Quinta-feira, Março 31

Poesia portanto, capitão Alexandre

Fotocopiei três páginas da Revista "Atlântico": quarenta, quarenta e um, e quarenta e dois. René Char, traduzido por Manuel Lucena. Infelizmente não as posso ir ler para o terraço. É pena, porque é isso que me apetece.

32. Homem sem defeitos é montanha sem precipícios. Não me interessa.

111. A luz foi-nos expulsa dos olhos. Temo-la escondida algures nos ossos [...]

147. Viremos nós a ser, mais tarde, parecidos com aquelas crateras onde os vulcões já não irrompem e onde a erva amarelece?

Uma OBRA-PRIMA

Ontem vi, pela terceira vez, "A Sombra do caçador" e, pela terceira vez, fiquei espantada e sem palavras.

Quarta-feira, Março 30

Image hosted by Photobucket.comImage hosted by Photobucket.comImage hosted by Photobucket.comImage hosted by Photobucket.comImage hosted by Photobucket.comImage hosted by Photobucket.comImage hosted by Photobucket.comImage hosted by Photobucket.comImage hosted by Photobucket.com

Pretérito perfeito (or: incurably romantic lyrics)

Depois do manifesto "By your side" das CocoRosie, "Cocktail Nubiles" dos Stranglers. A dona de casa e o super-homem, juntos e felizes para sempre. Amém.

Resenceamento obrigatório

No pequeno pátio da casa onde trabalho já floresceram as azáleas, entre o vermelho e o rosado, e também o jasmim, branco. Devagar, as folhas das glicínias e das buganvílias desenrolam-se. Mais adiante, na praça, vi as primeiras flores das cerejeiras, cor-de-rosa, e uma papoila, laranja.

Terça-feira, Março 29

Em "Extinção" há um magnífico retrato de Ingeborg Bachmann. Sobre isso falarei depois. Para já, volto a um dos meus poemas preferidos de Bachmann, para ler e ouvir em alemão (tradução de João Barrento, disponivel nos arquivos):

Hören Sie das Gedicht!
 
Es kommen härtere Tage.
Die auf Widerruf gestundete Zeit
wird sichtbar am Horizont.
Bald musst du den Schuh schnüren
und die Hunde zurückjagen in die Marschhöfe.
Denn die Eingeweide der Fische
sind kalt geworden im Wind.
Ärmlich brennt das Licht der Lupinen.
Dein Blick spurt im Nebel:
die auf Widerruf gestundete Zeit
wird sichtbar am Horizont.

Drüben versinkt dir die Geliebte im Sand,
er steigt um ihr wehendes Haar,
er fällt ihr ins Wort,
er befiehlt ihr zu schweigen,
er findet sie sterblich
und willig dem Abschied
nach jeder Umarmung.
 
Sieh dich nicht um.
Schnür deinen Schuh.
Jag die Hunde zurück.
Wirf die Fische ins Meer.
Lösch die Lupinen!
 
Es kommen härtere Tage.
 
Ingeborg Bachmann

mp3 disponibilizada no site de Arlindo Correia

Andreas Gursky*

Image hosted by Photobucket.com
Hong Kong, Stock Exchange (Diptych) 1994

... "A concluir gostaria de acrescentar uma nota biográfica. Sou filho único e lembro-me muito bem do meu anseio infantil por protecção social. Não é de admirar, por isso, que tome constantemente as pessoas como tema do meu trabalho – pessoas que procuram, durante a sua existência, dar um sentido colectivo à vida.”
in Programa da Exposição (PDF)


_______
* Fotógrafo representado na exposição Distância e Proximidade
Dos 104 textos editados em 1997 pela University of Chicago Press há cinco disponíveis na net. Desses cinco, escolhi um. Podia ter escolhido qualquer outro:

Pisa and Venice

The mayors of Pisa and Venice had agreed to scandalize visitors to their cities, who had for centuries been equally charmed by Venice and Pisa, by secretly and overnight having the tower of Pisa moved to Venice and the campanile of Venice moved to Pisa and set up there. They could not, however, keep their plan a secret, and on the very night on which they were going to have the tower of Pisa moved to Venice and the campanile of Venice moved to Pisa they were committed to the lunatic asylum, the mayor of Pisa in the nature of things to the lunatic asylum in Venice and the mayor of Venice to the lunatic asylum in Pisa. The Italian authorities were able handle the affair in complete confidentiality.


Thomas Bernhard, "The Voice Imitator", tradução de Kenneth J.Thomas, edição da University of Chicago Press, © University of Chicago

Segunda-feira, Março 28

Simone Nieweg*

Image hosted by Photobucket.com
Rosenkohl, Grevenbroich, 2000

... Simone Nieweg situa o início do seu trabalho autónomo em 1986, quando enveredou pela fotografia a cores. A sua primeira série centrava-se na arquitectura anónima dos jardins: arrecadações para utensílios de jardinagem feitas pelas próprias pessoas, pavilhões e pombais. Por essa altura também fez fotografias de lojas comerciais e outras a preto-e-branco de paisagens urbanas, mas as mais impressionantes são as fotografias a cores das hortas, “onde as pessoas, libertas das ideias de planeamento urbano e paisagístico, usam simplesmente a terra que está à sua disposição para plantar hortaliças, criar coelhos ou pombos. Eu encontro os meus motivos nessas hortas extensas não planeadas e também junto de pequenos lavradores que não praticam uma agricultura intensiva.”
...
“Às vezes fascina-me fazer fotografias que parecem poder ter sido feitas há cem anos”, e também nestes casos Simone Nieweg prefere usar a cor, porque, ao contrário da fotografia a preto-e-branco, não cria uma forma de abstracção.
in Programa da Exposição (PDF)


_______
* Fotógrafa representada na exposição Distância e Proximidade

A única coisa que ainda tenho é a linguagem

A estação de Dutovlje de noite, antes da chegada do último comboio, com a velha mesa na sala de espera, mas esta entretanto sem o velho fogão; mulher jovem a cantar na noite, a partir da habitação da estação; um carro parado acende os faróis e deste modo torna visível a fachada; um ferroviário precipita-se de casa e maneja duas alavancas de agulhas; o comboio que entra apaga entretanto a sua grande luz superior; lâmpada da mesa no escritório da estação; momentos (p.21)


