Sábado, Março 12

Capuchinho Vermelho à beira do abismo

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Que eu saiba Robert Walser não se dedicou ao Capuchinho Vermelho, o que é uma pena irremediável. Poderia ter escrito um "dramolete" com um final feliz. Talvez a miúda acabasse a fazer festas ao lobo repartindo entre si uma tablete de chocolate. As possibilidades são infinitas.

No entanto, Paula Rego pintou aquele série, de que tanto gosto, sobre o conto. O lobo come a avó e depois também a Capuchinho mas desta vez a mãe, que era uma personagem quase invisível na história, vinga-se e do lobo faz um agasalho para o pescoço.

Manuel António Pina, que tem olhos doces e riso de gato (características essenciais para cumprir a tarefa), pegou no Capuchinho Vermelho e reescreveu-o*. Começa assim:

Era uma vez uma menina muito, muito bonita que era, pode dizer-se com propriedade, a menina dos olhos de sua mãe e de sua avó.

Quando fizera 11 anos, a avó tinha-lhe oferecido um casaco vermelho de lã com capuz que lhe ficava tão bem, tão bem, que toda a gente passou a chamá-la de Capuchinho Vermelho, que era como se chamava também outra menina muito, muito bonita que havia num conto que a avó lhe contava quando ela era pequena e de que ela gostava tanto, tanto que, à noite, antes de adormecer, ainda pedia às vezes à avó para que lho contasse outra vez.

O conto contava a história de uma menina que era comida por um lobo e Capuchinho Vermelho costumava perguntar à avó porque é que a mãe da menina não correra a ajudá-la e não matara o lobo e porque é que o pai nem sequer entrava na história.


"Não sei", respondia-lhe a avó. "Foi assim que aprendi. Talvez os pais dela, como os teus, estivessem separados, ou talvez o pai tivesse morrido..."

"Mas a mãe, porque é que a mãe não matou o lobo?", insistia Capuchinho.

"Sei lá, minha querida", dizia a avó, encolhendo os ombros cheia de paciência. "Já ninguém se lembra desses pormenores, é uma história muito antiga que ensina às meninas que não devem dar conversa a lobos..."

E a avó recitava-lhe uns versos que terminavam assim:

"Cuidado, meninas, que os lobos de bons modos
são os mais perigosos de todos!"


...

_______
* edição da Fundação Serralves em colaboração com o Público. Merecem ambos muitos parabéns porque o livro é delicioso e lindo, ao mesmo tempo.

O lápis de Robert Walser

Aproximo-me a grande velocidade dos quarenta anos o que, dado o meu carácter lento, me deixa tonta e enjoada. Para me distrair elaborei um inventário da minha vida. Descobri que, de tudo o que fiz até hoje, quase nada vale a pena guardar. Salvei uma gata, atravessei um rio quando ainda mal sabia nadar, perdi-me várias vezes em sítios tristes, decorei as histórias que a minha avó me contou, pouco mais.
Imaginei então que Deus existia e que para além disso era uma espécie de funcionário de escritório. Eu estava sentada no seu gabinete e do outro lado da secretária ele perguntava-me se estava satisfeita e coisas desse género. As mãos cruzadas, um sorriso ambíguo que não consegui interpretar. Compus uma cara séria, expliquei-lhe que, de facto, não estava muito contente com a minha personagem, talvez fosse melhor mudar o contrato. "Muito bem", disse ele enquanto tirava o meu processo da gaveta. "E então o que é que vai escolher agora? O cão de Tarkovski ? O cachimbo de Gómez de la Serna? Ou o carrinho de mão vermelho de William Carlos Williams?...
"Preferia ser o lápis de Walser", respondi. "O lugar está vago?"

Sexta-feira, Março 11

Hoje não leio mais nada. O dia termina aqui:

[da série] William Carlos Williams traduzido por João Luís Barreto Guimarães

ENTRE MUROS

as alas traseiras
do

hospital onde
nada

crescerá acolhem
cinzas

nas quais brilham
os pedaços

partidos de uma garrafa
verde

para manhãs de sexta-feira

Quinta-feira, Março 10

duas ou três bagatelas

Image hosted by Photobucket.com[À atenção da Alexandra e do Rogério]

Não pensei que a comparação entre Clint Eastwood e Andrei Tarkovski fosse tão longe mas, já que aconteceu e uma vez que me sinto um pouco responsável por essa falsa partida, vou meter-me no meio. A primeira coisa que me ocorre dizer é que é um disparate comparar realizadores tão diferentes, quer dizer, não vale a pena, para quê? para chegar onde? São ambos importantes na história do cinema mas os seus filmes não se tocam. Podemos gostar de um, do outro ou até dos dois. Sim, podemos. Contraditório? Não mais que a nossa vida. O facto de Clint Eastwood e Andrei Tarkovski terem surgido aqui, neste blogue, à distância de um ou dois posts não os liga entre si, eu é que me me ligo a eles.

