Sábado, Março 5

Ah, Minna malvada!

"Büchner ou a vida em si mesma", introdução a Lenz, de Georg Büchner, por Ernesto Sampaio (Hiena)

«Estou muito contente com a minha sorte», escreve Büchner à família, «à excepção dos dias de chuva constante e vento noroeste; então, tranformo-me num desses que à noite, no momento de se deitarem, depois de terem descalçado uma das meias, pensam em enforcar-se porque lhes é muito penoso descalçar também a outra...»
Georg Büchner (1818-1837) dava estas notícias aos vinte anos, num estado de esgotamento físico agravado pela penúria constante, febrilmente entregue à actividade revolucionária e à composição de três peças que irão determinar toda a estética teatral moderna. Por únicas musas, tinha os «chuis de Darmstadt» lançados no seu encalço.
Para este esfolado vivo o idealismo claudicante do romantismo perdeu todo o seu prestígio e a música do sublime soa-lhe desafinada. Do que se trata é de satisfazer a necessidade inata de liberdade e de escapar à servidão. «Nascemos e crescemos num cárcere, e por isso achamos naturais estes ferros nos pulsos e nos pés, esta mordaça na boca...»
Nem sempre a liberdade encontra o acto que a realiza e poucas vezes o indivíduo consegue captar e dominar as forças negras de que é joguete. «A vida é um fim em si mesmo», mas quase sempre se consome sem objecto, na indiferença e na solidão mais absoluta, e aí está o delirante monólogo de Woyzeck: «Faz bom tempo, meu capitão. Veja que belo céu cor de chumbo! A gente até sente ganas de lá pendurar uma trave para se enforcar, só por causa dos pontinhos que separam o sim do não. É o não que tem a culpa do sim, ou o sim do não? Temos que ver isto com mais calma, meu capitão».
Ao furor revolucionário do Correio de Hesse, redigido em 1834, segue-se brutalmente o desprezo doloroso, patenteado na correspondência, por um povo oprimido, mas sem qualquer outro móbil que não fosse «a miséria material e o fanatismo religioso». O Correio de Hesse apelava à acção urgente: com a prisão dos amigos de Büchner, com ele proprio exilado, toda a acção parecia impossível. Ao fervor entusiástico segue-se a amargura e o desalento.
Nesta passagem instantânea de um extremo a outro, somos tentados a ver a prefiguração da corrida para a morte do soldado Woyzeck, a quem cada tomada de consciência vai progressimente agravando o delírio. O acaso, fazendo morrer Büchner de tifo, negou-lhe os prestígios do suicídio e da «loucura», tão generosamente concedidos aos poetas daquela Alemanha napoleonizada e ainda feudal.
A vida de Georg Büchner foi demasiado curta para alimentar especulações hipotéticas acerca da obra que poderia ter deixado. O seu diário, assim como a peça que tentava escrever quando morreu, foram queimadas pela noiva, Minna, e os textos sobreviventes surpreenderam pela diversidade, pela rápida evolução de que dão testemunho, desde a paixão, a força, o grito e a rebeldia de O Correio de Hesse até ao fatalismo, a desesperança e a importância de Lenz, passando pela recusa incondicionada da mitologia cristão e pela apologia do terror revolucionário expressas na sua triologia dramática (A Morte de Danton, Woyzeck, Leôncio e Lena).
«Tudo se consuma em mim mesmo; se ao menos houvesse uma saída, uma abertura para o que trago cá dentro, mas não tenho gritos para exprimir a dor, nem gestos para a alegria, nem harmonia para a felicidade»: é talvez este o Büchner que, por pessoa interposta, se exprime em Lenz, outro patético denunciante da condição humana, que fez da alienação e da representação do desejo o tema central da sua obra.
Não faltam os comentários sobre a «loucura», nem as bravatas sobre a identificação com o «louco», que só seria doido por culpa da sociedade (de resto, tendo razão, não seria doido). Büchner, sempre pronto a teorizar, não propõe aqui uma interpretação nem uma apologia do delírio. Modestamente, a partir de notas tomadas pelo pastor Oberlin sobre o poeta enfermo que tentava ajudar e compreender, procura apenas exprimir o sofrimento da criança mal amada e sempre culpada que reconhece no autor de O Perceptor.
Para Lenz — para Büchner escrevendo Lenz — a natureza é bela (e explendidamente descrita), os seres simpáticos e prestáveis. Mal o «mal» interior, de que a vítima se acusa e se pune, torna a natureza terrífica e as criaturas ineficazes. A ternura e a inteligência — aquela que só uma compreensão profunda pode conferir-se — fazem deste Lenz talvez a obra mais insubstituível de Büchner.
Depois da crise, Lenz «parecia calmo, senhor de toda a sua razão. Falava com as pessoas. Procedia como toda a gente: mas havia nele um pavoroso vazio, uma ausência completa de angústia ou de desejo. A existência, agora, pesava-lhe como um fardo necessário».
Este frio interior, também descrito nas cartas a Minna, Büchner talvez tivesse encontrado novos meios de projectá-lo no mundo — no teatro — e assim viver, «como os outros» ou não, a sua própria vida.