Os velhos da aldeia desceram, na quase escuridão, do outeiro, a carreira de tiro, entre eles mulheres. Tocavam baixo, como que a modo de ensaio, os instrumentos rústicos, mas só os imitavam com as vozes. Dirigiram-se como banda musical em crescendo da altura para a aldeia escura, a caminho da sua festa. Era um grupo solene, movido pela tristeza. Para cada um deles podia ser a última festa. (p. 28)


Ante-ontem no autocarro para a Gare de l'Est: a cara de uma mulher bonita, séria, jovem, numa loja da rua. Só depois notei que era o rosto de A., a cara da minha filha, num espelho de uma fachada lá fora, enquanto que ela estava sentada cá dentro no autocarro, logo a meu lado. (p.40)


Peter Handke, "De manhã à janela do rochedo (e outras horas locais 1982-1987)"
in "Novíssimas Histórias com tempo e Lugar (Prosa de Autores Austríacos (1970-2000), coordenação de Ludwig Scheidl, Minerva Editora, 2000

Domingo, Março 27

Acontecimentos (ou: comemorações negras)

O Actor entra numa representação de um conto, em que desempenha o papel do mago malvado. É metido numa pele de ovelha e nuns sapatos demasiado curtos que lhe apertam os pés. Todo o fato é tão desagradável, que se põe a suar, mas ninguém vê isso e, além do mais, o que mais gosta é de representar diante de crianças; pois são o público mais grato. As trezentas crianças assustam-se com a sua entrada, pois é o jovem par que tem a simpatia delas, que ele transforma em dois animais desiguais. O que teriam preferido era ver o jovem par, vestido de vestes coloridas, mais nada; mas então a peça não seria uma peça autêntica e pouco depois aborrecida; pois na representação de um conto faz parte, desde sempre, uma figura má, imprevisível, que procura destruir ou pelo menos troçar do bem e do previsível. Quando a cortina se abriu pela segunda vez, as crianças não puderam conter-se mais. Levantam-se das cadeiras e precipitam-se para o palco e é como se não corressem apenas trezentas, mas um múltiplo deste número e, embora o actor chore debaixo da máscara, lhes implore para pararem com os pontapés e a tareia que lhe dão com objectos duros, de metal, não se deixam influenciar e batem tanto tempo nele e pisam-no tanto tempo, até que ele não se mexe mais e as suas mãos pálidas e mutiladas entram no ar poeirento da teia. Quando os outros actores chegam apressados e verificam que o seu companheiro está morto, as crianças irrompem numa terrível gargalhada, que é tão grande que com ela perdem totalmente a razão.

Thomas Bernhard, "Acontecimentos", retirados de Ereignisse (editado em 1969 e reeditado em 1991)
in Novíssimas Histórias com tempo e Lugar (Prosa e Autores Austríacos (1970-2000), coordenação de Ludwig Scheidl, MinervaCoimbra, 2000

Thomas Ruff*

Sábado, Março 26

O passado é um embrulho*

Não encontrei doce de abóbora com nozes para o requeijão, nem bolo lêvedo para o pequeno-almoço; na fnac troquei o cheque por um DVD (love, hate, you know, Salvation is a last-minute business, boy); a montra da Papélia está verde, verde; da Leitura, gosto particularmente da estante do andar de cima, quem sobe pelas primeiras escadas, à esquerda, (esta conversa é irresistível); os filetes de bacalhau dos "Irmãos Unidos" são deliciosos; fui obrigada a comprar um guarda-chuva; um homem pediu-me cinquenta cêntimos; cruzei-me com muitos espanhóis; as fotografias de Axel Hütte, Gesundbrunnen (Fonte da Saúde) e San Nicolo da Tolentini, frente às famílias de Thomas Struth e ainda aquele interior com azulejos (1980) de Thomas Ruff lembraram-me Peter Handke, ou melhor, a tristeza de Peter Handke; na cave da Culturgest há uma porta com trinta centimentos de espessura e múltiplos espelhos nos quatro cantos; o café mais bonito da cidade é o Guarany; parece que afinal o Batalha... e o Rui Rio... a viagem de que gostei mais?; corri para o autocarro; regressei a casa, cheia de sacos cheios de livros (O custo das casas / por incrível que pareça / sugere a possibilidade / de uma outra vida) e filmes (Acreditei em Deus durante três minutos), os pés ligeiramente molhados. Stop.

* esta frase não está escrita numa esquina da Rua de Ceuta

Quinta-feira, Março 24

A preguiça

Fala-se muitas vezes em voar. Não é isso. O que é preciso é nadar. E a alma nada como as serpentes e as enguias, nunca de outra forma.

Henri Michaux, As minhas propriedades, Fenda, 1998

le Cycle Merveilleux sur ARTE

Quarta-feira, Março 23

So You Want to Write a Fugue?

Leio-as à noite e depois, durante todo o dia, as palavras não me saiem da cabeça. Estou a falar de Bernhard, de "Extinção", das conversas, conversas? aquilo é quase um monólogo, não, é quase música. É música. Ora aí está: pensar em Bernhard como músico e não como escritor. No caminho para casa dou por mim a andar seguindo os padrões do passeio e a inventar classificações estranhas. Em vez de etiquetas, uma arquitectura. No átrio, alto, longo e frio como o de Wolfsegg: Murau, Gambetti, Bernhard, Wertheimer, Gould e até o pobre Austerlitz. [Não conheço nenhum átrio mais admirável do que este, dissera eu a Gambetti, é senhorial devido ao seu tamanho e à sua absoluta austeridade, nas paredes tem o mínimo ornamento, nenhum quadro, nada. As paredes são caiadas de branco e produzem no observador o efeito de qualquer coisa inexorável.] De um lado para o outro, ao longo dos trinta e quatro metros...

— Disse Gould?*
— So you want to write a fugue?

This Morning

Enter without knocking, hard-working ant.
I'm just sitting here mulling over
What to do this dark, overcast day?
It was a night of the radio turned down low,
Fitful sleep, vague, troubling dreams.
I woke up lovesick and confused.
I thought I heard Estella in the garden singing
And some bird answering her,
But it was the rain. Dark tree tops swaying
And whispering. "Come to me my desire,"
I said. And she came to me by and by,
Her breath smelling of mint, her tongue
Wetting my cheek, and then she vanished.
Slowly day came, a gray streak of daylight
To bathe my hands and face in.
Hours passed, and then you crawled
Under the door, and stopped before me.
You visit the same tailors the mourners do,
Mr. Ant. I like the silence between us,
The quiet — that holy state even the rain
Knows about. Listen to her begin to fall,
As if with eyes closed,
Muting each drop in her wild-beating heart.