Tarkovski é um mundo à parte. Criou sete filmes que são um sistema metafísico belo e profundo. É mais do que cinema ou então está para além do cinema, como queiram. Tonino Guerra disse que o realizador russo era uma nuvem metafísica e está bem assim. Uma nuvem metafísica, Andrei Tarkovski é uma nuvem metafísica. E isso quer dizer que travellings, grandes planos, elipses e toda essa conversa de cinema é insuficiente para abordar a sua obra. Entra-se nos filmes de Tarkovski com devoção, em busca de qualquer coisa inefável, o vento ou a chuva, uma árvore seca que renasce, uma vela, a capacidade de amar?

Clint Eastwood vem de outra linhagem, conta histórias. Imagino-o a dizer "faço uns filmes" como John Ford dizia que fazia westerns. A mesma simplicidade, a mesma maneira de estar. Cool é a palavra certa para ele. Não ambiciona fazer filmes metafísicos o que não quer dizer que os seus filmes não sejam magníficos. Filmar os sonhos, as nossas maiores espectativas ou a prova mais dífícil do amor (como ele fez em Million Dollar Baby) é raro, muito raro.
O cinema nasceu para contar histórias? Creio que sim e creio ainda que as histórias, à sua maneira, às vezes de uma forma tão simples, também nos salvam.

Qual é a conclusão? Quase não há conclusão. Como já disse, acho que não vale a pena comparar realizadores tão diferentes como Clint Eastwood e Andrei Tarkovski. Quanto ao resto? Cada um gosta do que gosta, cada um faz o seu percurso. Gostamos de Clint Eastwood porque gostamos que nos contem histórias? ou porque vimos muitos westerns quando eramos miúdos? Gostamos de Tarkovski porque nos sentimos perdidos?

t.p.c.

[a ver se consigo separar Clint Eastwood de Andrei Tarkovski sem danos pessoais]

Bus Stop

Lights are burning
In quiet rooms
Where lives go on
Resembling ours.

The quiet lives
That follow us—
These lives we lead
But do not own—

Stand in the rain
So quietly
When we are gone,
So quietly . . .
And the last bus
Comes letting dark
Umbrellas out—
Black flowers, black flowers.

And lives go on.
And lives go on
Like sudden lights
At street corners

Or like the lights
In quiet rooms
Left on for hours,
Burning, burning.

Donald Justice

Quarta-feira, Março 9

Esquecer? Como esquecer?

No episódio de ontem sobre Auschwitz (a série da BBC que está a passar na 2:), uma prisioneira judia falava sobre os dias que se seguiram à libertação, sobre as agressões do exército vermelho, "a palavra terrível não consegue descrever o que se passava", disse ela. Antes de ser julgado e enforcado, Rudolf Höss, o comandante do campo de concentração, escreveu no seu caderno, em jeito de fecho de contas, que lamentava não ter passado mais tempo com a família. Muitas das pessoas envolvidas no holocausto fugiram, desapareceram, esqueceram.

De certeza que existe na nossa cabeça uma zona escura onde se podem esconder os actos mais tenebrosos. Esconder e continuar a respirar, como se nada se tivesse passado. Essa zona é assustadora.

Terça-feira, Março 8

A memória é um lugar estranho

Regressava a casa, ao passar pela montra da papelaria fiquei com uma vontade danada de comprar um pau de giz. "Para quê? O que é que eu faço com um pau de giz?"
Voltei atrás e procurei-o por entre o amontoado de objectos mas não existia ali nenhum giz, apenas guaches, tintas e materiais mais importantes. Depois lembrei-me que a última vez que ouvi falar de giz foi num filme de Polanski. N' A Semente do Diabo (Rosemary's Baby), a vizinha metediça oferece à rapariga uma mousse de chocolate. Ela come, estranha o sabor e tenta explicá-lo a John Cassavetes (que faz de marido interesseiro), diz que sabe a giz. A mousse estava envenenada. Já não vejo o filme há muitos anos, se calhar a história não é assim, se calhar nem há mousse. No entanto percebo muito bem o que ela quer dizer, esse sabor a giz.