Às vezes tenho medo de ir ao teatro,

sobretudo quando conheço o texto e estou presa, demasiado presa, às personagens. Por isso receava ver Woyzeck mas mesmo assim lá fui, tentando não ser preconceituosa. Claro que não encontrei Woyzeck. Em cima do palco estava apenas um actor a representar um soldado vulgar não Woyzeck, o soldado febril, com alucinações, instável, meio lúcido meio louco. Quando, numa das cenas, ele diz: "Cada um é um abismo, e ficamos com vertigens quando olhamos lá para o fundo" a sala não estremeceu como eu previa, talvez nem se tenha dado conta das palavras. Aí perdi todas as dúvidas, "este não é o Woyzeck, este tipo não foi escrito por Büchner".
Depois, à noite, antes de adormecer, com a peça ainda atravessada na minha cabeça imaginei como seria bom ver um Woyzeck que não fosse encenado, ou melhor, um Woyzeck que se insurgisse contra o encenador contra o capitão e o médico, contra todos ao mesmo tempo. Só o texto e os actores. E a voz de Woyzeck? Como será a voz de Woyzeck? É isso que me interessa descobrir.

Sexta-feira, Março 4

Woyzeck: Faz bom tempo, meu capitão. Veja que belo céu de chumbo!

Se, nos próximos dias, desatar a escrever sobre Büchner, convocar Woyzeck, Lenz e outras personagens, a culpa não é minha, a culpa é dela.

Gracias

O caso da esposa cronométrica

[À atenção do Manuel Resende]
Depois de ler o artigo de Maria Filomena Mónica lembrei-me deste recorte. O artigo não tem qualquer mérito sociológico ou poético no entanto o final, mais precisamente a última frase, é desarmante. Se tiver sorte na vida, se deixar de ser parva e também desleixada nas lides domésticas e ainda se arranjar um patrocinador, garanto que hei-de treinar aquele truque das ostras.