Charles Simic

Terça-feira, Março 22

Why make this movie? Why an old theater?

Image hosted by Photobucket.com

Tsai Ming-Liang: I often dream of old theaters.

In Kuching, Malaysia, where I was born and raised, there are about 7 or 8 of these old theaters. Starting from when I was three, my grandfather would take me to the movies. One theater, I remember, was called Audien. The ceiling was very high up and there were many fans hanging above. There were more then a thousand seats and the drapes on the side doors would drift about...

The ticket clerk of Audien was a crippled man. Usually, once a kid grows to a certain height, the kid would have to buy tickets. From what o remember, no matter how tall I grew; grampa would only buy one ticket and take me in, right in front of the clerk. He always looks mean and I would always be scared of him... Today, these old theaters are all gone and vanished. 20 years away from home and I seldom think about them. What is strange to me is that in my dreams, I still see Audien from time to time.

While shooting What Time is it There?, we needed to shoot some theater scenes. In the outskirts of yung-Ho, where I lived, I found Fu-Ho theater and it seemed so familiar. Three months after shooting, the theater closed down. One day, I ran into the owner of the theater and he told me the theater was ready to be torn down. I immediately turned to my producer, producer LIANG, and asked him if we had any money to rent the theater. "Why?" he asked. And I answered, "To shoot a movie!"

Now thinking about it, I feel as if it is the old theater calling out to me, "Come film me!"

(...)
...Tsai Ming-Liang diz que é impossível reviver a felicidade que sentimos nos grandes cinemas da nossa juventude, sozinhos ou acompanhados pelos nossos realizadores favoritos. Podemos só evocar melancolicamente essa felicidade perdida e lamentar que o presente já não seja assim.
Eurico de Barros, Diário de Notícias ( o trailer, para ver aqui)

Segunda-feira, Março 21

adeus, DRAGON INN



... Entenda-se isto também como um SOS: como é possível que este filme assombradamente belo esteja em segunda e última semana com uma única sessão diária? Quando agora o fui rever, eram as dimensões de salas a diferença entre aquela em que estávamos e a que vimos na tela, que a desolação era de ordem equiparável, três espectadores apenas que éramos... (Augusto M. Seabra, no Público)

Transmissão em directo

A Primavera chegou, como previsto; na Assembleia da República a sessão de trabalhos abriu com a leitura de Jaguardarte. "Parece muito bonito", disse o país, "mas é um tanto difícil de compreender!"

Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

"Foge do Jaguadarte, o que não morre!
Garra que agarra, bocarra que urra!
Foge da ave Felfel, meu filho, e corre
Do frumioso Babassurra!''

Êle arrancou sua espada vorpal
E foi atrás do inimigo do Homundo.
Na árvora Tamtam êle afinal
Parou, um dia, sonilundo.

E enquanto estava em sussustada sesta,
Chegou o Jaguadarte, ôlho de fogo,
Sorrelfiflando através da floresta,
E borbulia um riso louco!

Um, dois! Um, dois! Sua espada mavorta
Vai-vem, vem-vai, para trás, para diante!
Cabeça fere, corta, e, fera morta,
Ei-lo que volta galunfante.

"Pois então tu mataste o Jaguadarte!
Vem aos meus braços, homenino meu!
Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!''
Êle se ria jubileu.

Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas,
E os momirratos davam grilvos.

poema de Lewis Carroll, traduzido por Augusto de Campos (para mais informações, consultar esta página). Há uma outra tradução portuguesa ("Alice do outro lado do espelho", edição da Estampa, colecção Livro B #7), mas prefiro esta.

my favourite links

Domingo, Março 20

Declaração (ou: só me faltava esta!)



Ontem fui ver Oldboy - Velho Amigo e gostei. À saída acreditei que nevava mas era apenas chuva miúdinha. Não tenho tempo para apreciações detalhadas, por isso remeto para o artigo de Luís Miguel Oliveira, no Público.

Apesar dos prémios e de tudo o mais que rodeia o filme, éramos poucos na sala. E, no entanto, o café do Passos Manuel é óptimo e a luz do corredor que leva à sala, suficientemente velada. Não percebo o vazio, que cidade tão triste, esta.

o mais tardar com quarenta anos



Pelo contrário Alexandre, é com o passar dos anos que dou por mim a dividir o mundo entre os que gostam de Bernhard e os outros. A isto eu chamo envelhecer.

«Se não tivéssemos a nossa arte do exagero, tinha eu dito a Gambetti, estaríamos condenados a uma vida terrivelmente fastidiosa, a uma existência em que não valeria mais a pena existir. E eu desenvolvi a minha arte do exagero, elevando-a a uma altura incrível, tinha eu dito a Gambetti. Para tornar qualquer coisa compreensível, temos de exagerar, dissera-lhe eu, só o exagero torna claro, e mesmo o risco de nos chamarem doidos já não nos incomoda na idade avançada. Não há nada melhor do que ser considerado doido na idade avançada. A maior felicidade que eu conheço, tinha eu dito a Gambetti, é a do velho doido, que pode entregar-se com plena independência, à sua doidice. Se isso nos fosse possível, devíamos, o mais tardar com quarenta anos, proclamar-nos velhos doidos e procurar levar ao exagero a nossa doidice.»

Franz-Josef Murau, na página 114 de "Extinção", de Thomas Bernhard, na belíssima tradução de José A. Palma Caetano, Assírio & Alvim, um dos melhores livros editados em 2004


p.s. convém aqui fazer um link para este (entre outros, diga-se) excelente texto de João Paulo Sousa.

Sábado, Março 19

Dom Benito estremeceu

Não é bem um jardim, quer dizer, um jardim como eu gostava que fosse. É quase um círculo com algumas árvores (as magnólias cor-de-rosa estão todas em flor); bancos vermelhos, velhos e desconfortáveis; relva murada; uma estátua feia. Mas é um dos meus jardins, perto da casa da minha mãe, perto da casa onde vivo agora, foi aí que aprendi a andar de bicicleta.
Hoje estão lá as bancas de velharias, há duas ou três com livros. Pelo sim pelo não, olho, remexo, sabe-se lá o que posso encontrar. Calhou Benito Cereno, de Herman Melville, por dois euros e meio. Volume trinta e dois da colecção Biblioteca dos Rapazes, da Portugália Editora, aconselhado a leitores dos 12 anos em diante. Capa de Infante do Carmo e tradução de Maria Helena da Costa Dias. No verso da página de rosto, uma dedicatória: "Muitos parabéns da tua muito amiguinha Felismina, 12/3/60. Comovente.

