Capuchinho Vermelho à beira do abismo

Que eu saiba Robert Walser não se dedicou ao Capuchinho Vermelho, o que é uma pena irremediável. Poderia ter escrito um "dramolete" com um final feliz. Talvez a miúda acabasse a fazer festas ao lobo repartindo entre si uma tablete de chocolate. As possibilidades são infinitas.
No entanto, Paula Rego pintou aquele série, de que tanto gosto, sobre o conto. O lobo come a avó e depois também a Capuchinho mas desta vez a mãe, que era uma personagem quase invisível na história, vinga-se e do lobo faz um agasalho para o pescoço.
Manuel António Pina, que tem olhos doces e riso de gato (características essenciais para cumprir a tarefa), pegou no Capuchinho Vermelho e reescreveu-o*. Começa assim:
Era uma vez uma menina muito, muito bonita que era, pode dizer-se com propriedade, a menina dos olhos de sua mãe e de sua avó.
Quando fizera 11 anos, a avó tinha-lhe oferecido um casaco vermelho de lã com capuz que lhe ficava tão bem, tão bem, que toda a gente passou a chamá-la de Capuchinho Vermelho, que era como se chamava também outra menina muito, muito bonita que havia num conto que a avó lhe contava quando ela era pequena e de que ela gostava tanto, tanto que, à noite, antes de adormecer, ainda pedia às vezes à avó para que lho contasse outra vez.
O conto contava a história de uma menina que era comida por um lobo e Capuchinho Vermelho costumava perguntar à avó porque é que a mãe da menina não correra a ajudá-la e não matara o lobo e porque é que o pai nem sequer entrava na história.
"Não sei", respondia-lhe a avó. "Foi assim que aprendi. Talvez os pais dela, como os teus, estivessem separados, ou talvez o pai tivesse morrido..."
"Mas a mãe, porque é que a mãe não matou o lobo?", insistia Capuchinho.
"Sei lá, minha querida", dizia a avó, encolhendo os ombros cheia de paciência. "Já ninguém se lembra desses pormenores, é uma história muito antiga que ensina às meninas que não devem dar conversa a lobos..."
E a avó recitava-lhe uns versos que terminavam assim:
"Cuidado, meninas, que os lobos de bons modos
são os mais perigosos de todos!"
...
_______
* edição da Fundação Serralves em colaboração com o Público. Merecem ambos muitos parabéns porque o livro é delicioso e lindo, ao mesmo tempo.



