abaixo de zero, apesar da neve, usava muito pouca roupa e andava com os pés nus numas sandálias de monge. O meu pai ficava zangadíssimo. Orgulhoso, no fundo, de ter um filho capaz de tais coisas, não o mostrava e zangava-se quando o via levantar uma perna e depois a outra para lavar os pés na água gelada dum lavatório, operação que repetia com a mesma frequência com as mãos. Tinhamos nessa altura (ou talvez mais cedo, nunca me entendi bem com datas) uma enorme ratazana do tamanho de uma lebre, sujíssima e de rabo áspero, que tratávamos como se fosse da família. Levávamo-la connosco, em todas as viagens, numa gaiola de papagaio e durante muito tempo complicou-nos bastante a vida. A pobrezinha morreu como uma santa, com sintomas mais que evidentes de envenenamento. Tínhamos cinco criadas e nunca conseguimos descobrir qual delas foi a assassina. Esquecêmo-la em menos tempo do que o cheiro dela levou a desaparecer.

Sempre tivemos animais: macacos, papagaios, falcões, sapos, rãs, uma ou duas cobras, e um grande lagarto africano que a cozinheira, apavorada, esmagou sadicamente em cima do fogão com um ferro da cozinha.

Nunca mais me esqueci do carneiro Gregorio que me ia partindo o fémur e a bacia quando eu tinha dez anos. Creio que tinha vindo de Itália, muito novo. Foi sempre falsíssimo e gostava muito mais de Néné, o cavalo.

Tínhamos uma grande caixa de chapéus, de cartão, cheia de ratos cinzentos. O Luis era o dono deles e só me deixava vê-los uma vez por dia. Tinha escolhido alguns casais que, bem alimentados e estupidificados, procriavam incessantemente. Antes de partir, levava-os para o sótão e com grande escândalo do caseiro, restituía-lhes a liberdade e recomendava-lhes que "crescessem e se multiplicassem".

Sempre amámos e respeitámos tudo o que vive, mesmo de vida vegetal. Penso que todos eles, também, nos amavam e respeitavam. Podíamos atravessar uma selva cheia de feras, como as dos livros de Salgari, sem correr qualquer risco. Única excepção: AS ARANHAS.

Horrendos e horríveis monstros esses, que a qualquer minuto nos podem privar da alegria de viver. Uma estranha morbidez buñuelesca fez sempre delas o tema principal das nossas conversas em família. As nossas histórias acerca das aranhas são fabulosas (...)

(...) Durante um dos verões que passámos em Calanda, tivemos a "grande aventura" da nossa infância. O Luis devia ter nessa altura 13 ou 14 anos. Decidimos ir a uma aldeia das redondezas, sem licença dos nossos pais. Estávamos com uns primos da nossa idade e saímos de casa, nem sem bem porquê, vestidos como se fôssemos para uma festa. A aldeia, a cinco quilómetros dali, chamava-se Foz. Tínhamos lá terras e caseiros. Visitamo-los todos e ofereceram-nos vinho doce e bolos de azeite. O vinho deu-nos uma tal euforia e uma tal coragem que resolvemos ir ao cemitério. Pela primeira vez na minha vida, visitei um sítio desses, sem medo nem espanto. Lembro-me do Luis estendido na mesa das autópsias a pedir que lhe tirassem as vísceras. Também me lembro da força que tivemos que fazer para tirar a cabeça duma das nossas irmãs dum buraco que o tempo tinha feito numa sepultura. Tinha-a metido lá tão bem ou tão mal que o Luis teve de arrancar pedaços de gesso com as unhas para a libertar.

(...) Depois da nossa visita inconscientemente sacrílega ao cemitério, decidimos voltar para casa por montes e vales, sem uma árvore e com um calor de rachar, à procura da para nós fabulosa gruta "Morena". O vinho doce continuava a ajudar-nos e por isso fomos capazes de fazer o que as pessoas crescidas não são: saltar para dento dum buraco fundo e estreito, subir por outro, horizontal, e chegar à primeira caverna. O nosso único equipamento de espeleólogos era um bocado de vela, que tinha ficado de algum enterro, e que tínhamos trazido do cemitério. Enquanto deu luz, andámos. De repente, acabou-se tudo: luz, coragem e alegria. Ouvíamos bater as asas dos morcegos que o Luis nos dizia serem pré-históricos, mas que sabia defender-nos deles. Algum tempo depois, um de nós disse que tinha fome. O Luis ofereceu-se, heroicamente, para ser comido. Já nessa altura, ele era o meu ídolo e desatei a choorar, pedindo para me comerem antes a mim, que era a mais nova, a mais tenra e a mais estúpida da primeira série de irmãos e irmãs.