White on blue

Image hosted by Photobucket.com

[ensaiar a vertigem] Deitar-me no muro quente e estreito da Calheta e olhar a pique para cima. Como se estivesse a olhar para baixo. Quieta, sem cair.

Sexta-feira, Março 18

Chegar ao coração do som

Havia muito barulho na sala e muitas coisas para fazer. Uma manhã de sexta-feira acelerada. Por mim mandava-os calar e sentava-me à espera mas contive-me, já faltou mais para ser despedida com justa causa. Não ouvi tudo. A Ostra, de Pedro Coelho (antena 2, cerca das 10 horas), foi sobre Giacinto Scelsi. O som é esférico, toda a esfera tem um centro, é preciso chegar ao centro do som, ao coração do som, foi isto que consegui guardar.

Classificados (imobiliário)



The video for "The Next Man That I See" doesn't feature you very heavily. Why all the house images? What's going on there?

Anita Lane: It's Jung isn't it, the house? Being the body and what it looks like. It's just thinking that goes on. Thinking goes on inside of houses, which leads of course to perception and what you do with your energy and the video is double iconoclastic and double disillusioning, because it is portraying suburbia, like when you really look, everything becomes something. We are so used to extremes in visually imagery or emotional provocations.

Quinta-feira, Março 17

¿Qué hubiera pasado se Kierkegaard se hubiera sentido hermoso y seductor?

Alejandra Pizarnik no seu diário (1 de Maio de 1963)

Canto décimo quarto

O bom tempo chegou
com uma abelha que batia nos vidros.
Bina descalçou os tamancos e caminha
descalça atrás da sua cabra.
O sol enfia-se pelo buraco
da agulha que Filomena tem na mão.
Pinela o camponês disse basta
e sepultou a enxada sob a terra.
Também meu irmão deixou de trabalhar
mas volta e meia levanta-se
porque pensa ouvir lá longe o som do telégrafo.
Uma erva nova resolveu aparecer
debaixo da crosta do pátio
para me fazer sentir mais velho.
Mas eu esmaguei-a
como se fosse uma barata em casa.

Tonino Guerra , "O Mel", tradução de Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, 2003

strangers talk only about the weather #14

Quarta-feira, Março 16





Cristina Zavalloni: Mi votu e mi rivotu suspirannu, passu li notti 'nteri senza sonnu, e li biddizzi tò vaiu cuntimplannu, li passu di la notti finu a ghiornu, pi tia non pozzu ora chiù durmiri paci non havi chiù st'afflittu cori, lu sai quannu ca iu t'hai a lassari quannu la vita mia finisci e mori.

As frésias são flores com cheiro a chá, aprendi num livro*

Comprei frésias. Um ramo pequeno custou quase dois bilhetes de cinema. "Estão muito caras", disse a florista "e há poucas cores, só brancas ou amarelas. A chuva faz tanta falta...". Escolhi as brancas, mais frescas e perfeitas. No interior das flores o cheiro do chá. Como se escreve frésias em romagnolo?

Image hosted by Photobucket.com

Onde Vais?

A primeira palavra que ouvi
na minha vida foi «onde vais?»
Num aposento sentados
em sacos de milho
eu e a minha mãe.

Tinha apenas um ano
e não sabia ainda
o que eram as palavras
e onde me poderiam levar.

Tonino Guerra (que faz hoje 85 anos), "História para uma noite de calmaria", tradução de Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, 2002

Segunda-feira, Março 14

let's play a game! (blackOUT)

Domingo, Março 13

Exemplos: Distorção centrífuga

Depois de um excelente almoço (que envolveu arroz com muitos coentros, alvarinho e sericaia), o café de bairro parece o cenário de um filme subversivo (os dois polícias ao balcão; o velho de boné que finge ler o jornal mas está, de esguelha, a ouvir a conversa do lado; a rapariga que ensina com paciência a lição ao namorado; a mulher chinesa, da loja em frente, gravida, a comer dois rissóis;...) e os poemas de Herberto Helder, hinos de uma sociedade secreta, na qual acabámos de ser admitidos.

A teoria era esta: arrasar tudo — mas alguém pegou
na máquina de filmar e pôs em gravitação uma cabeça, recolhendo-a
...

da delicadeza do gosto

Ha festa no blogue!

Image hosted by Photobucket.com

1. India Song (piano) | 2. Wonderful Marie | 3. Rumba des Isles | 4. Tango Tango | 5. Frangie | 6. Charleston | 7. India Song (orch.) | 8. Louise | 9. Chant Laotien | 10. Vera Baxter | 11. Des Jours Entières dans les Arbres | 12. Mañana Goodbye | 13. Valse de l'Eden Cinéma (foutaises)

«Para falar verdade, não sei muito bem de onde vem Carlos d’Alessio, dizem que é argentino, mas quando ouvi a sua música pela primeira vez, percebi que vinha de todo o mundo, vi fronteiras derrubadas, muralhas destruídas, os rios, a música, o desejo circulando livremente e percebi que também eu era daquele país argentino, tal como ele, Carlos d’Alessio, daquele Vietname do Sul do Pacífico, que alegria, senti-me tão feliz, pedi-lhe que compusesse a música para um dos meus filmes, ele disse que sim, eu disse que não lhe pagava, ele disse que sim, e eu construí as imagens e as palavras em função do espaço em branco que lhe deixava para a sua música e expliquei-lhe que este filme se passava num país que ambos desconhecíamos, tanto eu como ele, nas Índias coloniais da intensidade crepuscular, da lepra e da fome dos amantes de Calcutá, e que ambos devíamos inventá-lo, inteiramente. Nós conseguimo-lo. E foi deste modo que o conseguimos, que fizemos totalmente em conjunto, ele e eu, este filme com o título India Song.» Marguerite Duras

Sábado, Março 12

Capuchinho Vermelho à beira do abismo

Image hosted by Photobucket.com

Que eu saiba Robert Walser não se dedicou ao Capuchinho Vermelho, o que é uma pena irremediável. Poderia ter escrito um "dramolete" com um final feliz. Talvez a miúda acabasse a fazer festas ao lobo repartindo entre si uma tablete de chocolate. As possibilidades são infinitas.

No entanto, Paula Rego pintou aquele série, de que tanto gosto, sobre o conto. O lobo come a avó e depois também a Capuchinho mas desta vez a mãe, que era uma personagem quase invisível na história, vinga-se e do lobo faz um agasalho para o pescoço.