As mulheres devem compreender o interesse do homem pelas refeições

Soubemos do caso recente de uma mulher que requereu o divórcio porque não podia preparar as refeições com a rapidez suficiente ao marido. “Quando ele vem almoçar”, disse, “exige um almoço para gastrónomo, preparado em menos de quinze minutos”.
Entretanto, a maioria dos homens prefere refeições preparadas com vagar e cuidado. É raro o homem que não fica irritado quando, mal chega a casa, ouve o ruído dos pratos e talheres na mesa - como se a mulher se tivesse lembrado subitamente que os homens também comem.
As mulheres não compreendem o interesse do homem pela alimentação. Os homens realmente gostam de comida e não de conservas e outros pratos improvisados à própria hora. Mas qual é a tendência nas cozinhas modernas? As donas de casa apenas procuram um meio mais rápido de encontrar o abridor de latas de conserva. Estudam nos jornais e revistas a maneira de preparar uma refeição o mais rapidamente possível. As mulheres de hoje procuram pôr a comida no prato com rapidez cada vez maior. Um jantar que costumava uma hora a preparar, hoje é feito em dez minutos. Que refeição não será essa? E agora já se fala em fogões electrónicos que prepararão um assado em seis segundos apenas! Todos os dias são abertas em média 50 ou 60 milhões de latas de conserva - 80 variedades, de carne e peixe, 160 de vegetais e frutas. O consumo de vegetais em conserva é 130% maior do que antes da guerra e o de frutas em conserva 125%.
Economiza tempo e trabalho - admitimos (e nesse ponto é uma maravilha) mas esta não deve ser a razão principal ao planear-se um almoço ou um jantar. Todos os homens que trabalham o dia inteiro para pagar a comida desejam comer em casa o que há de melhor. Quase todos os maridos apreciam um bom prato, embora não abram a boca para dizer nada. Evidentemente, se o problema fosse apenas economizar tempo, um homem com esposa cronométrica poderia ganhar ainda mais tempo comendo tudo a correr sem ao menos sentir o gosto. Como um sujeito que recentemente comeu 167 ostras em oito minutos.

texto retirado da revista Rádio Nacional de 12.11.1949

Quinta-feira, Março 3

Catch me if you can

And in one mornig I was awakenend

Quarta-feira, Março 2

To the happy few

O excelentíssimo director da Cinemateca de Santiago abriu a porta e gritou:
Porque é que os filmes preferidos de Coralie [Dr. Mabuse der Spieler, de Fritz Lang (1992); O Fim de São Petersburgo, de Vsevolod Pudovkin (1927); Teorema, de Pier Paolo Pasolini (1968); Othon, de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub (1969); Herz aus Glas, de Werner Herzog (1976)] não foram projectados ontem?
— Peço desculpa pelo esquecimento — explicou o porteiro enquanto escondia a cauda tigrada dentro do bolso — mas já tratei da ocorrência. Os filmes serão projectados dento de minutos e nos intervalos serão servidos gelados de papaia.
— Gelados de papaia? Ora, volta o velho problema, como terminar o gelado? Entretanto, acrescenta aí La Marquise d'O, festejamos o aniversário de Kleist ou não?
— Com certeza majestade, digo, pois sim — respondeu o projeccionista depois de sacudir o leite dos bigodes.

Moral da história: TUDO É MATÉRIA DE GELADO, QUOD ERAT DEMONSTRANDUM (ver João César Monteiro).

A pele do arminho é marrom no verão, mas torna-se branca no inverno*



Apanhei algumas falhas na cópia de Eyes Shut Wide, de Stanley Kubrick, que o canal Hollywood exibiu na segunda-feira. Uma ou duas frases mal traduzidas (além disso é completamente idiota traduzir o verbo to fuck por "dar umas quecas" em vez de "foder" que é mais simples, correcto e adequado ao contexto); e — o maior crime de todos —, a omissão de uma das minhas frases favoritas do filme, quando a filha do dono da loja de fantasias Rainbow sussura ao ouvido de Bill que ele devia escolher uma capa (vermelha?) forrada a arminho.

* Arminho - Pele sedosa do animal do mesmo nome, uma doninha encontrada no Canadá e na Europa oriental. A pele do arminho é marrom no verão, mas torna-se branca no inverno. A pele branca é tradicionalmente usada para adornar vestes de eclesiásticos e de magistrados. O arminho é raramente usado em moda. in Glossário da moda

playing C.*

Há palavras e expressões que, mal as ouço, associo a imagens. Ainda não percebi se é um defeito, falta de concentração ou apenas uma partida do espírito. Por exemplo, quando alguém me diz: "fica tudo em aberto", eu vejo logo uma daquelas tampas que existem nos passeios, fora do sítio. A partir daí, como é óbvio, a conversa segue um percurso imprevisto, vejo os canos, um emaranhado de fios, quer dizer, está tudo estragado.