Esqueci-me da angústia daquelas horas, como nos esquecemos das dores físicas. Mas lembro-me muito bem da alegria que tivemos quando nos encontraram e do medo do castigo. Não o houve, devido à nossa lamentável situação. Voltámos "ao doce lar" numa carroça puxada por Néné. O meu irmão desmaiara, não sei se com a bebedeira, a insolação, ou por táctica.
(...)


«Recuerdos» de Conchita Buñuel, citados por João Bénard da Costa no Catálogo da Cinemateca, Lisboa, 1982

Quinta-feira, Abril 7

Me gusta la puntualidad*

Amanhã, Luis Buñuel apresentar-se-à ao serviço. Sem motivo aparente.

strangers talk only about the weather #16



O clima é temperado marítimo e suave por influência da corrente do Golfo. A temperatura do ar atinge valores médios de 13°C no Inverno ou 23°C no Verão e a temperatura da água oscila entre 17°C e 24°C.

O INSIGNIFICANTE

O que há de mais atrativo que o azul, a não ser uma nuvem, na dócil claridade?
Por isso prefiro ao silêncio uma teoria qualquer e, mais ainda, a uma página branca um escrito quando passa por insignificante.
É todo meu exercício e meu suspiro higiênico.


Francis Ponge, tradução de Júlio Castañon Guimarães, in O Poema

Quarta-feira, Abril 6

Habituellement expédié sous 7 à 8 jours

Conferi o extracto do banco e resolvi investir parte do ordenado em aulas:

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Senta-te e cala-te

Quando lá estive, o Auditório não tinha janelas, as cadeiras eram empilháveis e a Carla Bley tocava por cima do barulho de S. João da Rotunda da Boavista. Agora está tudo — ou quase tudo — em ordem (sim, leia-se a palavra com a ironia suficiente). Disseram-me que as cadeiras do Auditório são muito sofisticadas, por outro lado, acrescentaram, são bastante incómodas. Ora aí está um problema: como desenhar um objecto perfeito para os olhos e para o corpo? Desde as cadeiras da Casa das Artes (de Eduardo Souto Moura), tão bonitas quanto incómodas, que sonho com isso.

Informe #9 [falso]

5 de julio, 1955

Pensando sobre a obra literaria.
Lo mejor que se me ocurre es uns especie de diario dirigido a (supongamos, Andrea). Es decir; no serían cartas ni un diario común. Podría estar dividido en dos o tres partes. Una dedicada al amor, la otra a la angustia, la tercera a mon dieu!, acá ya sería cuestión de resolverse, de elegir: o captar al mundo o rechazarlo.
...

Alejandra Pizarnik, Diarios, Lumen, noviembre 2003

Terça-feira, Abril 5

Proibida a entrada a pessoas não autorizadas

Pedi a um colega que pediu a um amigo (uma espécie de segundo agente infiltrado), algumas fotografias da Casa da Música (para juntar às tuas, Carla). Chegaram hoje, são quarenta e oito imagens rápidas, tiradas em finais de Março: Auditórios, salas VIP, o terraço, uma tomada esquecida por trás de uma parede de rede, os órgãos falsos, corredores, escadas, tectos, lixo de obras espalhado, fitas vermelhas às riscas a vedar o caminho.

O rapaz esqueceu-se de fotografar as casas de banho mas, de resto, fez um bom trabalho. A publicar antes da inauguração (a um terço do tamanho, às tiras — no fim podem fazer um puzzle — e sem tratamento):

Is there a general theme to ”The End of the Moon”?

Laurie Anderson: I would say that time is the overall general theme. Our perception of time and how it affects us, how it changes us. That, as well as stories, the stories we tell ourselves so we can go on. And of course this is such a good time for stories! Election season is all about stories and it just comes down to whose story you like better, which one you can relate to. None of us are actually going to go out and take our own surveys.

How did the title come about?
Laurie Anderson: “ The End of the Moon” is, I guess, a phrase that has some of the melancholy I feel at the moment. Not just melancholy really. More like loss. Like I lost something and I can’t quite put my finger on what it is. Actually I think what I lost was a country. The last three years have been pretty tough, pretty alienating for a lot of people. And in this piece I’m trying to look at some of those things. On the other hand I see this as sort of a report that I’m making to wind up my time as artist-in-residence at NASA. So there are lots of colors in it.

...