Manuel António Pina, que tem olhos doces e riso de gato (características essenciais para cumprir a tarefa), pegou no Capuchinho Vermelho e reescreveu-o*. Começa assim:

Era uma vez uma menina muito, muito bonita que era, pode dizer-se com propriedade, a menina dos olhos de sua mãe e de sua avó.

Quando fizera 11 anos, a avó tinha-lhe oferecido um casaco vermelho de lã com capuz que lhe ficava tão bem, tão bem, que toda a gente passou a chamá-la de Capuchinho Vermelho, que era como se chamava também outra menina muito, muito bonita que havia num conto que a avó lhe contava quando ela era pequena e de que ela gostava tanto, tanto que, à noite, antes de adormecer, ainda pedia às vezes à avó para que lho contasse outra vez.

O conto contava a história de uma menina que era comida por um lobo e Capuchinho Vermelho costumava perguntar à avó porque é que a mãe da menina não correra a ajudá-la e não matara o lobo e porque é que o pai nem sequer entrava na história.


"Não sei", respondia-lhe a avó. "Foi assim que aprendi. Talvez os pais dela, como os teus, estivessem separados, ou talvez o pai tivesse morrido..."

"Mas a mãe, porque é que a mãe não matou o lobo?", insistia Capuchinho.

"Sei lá, minha querida", dizia a avó, encolhendo os ombros cheia de paciência. "Já ninguém se lembra desses pormenores, é uma história muito antiga que ensina às meninas que não devem dar conversa a lobos..."

E a avó recitava-lhe uns versos que terminavam assim:

"Cuidado, meninas, que os lobos de bons modos
são os mais perigosos de todos!"


...

_______
* edição da Fundação Serralves em colaboração com o Público. Merecem ambos muitos parabéns porque o livro é delicioso e lindo, ao mesmo tempo.

O lápis de Robert Walser

Aproximo-me a grande velocidade dos quarenta anos o que, dado o meu carácter lento, me deixa tonta e enjoada. Para me distrair elaborei um inventário da minha vida. Descobri que, de tudo o que fiz até hoje, quase nada vale a pena guardar. Salvei uma gata, atravessei um rio quando ainda mal sabia nadar, perdi-me várias vezes em sítios tristes, decorei as histórias que a minha avó me contou, pouco mais.
Imaginei então que Deus existia e que para além disso era uma espécie de funcionário de escritório. Eu estava sentada no seu gabinete e do outro lado da secretária ele perguntava-me se estava satisfeita e coisas desse género. As mãos cruzadas, um sorriso ambíguo que não consegui interpretar. Compus uma cara séria, expliquei-lhe que, de facto, não estava muito contente com a minha personagem, talvez fosse melhor mudar o contrato. "Muito bem", disse ele enquanto tirava o meu processo da gaveta. "E então o que é que vai escolher agora? O cão de Tarkovski ? O cachimbo de Gómez de la Serna? Ou o carrinho de mão vermelho de William Carlos Williams?...
"Preferia ser o lápis de Walser", respondi. "O lugar está vago?"

Sexta-feira, Março 11

Hoje não leio mais nada. O dia termina aqui:

[da série] William Carlos Williams traduzido por João Luís Barreto Guimarães

ENTRE MUROS

as alas traseiras
do

hospital onde
nada

crescerá acolhem
cinzas

nas quais brilham
os pedaços

partidos de uma garrafa
verde

para manhãs de sexta-feira

Quinta-feira, Março 10

duas ou três bagatelas

Image hosted by Photobucket.com[À atenção da Alexandra e do Rogério]

Não pensei que a comparação entre Clint Eastwood e Andrei Tarkovski fosse tão longe mas, já que aconteceu e uma vez que me sinto um pouco responsável por essa falsa partida, vou meter-me no meio. A primeira coisa que me ocorre dizer é que é um disparate comparar realizadores tão diferentes, quer dizer, não vale a pena, para quê? para chegar onde? São ambos importantes na história do cinema mas os seus filmes não se tocam. Podemos gostar de um, do outro ou até dos dois. Sim, podemos. Contraditório? Não mais que a nossa vida. O facto de Clint Eastwood e Andrei Tarkovski terem surgido aqui, neste blogue, à distância de um ou dois posts não os liga entre si, eu é que me me ligo a eles.

Tarkovski é um mundo à parte. Criou sete filmes que são um sistema metafísico belo e profundo. É mais do que cinema ou então está para além do cinema, como queiram. Tonino Guerra disse que o realizador russo era uma nuvem metafísica e está bem assim. Uma nuvem metafísica, Andrei Tarkovski é uma nuvem metafísica. E isso quer dizer que travellings, grandes planos, elipses e toda essa conversa de cinema é insuficiente para abordar a sua obra. Entra-se nos filmes de Tarkovski com devoção, em busca de qualquer coisa inefável, o vento ou a chuva, uma árvore seca que renasce, uma vela, a capacidade de amar?

Clint Eastwood vem de outra linhagem, conta histórias. Imagino-o a dizer "faço uns filmes" como John Ford dizia que fazia westerns. A mesma simplicidade, a mesma maneira de estar. Cool é a palavra certa para ele. Não ambiciona fazer filmes metafísicos o que não quer dizer que os seus filmes não sejam magníficos. Filmar os sonhos, as nossas maiores espectativas ou a prova mais dífícil do amor (como ele fez em Million Dollar Baby) é raro, muito raro.
O cinema nasceu para contar histórias? Creio que sim e creio ainda que as histórias, à sua maneira, às vezes de uma forma tão simples, também nos salvam.

Qual é a conclusão? Quase não há conclusão. Como já disse, acho que não vale a pena comparar realizadores tão diferentes como Clint Eastwood e Andrei Tarkovski. Quanto ao resto? Cada um gosta do que gosta, cada um faz o seu percurso. Gostamos de Clint Eastwood porque gostamos que nos contem histórias? ou porque vimos muitos westerns quando eramos miúdos? Gostamos de Tarkovski porque nos sentimos perdidos?

t.p.c.

[a ver se consigo separar Clint Eastwood de Andrei Tarkovski sem danos pessoais]

Bus Stop

Lights are burning
In quiet rooms
Where lives go on
Resembling ours.

The quiet lives
That follow us—
These lives we lead
But do not own—

Stand in the rain
So quietly
When we are gone,
So quietly . . .
And the last bus
Comes letting dark
Umbrellas out—
Black flowers, black flowers.

