Sábado, Março 26

O passado é um embrulho*

Não encontrei doce de abóbora com nozes para o requeijão, nem bolo lêvedo para o pequeno-almoço; na fnac troquei o cheque por um DVD (love, hate, you know, Salvation is a last-minute business, boy); a montra da Papélia está verde, verde; da Leitura, gosto particularmente da estante do andar de cima, quem sobe pelas primeiras escadas, à esquerda, (esta conversa é irresistível); os filetes de bacalhau dos "Irmãos Unidos" são deliciosos; fui obrigada a comprar um guarda-chuva; um homem pediu-me cinquenta cêntimos; cruzei-me com muitos espanhóis; as fotografias de Axel Hütte, Gesundbrunnen (Fonte da Saúde) e San Nicolo da Tolentini, frente às famílias de Thomas Struth e ainda aquele interior com azulejos (1980) de Thomas Ruff lembraram-me Peter Handke, ou melhor, a tristeza de Peter Handke; na cave da Culturgest há uma porta com trinta centimentos de espessura e múltiplos espelhos nos quatro cantos; o café mais bonito da cidade é o Guarany; parece que afinal o Batalha... e o Rui Rio... a viagem de que gostei mais?; corri para o autocarro; regressei a casa, cheia de sacos cheios de livros (O custo das casas / por incrível que pareça / sugere a possibilidade / de uma outra vida) e filmes (Acreditei em Deus durante três minutos), os pés ligeiramente molhados. Stop.

* esta frase não está escrita numa esquina da Rua de Ceuta

Quinta-feira, Março 24

A preguiça

Fala-se muitas vezes em voar. Não é isso. O que é preciso é nadar. E a alma nada como as serpentes e as enguias, nunca de outra forma.

Henri Michaux, As minhas propriedades, Fenda, 1998

le Cycle Merveilleux sur ARTE

Quarta-feira, Março 23

So You Want to Write a Fugue?

Leio-as à noite e depois, durante todo o dia, as palavras não me saiem da cabeça. Estou a falar de Bernhard, de "Extinção", das conversas, conversas? aquilo é quase um monólogo, não, é quase música. É música. Ora aí está: pensar em Bernhard como músico e não como escritor. No caminho para casa dou por mim a andar seguindo os padrões do passeio e a inventar classificações estranhas. Em vez de etiquetas, uma arquitectura. No átrio, alto, longo e frio como o de Wolfsegg: Murau, Gambetti, Bernhard, Wertheimer, Gould e até o pobre Austerlitz. [Não conheço nenhum átrio mais admirável do que este, dissera eu a Gambetti, é senhorial devido ao seu tamanho e à sua absoluta austeridade, nas paredes tem o mínimo ornamento, nenhum quadro, nada. As paredes são caiadas de branco e produzem no observador o efeito de qualquer coisa inexorável.] De um lado para o outro, ao longo dos trinta e quatro metros...

— Disse Gould?*
— So you want to write a fugue?

This Morning

Enter without knocking, hard-working ant.
I'm just sitting here mulling over
What to do this dark, overcast day?
It was a night of the radio turned down low,
Fitful sleep, vague, troubling dreams.
I woke up lovesick and confused.
I thought I heard Estella in the garden singing
And some bird answering her,
But it was the rain. Dark tree tops swaying
And whispering. "Come to me my desire,"
I said. And she came to me by and by,
Her breath smelling of mint, her tongue
Wetting my cheek, and then she vanished.
Slowly day came, a gray streak of daylight
To bathe my hands and face in.
Hours passed, and then you crawled
Under the door, and stopped before me.
You visit the same tailors the mourners do,
Mr. Ant. I like the silence between us,
The quiet — that holy state even the rain
Knows about. Listen to her begin to fall,
As if with eyes closed,
Muting each drop in her wild-beating heart.

Charles Simic

Terça-feira, Março 22

Why make this movie? Why an old theater?

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Tsai Ming-Liang: I often dream of old theaters.

In Kuching, Malaysia, where I was born and raised, there are about 7 or 8 of these old theaters. Starting from when I was three, my grandfather would take me to the movies. One theater, I remember, was called Audien. The ceiling was very high up and there were many fans hanging above. There were more then a thousand seats and the drapes on the side doors would drift about...

The ticket clerk of Audien was a crippled man. Usually, once a kid grows to a certain height, the kid would have to buy tickets. From what o remember, no matter how tall I grew; grampa would only buy one ticket and take me in, right in front of the clerk. He always looks mean and I would always be scared of him... Today, these old theaters are all gone and vanished. 20 years away from home and I seldom think about them. What is strange to me is that in my dreams, I still see Audien from time to time.