Paris, 7 de Setembro de 1856

Da minha janela vejo um operário que trabalha nu da cintura para cima, na galeria. Comparando a sua cor com a da muralha exterior, reparo como as meias-tintas da carne são coloridas, se as comparar com as matérias inertes. Tinha notado o mesmo antes de ontem, na praça de Saint-Sulpice, num miúdo que subira às estátuas da fonte, sob o sol: o alaranjado mate dos claros, os tons violeta mais vivos na passagem para a sombra ou os reflexos dourados, nas sombras que se opunham ao solo. O alaranjado e o violeta imperavam alternadamente ou confundiam-se. O tom dourado estava impregnado de verde.
A carne só adquire a sua verdadeira cor ao ar livre e sobretudo ao sol. Basta uma pessoa pôr a cabeça de fora da janela para ficar totalmente diferente do que era num interior — é daí que ressalta o contrasenso dos estudos de atelier, que se esforçam por dar uma cor falsa.

Eugène Delacroix, "Diários (Extractos)", Editorial Estampa

Terça-feira, Março 1

Da Loja

Embrulhou-as com cuidado, ordenadamente
na seda verde excelente.

Lírios de pérolas, rosas de rubis,
violetas de ametista. Tais como ele as quis,

as apreciou, as viu belas; não como na natureza há
as viu e as estudou. Dentro do cofre as deixará,

amostra do seu trabalho eficaz e sem temor.
Se na loja entrar um qualquer comprador

tira outras dos estojos e vende — jóias singulares —
pulseiras, anéis, cordões e colares.

Konstandinos Kavafis, "Poemas e Prosas", tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Relógio d'Água, 1994

Segunda-feira, Fevereiro 28

não vou falar do frio, não vou falar do frio, não vou falar do frio, não vou falar do frio, não vou ...

A hora do ano que eu amo é o Verão. Mas os verões verdadeiros do Egipto ou da Grécia — com o sol forte, com os triunfantes meio-dias, com as noites extenuantes de Agosto. Não posso dizer, porém, que trabalhe (artisticamente, quero dizer) mais no Verão. Impressões dão-me muitas as formas e as sensações do Verão; mas não observei tê-las registado ou tê-las traduzido directamente em trabalho literário. Digo directamente; porque as impressões artísticas permanecem muito tempo sem serem usadas, produzem outros pensamentos, amoldam-se outra vez por novas influências, e quando se cristalizam em palavras escritas, não é fácil recordar qual foi a hora do pretexto original, de onde verdadeiramente as palavras escritas emanam.

Konstandinos Kavafis, "Poemas e Prosas", tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Relógio d'Água, 1994

Alice (looking in mirror): How do I look?*

Nunca se sabe o que é real e o que é sonho, ou então sabemos mas fazemos de conta que não. Ela chama-se Alice, ele tem um nome banal. A mesa de bilhar de Ziegler é vermelha, talvez isso não queira dizer nada. Há quadros por todo o lado: nas salas, nos corredores, no quarto de banho. Alguns são de Chistiana Kubrick. O meu preferido é este, de Edgar Degas, que está numa parede, no consultório de Bill:


Edgar Degas, c. 1903. Pastel, 69,9X73 cms. National Gallery, Londres

[*Eyes wide Shut, logo às 21h00 no Hollywood]

Domingo, Fevereiro 27

A menina dança?

TAKE #1:
— Hoje só danço tango* [apocalypso].

TAKE #2:
— Com todo o prazer, senhor Schnitzler.
...
— Ei, onde é que se meteu o Schnitzler? Isto não é uma valsa!? Quem é este tipo?

TAKE #3
(recomposta e jazzy, como convém à personagem) — Só nos braços de Fred Astaire!


[Epílogo: eles viveram felizes até ao fim do filme. Depois fez-se silêncio e saíram todos da sala.]

Isto é uma noticia

No Mil | Folhas de ontem, na página que lista os livros que vão ser lançados em Março, na coluna da esquerda, no canto inferior:
Jakob von Gunten, de Rober Walser | Relógio d'Água