And lives go on.
And lives go on
Like sudden lights
At street corners

Or like the lights
In quiet rooms
Left on for hours,
Burning, burning.

Donald Justice

Quarta-feira, Março 9

Esquecer? Como esquecer?

No episódio de ontem sobre Auschwitz (a série da BBC que está a passar na 2:), uma prisioneira judia falava sobre os dias que se seguiram à libertação, sobre as agressões do exército vermelho, "a palavra terrível não consegue descrever o que se passava", disse ela. Antes de ser julgado e enforcado, Rudolf Höss, o comandante do campo de concentração, escreveu no seu caderno, em jeito de fecho de contas, que lamentava não ter passado mais tempo com a família. Muitas das pessoas envolvidas no holocausto fugiram, desapareceram, esqueceram.

De certeza que existe na nossa cabeça uma zona escura onde se podem esconder os actos mais tenebrosos. Esconder e continuar a respirar, como se nada se tivesse passado. Essa zona é assustadora.

Terça-feira, Março 8

A memória é um lugar estranho

Regressava a casa, ao passar pela montra da papelaria fiquei com uma vontade danada de comprar um pau de giz. "Para quê? O que é que eu faço com um pau de giz?"
Voltei atrás e procurei-o por entre o amontoado de objectos mas não existia ali nenhum giz, apenas guaches, tintas e materiais mais importantes. Depois lembrei-me que a última vez que ouvi falar de giz foi num filme de Polanski. N' A Semente do Diabo (Rosemary's Baby), a vizinha metediça oferece à rapariga uma mousse de chocolate. Ela come, estranha o sabor e tenta explicá-lo a John Cassavetes (que faz de marido interesseiro), diz que sabe a giz. A mousse estava envenenada. Já não vejo o filme há muitos anos, se calhar a história não é assim, se calhar nem há mousse. No entanto percebo muito bem o que ela quer dizer, esse sabor a giz.

Chère Danièle et cher Jean-Marie,

Les voix coléreuses-cordiales, Catane, Syracuse, les beaux vêtements robustes, les yeux lumineux, les douces lèvres énergiques, la danse du repasseur de couteaux: derviche, les centimes, le zézaiement qui ouvre l'âme de celui qui rentre au pays, les sièges vides dans le train, le discours sur l'amour (le récit !), la voie ferrée, la marche à pied, le manger, les aliments, (je viens de goûter des câpres de l'île de Pantelleria), le merveilleux dessin des chaises, le pain, le vin, le melon d'hiver, le baryton!, le grand Elio Vittorini (très bouleversante, sa photo à la fin): vous avez découvert, montré et fait exploser dans mon coeur le cinéma, le film, comme pour la première fois. Sicilia! est la somme de votre oeuvre, et le comble de la colère, de la douceur, du rythme; tempIe, cabane!

Ainsi vous salue votre Peter Handke (buon anno!), 15 janvier 1999

em louvor de William Carlos Williams

Comer uma laranja de manhã é banal, mas comer ameixas, precisamente aquelas, doces e frias (?), é um acontecimento extraordinário.

Substantivo: laranja

as laranjas inesperadas, que se vêem nas árvores dos quintais, nas traseiras das casas antigas
laranjas esotéricas, de Herberto Helder
caixotes cheios de laranjas doces, do Algarve e de Setúbal
ou laranjas mais ácidas e cheias de caroços, da Lixa
as laranjas poéticas, de Gonçalo Ribeiro Teles
laranjas amargas, nas ruas de Moura, Serpa, Mértola,...
laranjas quase vermelhas como o sangue, no céu (ou nos olhos de small change?)
e as belas laranjas a preto e branco de Sicília. Ninguém as quer!, diz o vendedor a Silvestro.

Segunda-feira, Março 7

Laranjas instantâneas, defronte — e as íris ficam amarelas.
A visão da terra é uma obra cega. Mas as laranjas
atrás das costas, as mais
pesadas, as mais
lentamente maduras, as laranjas que mais tempo demoram
a unir o dia à noite, que têm uma força maior em cima
das mesas, essas.
Operatórias. São laranjas ininterruptas trabalhando em imagens
as regiões ofuscantes da cabeça.
Enriquecem o ofício sentado com um incêndio
quarto a quarto da alma. Enriquecem, devastam.
—Constelação ao vento avassalando a casa.

Herberto Helder, Ultima Ciência, in "Ou o Poema Contínuo", Assírio & Alvim

sequência com laranjas (and wild roses)

Image hosted by Photobucket.com
Fernando Botero

Acordei, levantei-me e fui à cozinha comer uma laranja. Sem dar conta, demorei mais do que é costume no duche. Cheguei atrasada ao escritório, passei a manhã distraída.

Domingo, Março 6

Image hosted by Photobucket.com

O que é que em nós mente, mata, rouba?

"Já há alguns dias que constantemente pego na pena, mas não consigo escrever uma palavra. Tenho andado a estudar a história da Revolução. Senti-me como que aniquilado sob o terrível peso do fatalismo da História. Encontro na natureza humana uma espantosa igualdade, nas relações humanas uma violência inevitável, inerente a todos e a ninguém. Cada indivíduo é apenas espuma na crista da onda, a grandeza um puro acaso, a força do génio um jogo de fantoches, uma luta ridícula contra uma lei de ferro: reconhecê-la é o máximo que podemos alcançar, dominá-la é impossível. Deixei de me curvar diante dos grandes nomes e dos pilares da História. Habituo o olhar ao sangue. Mas não sou nenhuma lâmina de guilhotina. O 'tem de ser' é uma das palavras de maldição que presidiu ao baptismo do homem. É aterradora a sentença: os males virão, e ai daqueles por quem eles passem. O que é que em nós mente, mata, rouba?"

carta de Georg Büchner à noiva, entre 9 e 12 de Março de 1834
in "Georg Büchner - Biografia" de João Barrento (um dos textos do Manual de Leitura que acompanha Woyzeck, em cena no TNSJ)

Sábado, Março 5

Ah, Minna malvada!