Chère Danièle et cher Jean-Marie,

Les voix coléreuses-cordiales, Catane, Syracuse, les beaux vêtements robustes, les yeux lumineux, les douces lèvres énergiques, la danse du repasseur de couteaux: derviche, les centimes, le zézaiement qui ouvre l'âme de celui qui rentre au pays, les sièges vides dans le train, le discours sur l'amour (le récit !), la voie ferrée, la marche à pied, le manger, les aliments, (je viens de goûter des câpres de l'île de Pantelleria), le merveilleux dessin des chaises, le pain, le vin, le melon d'hiver, le baryton!, le grand Elio Vittorini (très bouleversante, sa photo à la fin): vous avez découvert, montré et fait exploser dans mon coeur le cinéma, le film, comme pour la première fois. Sicilia! est la somme de votre oeuvre, et le comble de la colère, de la douceur, du rythme; tempIe, cabane!

Ainsi vous salue votre Peter Handke (buon anno!), 15 janvier 1999

em louvor de William Carlos Williams

Comer uma laranja de manhã é banal, mas comer ameixas, precisamente aquelas, doces e frias (?), é um acontecimento extraordinário.

Substantivo: laranja

as laranjas inesperadas, que se vêem nas árvores dos quintais, nas traseiras das casas antigas
laranjas esotéricas, de Herberto Helder
caixotes cheios de laranjas doces, do Algarve e de Setúbal
ou laranjas mais ácidas e cheias de caroços, da Lixa
as laranjas poéticas, de Gonçalo Ribeiro Teles
laranjas amargas, nas ruas de Moura, Serpa, Mértola,...
laranjas quase vermelhas como o sangue, no céu (ou nos olhos de small change?)
e as belas laranjas a preto e branco de Sicília. Ninguém as quer!, diz o vendedor a Silvestro.

Segunda-feira, Março 7

Laranjas instantâneas, defronte — e as íris ficam amarelas.
A visão da terra é uma obra cega. Mas as laranjas
atrás das costas, as mais
pesadas, as mais
lentamente maduras, as laranjas que mais tempo demoram
a unir o dia à noite, que têm uma força maior em cima
das mesas, essas.
Operatórias. São laranjas ininterruptas trabalhando em imagens
as regiões ofuscantes da cabeça.
Enriquecem o ofício sentado com um incêndio
quarto a quarto da alma. Enriquecem, devastam.
—Constelação ao vento avassalando a casa.

Herberto Helder, Ultima Ciência, in "Ou o Poema Contínuo", Assírio & Alvim

sequência com laranjas (and wild roses)

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Fernando Botero

Acordei, levantei-me e fui à cozinha comer uma laranja. Sem dar conta, demorei mais do que é costume no duche. Cheguei atrasada ao escritório, passei a manhã distraída.

Domingo, Março 6

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O que é que em nós mente, mata, rouba?

"Já há alguns dias que constantemente pego na pena, mas não consigo escrever uma palavra. Tenho andado a estudar a história da Revolução. Senti-me como que aniquilado sob o terrível peso do fatalismo da História. Encontro na natureza humana uma espantosa igualdade, nas relações humanas uma violência inevitável, inerente a todos e a ninguém. Cada indivíduo é apenas espuma na crista da onda, a grandeza um puro acaso, a força do génio um jogo de fantoches, uma luta ridícula contra uma lei de ferro: reconhecê-la é o máximo que podemos alcançar, dominá-la é impossível. Deixei de me curvar diante dos grandes nomes e dos pilares da História. Habituo o olhar ao sangue. Mas não sou nenhuma lâmina de guilhotina. O 'tem de ser' é uma das palavras de maldição que presidiu ao baptismo do homem. É aterradora a sentença: os males virão, e ai daqueles por quem eles passem. O que é que em nós mente, mata, rouba?"

carta de Georg Büchner à noiva, entre 9 e 12 de Março de 1834
in "Georg Büchner - Biografia" de João Barrento (um dos textos do Manual de Leitura que acompanha Woyzeck, em cena no TNSJ)