"Büchner ou a vida em si mesma", introdução a Lenz, de Georg Büchner, por Ernesto Sampaio (Hiena)«Estou muito contente com a minha sorte», escreve Büchner à família,
«à excepção dos dias de chuva constante e vento noroeste; então, tranformo-me num desses que à noite, no momento de se deitarem, depois de terem descalçado uma das meias, pensam em enforcar-se porque lhes é muito penoso descalçar também a outra...»Georg Büchner (1818-1837) dava estas notícias aos vinte anos, num estado de esgotamento físico agravado pela penúria constante, febrilmente entregue à actividade revolucionária e à composição de três peças que irão determinar toda a estética teatral moderna. Por únicas musas, tinha os «chuis de Darmstadt» lançados no seu encalço.
Para este esfolado vivo o idealismo claudicante do romantismo perdeu todo o seu prestígio e a música do sublime soa-lhe desafinada. Do que se trata é de satisfazer a necessidade inata de liberdade e de escapar à servidão.
«Nascemos e crescemos num cárcere, e por isso achamos naturais estes ferros nos pulsos e nos pés, esta mordaça na boca...»Nem sempre a liberdade encontra o acto que a realiza e poucas vezes o indivíduo consegue captar e dominar as forças negras de que é joguete.
«A vida é um fim em si mesmo», mas quase sempre se consome sem objecto, na indiferença e na solidão mais absoluta, e aí está o delirante monólogo de Woyzeck:
«Faz bom tempo, meu capitão. Veja que belo céu cor de chumbo! A gente até sente ganas de lá pendurar uma trave para se enforcar, só por causa dos pontinhos que separam o sim do não. É o não que tem a culpa do sim, ou o sim do não? Temos que ver isto com mais calma, meu capitão».Ao furor revolucionário do Correio de Hesse, redigido em 1834, segue-se brutalmente o desprezo doloroso, patenteado na correspondência, por um povo oprimido, mas sem qualquer outro móbil que não fosse «a miséria material e o fanatismo religioso». O Correio de Hesse apelava à acção urgente: com a prisão dos amigos de Büchner, com ele proprio exilado, toda a acção parecia impossível. Ao fervor entusiástico segue-se a amargura e o desalento.
Nesta passagem instantânea de um extremo a outro, somos tentados a ver a prefiguração da corrida para a morte do soldado Woyzeck, a quem cada tomada de consciência vai progressimente agravando o delírio. O acaso, fazendo morrer Büchner de tifo, negou-lhe os prestígios do suicídio e da «loucura», tão generosamente concedidos aos poetas daquela Alemanha napoleonizada e ainda feudal.
A vida de Georg Büchner foi demasiado curta para alimentar especulações hipotéticas acerca da obra que poderia ter deixado. O seu diário, assim como a peça que tentava escrever quando morreu, foram queimadas pela noiva, Minna, e os textos sobreviventes surpreenderam pela diversidade, pela rápida evolução de que dão testemunho, desde a paixão, a força, o grito e a rebeldia de O Correio de Hesse até ao fatalismo, a desesperança e a importância de Lenz, passando pela recusa incondicionada da mitologia cristão e pela apologia do terror revolucionário expressas na sua triologia dramática (A Morte de Danton, Woyzeck, Leôncio e Lena).
«Tudo se consuma em mim mesmo; se ao menos houvesse uma saída, uma abertura para o que trago cá dentro, mas não tenho gritos para exprimir a dor, nem gestos para a alegria, nem harmonia para a felicidade»: é talvez este o Büchner que, por pessoa interposta, se exprime em Lenz, outro patético denunciante da condição humana, que fez da alienação e da representação do desejo o tema central da sua obra.
Não faltam os comentários sobre a «loucura», nem as bravatas sobre a identificação com o «louco», que só seria doido por culpa da sociedade (de resto, tendo razão, não seria doido). Büchner, sempre pronto a teorizar, não propõe aqui uma interpretação nem uma apologia do delírio. Modestamente, a partir de notas tomadas pelo pastor Oberlin sobre o poeta enfermo que tentava ajudar e compreender, procura apenas exprimir o sofrimento da criança mal amada e sempre culpada que reconhece no autor de O Perceptor.
Para Lenz — para Büchner escrevendo Lenz — a natureza é bela (e explendidamente descrita), os seres simpáticos e prestáveis. Mal o «mal» interior, de que a vítima se acusa e se pune, torna a natureza terrífica e as criaturas ineficazes. A ternura e a inteligência — aquela que só uma compreensão profunda pode conferir-se — fazem deste Lenz talvez a obra mais insubstituível de Büchner.
Depois da crise, Lenz
«parecia calmo, senhor de toda a sua razão. Falava com as pessoas. Procedia como toda a gente: mas havia nele um pavoroso vazio, uma ausência completa de angústia ou de desejo. A existência, agora, pesava-lhe como um fardo necessário».Este frio interior, também descrito nas cartas a Minna, Büchner talvez tivesse encontrado novos meios de projectá-lo no mundo — no teatro — e assim viver, «como os outros» ou não, a sua própria vida.