"Büchner ou a vida em si mesma", introdução a Lenz, de Georg Büchner, por Ernesto Sampaio (Hiena)

«Estou muito contente com a minha sorte», escreve Büchner à família, «à excepção dos dias de chuva constante e vento noroeste; então, tranformo-me num desses que à noite, no momento de se deitarem, depois de terem descalçado uma das meias, pensam em enforcar-se porque lhes é muito penoso descalçar também a outra...»
Georg Büchner (1818-1837) dava estas notícias aos vinte anos, num estado de esgotamento físico agravado pela penúria constante, febrilmente entregue à actividade revolucionária e à composição de três peças que irão determinar toda a estética teatral moderna. Por únicas musas, tinha os «chuis de Darmstadt» lançados no seu encalço.
Para este esfolado vivo o idealismo claudicante do romantismo perdeu todo o seu prestígio e a música do sublime soa-lhe desafinada. Do que se trata é de satisfazer a necessidade inata de liberdade e de escapar à servidão. «Nascemos e crescemos num cárcere, e por isso achamos naturais estes ferros nos pulsos e nos pés, esta mordaça na boca...»
Nem sempre a liberdade encontra o acto que a realiza e poucas vezes o indivíduo consegue captar e dominar as forças negras de que é joguete. «A vida é um fim em si mesmo», mas quase sempre se consome sem objecto, na indiferença e na solidão mais absoluta, e aí está o delirante monólogo de Woyzeck: «Faz bom tempo, meu capitão. Veja que belo céu cor de chumbo! A gente até sente ganas de lá pendurar uma trave para se enforcar, só por causa dos pontinhos que separam o sim do não. É o não que tem a culpa do sim, ou o sim do não? Temos que ver isto com mais calma, meu capitão».
Ao furor revolucionário do Correio de Hesse, redigido em 1834, segue-se brutalmente o desprezo doloroso, patenteado na correspondência, por um povo oprimido, mas sem qualquer outro móbil que não fosse «a miséria material e o fanatismo religioso». O Correio de Hesse apelava à acção urgente: com a prisão dos amigos de Büchner, com ele proprio exilado, toda a acção parecia impossível. Ao fervor entusiástico segue-se a amargura e o desalento.
Nesta passagem instantânea de um extremo a outro, somos tentados a ver a prefiguração da corrida para a morte do soldado Woyzeck, a quem cada tomada de consciência vai progressimente agravando o delírio. O acaso, fazendo morrer Büchner de tifo, negou-lhe os prestígios do suicídio e da «loucura», tão generosamente concedidos aos poetas daquela Alemanha napoleonizada e ainda feudal.
A vida de Georg Büchner foi demasiado curta para alimentar especulações hipotéticas acerca da obra que poderia ter deixado. O seu diário, assim como a peça que tentava escrever quando morreu, foram queimadas pela noiva, Minna, e os textos sobreviventes surpreenderam pela diversidade, pela rápida evolução de que dão testemunho, desde a paixão, a força, o grito e a rebeldia de O Correio de Hesse até ao fatalismo, a desesperança e a importância de Lenz, passando pela recusa incondicionada da mitologia cristão e pela apologia do terror revolucionário expressas na sua triologia dramática (A Morte de Danton, Woyzeck, Leôncio e Lena).
«Tudo se consuma em mim mesmo; se ao menos houvesse uma saída, uma abertura para o que trago cá dentro, mas não tenho gritos para exprimir a dor, nem gestos para a alegria, nem harmonia para a felicidade»: é talvez este o Büchner que, por pessoa interposta, se exprime em Lenz, outro patético denunciante da condição humana, que fez da alienação e da representação do desejo o tema central da sua obra.
Não faltam os comentários sobre a «loucura», nem as bravatas sobre a identificação com o «louco», que só seria doido por culpa da sociedade (de resto, tendo razão, não seria doido). Büchner, sempre pronto a teorizar, não propõe aqui uma interpretação nem uma apologia do delírio. Modestamente, a partir de notas tomadas pelo pastor Oberlin sobre o poeta enfermo que tentava ajudar e compreender, procura apenas exprimir o sofrimento da criança mal amada e sempre culpada que reconhece no autor de O Perceptor.
Para Lenz — para Büchner escrevendo Lenz — a natureza é bela (e explendidamente descrita), os seres simpáticos e prestáveis. Mal o «mal» interior, de que a vítima se acusa e se pune, torna a natureza terrífica e as criaturas ineficazes. A ternura e a inteligência — aquela que só uma compreensão profunda pode conferir-se — fazem deste Lenz talvez a obra mais insubstituível de Büchner.
Depois da crise, Lenz «parecia calmo, senhor de toda a sua razão. Falava com as pessoas. Procedia como toda a gente: mas havia nele um pavoroso vazio, uma ausência completa de angústia ou de desejo. A existência, agora, pesava-lhe como um fardo necessário».
Este frio interior, também descrito nas cartas a Minna, Büchner talvez tivesse encontrado novos meios de projectá-lo no mundo — no teatro — e assim viver, «como os outros» ou não, a sua própria vida.

Às vezes tenho medo de ir ao teatro,

sobretudo quando conheço o texto e estou presa, demasiado presa, às personagens. Por isso receava ver Woyzeck mas mesmo assim lá fui, tentando não ser preconceituosa. Claro que não encontrei Woyzeck. Em cima do palco estava apenas um actor a representar um soldado vulgar não Woyzeck, o soldado febril, com alucinações, instável, meio lúcido meio louco. Quando, numa das cenas, ele diz: "Cada um é um abismo, e ficamos com vertigens quando olhamos lá para o fundo" a sala não estremeceu como eu previa, talvez nem se tenha dado conta das palavras. Aí perdi todas as dúvidas, "este não é o Woyzeck, este tipo não foi escrito por Büchner".
Depois, à noite, antes de adormecer, com a peça ainda atravessada na minha cabeça imaginei como seria bom ver um Woyzeck que não fosse encenado, ou melhor, um Woyzeck que se insurgisse contra o encenador contra o capitão e o médico, contra todos ao mesmo tempo. Só o texto e os actores. E a voz de Woyzeck? Como será a voz de Woyzeck? É isso que me interessa descobrir.

Sexta-feira, Março 4

Woyzeck: Faz bom tempo, meu capitão. Veja que belo céu de chumbo!

Se, nos próximos dias, desatar a escrever sobre Büchner, convocar Woyzeck, Lenz e outras personagens, a culpa não é minha, a culpa é dela.

Gracias

O caso da esposa cronométrica

[À atenção do Manuel Resende]
Depois de ler o artigo de Maria Filomena Mónica lembrei-me deste recorte. O artigo não tem qualquer mérito sociológico ou poético no entanto o final, mais precisamente a última frase, é desarmante. Se tiver sorte na vida, se deixar de ser parva e também desleixada nas lides domésticas e ainda se arranjar um patrocinador, garanto que hei-de treinar aquele truque das ostras.