Segunda-feira, Abril 4

Viernes, 23 de octubre, 1959

...
Comencé a leer el diario de Cesare Pavese. Profunda sorpresa. Y miedo. Porque casi todo lo que ha escrito me parece pensado por mí. Es más: yo lo he pensado — mejor decir: sentido — y hasta he tomado notas de ello en mi diario. Me desilusiona un poco tanta semejanza y, al mismo tiempo, me siento salvada. ¿Salvada de qué? No sé. Pero de algo oscuro y viscoso. Posiblemente me refiero a la locura.

Alejandra Pizarnik, Diarios, Lumen, noviembre 2003

VII. A intensidade é silenciosa. A sua imagem não. Gosto de quem me deslumbra, caso depois o obscuro aumente dentro de mim.


René Char, "Matinais", tradução de Manuel Lucena, Revista Atlântico

Domingo, Abril 3

Ingeborg Bachmann, a minha maior poetisa

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Playmate da semana (com a devida autorização de Lutz)

A personagem chama-se Maria e surge pela primeira vez num sonho de Murau que se passa numa pequena hospedaria situada num vale lateral do Val Gardena. Murau está em Roma, no seu belo apartamento sobre a Piazza Minerva, a conversar com Gambetti, quando uma palavra, a palavra "montanha", leva-o de novo até esse sonho, um sonho que ele teve há quatro ou cinco anos:

Chegámos com chuva ao vale do Norte de Itália, Gambetti, disse eu a este, Eisenberg, da minha idade, Zacchi, o filósofo da mesma idade também, e Maria, a minha primeira poetisa, Maria, assim disse eu a Gambetti, já nessa altura a minha maior poetisa; Maria tinha vindo de Paris ter connosco, não de Roma, onde ela já então morava, na casa onde hoje vive, mas essa casa não estava ainda como hoje, não havia ainda nessa casa milhares de livros, só centenas. Ainda não havia nessa casa quaisquer tapetes, Gambetti, dissera eu a este. Mas já nessa altura Maria passava a maior parte do tempo na cama e recebia na cama os seus convidados. Maria veio de Paris juntar-se a nós vestida com um fato maluco de calça e casaco, disse eu a Gambetti. Parecia que ia para a ópera ou que vinha nesse momento da ópera. Umas calças pretas de veludo, Gambetti, presas por baixo do joelho com grandes laços de seda, e um casaco vermelho-púrpura com uma gola cor de turquesa. Causou naturalmente a maior sensação o aparecimento de Maria nesse traje de ópera no vale da região alpina. Eisenberg tinha ido ao seu encontro, enquanto eu observava ainda de longe a nossa amiga, como ela se dirigia para a hospedaria "Zur Klause" com movimentos de ópera.

Murau ainda não sabe mas Maria vem mesmo da ópera. Em vez de seguir com eles de Roma para o vale do norte, foi a Paris, por capricho, apenas para ver a sua ópera preferida, Pelléas et Melisande de Debussy/Maeterlink. Chega então a este sonho, de madrugada, com essas roupas extravagantes, caminha sobre a neve descalça. Eisenberg, Zacchi e Murau esperam por ela. Juntos pretendem confrontar O Mundo como Vontade e Representação, de Schopenhauer, com os seus poemas. Não Heidegger, mas Schopenhauer, como Maria reforça.

Durante toda a noite anterior, e embora tivesse estado todo o tempo à janela, eu tinha-me mais ou menos ocupado de Schopenhauer e dos poemas de Maria, relacionando ambos, isto é, os pensamentos de Schopenhauer com os de Maria, procurando estabelecer ums relação efectivamente filosófica entre as suas atitudes mentais, entre os poemas de Maria e os esforços filosóficos de Schopenhauer, subordinar com frequência uns aos outros, opor uns aos outros, e tentando também fazer sobressair o que há de filosófico nos poemas de Maria, bem como o que tem de literário, ou melhor, de poético a obra de Schopenhauer.

O encontro resulta em fracasso, os quatro são obrigados a fugir do dono da pensão, um homem bruto e irado que não os percebe, que quer apenas pôr a mesa para o pequeno-almoço, que tem medo que não lhe paguem. Fracassar é o melhor que pode acontecer às personagens de Bernhard, sempre, não é? É o único sítio onde de facto eles podem chegar, tangível. Maria aparece mais vezes no romance, Maria é uma personagem amada, é a única que compreende Murau, que o compreende mesmo quando o que ele diz não faz sentido ou está errado. A partir de agora, na minha cabeça, Ingeborg Bachmann é Maria e ri-se com o riso de Maria.

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Os itálicos são retirados de "Extinção" de Thomas Bernhard, tradução de José A. Palma Caetano, Assírio & Alvim, Maio 2004