While shooting What Time is it There?, we needed to shoot some theater scenes. In the outskirts of yung-Ho, where I lived, I found Fu-Ho theater and it seemed so familiar. Three months after shooting, the theater closed down. One day, I ran into the owner of the theater and he told me the theater was ready to be torn down. I immediately turned to my producer, producer LIANG, and asked him if we had any money to rent the theater. "Why?" he asked. And I answered, "To shoot a movie!"

Now thinking about it, I feel as if it is the old theater calling out to me, "Come film me!"

(...)


...Tsai Ming-Liang diz que é impossível reviver a felicidade que sentimos nos grandes cinemas da nossa juventude, sozinhos ou acompanhados pelos nossos realizadores favoritos. Podemos só evocar melancolicamente essa felicidade perdida e lamentar que o presente já não seja assim.
Eurico de Barros, Diário de Notícias ( o trailer, para ver aqui)

Segunda-feira, Março 21

adeus, DRAGON INN



... Entenda-se isto também como um SOS: como é possível que este filme assombradamente belo esteja em segunda e última semana com uma única sessão diária? Quando agora o fui rever, eram as dimensões de salas a diferença entre aquela em que estávamos e a que vimos na tela, que a desolação era de ordem equiparável, três espectadores apenas que éramos... (Augusto M. Seabra, no Público)

Transmissão em directo

A Primavera chegou, como previsto; na Assembleia da República a sessão de trabalhos abriu com a leitura de Jaguardarte. "Parece muito bonito", disse o país, "mas é um tanto difícil de compreender!"

Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

"Foge do Jaguadarte, o que não morre!
Garra que agarra, bocarra que urra!
Foge da ave Felfel, meu filho, e corre
Do frumioso Babassurra!''

Êle arrancou sua espada vorpal
E foi atrás do inimigo do Homundo.
Na árvora Tamtam êle afinal
Parou, um dia, sonilundo.

E enquanto estava em sussustada sesta,
Chegou o Jaguadarte, ôlho de fogo,
Sorrelfiflando através da floresta,
E borbulia um riso louco!

Um, dois! Um, dois! Sua espada mavorta
Vai-vem, vem-vai, para trás, para diante!
Cabeça fere, corta, e, fera morta,
Ei-lo que volta galunfante.

"Pois então tu mataste o Jaguadarte!
Vem aos meus braços, homenino meu!
Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!''
Êle se ria jubileu.

Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

poema de Lewis Carroll, traduzido por Augusto de Campos (para mais informações, consultar esta página). Há uma outra tradução portuguesa ("Alice do outro lado do espelho", edição da Estampa, colecção Livro B #7), mas prefiro esta.

my favourite links

Domingo, Março 20

Declaração (ou: só me faltava esta!)



Ontem fui ver Oldboy - Velho Amigo e gostei. À saída acreditei que nevava mas era apenas chuva miúdinha. Não tenho tempo para apreciações detalhadas, por isso remeto para o artigo de Luís Miguel Oliveira, no Público.

Apesar dos prémios e de tudo o mais que rodeia o filme, éramos poucos na sala. E, no entanto, o café do Passos Manuel é óptimo e a luz do corredor que leva à sala, suficientemente velada. Não percebo o vazio, que cidade tão triste, esta.

o mais tardar com quarenta anos



Pelo contrário Alexandre, é com o passar dos anos que dou por mim a dividir o mundo entre os que gostam de Bernhard e os outros. A isto eu chamo envelhecer.

«Se não tivéssemos a nossa arte do exagero, tinha eu dito a Gambetti, estaríamos condenados a uma vida terrivelmente fastidiosa, a uma existência em que não valeria mais a pena existir. E eu desenvolvi a minha arte do exagero, elevando-a a uma altura incrível, tinha eu dito a Gambetti. Para tornar qualquer coisa compreensível, temos de exagerar, dissera-lhe eu, só o exagero torna claro, e mesmo o risco de nos chamarem doidos já não nos incomoda na idade avançada. Não há nada melhor do que ser considerado doido na idade avançada. A maior felicidade que eu conheço, tinha eu dito a Gambetti, é a do velho doido, que pode entregar-se com plena independência, à sua doidice. Se isso nos fosse possível, devíamos, o mais tardar com quarenta anos, proclamar-nos velhos doidos e procurar levar ao exagero a nossa doidice.»

Franz-Josef Murau, na página 114 de "Extinção", de Thomas Bernhard, na belíssima tradução de José A. Palma Caetano, Assírio & Alvim, um dos melhores livros editados em 2004


p.s. convém aqui fazer um link para este (entre outros, diga-se) excelente texto de João Paulo Sousa.