As mulheres devem compreender o interesse do homem pelas refeições

Soubemos do caso recente de uma mulher que requereu o divórcio porque não podia preparar as refeições com a rapidez suficiente ao marido. “Quando ele vem almoçar”, disse, “exige um almoço para gastrónomo, preparado em menos de quinze minutos”.
Entretanto, a maioria dos homens prefere refeições preparadas com vagar e cuidado. É raro o homem que não fica irritado quando, mal chega a casa, ouve o ruído dos pratos e talheres na mesa - como se a mulher se tivesse lembrado subitamente que os homens também comem.
As mulheres não compreendem o interesse do homem pela alimentação. Os homens realmente gostam de comida e não de conservas e outros pratos improvisados à própria hora. Mas qual é a tendência nas cozinhas modernas? As donas de casa apenas procuram um meio mais rápido de encontrar o abridor de latas de conserva. Estudam nos jornais e revistas a maneira de preparar uma refeição o mais rapidamente possível. As mulheres de hoje procuram pôr a comida no prato com rapidez cada vez maior. Um jantar que costumava uma hora a preparar, hoje é feito em dez minutos. Que refeição não será essa? E agora já se fala em fogões electrónicos que prepararão um assado em seis segundos apenas! Todos os dias são abertas em média 50 ou 60 milhões de latas de conserva - 80 variedades, de carne e peixe, 160 de vegetais e frutas. O consumo de vegetais em conserva é 130% maior do que antes da guerra e o de frutas em conserva 125%.
Economiza tempo e trabalho - admitimos (e nesse ponto é uma maravilha) mas esta não deve ser a razão principal ao planear-se um almoço ou um jantar. Todos os homens que trabalham o dia inteiro para pagar a comida desejam comer em casa o que há de melhor. Quase todos os maridos apreciam um bom prato, embora não abram a boca para dizer nada. Evidentemente, se o problema fosse apenas economizar tempo, um homem com esposa cronométrica poderia ganhar ainda mais tempo comendo tudo a correr sem ao menos sentir o gosto. Como um sujeito que recentemente comeu 167 ostras em oito minutos.

texto retirado da revista Rádio Nacional de 12.11.1949

Quinta-feira, Março 3

Catch me if you can

And in one mornig I was awakenend

Quarta-feira, Março 2

To the happy few

O excelentíssimo director da Cinemateca de Santiago abriu a porta e gritou:
Porque é que os filmes preferidos de Coralie [Dr. Mabuse der Spieler, de Fritz Lang (1992); O Fim de São Petersburgo, de Vsevolod Pudovkin (1927); Teorema, de Pier Paolo Pasolini (1968); Othon, de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub (1969); Herz aus Glas, de Werner Herzog (1976)] não foram projectados ontem?
— Peço desculpa pelo esquecimento — explicou o porteiro enquanto escondia a cauda tigrada dentro do bolso — mas já tratei da ocorrência. Os filmes serão projectados dento de minutos e nos intervalos serão servidos gelados de papaia.
— Gelados de papaia? Ora, volta o velho problema, como terminar o gelado? Entretanto, acrescenta aí La Marquise d'O, festejamos o aniversário de Kleist ou não?
— Com certeza majestade, digo, pois sim — respondeu o projeccionista depois de sacudir o leite dos bigodes.

Moral da história: TUDO É MATÉRIA DE GELADO, QUOD ERAT DEMONSTRANDUM (ver João César Monteiro).

A pele do arminho é marrom no verão, mas torna-se branca no inverno*


Apanhei algumas falhas na cópia de Eyes Shut Wide, de Stanley Kubrick, que o canal Hollywood exibiu na segunda-feira. Uma ou duas frases mal traduzidas (além disso é completamente idiota traduzir o verbo to fuck por "dar umas quecas" em vez de "foder" que é mais simples, correcto e adequado ao contexto); e — o maior crime de todos —, a omissão de uma das minhas frases favoritas do filme, quando a filha do dono da loja de fantasias Rainbow sussura ao ouvido de Bill que ele devia escolher uma capa (vermelha?) forrada a arminho.

* Arminho - Pele sedosa do animal do mesmo nome, uma doninha encontrada no Canadá e na Europa oriental. A pele do arminho é marrom no verão, mas torna-se branca no inverno. A pele branca é tradicionalmente usada para adornar vestes de eclesiásticos e de magistrados. O arminho é raramente usado em moda. in Glossário da moda

playing C.*

Há palavras e expressões que, mal as ouço, associo a imagens. Ainda não percebi se é um defeito, falta de concentração ou apenas uma partida do espírito. Por exemplo, quando alguém me diz: "fica tudo em aberto", eu vejo logo uma daquelas tampas que existem nos passeios, fora do sítio. A partir daí, como é óbvio, a conversa segue um percurso imprevisto, vejo os canos, um emaranhado de fios, quer dizer, está tudo estragado.

Paris, 7 de Setembro de 1856

Da minha janela vejo um operário que trabalha nu da cintura para cima, na galeria. Comparando a sua cor com a da muralha exterior, reparo como as meias-tintas da carne são coloridas, se as comparar com as matérias inertes. Tinha notado o mesmo antes de ontem, na praça de Saint-Sulpice, num miúdo que subira às estátuas da fonte, sob o sol: o alaranjado mate dos claros, os tons violeta mais vivos na passagem para a sombra ou os reflexos dourados, nas sombras que se opunham ao solo. O alaranjado e o violeta imperavam alternadamente ou confundiam-se. O tom dourado estava impregnado de verde.
A carne só adquire a sua verdadeira cor ao ar livre e sobretudo ao sol. Basta uma pessoa pôr a cabeça de fora da janela para ficar totalmente diferente do que era num interior — é daí que ressalta o contrasenso dos estudos de atelier, que se esforçam por dar uma cor falsa.

Eugène Delacroix, "Diários (Extractos)", Editorial Estampa

Terça-feira, Março 1

Da Loja

Embrulhou-as com cuidado, ordenadamente
na seda verde excelente.

Lírios de pérolas, rosas de rubis,
violetas de ametista. Tais como ele as quis,

as apreciou, as viu belas; não como na natureza há
as viu e as estudou. Dentro do cofre as deixará,

amostra do seu trabalho eficaz e sem temor.
Se na loja entrar um qualquer comprador

tira outras dos estojos e vende — jóias singulares —
pulseiras, anéis, cordões e colares.

Konstandinos Kavafis, "Poemas e Prosas", tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Relógio d'Água, 1994